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sábado, 2 de outubro de 2010

O Pior dos Pecadores

Fiel é esta palavra e digna de toda aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar pecadores, dos quais eu sou o pior” (I Tm.1.)

Certo dia, ao elogiar um irmão em Cristo, fui surpreendido por uma série de auto-afirmações, na exposição de seu histórico “brilhante”. Minhas breves palavras, visando motivá-lo, no exercício de suas atribuições, custaram-me mais alguns minutos, num monólogo retórico que mais parecia vitrine de uma butique. Esta não foi a única vez em que recebi o castigo de longos minutos ouvindo um discurso de auto-apresentação narcisista. Tenho notado a crescente necessidade que as pessoas tem sentido da auto-afirmação. Elas querem apenas uma oportunidade para apresentar o “curriculum vitae” recheado de títulos e experiências prodigiosas. Qual a razão que estas pessoas têm de se auto-afirmar?
Provavelmente o fenômeno crescente da auto-afirmação tem sido desencadeado pela desvalorização do ser humano, numa contraditória geração humanista. O homem se vulgarizou, desprovendo-se de valores morais e éticos absolutos. E quanto menos valor o homem recebe mais materialista o mundo se torna. Você vale o que tem e não o que é: “um ignorante rico é melhor que um sábio pobre”. E a “corrida do ouro” é disputada na busca diária pelo poder, prazer e bens, a fim de concederem algum sentido à vida desses pobres mortais. Dentre estas aquisições necessárias para que o homem possua algum valor, estão os títulos “vendidos” por inúmeras faculdades. Com os títulos, os cidadãos terão a oportunidade de se auto-afirmar uns para os outros, confirmando a nova filosofia do mundo: “eu tenho logo existo”.
Em 1 Timóteo 1.15, o apóstolo Paulo afirma que: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar pecadores, dos quais eu sou o pior”. Um dos maiores missionários do Cristianismo considerou-se o “o pior dos pecadores”. Paulo teve uma vida bem sucedida antes de sua conversão. Foi “circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu, quanto à justiça que há na lei, irrepreensível.” (Fp.3.5-6). Tinha o privilégio de ser cidadão romano desde o nascimento (At.22.28), o que representa a influência política e econômica que sua família tinha no mundo judaico-romano em que vivia.
Alguns anos depois de conhecer a Cristo, na estrada de Damasco (At.9.3), onde recebera o chamado para servir o Senhor Jesus, com a própria vida (At.9.15,16), Paulo considera seu “curriculum vitae” como “perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo” (Fp.3.8). O que para o mundo era glória e honra, “proferindo palavras jactanciosas de vaidade” (II Pe.2.18), para o apóstolo não passava da vaidade da natureza pecaminosa que deveria ser mortificada (Rm.8.13). Ele havia aprendido a estar “contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez” (Fp.4.11,12). A razão de sua vida era o exercício do ministério da pregação da Palavra, para glorificar a Deus. Ele afirma que: “em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.” (At.20.24). Sua alegria e esforço se concentravam em anunciar o Reino de Deus com fidelidade e quanto às necessidades da vida, “tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.” (I Tm.6.8)
O apóstolo escreve para seu filho na fé, Timóteo, um pastor jovem, ensinando-o as “sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e ensino segundo a piedade” (I Tm.6.3). Ao contrário de “certas pessoas” (I Tm.1.3) que estavam se ocupando com “fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé” (I Tm.1.4), o apóstolo se preocupa em ensinar a Timóteo uma vida piedosa que “para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser” (I Tm.4.8). O início de uma vida piedosa é o reconhecimento da graça e misericórdia de Deus, derramadas sobre a vida do insignificante pecador. Por meio da Graça e Misericórdia de Deus, Paulo havia sido “fortalecido”, ou seja, capacitado para a obra do Senhor. Por isso, ele dá graças ao Senhor por tão grande compaixão em capacitá-lo para servir a Cristo “designando-o para o ministério” (I Tm.1.12)
A graça e misericórdia do Senhor tornam-se mais notórias quando a vida do pecador é ressaltada. Paulo se expõe para Timóteo lembrando-o de que antes de ser um apóstolo de Cristo, por meio do poder do Espírito Santo (At.1.8), ele fora um desprezível pecador “blasfemo, e perseguidor, e insolente” (I Tm.1.13). Paulo expõe sua vida com o propósito de apontar para o poder transformador de Deus. Tudo quanto, aquele bem sucedido apóstolo era, provinha tão somente da graça e misericórdia de Cristo que transformara seu coração. O “pior dos pecadores” foi transformado, pelo poder da Palavra de Deus, num amável servo de Cristo. O ódio que possuía dos cristãos foi substituído por um imenso amor pela igreja, disposto a dar a vida pelos irmãos. O legalismo de um coração sem misericórdia foi substituído pela graça de Deus, no desejo de que todo pecador encontrasse a salvação em Cristo. Que transformação maravilhosa! Que demonstração de graça e poder derramados na vida de um pecador! Paulo se expõe para que Timóteo olhe tão somente para Cristo e pregue a mensagem da cruz para que pecadores fossem igualmente transformados por Deus.
Tudo o que deveria importar para a vida de Timóteo deveria ser a nova vida que Cristo lhe trouxe. Timóteo não deveria precisar de auto-afirmação, como Paulo também não fazia uso. Além disso, a plena certeza de sua natureza caída manteria Timóteo alerta quanto às tentações. Mesmo perdoados e transformados pelo poder da Palavra de Deus, eles continuavam sendo pecadores. Era preciso mortificar a carne, pois “a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si” (Gl.5.17). Caso Timóteo se considerasse não tão pecador, estaria vulnerável a cair em tentação, sem perceber as astúcias da carne, do mundo e do diabo. Reconhecer a própria natureza, com suas fraquezas seria a melhor forma de fugir das tentações, buscando constantemente o livramento divino.
Todo crente deve sentir-se o “pior dos pecadores” ao se deparar com a santidade de Deus. O sentimento de miséria, fraqueza, inutilidade, incapacidade e pecado fazem com que seu coração não encontre ninguém pior que ele mesmo. Não se engane! Você é um horrível pecador capaz de cometer os piores pecados, inclinado para os mais vergonhosos sentimentos e pensamentos. A conversão é o reconhecimento dessa triste realidade no afã de ser perdoado e restaurado à imagem e semelhança de Deus, em Cristo Jesus.
Mostre ao mundo o que a graça e poder transformador de Deus podem fazer na vida de um pecador arrependido. Mostre o que Cristo fez na tua vida ao tirar você das trevas tornando-o filho de Deus, pois conforme afirma Paulo: “por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna” (I Tm.1.16). Na busca por viver a vontade de Deus sua vida será exposta: passado e presente e muitas pessoas ao seu redor verão a graça de Deus em te perdoar e transformar, santificando-o a cada dia para uma vida santa e irrepreensível (Ef.1.4). Por isso, “quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (I Co.10.31). Tudo em sua vida tem como objetivo apontar Cristo para os pecadores, para que Deus seja honrado e os pecadores alcancem a salvação. Eles verão que até mesmo o “pior dos pecadores” pode receber o perdão de Deus e em Cristo alcançar a salvação.

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