Pages

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Abrigo para os viajantes

Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” (Mt.11.28)

Ser cristão é peregrinar em um mundo que “jaz no maligno” (1 Jo.5.19), cheio de espinhos e pedregulhos, de um clima conturbado ora tempestivo ora árido. O cristão tem uma direção certa: a cidade celestial, e seu caminho é único: Cristo Jesus. Todavia, mesmo estando bem firmado sobre a Rocha e guardando no coração a esperança da vida eterna, a caminhada cristã é cansativa, difícil e até pode ser desanimadora. Surge, então, a necessidade de um abrigo para os viajantes, a fim de que, nele, encontrem repouso para a mente e o coração cansados do mundo.

Em 2 Timóteo 3.2-4 temos a descrição de um mundo muito cansativo. Paulo diz que os homens são “egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus”. Diante disso, o cristão sente a necessidade de alento, um lugar de repouso da caminhada espinhosa rumo ao novo céu e nova terra. Mas, se “o mundo inteiro jaz no Maligno”, onde encontraremos alívio; onde acharemos um ambiente de amor, justiça, esperança e paz?

Deus serve-se de um abrigo para seu povo, por meio do qual Ele mesmo conforta o coração daqueles que clamam por auxílio: a igreja de Cristo. A igreja de Jesus é o grande instrumento do Senhor para acolher aqueles que buscam refúgio em Cristo. Por meio dela, a Palavra do Senhor é proclamada, trazendo alento para o cansado, e o Espírito de Deus manifesta os atributos visíveis do Senhor: amor, justiça, santidade, fidelidade, bondade, mansidão etc. Nela, as pessoas cansadas do mundo pecador, com “fome e sede de justiça” (Mt.5.6), carentes do verdadeiro amor que procede de Deus (1Jo.4.7-9), desejando viver uma vida santa e agradável ao Criador e necessitadas de relacionamentos fiéis e verdadeiros, harmônicos e íntegros devem ser amparadas, para que, fortalecidas, perseverem na caminhada cristã até o encontro com Cristo.

Nesse abrigo, os pecadores cansados devem encontrar a verdade nos relacionamentos, nas transações, nos compromissos, nas palavras, nas promessas, nas atitudes, nos tratamentos e em tudo que for dito ou feito, já que a Verdade é fundamento da igreja que fora liberta por essa Verdade e responsabilizada a propagar a mesma Verdade. Caso isso não aconteça, o cristão estará sozinho no mundo, pois “destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (Sl.11.3). Aqueles que estão cansados de mentiras, pessoas desleais, relacionamentos não confiáveis, tratamentos hipócritas, guerras pelo poder, transações avarentas e desonestas de um mundo enganoso deveriam encontrar entre os cristãos o novo viver operado pelo Espírito Santo, um viver que expressa o caráter de Deus.

Mas, se os “cansados e sobrecarregados” não encontrarem no povo de Deus o gracioso alívio que Cristo tem para aqueles que se achegam a Ele, então onde encontrarão? Como disse Jesus: “se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens” (Mt.5.13). Quando isso acontecer, ou Jesus voltará ou aquela geração será destruída, como foram tantas gerações insípidas (Gn.6-9; 2Rs.17; 25; Mt.24 etc), afinal o que conserva o mundo até nossos dias é a presença de justos espalhados pelo mundo (Gn.18.22-33).

Sua vida tem sido instrumento para aliviar as cargas dos que buscam a Cristo? Você tem sido bênção para aqueles que foram atraídos a Jesus? Deus não quer bajulações nem fingimentos nem sorrisos aparentes nem qualquer outro gesto dissimulado. Deus quer que seus verdadeiros filhos vivam na Verdade e abençoem verdadeiramente os “cansados e sobrecarregados” que buscam alívio na Palavra de Deus. Ajude a fazer da igreja local um lar acolhedor para todo viajante que percorre a jornada da salvação rumo à vida eterna. Dessa forma, ainda que o mundo inteiro se torne insuportável, o cristão sempre terá um doce lar onde a Verdade, o amor, a justiça e a paz de Deus prevalecem, aliviando o coração dos peregrinos de Deus.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Jesus não disse: Consigam mais membros para a denominação

E não pensemos que a palavra de Deus haja falhado, porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas” (Rm.9.6)

Pastores engraçados, programações atraentes, pregações massageadoras de egos, fundos musicais comoventes, apelos emocionantes, preletores famosos, ativismo eclesiástico enchem denominações em meio a uma geração cliente bastante exigente. Líderes, praticamente, imploram para que as pessoas se tornem membro de suas igrejas como se a salvação delas dependesse tão somente disso. Denominações agem como se Jesus tivesse ordenado: consigam o maior número de membros possível. Assim, a missão da igreja se resumiu (outra vez) a buscar o maior número possível de pessoas que queira participar regularmente das atividades semanais de uma denominação.

Quer em seminários quer nas igrejas locais, ouvimos falar de missões com certa frequência, em nossos dias. Isso é muito bom, afinal o Senhor Jesus ordenou que fossem feitos discípulos de todas as nações (Mt.28.19). Mas, fazer discípulos é o mesmo que tornar pessoas membros de uma igreja local? Responder essa pergunta é fundamental, pois, a depender da resposta, pessoas e igrejas inteiras “atrairão os pecadores” em acordo com a concepção que tiverem sobre o caráter da missão da igreja. E, confundindo conversão com proselitismo, denominações incharão de membros “egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder” (2Tm.3.2-5).

O problema ganhou uma dimensão tão grande que alguns cristãos evangelizam dizendo, apenas: “Jesus te ama!”, sem explicar a necessidade de se crer em Cristo nem advertir que “o salário do pecado é a morte” (Rm.6.23), ou seja, o inferno, “onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga” (Mc.9.48). Outros reduzem o evangelismo a convidar amigos e familiares para participarem de alguma atividade da igreja. Jovens tentam atrair outros jovens para “cultos jovens”, “retiros espirituais” entre outras atividades dinâmicas e atraentes, que, de preferência, não sejam “monótonas” para quem é jovem. Essas iniciativas, tão bem-intencionadas, podem ser consideradas como evangelização? A igreja estaria fazendo missões ao tentar incluir as pessoas em sua vida religiosa? Conseguir adeptos às atividades de uma igreja local é fazer missões? Qual, portanto, a diferença entre fazer missões e tornar uma pessoa membro de uma denominação?

O que é missões? O termo não é exclusivo da teologia e pode ser aplicado a diversas responsabilidades que as pessoas recebem para as cumprir. Porém, a teologia consagrou essa palavra, à semelhança de muitas outras que o cristianismo se apropriou cunhando-as para uso da igreja. A missão da igreja é o serviço que ela deve prestar a Deus exatamente em acordo com sua vontade, que implica na fiel pregação da Palavra do Senhor e na fiel administração daquilo que lhe foi confiado: sacramentos, oração, disciplina e governo. Sua missão é tão importante que por meio dela vidas são salvas, uma vez que o Espírito do Senhor opera através da Palavra exposta com fidelidade. Portanto, podemos falar em missão, porque Deus deu à igreja uma responsabilidade que deve ser cumprida cabalmente.

Em Atos 12.25, por exemplo, “Barnabé e Saulo, cumprida a sua missão, voltaram de Jerusalém” (ARA). O termo traduzido por missão na Versão Revista e Atualizada é diaconia, ou seja, serviço. Barnabé e Paulo haviam recebido a incumbência de realizar um trabalho: levar “socorro aos irmãos que moravam na Judéia” (At.11.29). Ao terminar de cumprir aquilo para o qual foram designados, eles voltaram para a igreja que os enviou. De forma semelhante, Deus envia pessoas para uma missão, escolhendo-as e separando-as pelo Espírito Santo (At.13.2), assim como fez Jesus enviando mais de uma vez seus discípulos, a fim de que pregassem nas cidades judaicas (Mt.10.5; Lc.10.1). Mas, em que consiste essa missão dada por Deus à igreja? Jesus deixou os termos da missão da igreja:

Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.  19 Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;  20 ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. (Mt.28.18-20)

Cristo é o autor da missão da igreja, aquele que envia a igreja ao mundo para cumpri-la, à semelhança do que fez o Pai ao enviá-lo para cumprir a missão de morrer pelos pecados de seu povo: “Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos” (Jo.20.21-23). E assim como a missão de Cristo fui crucial para a redenção, a missão da igreja também tem importância singular, já que as pessoas só serão salvas por meio da fé no Evangelho que deve ser pregado pelo povo de Deus. Por isso, disse Paulo à igreja de Roma:

Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.  14 Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?  15 E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! (Rm.10.13-15)

Missões é o dever que a igreja tem de fazer discípulos, pregando a Palavra de Deus ao mundo, a fim de que o Senhor Jesus seja glorificado tanto na salvação quando na condenação dos homens, “porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida” (2Co.2.15-16). Por ser um plano divino, Deus chama, capacita e envia seu povo para que cumpra o dever de pregar Cristo às nações, de modo que a missão da igreja é levar com fidelidade a Palavra de Salvação para todos os pecadores de todos os povos, confiando que o Senhor realizará sua boa, agradável e perfeita vontade (Rm.12.2), por meio do poder do Espírito Santo que aplica a Escritura no coração dos pecadores (Ez.36.26-27), a fim de que tenham um verdadeiro compromisso com o Reino de Deus.

Jesus ordenou que se fizesse discípulos, “batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt.28.19-20). Por meio do batismo, pessoas são agregadas a uma igreja local, tornando-se parte do corpo de Cristo e por intermédio do ensino elas crescem no conhecimento de Cristo. Todavia, os verbos “batizando e “ensinando” que se encontram no particípio grego (gerúndio português) são complementos do verbo principal: fazei discípulos (imperativo). Ou seja, esses dois verbos acompanham a ação principal, não a substituem. O papel da igreja não é dar uma carteirinha de membro para as pessoas ou conseguir o maior número possível de pecadores para o rol de membros. Também, podemos dizer que a missão da igreja não pode ser resumida a ensinar para as pessoas a Palavra de Deus sem exigir delas um real e profundo compromisso com Cristo, por meio do qual tanto alcançarão a salvação quanto se tornarão parte de seu corpo, que é a igreja do Deus vivo (1Tm.3.15). A missão da igreja é atrair pessoas para Cristo, conduzindo-as por Cristo e edificando-as em Cristo e isso envolve tanto o ensino fiel da Palavra de Deus quanto um relacionamento fiel com Cristo no seio de sua igreja. A missão da igreja é fazer discípulos nos moldes das seguintes palavras do Senhor Jesus:

Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.  27 E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo.  28 Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir?  29 Para não suceder que, tendo lançado os alicerces e não a podendo acabar, todos os que a virem zombem dele,  30 dizendo: Este homem começou a construir e não pôde acabar.  31 Ou qual é o rei que, indo para combater outro rei, não se assenta primeiro para calcular se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil?  32 Caso contrário, estando o outro ainda longe, envia-lhe uma embaixada, pedindo condições de paz.  33 Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo. (Lc.14.26-33)

Jesus diz ser necessário calcular a capacidade para começar e terminar a caminhada cristã. Esse cálculo só pode ser feito por aqueles que recebem fiel ensino sobre o que é ser cristão, sendo advertidos sobre a necessidade de se tornarem discípulos de Cristo, negando a si mesmos, a fim de que realmente herdem o Reino dos céus. Mas, como calcularão se não forem corretamente admoestados sobre o que é ser discípulo de Jesus? Quando a Verdade não é pregada fielmente, pessoas aceitam, enganadas, a proposta de ser tornarem discípulas de Jesus. Não é sem razão que muitas pessoas desistem da caminhada cristã quando aparecem os desafios. Tentar facilitar a entrada de pecadores na igreja local não garante que esses mesmos pecadores permanecerão, pois, em algum momento da caminhada, lhes será manifesto, pelas próprias experiências, que as promessas de vida vitoriosa eram falsas.

Jesus não disse: Consigam mais membros para a denominação. A prática de atrair pessoas para uma denominação tem vulgarizado tanto o Evangelho, reduzindo-o e distorcendo-o, quanto a Igreja, enchendo-a de joio. A substituição da missão dada por Deus à igreja por uma espécie de marketing gospel, com a finalidade de encher denominações é um dos principais fatores para a irrelevância do evangelicalismo brasileiro incapaz de mudar a política nacional, porque muitos de seus líderes são corruptos, arrogantes, soberbos, gananciosos, vaidosos e ambiciosos; impotente para melhorar a cultura popular, pois se submete a qualquer crendice, a fim de atrair pessoas; inapto para melhorar a moral da nação, porque alimenta em seu seio os mesmos pecados do mundo: maledicência, mentira, desonestidade, inveja, divórcio, prostituição, orgulho, vaidade, cobiça, desonestidade, ira, discórdia, glutonaria, bebedice, ciúmes e diversos tipos de maldades.

Para que cresçam igrejas saudáveis em nosso país, o evangelicalismo brasileiro precisa retornar à missão ordenada por Jesus. A pureza da igreja é diretamente proporcional à pureza do exercício de sua missão, pois dificulta a entrada de joio no meio do trigo enquanto amadurece os verdadeiros cristãos inseridos no seio da igreja (por meio da fiel pregação do Evangelho), capacitando-os a pregarem o genuíno evangelho no dia a dia, para que façam missões conforme Jesus ordenou. Ovelhas saudáveis se reproduzem em novas ovelhas saudáveis, mas pessoas doentes, cheias de si mesmo, continuarão contaminando o rebanho de Cristo até que se deparem com o Senhor da glória que lhes dirá: “nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade” (Mt.7.23).

Igrejas cheias de gente problemática decorre de sua infidelidade no exercício da missão, pois aqueles que entram não são ensinados a lutar contra o próprio ego; não são exortados a combater os pecados do coração. No exercício de sua missão a igreja deve apresentar toda a Verdade por meio da qual os interessados possam calcular se têm ou não condições para percorrer a jornada cristã até o fim, sem desistir. Os desavisados ou iludidos voltam para o mundo quando se deparam com Verdade no meio do caminho: a Verdade que a vida cristã existe inteiramente para a glória de Cristo Jesus. Esta Verdade fere profundamente o ego orgulhoso, arrogante, soberbo e vaidoso do pecador, de modo que se não for vencido por meio da Palavra e do Espírito de Deus, fará com que o prosélito se volte contra Cristo e sua igreja, dando-lhes as costas em seu retorno para o mundo de onde nunca saiu, pois seu coração sempre esteve nele.

Portanto, faça discípulos por meio da fiel pregação da Palavra de Deus, não se preocupe em encher sua denominação com muitos membros. Lembre-se que uma pessoa não convertida no seio da igreja não estará menos sujeita ao inferno do que se estivesse fora dela. Quando Jesus voltar, só receberá para si aqueles que realmente foram convertidos pelo poder da Palavra e do Espírito de Deus, de modo que o importante não é o tamanho da igreja visível, mas quantas das pessoas que ali estão realmente são cristãs. E a única forma de aproximar o número de verdadeiros cristãos ao número de membros de uma igreja local é fazendo missões de acordo com a ordenança que Jesus deu para sua igreja.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

O que fazer agora?


Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt.4.17)



Sem floreios, sem meias palavras, sem receio das reações, Paulo afirma em sua carta: “Não há justo, nem um sequer” (Rm.3.10). O apóstolo nos revela o olhar de Deus para a humanidade, não apenas o olhar de um pecador que contempla sua própria imagem em um espelho. Essas palavras entram no coração como afiada espada de dois gumes, dilacerando todo orgulho e vaidade do homem que se vê com alta autoestima.



Em um só momento, todos os conceitos que o pecador tem sobre si são desfeitos e até aquilo que parece ser bom é reputado a nada. O que fazer, agora, que descobriu seus muitos pecados, por meio da pregação da Palavra de Deus? Deveria desistir da vida? Ou, ignorar a Verdade divina revelada sobre sua natureza pecadora? O que fazer agora?



Mesmo que essas perguntas nunca ecoem da boca, elas serão feitas no coração. O que fazer após lhe ser revelada a natureza pecadora? A resposta que brota do coração distingue os homens diante de Cristo, dividindo-os inevitavelmente, pois enquanto alguns herdarão a vida eterna muitos outros desprezarão a graça redentora.



O que fazer agora que sabe que é um pecador? O que fazer depois que lhe revelaram a miséria de sua alma, a maldade de seu coração, a vaidade de suas obras, os pecados de seus pensamentos? Odiar o pregador por ter lhe contado a Verdade não mudará sua condição, apenas confirmará quão mau é seu coração. O que fazer agora?



É diante desse dilema que Deus revela a solução, “porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o SENHOR Deus. Portanto, convertei-vos e vivei” (Ez.18.32). Da mesma forma como Deus revela a miséria da alma humana, Ele aponta a graça divina da redenção por meio do sacrifício de seu Filho unigênito, Cristo Jesus, que se entregou a si mesmo para pagar os pecados do homem.



Portanto, a mensagem divina tanto acusa o homem por seus pecados quanto lhe revela a redenção por Cristo Jesus. Dessa forma, o pecador humilhado, ao ter seus mais íntimos pensamentos e sentimentos pecaminosos expostos diante da santidade de Deus, encontra a destra do Senhor Jesus estendida em sua direção, oferecendo-lhe uma nova vida justificada para a santificação.



O que fazer agora? Caim recebeu semelhante proposta do Senhor quando lhe foi revelado o pecado de seu coração (Gn.4.4-7). Caim recebeu o chamado ao perdão e mudança de vida (Gn.4.7), mas os rejeitou, odiando a revelação de seu pecado e desprezando a graça divina da redenção, preferindo matar seu irmão a ter que arrepender-se de seus pecados da mente e coração.



Como Caim, a maioria dos homens odeia ter seus pecados revelados. Eles querem mentir sem que sejam chamados de mentirosos; eles querem orgulhar-se de si mesmos sem que sejam chamados de orgulhosos; eles querem matar sem que sejam chamados de assassinos; eles querem maldizer sem que sejam chamados de maledicentes; eles querem rebelar-se sem que sejam chamados de insubordinados; eles querem roubar sem que sejam chamados de desonestos e ladrões.



Por isso, quanto mais a Palavra pregada revela seus pecados mais eles odeiam a Deus, à Escritura e ao pregador. Essa é uma das reações, silenciosa ou barulhenta, do coração pecador quando se depara com a revelação de seus pecados, mesmo diante do chamado divino que lhe apresenta o gracioso perdão por meio da confiança na obra redentora de Jesus Cristo.



Mas, nem todos reagem assim. A Escritura também revela a reação de homens quebrantados pelo Espírito de Deus, como Davi. Ele havia adulterado com a mulher (Bate-Seba) de seu soldado, Urias (2Sm.11). Diante disso, o profeta Natã procurou o rei, a fim de revelar-lhe o pecado cometido diante de Deus e lhe declarou o iminente castigo divino. Natã foi enviado por Deus tanto para acusá-lo quanto para apresentar-lhe o gracioso perdão divino (2Sm.12.1-15).



Davi era rei de Israel e tinha autoridade para mandar matar qualquer homem. Mas, diante da revelação de seu pecado, ele prostrou-se perante a face de Deus em profundo arrependimento e chorou na presença do Senhor, reconhecendo seu pecado e rogando-lhe o perdão (Sl.51): “Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões” (Sl.51.1).



O coração de Davi foi dilacerado ao ouvir a Palavra de Deus, mas encontrou na graça divina o alento necessário para recobrar o ânimo, a fim de encontrar perdão e santificação na obra redentora do Senhor. Davi se humilhou diante do Senhor na esperança de que o próprio Deus o erguesse de seu estado de miséria para uma nova vida desfrutada em santidade. Seu arrependimento foi sincero e pode ser visto em todas as reações de Davi: confissão do pecado, restituição do dano e mudança de comportamento (2Sm.12.24; 16.10; 1Rs.1.1-4; 1.28-31).



O que fazer quando Deus revela nossos pecados? Arrependa-se verdadeiramente, confie na justiça de Cristo e busque no Senhor a graça necessária para que sua vida seja mudada para a glória de Deus. Diante disso, o Senhor lhe dará perdão e capacidade para viver uma nova vida pelo poder do Espírito e da Palavra, e todos verão que “onde abundou o pecado, superabundou a graça” do Senhor Jesus Cristo (Rm.5.20).

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O que é ser cristão?

Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos” (At.11.26)

O que é ser cristão? Há tantas pessoas se dizendo cristãs em nossos dias que precisamos definir bem o termo, a fim de peneirar todos os grupos, extraindo apenas aqueles que realmente se enquadram no conceito bíblico de cristianismo, enquanto motivamos as pessoas que realmente querem ter uma vida cristã autêntica a se adequarem à Palavra de Deus, honrando ao Senhor por meio de suas vidas. Ou seja, a melhor forma de glorificar o Senhor é vivendo uma genuína vida cristã, nem mais nem menos, pois tanto aponta para a graça divina que justifica o pecador por meio de Cristo quanto testemunha a graça divina que santifica o pecador por intermédio da Palavra e Espírito de Deus.
Diante da pergunta: “o que é ser cristão?” provavelmente a maioria responderá: “Ser cristão é crer em Cristo.” Mas, essa resposta estaria completa? Parece-nos que definir o cristão como aquele que crê em Cristo não é suficiente, pois as mais diversas seitas do cristianismo: Espiritismo, Testemunhas de Jeová, Mormonismo, Arianismo, Seitas adeptas da teologia da prosperidade etc. também acreditam em Jesus e até pregam algo sobre Ele. Esses grupos ensinam um evangelho diferente (enganoso, deturpado) daquele que fora pregado pelos apóstolos (2Co.11.3-4; Gl.1.6-9), mas se dizem cristãos por acreditarem em alguma coisa sobre Cristo. Além dessas seitas, há milhões de pessoas que se dizem cristãs (anônimas), mas não tem compromisso nem frutos que testifiquem a presença da nova vida que Jesus dá para todo aquele que verdadeiramente se torna um cristão.
Outro problema é a multiplicação de igrejas com líderes leigos que reduzem o Evangelho a dizer: “Jesus te ama!” Boa parte das pessoas que fazem parte dessas “igrejas” crê em Cristo sem nem mesmo saber quais as implicações disso. Elas acreditam que Jesus é bom, mas não entendem a obra realizada por Cristo na cruz do Calvário; elas aprendem que Jesus salva, mas nem mesmo sabem de que precisam ser salvas; elas falam em nova vida, mas a reduzem a participar das atividades de uma “igreja local”. Entendem-se por cristãs, mas desconhecem os elementos mais fundamentais da obra redentora, tais como a justificação realizada por Jesus e imputada pelo Espírito Santo na vida daqueles que creem. Consideram-se cristãs, mas não compreendem a “ordem da salvação” apresentada por Paulo à igreja de Roma: “aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm.8.30). E, de modo semelhante ao Catolicismo Romano, essas pessoas sentem-se seguras e salvas por participarem ativamente da vida eclesiástica de uma “comunidade local” marcada, comumente, por programações atraentes. Essas pessoas são realmente cristãs? Por isso, é realmente importante respondermos à pergunta: O que é ser cristão?
Mesmo nos dias da igreja primitiva, ser cristão não era “apenas crer em Cristo”, pois tanto Jesus disse que “nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt.7.21) quando os apóstolos advertiram com respeito a “alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (Gl.1.7), ou seja, admoestaram as igrejas a terem cuidado com os falsos profetas que pregavam um falso evangelho (2Co.11.13; Gl.2.4; 2Pe.2.1; 1Jo.4.1-6). À medida que a Escritura do Novo Testamento era dada para a igreja, a fé cristã alicerçava-se em fundamentos mais precisos (Ef.2.20), revelando o ser de Deus e sua obra redentora externa e interna ao pecador. Então, os verdadeiros cristãos deveriam crer e defender a Verdade recebida, pois a igreja foi posta por “coluna e baluarte da Verdade” (1Tm.3.15).
Portanto, dizer que ser cristão é simplesmente crer em Cristo não é suficiente. O verdadeiro cristão é identificado tanto pela crença no genuíno Evangelho do Senhor Jesus (Jo.8.32; Jd.3) quanto por uma nova vida marcada por frutos de justiça (Gl.2.20; 5.22-23). Por essa razão, o Novo Testamento exorta à igreja que preserve com fidelidade a sã doutrina e a prática da santidade, sabendo que “estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela” (Mt.7.14). E, por ser estreita a porta não entrarão muitos nem quaisquer um; por ser apertado o caminho não pode ser percorrido de qualquer jeito, antes é necessário andar fiel e humildemente com Cristo.
Quando Paulo fala da unicidade da doutrina do Evangelho, em que “há somente um corpo e um Espírito [...] um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef.4.4-6), ele exorta à igreja que seja cuidadosa com a unidade do corpo e, também, rejeita completamente todos os pseudo-evangelhos de seus dias. Por outro lado, Tiago observou que o cristão não é aquele que se diz crente, mas que se mostra crente por meio de sua vida, afinal “meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?” (Tg.2.14). Assim como Paulo observou que nem todos que se diziam cristãos criam no genuíno Evangelho de Cristo, também Tiago percebeu que algumas pessoas que se diziam cristãs não tinham uma vida coerente com a santidade do Reino de Cristo.
Mas, o que é ser cristão? Ser cristão é andar com Cristo! Aquele que anda com Jesus não somente crê que Ele existe, já que “até os demônios creem e tremem” (Tg.2.19), mas, também, tem disposição mental para compreender a história redentora revelada por Sua Santa Palavra; não somente fala algo sobre Cristo, mas, também, tem alegria em estar ao lado dEle (Jo.14.3) em todo tempo por meio de uma vida de oração e meditação na Escritura Sagrada; não somente diz ser cristão, mas, também, se esforça para obedecer seus mandamentos com satisfação, pois quer viver uma vida para a glória do Senhor (1Pe.1.16); não somente vai para uma igreja local, mas, também, tem um coração quebrantado e humilde para se arrepender de todos os seus pecados, desejoso por ser transformado à imagem do Senhor Jesus (2Co.3.18). Portanto, ser cristão é desfrutar da nova vida com Cristo, conforme disse Paulo: “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl.2.20).
Para começar a caminhada com Cristo é necessário ter a correta compreensão de quem Cristo é e o que Ele realizou por nós. Para muitos Jesus é um mero “mártir da paz” ou apenas um grande homem que deu o maior exemplo de amor que o mundo já viu. Desse modo, muitas pessoas estão andando ao lado de alguém idealizado pela própria imaginação sem se aperceberem que esse alguém não é o Filho Unigênito de Deus que morreu numa cruz para livrar-nos da ira divina. Esse fenômeno é semelhante a uma criança que encontra alguém com vestes parecidas com as roupas de seu pai e aproxima-se dessa pessoa pensando estar andando com o pai, até que o próprio se achegue para ela e lhe revele quem verdadeiramente ele é. Por mais tempo que a criança ande ao lado do pseudo-pai, estará andando lado a lado com um estranho.
Devemos lembrar, ainda, que a redenção tem um caráter jurídico que exige a correta compreensão de todos os elementos presentes: 1) Deus é o santo e justo juiz que executará seus retos juízos sobre todos os culpados (Gn.18.25); 2) o ser humano é o réu que quebrou todos os preceitos da Lei divina (Zc.3.1-3) e é incapaz de pagar a dívida de seu pecado (Na.1.6; Rm.3.10-18); 3) Satanás era (vencido pela cruz) o advogado de acusação interessado na condenação do homem (Ap.12.10); 4) Jesus é o advogado de defesa que se dispõe, graciosamente, a apresentar o pagamento da dívida de todo aquele que se achegar verdadeiramente arrependido (1Jo.2.1). Há ainda as testemunhas (Hb.12.1) que assistem tudo o que acontece na história redentora (1Co.4.9). Para receber o gracioso benefício é necessário compreender os termos do cancelamento do “escrito de dívida” (Cl.2.14) que envolvem: 1) o operar regenerador do Espírito Santo; 2) a justificação alcançada por Cristo na cruz do Calvário por meio de seu precioso sangue; 3) o verdadeiro arrependimento acompanhado com uma sincera mudança de vida operados pelo Espírito de Deus.
Portanto, receber a salvação envolve entendimento, razão pela qual Jesus disse aos discípulos: “conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará” (Jo.8.32). Sem entendimento, o pecador não saberá o real perigo que corre: a ira divina vindoura (1Ts.1.10); sem entendimento, o pecador não admite sua profunda miséria: a natureza pecadora completamente corrompida (Rm.3.10-18); sem entendimento, o pecador não reconhece sua plena necessidade de Cristo, o justificador, o único que poderia pagar a dívida tanto do pecado original de Adão e Eva quanto dos pecados de todo aquele que nEle crê (Rm.5). sem entendimento, o pecador não vive de forma agradável a Deus, enganando a si mesmo, pois ignora que sem a santificação “ninguém verá o Senhor” (Hb.12.14). Sem a correta compreensão do plano redentor, o homem torna-se um mero religioso quer legalista quer libertino.
O cristão anda com Jesus como um discípulo muito amado, comprado e lavado pelo sangue do Cordeiro. O discípulo tem como objetivo ser semelhante a seu mestre, razão pela qual deve andar com ele em todo tempo, observando seu modo de agir, falar, resolver questões, lidar com as pessoas etc. Por isso, Jesus também é nosso modelo perfeito, como disse Paulo: “sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1 Co.11.1), haja vista que Ele nos deu gracioso poder para vencer a natureza pecadora (Gl.5.16), a fim de que possamos viver uma vida santa e agradável a Deus. O genuíno cristão, portanto, caminha com Cristo rumo a perfeição, na esperança de que Deus (que justifica o pecador) haverá de aperfeiçoá-lo por ocasião da volta do Senhor Jesus (1Co.15.50-58).
Nessa caminhada com Cristo, o discípulo aprende seu modo de viver, sabendo que Aquele que cumpriu toda a Lei (Mt.5.17) sem jamais pecar (Hb.4.15), também capacita os regenerados-justificados (Jo.3.3; Rm.5.1), para que vivam uma vida santa e agradável a Deus, por meio do enchimento “do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef.5.18-21//Gl.5.22-23).
Os dez mandamentos resumem a vontade de Deus para a vida de seu povo. O primeiro dos dez mandamentos ordena ao homem que não tenha outros deuses (Ex.20.1-3). Parece muito simples o cumprimento desse mandamento dentro de uma cultura cristã. Todavia, o homem pode criar tantos deuses quantos o coração é capaz de fabricá-los: esposo, esposa, filhos, amigos, pessoas importantes, o próprio “eu”, dinheiro, bens, a felicidade etc. Por isso, não é estranho encontrarmos pessoas cheias de ídolos dentro das igrejas. Elas idolatram pastores, tradições, o prédio da igreja, cargos eclesiásticos, suas ideias, a denominação, a família, entre outros elementos presentes no contexto cristão. Quando isso ocorre, há grande possibilidade de que tais pessoas sejam apenas religiosas, servindo aos deuses que criaram em lugar do Criador, sem perceberem.
Dentre os deuses criados pelo coração do homem encontra-se o orgulho. Este é um dos piores deuses do coração, porque costuma ser sanguinário, disposto a destruir ou matar tudo o que se opuser à sua vontade. O cristão não pode ser orgulhoso (2Co.12.20), pois o Espírito do Senhor o libertou de toda soberba, arrogância, orgulho, vaidade e presunção, para que tenha uma vida humilde à semelhança de Cristo, que viveu como servo (Fp.2.5-11). O orgulho é pecado, obra da carne (1Jo.2.16), e o Senhor adverte sobre as consequências da arrogância: “Não multipliqueis palavras de orgulho, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca; porque o SENHOR é o Deus da sabedoria e pesa todos os feitos na balança” (1Sm.2.3). Como, então, um cristão poderia maquinar o mal para satisfazer o orgulho do coração, ou deixar de fazer o que é certo por soberba? Como um cristão poderia querer mostrar que manda na igreja ou que é superior a outra pessoa? Esse procedimento não é cristão, antes é maligno e procede do diabo (Sl.8.13). Ao cristão, no entanto, cabe a humildade e o prazer em servir, conforme Cristo nos ensinou: “Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mt.20.25-28).
Ser cristão, portanto, não significa estar numa igreja aparente nem possuir algum cargo eclesiástico. Ser cristão é andar com Jesus tendo sido liberto de toda idolatria do coração para amar somente a Deus “de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt.6.5). O cristão não possui ídolos, mas um único Deus que é Senhor absoluto sobre sua vida, conduzindo-a por meio da Palavra e do Espírito que são poderosos para transformar “de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co.3.18).
O segundo mandamento ordenado por Deus ao homem diz que não devemos fazer imagens do Senhor (Ex.20.4-6). Esse mandamento anda bem próximo do anterior, mas é diferente, pois, enquanto o primeiro mandamento proíbe a criação de novos deuses, o segundo mandamento proíbe a criação de falsas imagens a respeito do Verdadeiro Deus. Esse mandamento proíbe pintar ou esculpir imagens sobre Deus, assim como conceber ideias erradas sobre o Criador. Isso costuma ocorrer por meio das falsas concepções teológicas sobre quem é Deus. Vou explicar: Quando alguém conta algo sobre outra pessoa, então passo a ter uma impressão sobre esta pessoa baseada nas informações que recebi. Se as informações forem verdadeiras e justas, então a imagem que formarei sobre aquela pessoa também será verdadeira e justa, mas se as informações forem falsas, parciais ou injustas, então a imagem que terei da pessoa será uma imagem distorcida, falsa e injusta.
O mesmo ocorre com respeito a Deus. Só podemos saber quem é Deus por meio de sua autorevelação, afinal quem mais poderia revelar-nos quem Ele é senão Ele mesmo, como disse Paulo: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?” (Rm.11.33-34). Portanto, para conhecermos a Deus, precisamos recorrer à Escritura Sagrada com dedicada, zelosa, humilde, piedosa e temerosa atenção, a fim de que não incorramos no erro de criarmos uma imagem equivocada sobre Deus, a partir de uma má leitura de sua autorevelação.
Ser cristão, portanto, significa conhecer a Deus tal como Ele é, não como gostaríamos que Ele fosse. O verdadeiro cristão se contenta com aquilo que o Senhor quis revelar sobre si mesmo e se alegra em possuir o conhecimento do ser de Deus e de suas obras. O verdadeiro cristão zela pela Verdade, pois somente ela pode revelar quem realmente Deus é e a propaga, a fim de que muitos outros possam conhecer o Senhor. Ser cristão é andar com o verdadeiro Cristo, discernindo-o dos muitos falsos cristos que usurpam a glória de Jesus.
O terceiro mandamento ordenado por Deus ao homem diz que não devemos falar o NOME do Senhor em vão (Ex.20.7). Os judeus aplicam esse mandamento, principalmente, ao uso do TETAGRAMA, razão pela qual ele tornou-se impronunciável em nossos dias. Vale salientar que nem “JEOVÁ” nem “YAHWEH” são exatas e fiéis transliterações do TETAGRAMA, tendo em vista serem o resultado de especulações de estudiosos sobre sua possível pronúncia, ao induzirem algumas vogais às consoantes do NOME do Senhor. Os escribas judeus tinham tanto zelo pelo NOME do Senhor que apenas o escreviam, sugerindo em notas marginais que o leitor o substituísse na leitura, falando a palavra hebraica equivalente a termo Senhor ([adon]).
Todavia, a aplicação desse mandamento vai muito além do TETAGRAMA, pois o NOME do Senhor representa seu Ser. O verdadeiro cristão, portanto, não deve tratar Deus e suas obras de forma vulgar, banal. Piadas “religiosas” não são engraçadas, pois vulgarizam o ser de Deus, a noiva do cordeiro ou os dons do Espírito. O cristão deve andar piedosamente, falando apenas o que for justo e bom, de forma que “não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef.4.29).
O verdadeiro cristão não anda zombando daquele a quem diz amar nem permite que outros zombem do Senhor de sua vida. Devemos lembrar que “a boca fala do que está cheio o coração” (Lc.6.45), razão para que os lábios do cristão proclamem somente aquilo que é bom, santo, justo, verdadeiro e agradável a Deus, assim como “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp.4.8).
O quarto mandamento ordenado pelo Senhor ao homem diz que devemos guardar um dia para descansarmos na presença DELE (Ex.20.8-11). Mesmo estando entre os demais mandamentos morais, confirmados por Cristo (Mt.22.40) em seu sermão do monte (Mt.5-7), o quarto mandamento sofre grande resistência por parte de muitos cristãos de nossos dias que o confundem com o ritual sabático de Israel, que exigia a prática do sacrifício: “No dia de sábado, oferecerás dois cordeiros de um ano, sem defeito, e duas décimas de um efa de flor de farinha, amassada com azeite, em oferta de manjares, e a sua libação; é holocausto de cada sábado, além do holocausto contínuo e a sua libação” (Nm.28.9-10). O ritual sabático de Israel foi ordenado por Deus para que apontasse a vinda de Cristo (1Co.5.7; Cl.2.16; 1Pe.1.19), e não deve ser confundido com o quarto mandamento. Mesmo tão parecidos, os dois mandamentos são distintos, razão para que um permaneça enquanto o outro tenha alcançado seu cumprimento com a chegada do “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo.1.29).
Quando Cristo veio, cumpriu todos os rituais judaicos, pois o propósito deles era apontar para a obra redentora de Jesus, e o livro de hebreus explica isso muito bem (Hb.4.14; 9.14). Todavia, o quarto mandamento não é um ritual, mas uma lei moral semelhante a não matar, não adulterar ou não dar falso testemunho. Ou seja, o quarto mandamento é uma benção divina para o bem-estar do homem tanto em seu relacionamento com Deus quanto em seu relacionamento social. Esse mandamento exige, do homem, tempo de atenção para Deus, o Criador de tudo, e evita a exploração dos ricos sobre os pobres, pois garante o direito a um dia semanal de descanso para todos os homens. O quarto mandamento combate a avareza, pois o homem é obrigado a não trabalhar um dia da semana; combate o descaso com a adoração, pois o homem é obrigado a comparecer perante o Senhor; educa os filhos de Deus a terem uma vida regular de meditação na Palavra do Senhor; e, alimenta a esperança cristã na volta do Senhor Jesus, advertindo que “se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Cl.3.1-3).
Ser cristão é andar de tal modo com Jesus que dedique verdadeiro tempo para conversar com Deus e ouvir sua voz. Ou seja, o culto não deve ser uma tradição, apenas, nem mesmo um hábito mecânico. O cristão deve parar para dedicar tempo a Deus, não somente descansando o corpo, mas, sobretudo, o coração, em Cristo Jesus. Afinal se aquele que diz ser cristão não tem satisfação em dedicar algumas poucas horas para Deus, como poderá viver eternamente na presença de Deus? Portanto, o quarto mandamento é mais que uma ordenança divina: é uma bênção do Senhor para todos os que realmente o amam (Jo.14.21,23).
O quinto mandamento ordenado por Deus ao homem diz que todos devem honrar pai e mãe (Ex.20.12). O cristão não pode ser rebelde nem desobediente nem cheio de si mesmo, pois aquele que quer ser discípulo do Senhor Jesus, primeiro deve negar a si mesmo (Mt.16.24) e entregar toda a vida a Deus (Dt.6.5) disposto a submeter-se completamente à vontade de Deus (Jo.14.15), de forma que esteja pronto para ouvir todo ensino da Escritura: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros” (Hb.13.17). Quem acha que não precisa dar satisfação de sua vida para seus líderes, não está vivendo em acordo com a Palavra do Senhor e se esqueceu que o próprio Deus instituiu “pastores e mestres” “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos” (Ef.4.11-16), pois toda autoridade provém do Senhor (Rm.13.1) e a insubordinação é uma obra da carne (Tt.1.10), como disse Pedro: “Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno” (2Pe.3.17-18). Enquanto pai, mãe, esposo, líder político, conselho pastoral da igreja, chefe de seu trabalho ou outro líder não ordenarem algo que seja contrário à Palavra de Deus, os liderados tem obrigação de obedecê-los, pois “isto é justo” (Ef.6.1).
O sexto mandamento ordenado pelo Senhor ao homem diz que não devemos matar (Ex.20.13). Os judeus não entenderam esse mandamento, pois ao entregarem Jesus para ser morto por Pôncio Pilatos, disseram-lhe: “a nós não é lícito matar ninguém” (Jo.18.31). Ou seja, eles odiaram profundamente Jesus (Mt.27.18; Lc.19.14), armaram planos para entregar Jesus à morte (Mc.14.1), deram falso testemunho (Mt.26.60) com o propósito de incriminar Jesus, a fim de condená-lo à morte, mas não se consideravam transgressores do sexto mandamento. Eles não entendiam que a quebra dos mandamentos não ocorria diante dos homens, mas na presença do Senhor que conhece o mais íntimo do coração humano.
A melhor explicação sobre a amplitude do mandamento foi dada pelo Senhor Jesus em seu sermão do monte, mostrando para as multidões que até o mais religioso dos homens, bom aos olhos das pessoas, também é um pecador aos olhos de Deus, pois ninguém pode esconder os pensamentos de diante da face do Senhor:

Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento.  22 Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo.  23 Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,  24 deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta.  25 Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás com ele a caminho, para que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz, ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão.  26 Em verdade te digo que não sairás dali, enquanto não pagares o último centavo. (Mt.5.21-26)

Portanto, ser cristão é ter um novo coração capaz de negar a si mesmo (Mt.16.24), amar o próximo como a si mesmo (Mt.22.39) e ao irmão na fé assim como Cristo nos amou e morreu por nós (Jo.13.34-35). Isso só é possível andando com Jesus, pois Ele partilha de seu amor conosco para que amemos como Ele nos amou, a fim de que testifiquemos o poder da Palavra e do Espírito de Deus que opera eficazmente na vida daqueles que creem verdadeiramente em Cristo.
O sétimo mandamento ordenado por Deus ao homem diz que não devemos adulterar (Ex.20.14). É importante lembrar que o adultério aponta para duas ações distintas que podem ocorrer tanto de modo independente quanto unidas para a geração de um só ato: 1) engano ou traição; 2) imoralidade. Por essa razão, podemos falar em adulterar documentos, resultados e coisas semelhantes. O adultério envolve, portanto, a desonestidade pois aquele que o pratica quebra um contrato: a aliança conjugal. Dessa forma, o sétimo mandamento também proíbe a mentira, o engano, a traição, o fingimento, a desonestidade, a hipocrisia, a dissimulação e coisas semelhantes a estas. Além disso, este mandamento adverte quanto a obrigação de buscar uma vida santa, pura e piedosa, fugindo de tudo o que for imoral e impuro, mesmo que seja um pensamento ou palavra (Mt.5.28).
De forma semelhante ao que ocorre com o sexto mandamento, o Senhor Jesus nos ensina como devemos aplicar o sétimo mandamento (não adulterarás) ao mais íntimos sentimentos e pensamentos:

Ouvistes que foi dito: Não adulterarás.  28 Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela.  29 Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno.  30 E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo para o inferno.  31 Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio.  32 Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério. (Mt.5.27-32)

Ser cristão é ter uma nova disposição mental guiada pelo Espírito e pela Palavra de Deus, por meio dos quais as palavras de nossos lábios e o meditar de nosso coração são agradáveis na presença do Senhor (Sl.19.14). A melhor forma de vencer as tentações relacionadas aos desejos sexuais é mantendo a mente cheia da Palavra de Deus e os olhos fitos nas “coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Cl.3.1), através de uma vida cheia do Espírito de Deus (Ef.5.18) adquirida num andar diário com Cristo Jesus.
O oitavo mandamento ordenado pelo Senhor ao homem diz que não devemos furtar (Ex.20.15). Furtar é tirar do outro aquilo que lhe é de direito quer seja dinheiro, bens ou honra. Um cônjuge que não cumpre seu papel conjugal está roubando o direito que o outro tem de satisfazer sua necessidade sexual, pois diz a Escritura: “O marido conceda à esposa o que lhe é devido, e também, semelhantemente, a esposa, ao seu marido. A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim o marido; e também, semelhantemente, o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim a mulher” (1Co.7.3-4). O dono de uma empresa que não paga os funcionários corretamente está roubando deles o direito ao salário digno, pois diz a Palavra de Deus: “Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário” (1Tm.5.18). O cristão que não dá ao Senhor aquilo que lhe é devido (adoração, obediência, oração) está roubando de Deus todos os direitos que possui como Criador, pois assim diz o Salmo 100:

Celebrai com júbilo ao SENHOR, todas as terras.  2 Servi ao SENHOR com alegria, apresentai-vos diante dele com cântico.  3 Sabei que o SENHOR é Deus; foi ele quem nos fez, e dele somos; somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio.  4 Entrai por suas portas com ações de graças e nos seus átrios, com hinos de louvor; rendei-lhe graças e bendizei-lhe o nome.  5 Porque o SENHOR é bom, a sua misericórdia dura para sempre, e, de geração em geração, a sua fidelidade.

Ser cristão, portanto, é pensar no bem do próximo, como Jesus que abençoou sua geração manifestando a glória e graça do Senhor, de modo que “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres, anuncia-se-lhes o evangelho” (Lc.7.22). Por isso, o apóstolo Paulo ensina à igreja de Éfeso que o trabalho é um instrumento para abençoar vidas, não apenas para conquistar benefícios particulares: “Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado” (Ef.4.28); e, aquele que se nega a fazer da vida um instrumento de bênção está furtando das pessoas o direito de ser abençoado, visto que “aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando” (Tg.4.17).
O nono mandamento ordena que o homem não dê falso testemunho (Ex.20.16). O cristão não pode ser mentiroso, pois a Verdade o libertou, a fim de que viva nessa Verdade (Jo.8.32). De Deus jamais procede qualquer mentira, quer aparentemente “grande” quer “pequena” aos olhos dos homens. Jesus afirma que toda mentira procede do diabo que “é mentiroso e pai da mentira” (Jo.8.44). Todo diálogo com Jesus será fundamentado na Verdade enquanto que o diabo se satisfaz em falar mentiras. Portanto, o cristão não pode andar com Jesus e com o diabo ao mesmo tempo.
O cristão não pode ser fingido com as pessoas, com o propósito de agradá-las. O fingimento é uma marca do diabo que está sempre enganando as pessoas, iludindo as vítimas por meio do fingimento para destruí-las depois. Fingir que gosta de alguém ou que concorda com essa pessoa enquanto está maquinando o mal contra ela é algo maligno (2Tm.3.4) e Deus odeia essa malignidade, pois vem de Satanás (Jo.8.44). Foi assim que procedeu Judas, como narra o Evangelho de Lucas: “Jesus, porém, lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?” (Lc.22.48). Fingir ser bonzinho para atrair as pessoas para si mesmo enquanto mente e engana é um papel do anticristo (2Ts.2.3-4), portanto jamais poderia vir de um verdadeiro cristão.
Esse mandamento também é uma advertência contra todo relativismo e pluralismo. A relativização da Verdade não passa de uma mentira, pois afirma que a Verdade não existe. Ao negar a existência da Verdade, o relativismo nega tanto a veracidade da Escritura Sagrada, que é a Verdade (Jo.17.17), quanto a existência de Deus, de quem procede toda Verdade (Sl.19.7-10). Do mesmo modo, a pluralização da Verdade transforma as pessoas em senhoras da verdade, deuses de si mesmo que só precisam ouvir a si mesmas. Portanto, o relativismo e o pluralismo são, por natureza, ateístas, ou seja, quebras tanto do nono mandamento quanto do primeiro mandamento.
O décimo mandamento ordenado pelo Senhor ao homem diz que não devemos cobiçar (Ex.20.17). A cobiça é resultado da necessidade que coração pecador tem de satisfazer-se. O homem quer ser feliz, mas não sabe como alcançar essa felicidade. Então, ele cobiça as coisas ao seu redor, pensando que alcançará a felicidade por meio delas. A cobiça, portanto, está arraigada na idolatria, sendo uma quebra do primeiro mandamento, também. Por isso, a cura para a cobiça não é a realização de todos os desejos, mas a plena satisfação em Deus de forma que o coração não sinta necessidade de nada mais, pois alcançou, no conhecimento de Deus, a plena felicidade que somente o Espírito Santo pode conceder ao homem.
O salmista Davi afirma que a graça do Senhor basta para aquele que anda com Deus (Sl.63.3). Afinal, o Senhor é a fonte da vida (At.3.15) e da nova vida (Ez.36.26-27; Hb.12.2), causa e propósito da existência humana, “porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente” (Rm.11.36). Antes de Jesus ir para a cruz, consolou os discípulos prometendo voltar (ressuscitar) para que eles estivessem onde Ele está, ou seja, no Pai (Jo.14.3). Quando a obra redentora fosse consumada (Jo.19.30), Cristo disse que “o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar” (Jo.16.22). Portanto, a felicidade dos discípulos estaria alicerçada em Cristo e procederia do Espírito do Senhor.
Como, então, um coração satisfeito por Cristo cobiçaria as coisas desse mundo? O profeta Jeremias proclamou a perplexidade de Deus diante de Israel, pois o povo havia trocado o Deus da glória pelos anseios do coração idólatra: “Houve alguma nação que trocasse os seus deuses, posto que não eram deuses? Todavia, o meu povo trocou a sua Glória por aquilo que é de nenhum proveito.” (Jr.2.11). Aquilo que o profeta falou sobre a idolatria do povo, aplica-se às mais diversas cobiças do homem, pois quando Deus não satisfaz o coração, as pessoas murmuram diante do que têm e cobiçam aquilo que não têm. Desse modo, o decimo mandamento proíbe a inveja e a insatisfação, assim como ordena o contentamento em Deus. Paulo disse que “aprendeu a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp.4.11), de forma que mesmo passando por todo tipo de problema e privação, não reclamou da vida, antes deu graças a Deus por tudo (Ef.5.20). Esse contentamento decorre de uma vida cheia do Espírito de Deus, de um coração plenamente satisfeito com o conhecimento de Cristo.

Ser cristão é andar com Cristo, cheio do Espírito Santo, em santidade de vida, rumo à cidade celestial preparada para o povo de Deus. Não basta estar na igreja, é preciso ter o coração convertido como disse o profeta Ezequiel: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez.36.26-27). É esse coração novo que sempre estará arrependido de seus pecados e buscará a vontade do Senhor. É esse coração novo que luta contra as obras da carne, por meio do Espírito do Senhor, e vence os desejos da natureza pecadora que ainda insiste em habitar no homem (Gl.5.16-23).
Então, você é realmente um cristão? Você sabe quem é Cristo e o que Ele fez na cruz? Você realmente nasceu da Palavra e do Espírito do Senhor? Você tem prazer em viver uma vida para Cristo? Seu coração foi quebrantado pelo poder de Cristo para uma vida humilde? Então, mostre essa nova vida por meio de seu dia a dia, em palavras e atitudes, firmado na Verdade que é a Palavra de Deus e cheio de frutos de justiça decorrentes de uma vida cheia do Espírito Santo, pois o verdadeiro cristão é aquele que anda o tempo todo com o Senhor Jesus.




quinta-feira, 10 de maio de 2018

Escravos das emoções

Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração” (Dt.6.5-6)

Entre 1591 e 1595, Shakespeare escreveu o que se tornou, provavelmente, o romance mais conhecido no mundo: Romeu e Julieta. Nesse romance trágico, Romeu e Julieta vivem um amor proibido por causa de brigas entre as famílias. Sem que os pais de Julieta soubessem de seu relacionamento com Romeu, decidem casá-la em Paris, mas o frei que faria a cerimônia arma um plano para ajudar Romeu e Julieta a ficarem juntos. Julieta deveria beber uma poção que faria com que ela parecesse morta, a fim de Romeu resgatá-la no cemitério. Todavia, Romeu é avisado da morte de sua amada antes do frei contar-lhe o plano. Por essa razão, o jovem toma uma poção venenosa e morre ao lado de Julieta. Após acordar, Julieta encontra seu amado morto e, tomando seu punhal, se mata ao lado dele. Eles haviam entregue o coração um para o outro, por isso não suportaram a ideia de viverem sem a pessoa que tanto amavam.

O sentimento entre Romeu e Julieta seria amor ou escravidão emocional? Não seria possível que eles vivessem felizes mesmo diante da perda de alguém que amavam? Seria certo dizer que dependemos de alguém para viver? As questões levantadas em torno desse romance trágico devem chamar nossa atenção para a atual condição emocional em que vive a sociedade tão dependente das paixões. Por que os homens não conseguem mais lidar com as perdas da vida? Cônjuges entram em colapso por causa de crises no casamento. Pais perdem o desejo de viver após a morte de filhos. Jovens casais dizem não conseguir mais ficar sem o outro. E, consequentemente, consultórios de psicólogos estão cheios (e não secam), sem saber qual o real problema do homem nem muito menos sua solução.

O estado de espírito das pessoas tem dependido completamente das circunstâncias, razão para multidões estarem infelizes e “depressivas”; emocionalmente doentes. A felicidade é procurada no dinheiro, no prazer, no lazer e nos relacionamentos, tornando-se uma mera satisfação tão passageira quanto os momentos da vida. Então, a indústria do lazer investe pesado, a fim de proporcionar momentos agradáveis para pessoas infelizes, pois o único meio de alegrá-las é oferecendo alguma distração momentânea; grupos religiosos que se dizem cristãos promovem diversas programações atraentes para motivar pessoas vazias, sem qualquer alegria em Cristo; e, indústrias farmacêuticas têm lucros elevados com a venda de remédios que escravizam seus dependentes e escondem o verdadeiro problema da alma humana: amor mal direcionado.

Um quadro irônico do filme “Meu malvado favorito 2” retrata bem o que estamos dizendo: Gru se apaixona pela colega de trabalho Lucy Wilde. Na manhã seguinte, ele acorda animado, brincalhão, cantarolando e cumprimentando todas as pessoas na rua, em seu caminho até chegar ao trabalho. Lá, Gru recebe a notícia de que Lucy será transferida para a Austrália e que, portanto, não poderia vê-la, mais. Então, ele volta para casa cabisbaixo, tratando mal todos à sua frente, como se a vida não tivesse mais sentido. Onde estava a causa da aparente felicidade dele? A alegria de Gru era circunstancial e dependia completamente daquela para quem ele havia entregue seu coração: Lucy. Por isso, cedo, Gru viu as implicações de amar demasiadamente alguém, colocando a esperança da própria felicidade sobre essa pessoa, pois “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt.6.21).

O amor demasiado entre namorados, cônjuges e familiares tem sido fonte de muitas angústias, tendo em vista a instabilidade natural da vida humana marcada por defeitos e finitude. Não é incomum ouvirmos pessoas dizerem para alguém: “Você é minha razão de viver!” “Amo você mais que tudo!” “Meus filhos são minha joia mais preciosa!” “Por você eu faço qualquer coisa!” Tudo isso parece muito bonito, afinal o casal deve se amar e o bem mais precioso (dentre as bênçãos divinas) de uma pessoa é sua família (Pv.19.14). No entanto, essas pessoas realmente não sabem o que estão dizendo nem muito menos as implicações daquilo que estão falando, mesmo que estejam dizendo a verdade, pois realmente tornaram-se bastante dependentes de outra pessoa. Todavia, será que isso é realmente bíblico? Será que devemos dedicar todo nosso amor às pessoas, mesmo que seja um familiar? Será que esse é, realmente, o amor que Deus nos ordenou?

NÃO! Definitivamente Deus não nos ensinou a amarmos as pessoas, mesmo familiares, com todo nosso amor. Os três grandes mandamentos sobre o amor, sabendo que deles “dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt.22.40), ordenam que somente Deus seja amado “de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt.22.37), que o próximo seja amado do mesmo modo que cada pessoa se ama (Mt.22.39) e que os cristãos devem amar uns aos outros como Cristo nos amou (Jo.13.34-35). Portanto, não há qualquer mandamento que faça alusão a um amor demasiado direcionado para pessoas ou coisas, afinal mesmo Jesus, que morreu numa cruz para nos salvar mostrando seu grande amor para conosco (Rm.5.8), não nos amou demasiadamente, pois antes de Cristo nos amar, Ele amou o Pai, e acima de seu amor para conosco, estava o amor dEle para com Deus. Por isso, Jesus não levará todas as pessoas para o novo céu e nova terra (Ap.21.1-7), mas somente aqueles que o Pai lhe entregar (Jo.6.37).

O primeiro problema em amarmos as pessoas “de todo o coração” é que esse amor deve ser destinado somente para Deus, e não pode ser dividido com mais ninguém, pois “o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt.6.4). Além disso, Jesus disse que “ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro” (Mt.6.24). Portanto, ao entregar o coração para alguém, o homem está deixando de amar a Deus “de todo coração”, ferindo assim o grande mandamento da Lei (Dt.6.5). Deus é o Criador de tudo e todos, e tem o direito de exigir que toda sua criação o ame de “de todo o coração”, pois, para isso, foi criada. Então, desviar esse amor para outro ser é roubar do Senhor aquilo que lhe é de direito.

Além de ser pecado, o amor “de todo coração” direcionado para homens ou mulheres traz sérias consequências para a mente. Devemos lembrar que tudo nesse mundo se acaba: as coisas se estragam (Mt.6.19), as pessoas cometem erros (Rm.3.10-18) e todos morrem um dia (Gn.3.19). Portanto, colocar o coração sobre coisas ou pessoas, falhas e finitas, é semelhante a construir uma casa sobre a areia: quando a forte tempestade vier derrubará tudo, deixando o coração desabrigado, sem um lugar firme e seguro para repousar. Consequentemente, ao perderem aquilo que tanto amavam, as pessoas perdem, também, o prazer de viver, pois estavam fortemente presas (dependentes) ao relacionamento. Essa é uma das principais razões do elevado número de pessoas emocionalmente doentes, em nossos dias. Afinal, somente Deus é perfeito, imutável e eterno, uma firme Rocha onde podemos repousar o coração.

As gerações estão cada vez mais emotivas. O pós-modernismo misturou o racionalismo renascentista/iluminista com o sentimentalismo do romantismo neoplatônico. A mistura resultou numa geração confusa que se entrega às paixões enquanto acredita que a ciência tem resposta para todas as coisas da vida. Dessa forma, as pessoas buscam fortes emoções, amando demasiadamente outras pessoas e coisas, mas negam que seus problemas possam ser resolvidos pelo Criador, pois se orgulham demais nas faculdades mentais do ser humano; “inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Rm.1.22). O resultado dessa mutação é a depressão em larga escala, pois o homem está completamente perdido em seus sentimentos e pensamentos; totalmente dependente das relações humanas para preencher o vazio do coração sem Cristo.

Ao contrário do que os “cientistas” pensam, a cura para os problemas emocionais do ser humano foi dada há, aproximadamente, 3400 anos atrás, quando Moisés escreveu a revelação de Deus, dizendo: “Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração” (Dt.6.5-6). O homem sente a necessidade de amar e ser amado; ele sente a necessidade de devotar todo seu amor para alguém, tornando esse alguém o propósito de sua vida. Então, não conhecendo a Deus, o homem procura outro ser para amar, sem se aperceber que esse alguém não é capaz de fazê-lo verdadeiramente feliz. Por isso, ao perder aquele que era alvo de todo seu amor (cônjuge, filhos, pais ou outra pessoa), o homem perde, também, o propósito de sua vida, experimentando o vazio do coração, sentindo-se profundamente infeliz.

Essas pessoas precisam ser libertas da escravidão emocional em que se encontram. Elas não conseguem se libertar daquilo que as aprisionam e, nessa dependência servil e doentia, vivem infelizes sem propósito para existir. Elas precisam ser direcionadas para Cristo, “pois, se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo.8.36). Somente Jesus pode libertar esses pobres corações dependentes, para que nunca mais sofram por causa de perdas da vida; somente Cristo pode dar-lhes capacidade para amarem ao único que é poderoso para fazê-las plenamente felizes sem que jamais mude, falhe ou morra: Deus, o Criador e Senhor de tudo. Apenas em Cristo, as pessoas conseguirão viver plenamente felizes “em toda e qualquer situação” da vida (Fp.4.11).

Portanto, a cura da sociedade está na pregação da Palavra de Deus e na operação do Espírito Santo, não em programações atraentes e momentâneas que massageiam o ego do homem por algum tempo e logo passam, deixando-o vazio e infeliz. Amar a Deus de todo o coração é a solução para as mais diversas angústias da vida humana, pois esse amor é inabalável, eterno e pleno. Corações entregues completamente (e unicamente) a Deus são fortalecidos pelo Senhor, a fim de suportarem todas as intempéries da vida. Por meio desse amor, o homem encontra causa e propósito para sua vida, pois tem no Criador sua origem e o alvo de todos os seus esforços. Através do verdadeiro relacionamento com Deus, por intermédio de Cristo, o homem recebe todo amor que precisa, na medida certa e da forma correta, e tem o prazer de devotar todo seu amor para aquele que é digno de recebê-lo, sabendo que jamais será abandonado, frustrado, trocado ou abalado.

Deus nos fez para si mesmo, por isso sentimos tanta necessidade de devotar todo nosso amor para alguém. Portanto, entregue seu coração para o único ser que jamais lhe deixará na mão, pois é fiel e eterno. Somente assim, você deixará de ser escravo(a) de emoções e será capaz de suportar as muitas perdas da vida. Isso não significa deixar de amar pessoas: cônjuges, filhos, parentes e amigos. Todavia, significa que seu coração não se abalará mais quando os perder por alguma razão, pois seu coração estará bem firmado sobre a Rocha que é Cristo Jesus; sua esperança estará bem guardada nas promessas do Senhor; e, sua felicidade emanará da certeza do amor que o Senhor tem por você, demonstrado na cruz do Calvário (Rm.5.8).

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Uma vida integralmente cristã


Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.” (Rm.14.17)

Quanto de sua vida é cristã? Parece estranha a pergunta, mas é assim que a geração pós-moderna (subjetivista) entende o cristianismo: uma questão de “fé”, apenas. Ou seja, para os cristãos de nossos dias, questões de fé são tratadas na “igreja”, e não há nenhuma relação com o trabalho, o estudo, a família, o comércio, a política, a arte, a economia e os diversos planos para a vida.

Fruto desse subjetivismo, surgiu a ideia que sobre “política, futebol e religião não se discute”. Ou seja, “cada cabeça é um mundo” e “o que é verdade para um não é verdade para o outro”. Todas essas frases mostram que a vida cristã tornou-se uma “mera religião” dentro do universo subjetivo de cada indivíduo. A conversão deixou de ser uma realidade objetiva operada no sujeito pecador. E sem o conceito de Verdade absoluta, a vida cristã também deixou de estar em acordo com essa Verdade que se distingue de toda mentira própria de um mundo em pecado.

Certo dia, fomos a uma loja de roupas e, enquanto minha esposa provava alguns vestidos, fiquei observando os detalhes da loja: a música ambiente era evangélica, as atendentes estavam vestidas com “saias jeans” características de algumas denominações, mas havia diversas roupas inapropriadas à venda (minissaias e shortinhos). Então, perguntei para uma das atendentes se o dono da loja era evangélico. A resposta foi afirmativa. Diante disso, questionei: “Como vocês conseguem vender algo que nem mesmo usariam, pois sabem que é indecente?”

Aqueles cristãos não conseguiam perceber a incoerência de suas ações. Para ficar mais claro, podemos dizer que seria semelhante a um cristão não usar drogas, mas vendê-las na rua para que outras pessoas vivam escravas das drogas. O cristão pode fazer isso? NÃO! Como é possível alguém pertencer ao Santo e Justo Rei, Senhor da glória, e ao mesmo tempo fazer papel de funcionário de Satanás, oferecendo ao mundo algo que é reprovado por Deus em Sua Santa Palavra?

O mesmo tem acontecido em diversas outras áreas da vida social: cristãos tocam na igreja glorificando a Deus, mas o negam em outros ambientes tocando músicas que desprezam o conhecimento do Senhor; cristãos adoram a Deus na igreja, mas ensinam nas aulas de biologia que tudo é fruto de uma evolução; cristãos defendem, na igreja, que Deus é justo e verdadeiro, mas são desonestos na administração dos bens e mentirosos nas transações comerciais.

A conversão tornou-se uma passagem de uma religião para outra, exigindo, apenas, um compromisso com “programações” de uma igreja local. O ativismo das igrejas locais tem ajudado a cegar seus membros e a falta de cuidado na pregação da Escritura tem mantido o povo sem o conhecimento da Verdade libertadora. Por essa razão, pessoas que participam das atividades de uma denominação consideram que isso as torna cristãs, mesmo que a vida diária esteja tão longe de Deus quanto se estivessem vivendo longe da igreja.

Para entendermos a integridade da vida cristã, precisamos entender, primeiramente, o Reino de Cristo, pois, conforme nos ensina Paulo, a conversão é uma passagem do império das trevas “para o Reino do Filho do seu amor” (Cl.1.13). Ou seja, o cristão é aquela pessoa que foi liberta pelo poder da Palavra e do Espírito de Deus, sendo por eles transportado da escravidão do pecado, do mundo e do diabo para viver uma vida santa, justa e agradável a Deus dentro do Reino de Seu Filho, Jesus Cristo.

Quando Jesus veio, trouxe consigo seu Reino glorioso, razão pela qual grandes maravilhas foram operadas por Ele e seus discípulos, mostrando ao mundo que o Reino dos céus estava chegando. Sua morte e ressurreição marcaram o estabelecimento do Reino de Deus entre os homens, e o Pentecostes confirmou tal presença concedendo, aos súditos desse Reino, poder para realizarem a vontade do Rei dos reis e Senhor dos senhores. A igreja, então, avança confiante, pois as portas do inferno não podem resistir ao poder da Palavra e do Espírito de Deus (Mt.16.18).

Mas, o Reino do Senhor Jesus não diz respeito apenas à evangelização ou aos cultos ou à pregação. Nesse Reino, tudo é novo e santo, justo e verdadeiro, amável e bom. Quando a Palavra e o Espírito de Deus convertem uma pessoa, ela é liberta de todo jugo do império das trevas para viver uma vida completamente nova no Reino de Deus. Por isso, tanto Jesus ensinou sobre a santidade (Mt.5-7) quanto os apóstolos aplicaram a obra redentora ao dia a dia das igrejas, de modo que todas as esferas da vida pessoal e social deveriam ser redirecionadas para Cristo por meio de um viver “de modo digno do Senhor” (Ef.4.1; Fp.1.27; Cl.1.10; 2 Ts.2.12).

Os cristãos, portanto, tem um jeito santo e agradável a Deus, dirigido pela Escritura Sagrada e pelo Espírito Santo, de trabalhar, estudar, se relacionar, viver em família, tratar os problemas, lidar com as tentações, se submeter às lideranças, administrar os bens, se envolver com a política, comer e beber, se divertir, fazer e apreciar a arte, educar filhos, procurar uma pessoa para casar, ver a si mesmo e aos outros e fazer planos para a vida. Essa é a nova vida que Jesus dá para aqueles que são alcançados pelo poder da Palavra e do Espírito de Deus. Tudo se faz novo (Gl.2.20)!

Isso ocorre porque a conversão atinge e muda aquilo que é mais essencial na vida: o coração. Conversão não é mudança de status social nem do pobre para o rico nem do rico para o pobre; conversão não é deixar alguns vícios, apenas: bebida, fumo, prostituição ou drogas; conversão não é mudança de roupa, apenas; conversão não é mudança de algumas ideias. A conversão é mudança de coração, pois do coração brotam todas as coisas, e somente Deus tem poder para fazer essa cirurgia (Ez.36.26-27). Quando ocorre a genuína conversão, o indivíduo é conduzido a deixar de amar a si mesmo, a fim de dedicar todo seu amor a Cristo, o Salvador. Como disse Jesus: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt.16.24).

Quando pessoas mudam coisas externas tais como: roupas, hábitos, ideias etc, mas não têm o coração transformado pelo poder de Deus, elas se tornam meras religiosas que serão parte de um igreja local, frequentarão as programações da denominação, mas não terão o fruto do Espírito Santo, pois são incapazes de produzir frutos de justiça, como disse Jesus: “Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons” (Mt.7.18).

Sua vida inteira é cristã? Tudo em você realmente glorifica a Deus: palavras, ações, intenções, ideias, satisfações, planos e motivações? Você já crucificou suas paixões, orgulho, desejos maus e pensamentos pecaminosos? Somente por meio da verdadeira conversão que ocorre no mais íntimo do coração, você viverá a inteireza de sua vida para a glória de Deus, como verdadeiro súdito do Reino dos céus. Portanto, corra para Cristo, pois somente Ele pode transplantar um novo coração em seu peito para que a nova vida, proporcionada pelo Espírito de Deus, pulse cheia de vigor dentro e fora de você.