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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O fenômeno em torno dos três Evangelhos

Na verdade, fez Jesus diante dos discpípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.30-31)

Ao iniciar a leitura do Novo Testamento, o leitor se depara com uma curiosidade intrigante: por que há quatro evangelhos? Ou seja, por que há quatro livros para nos contar a mesma história: vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus? E se isto é curioso, o que dizer, então, do fato de que, destes quatro evangelhos, três narram basicamente os mesmos acontecimentos, quase na mesma ordem, repetindo muitas das Palavras de Jesus? E o que torna mais intrigante o assunto não são as semelhanças entre os três evangelhos, mas as diferenças que parecem tornar esses evangelhos divergentes, ao apresentarem os mesmos eventos com dados diferentes quanto a tempo, personagem e ordenança. Os evangelistas ora concordam ora discordam nas informações, contando os mesmos eventos de forma peculiar. Esse fenômeno, que há muito intriga os estudiosos na busca por respostas, se chama Problema Sinótico.
Contudo, não deve ser tratado como novidade o fato de haver livros na Bíblia que narrem de forma semelhante a mesma história, pois os livros de 2 Samuel, Reis e Crônicas possuem uma interseção narrativa, ou seja, um período da história de Israel que é repetido (2Samuel-Reis // Crônicas). Assim, a história a respeito da vida de Davi e dos reis de Judá, as tribos do sul, aparece duas vezes nas Escrituras. Autores diferentes abordaram a história em perspectivas e propósitos diferentes, formando, em parte, uma relação sinótica entre os livros históricos do Antigo Testamento. Cada livro possui uma forma peculiar de narrar a história do povo de Deus, contada numa perspectiva histórico-teológica. Portanto, não era novidade para os autores Bíblicos do Novo Testamento a iniciativa de se fazer mais de um registro histórico de um período que já tinha sido registrado por outro autor, a partir de um propósito teológico específico.
No entanto, as questões em torno do problema sinótico têm intrigado estudiosos por muitos séculos, pelo caráter das semelhanças e diferenças entre os evangelhos, composição e propósito de cada um deles. Diversas soluções apareceram na história da igreja desde os primeiros séculos da era cristã. Já no segundo século da era cristã, Taciano revela sua preocupação com o problema sinótico fazendo uma harmonização dos evangelhos. Como ele, outros também realizaram o trabalho de harmonização, ainda que não tenham procurado solucionar o problema sinótico. Um pouco mais adiante, no quarto século, Agostinho procura abordar o problema, afirmando que houve dependência literária entre os sinóticos, sendo o evangelho de Mateus o primeiro a ser escrito e Marcos um resumo deste evangelho. Conforme Smith, os pais da igreja deveriam ser consultados com mais frequência por serem testemunhas muito próximas dos eventos do primeiro século e consequentemente da composição dos evangelhos. Além disso, Smith lembra ainda que as evidências externas são de caráter objetivo enquanto as evidências internas são extremamente subjetivas. Desta forma, segundo os pais da igreja, Mateus teria sido o primeiro evangelho escrito, tendo em vista que seu autor foi o único, dentre os evangelhos sinóticos, que realmente esteve presente em todo o ministério de Cristo, não necessitando, portanto, fazer uso de outras testemunhas para compor sua obra.
Após os pais da igreja, o problema sinótico não é mais discutido durante um longo hiato. Somente a partir da segunda metade do século XVIII, surgiram, outra vez, diversas hipóteses na busca por solucionar o problema sinótico esquecido pela igreja durante um longo período de tempo. Recentemente, as três críticas utilizadas na análise do Antigo Testamento, passaram a ser utilizadas na tentativa de explicar o problema em torno dos evangelhos sinóticos: a crítica das fontes, a crítica da forma e a crítica da redação.
A crítica das fontes procura descobrir quais as fontes que foram utilizadas por cada um dos evangelhos, desde as fontes comuns às peculiares a cada evangelho e como elas foram utilizadas por cada um dos evangelistas. A crítica das formas procura explicar como a tradição oral se desenvolveu antes de tomar a forma escrita. Enquanto isso, a crítica da redação tem como objetivo descobrir o uso que os evangelistas fizeram do material disponível, procurando compreender a redação final do material à luz de supostas tendências teológicas presentes em indivíduos ou comunidades que participaram da formação de cada um dos evangelhos. Apesar do mau uso que diversos estudiosos fazem dessas três “críticas”, Carson lembra que as críticas da forma, fontes e redação não devem ser vistas como ataques à historicidade dos evangelhos. Por isso, tanto estudiosos liberais as utilizam para atacar os fundamentos das Escrituras quanto estudiosos ortodoxos usam para explicar os fenômenos que ocorreram no processo de formação de cada um dos evangelhos.
Dentre as soluções apresentadas, as principais são: 1) A hipótese do proto-evangelho: Lessing propôs que houve um evangelho original que serviu de base para todos os evangelistas. Mateus teria escrito seu evangelho em Aramaico e depois resumido para o grego, resultando no evangelho que temos hoje. Marcos e Lucas teriam usado a fonte Aramaica, também. 2) A hipótese dos fragmentos: Schleiermacher apresentou a hipótese de que os evangelhos sinóticos são compostos de fragmentos dos apóstolos que foram traduzidos para o grego e depois organizados pelos evangelistas. 3) A hipótese da tradição oral: Conforme J. G. Herder e J. K. L. Geisler defendem, a tradição oral teria sido o fundamento comum para os evangelhos sinóticos. 4) A hipótese da interdependência literária: Agostinho já havia defendido essa hipótese, depois H. Owen, contudo a hipótese recebe o nome de J. J. Griesbach que a ressuscitou. A hipótese defende que Mateus foi o primeiro, Lucas o segundo e Marcos o terceiro resumindo os dois anteriores, concordando com a tradição da igreja. Já C. Lachman propôs que o evangelho de Marcos tenha sido o primeiro e que Mateus e Lucas utilizaram Marcos interdependentemente. Seguindo Lachman, surgiu a hipótese das duas fontes que defende que Marcos foi escrito primeiro e que serviu de fonte primária para a composição de Mateus e Lucas. Mas, de onde viria a semelhança entre Mateus e Lucas que diferem de Marcos? A resposta estaria numa suposta fonte denominada de Q (do alemão Quelle – fonte) que teria sido usada pelos dois evangelistas. Sendo assim, ambos utilizaram duas fontes em comum: Marcos e Q, e a partir destas fontes produziram o próprio evangelho, independente um do outro, gerando, então, algumas diferenças entre eles. O grande problema da teoria é o fato de que não há nenhum indício da fonte Q, que teria sido perdida de tal forma que não deixou nenhum rastro. Procurando solucionar as brechas não respondidas pela hipótese das duas fontes, B. Burnett H. Streeter apresenta a hipótese das quatro fontes: Marcos, Q, M e L. Para explicar as peculiaridades de Mateus e Lucas, a hipótese apresenta mais duas fontes peculiares a cada um dos evangelistas: M peculiar a Mateus e L peculiar Lucas. Segundo Thiessen, Mateus teria sido o primeiro evangelista, por ter sido um dos apóstolos, pois foi testemunha ocular de boa parte dos fatos enquanto Marcos e Lucas estavam associados a Pedro e Paulo, respectivamente. A tradição oral foi um dos recursos utilizados pelos autores, mas a Inspiração do Espírito Santo e supervisão foram os fatores primordiais na composição dos evangelhos.
Percebe-se, então, que o problema sinótico ainda está sobre a mesa para debates, sujeito a novas hipóteses que tentem explicar o fenômeno que continua intrigando os estudiosos do século XXI. Algumas dessas novas tentativas são, na verdade, o resgate e aprimoramento de antigas hipóteses tanto baseadas em evidências internas quanto externas. Assim, cada nova retomada do assunto possibilita diferentes discussões em torno do assunto na busca pela solução do problema sinótico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARSON, D. A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997, p.19-65.
HÖRSTER, Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1996, p. 8-21.
LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001, p.199-207.
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MADRIGAL, Ramón Anthony. A Communities of Practice Approach to the Synoptic Problem. Teaching Theology & Religion 15, nº 2, 2012, p. 125-144.
REID, Daniel G. Dicionário teológico do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2012, p.1050-1060.
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