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sábado, 14 de abril de 2018

Olhe para Jesus!

Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos” (Fp.4.4)

É tão comum encontrarmos problemas dentro das igrejas que o número de desigrejados tem crescido bastante. Ou seja, há tantos problemas causados pelos membros das mais diversas denominações que alguns deles, procurando fugir de tais problemas, se afastam definitivamente da comunhão dos santos, na tentativa de viver um cristianismo solitário. Outros saem da igreja local levados por uma espécie de síndrome de superioridade, pois consideram-se superiores aos demais irmãos que julgam estarem sempre errados. Portanto, o descuido dos cristãos no exercício de uma vida piedosa bem firmada em Jesus tem gerado diversos problemas tanto para a comunhão no seio da igreja quanto para o avanço do Reino de Deus. Melindre, maldade, maledicência, carnalidade e egocentrismo tem gerado contendas internas, disputas eclesiásticas, empecilhos na evangelização, além de expor um mau testemunho perante o mundo que tem encontrado diversos motivos para falar mal da igreja de Cristo, em nossos dias.

Contudo, por piores que sejam os problemas, a Escritura nos diz que eles também podem cumprir o bom propósito de auxiliar a revelar quem são os fiéis tanto com respeito à teologia quanto em relação a sua prática. A igreja de Coríntios possuía muitos problemas, principalmente de ordem moral, mas, diante de alguns desses problemas, o apóstolo Paulo disse: “Porque até mesmo importa que haja partidos entre vós, para que também os aprovados se tornem conhecidos em vosso meio” (1Co.11.19). Ou seja, muitos problemas ajudarão a igreja a ver quem são os fiéis que não abandonam a fé por causa de dificuldades nem negam Cristo por causa da pressão das pessoas nem trocam Jesus por causa da sedução do mundo nem se rebelam diante da disciplina do Senhor nem tentam prejudicar a obra de Cristo quando são desagradados etc.

Mesmo assim, não devemos almejar que a igreja de Jesus viva em constante conflito e deficiência. Ver o povo de Deus andando fielmente e alegremente com o Senhor é algo bom, pois demonstra maturidade na fé, amor fundamentado na Verdade e firmeza na esperança da glória a ser revelada dos céus (1Ts.1.3). Por essa razão, Paulo combateu diversos pecados e problemas através do fiel ensino da Palavra de Deus, de forma que, em todas as suas cartas, encontramos o apóstolo conduzindo os cristãos a Cristo, a fim de que, olhando para o Senhor e Salvador, pudessem viver uma vida cristã autêntica em que fosse “Cristo engrandecido” “quer pela vida, quer pela morte” (Fp.1.20).

Qual, então, a solução do Senhor para que a igreja viva uma vida plena? A resposta é Cristo! Na ocasião em que escreveu a carta aos filipenses, Paulo estava preso. Portanto, o apóstolo tinha um problema que tanto poderia entristece-lo quanto poderia dificultar o avanço do evangelho. Então, olhando para Cristo, Paulo motiva a igreja a alegrar-se em Jesus, viver de modo digno do Senhor e descansar o coração naquele que a salvou. Toda a carta aponta para Cristo, tanto como fundamento da fé quanto como exemplo de vida que deve ser seguido por todos. Tudo gira em torno de Cristo, pois somente nEle os filipenses poderiam dar graças a Deus mesmo diante das dificuldades (Fp.1.3-11); conseguiriam ver que as cadeias não impediam a pregação da Palavra de Deus (Fp.1.12-26); seriam capazes de lutar juntos pela fé que lhes fora entregue, esvaziando-se de si mesmos (Fp.1.27-2.18); teriam forças para buscar aquilo que é de Cristo, não apenas o que é próprio (Fp.2.19-30); resistiriam aos falsos profetas por meio da plena convicção da Verdade que lhes fora ensinada fielmente (Fp.3.2-21); superariam as diferenças e a ansiedade, a fim de terem apenas o que é puro e verdadeiro na mente e no coração (Fp.4.2-9); e, venceriam, com firmeza, todos os obstáculos da vida, a fim de não desistirem jamais da caminhada cristã (Fp.4.10-20).

É preciso olhar para Cristo! Dificilmente os problemas criados pelos cristãos não estão relacionados à deficiência no olhar para Cristo. Uns não compreendem Cristo, pois não se esforçam por entendê-lo; outros não olham atentamente para Cristo, como deveriam, mostrando-se incapazes de imitá-lo em tudo; há quem olhe mais para si mesmo, ou para outras pessoas, do que para Cristo, alimentando uma espécie de egocentrismo ou idolatria; e, há quem desvie os olhos de Cristo, deixando-se levar por seduções desse mundo que “jaz no maligno” (1Jo.5.19). Sempre contemplamos algo, pois, para isso, Deus nos deu olhos. Portanto, se não estivermos com os olhos fitos no Senhor Jesus, estaremos atentos ao mundo que está ao nosso redor. E já que o ser humano costuma aprender por mimetismo, ou seja, imitando, então nos tornamos parecidos com aquilo que tanto contemplamos seja bom seja ruim, quer Cristo quer o maligno.

Olhe para Cristo! Veja como Jesus pregou para as multidões e como ensinou seus discípulos preparando-os para transmitir o Evangelho ao mundo. Jesus não abriu mão da Verdade, pois veio cumpri-la (Mt.5.17-48) e mesmo diante da indisposição das pessoas não deixou de ensinar somente a Verdade (Jo.6.22-71). Jesus não se intimidou diante dos adversários que tentavam prendê-lo (Mt.23.1-39) nem atraiu pessoas por meio de carisma, mas por intermédio da pregação do Evangelho (Mc.1.38). Jesus falava abertamente e era sincero com todos, mesmo quando a Verdade machucava o coração orgulhoso do ser humano. O falar de Cristo era manso e suave para com os quebrantados e arrependidos (Mt.11.28-29), mas firme e duro ao se dirigir para os hipócritas e enganadores (Mt.23), pois tanto recebia com amor aqueles que queriam ser transformados pelo poder da Palavra de Deus quanto lutava contra todos que desviavam o povo de Deus dos santos caminhos do Senhor.

Olhe para Cristo! Contemple o viver de Cristo que andou humildemente entre os pecadores, pois “se esvaziou, assumindo a forma de servo” (Fp.2.7), servindo sua geração com graça e amor, dizendo: “sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo.13.14-15). Observe o sacrifício de Jesus por meio do qual todo aquele que nEle crê recebe a vida eterna (Jo.3.16) e imite-o entregando, totalmente, sua vida ao Senhor para que outras pessoas possam ser abençoadas por meio de seu falar e agir, não vivendo mais para si, mas para aquele que por nós morreu. Veja o grande amor de Cristo pelo Pai a quem dedicou sua vida para fazer exatamente a vontade do Senhor. Portanto, olhe para aquele que tanto é poderoso para salvar quanto para nos fazer frutíferos, por meio de seu Espírito e Palavra que nos foram dados graciosamente.

Para que seu olhar esteja direcionado a Cristo, você precisará “negar a si mesmo” (Mt.16.24), deixando, assim, de contemplar a própria vida. Em si mesmo, você encontrará fraquezas e pecados que o afastarão do Senhor e o desmotivarão durante a caminhada cristã. Porém, em Cristo, você encontrará força e santidade que tanto o confortarão diante das adversidades quanto o motivarão a continuar lutando pelo Senhor, na certeza de que Deus está presente para capacitá-lo a ser fiel e abundante na obra, “sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1 Co.15.58).

Olhando para Jesus, não há como desistir nem desanimar, pois nEle sempre encontraremos poder para vencer as tentações, resistir ao inimigo, superar as tribulações. Olhando para Jesus, lutamos por algo superior ao que pode ser oferecido nesse mundo, pois lutamos por uma pátria celestial que do céu será manifesta para aqueles que perseverarem até o fim. Olhando para Jesus, temos uma verdadeira compreensão sobre a igreja, pois entendemos tanto sua glória quanto suas fraquezas, tendo em vista que ela já desfruta do Reino de Deus, mas ainda não em sua plenitude. Somente por meio de um firme e constante olhar para Cristo, cada cristão saberá lidar com as fraquezas e os defeitos dos irmãos, bem como tratar as próprias lutas travadas no coração; saberá viver de modo digno do Senhor para que Deus seja glorificado na humildade, na santidade, na pureza, na bondade, na submissão, na fidelidade, na paciência, na compaixão, na justiça e na integridade presente em todos os relacionamentos de um povo que existe por Cristo e para Cristo. Portanto, olhe para Jesus e não desvie seu olhar dEle, sabendo que somente Cristo pode sustentar você até o fim, preservando-o para o dia de seu glorioso retorno.



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Perigos nos contos de fadas

Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas caducas. Exercita-te, pessoalmente, na piedade.” (1Tm.4.7)

Você já observou que as histórias bíblicas são reais e límpidas, pois não visam agradar aos leitores, mas ensinar-lhes a Verdade sobre o desenrolar da história redentora? Quando lemos sobre os grandes personagens da história da salvação, descobrimos que erraram e sofreram consequências. Somos ensinados que as vitórias do povo de Deus não vinham da força do valente, mas da manifestação da graça divina em favor de seu povo. Nas histórias bíblicas, nem sempre os “mocinhos” conseguem o que querem, de forma que nem mesmo a Moisés foi permitido entrar na terra de Canaã (Dt.3.23-28). São essas mesmas histórias que Deus ordena que sejam ensinadas para toda a família, desde a criança mais tenra (Dt.6.5-7), sem ocultar nem a graça divina nem os pecados do povo (Ex.13.14-15; Dt.6.20-25), a fim de que todas as gerações conheçam a Verdade sobre o problema do pecado e, também, a salvação graciosa do Senhor.

Antes do surgimento dos contos de fadas como os conhecemos hoje, as estórias contadas para as crianças visavam alertá-las quanto aos perigos do mundo. Por essa razão, os contos não tinham finais felizes nem eram melosos. Então, no século XVII, Charles Perrault (1628-1703) deu início a uma nova forma de escrever para o novel público, introduzindo, na literatura infantil, os contos de fadas, nos moldes conhecidos em nossos dias, dentre os quais estão: Cinderela, a Bela Adormecida, Barba Azul, o Gato de Botas, Chapeuzinho Vermelho, as Fadas e o Pequeno Polegar. Seu objetivo era amenizar o peso das estórias, a fim de não chocar nem amedrontar as crianças, proporcionando-lhes bem-estar na relação com as estórias infantis.

Charles Perrault foi bem-sucedido em seu propósito, de modo que é difícil não ser atraído para o mundo dos contos de fadas que alimentam, no leitor, sonhos e esperanças adornados por alguns valores morais. Se é assim, qual a razão de refletirmos sobre os perigos nos contos de fadas? Não seria bom alimentar a esperança das pessoas, motivando-as a não desistirem de seus sonhos? Talvez! Mas, e se esses sonhos estiverem alicerçados em ilusões? E se essa esperança estiver focada em conquistas meramente físico-materiais? E se os contos de fadas direcionarem os olhos das pessoas para si mesmas, desviando-as da felicidade eterna que se encontra somente em Cristo? Diante de tudo isso, veremos que o inocente mundo dos contos de fadas pode ser uma larga estrada rumo a uma vida de ilusões.

Gostaríamos de mostrar três problemas encontrados nos contos de fadas: 1) os contos de fadas conduzem as pessoas para longe da realidade; 2) os contos de fadas conduzem as pessoas para uma esperança de felicidade terrena; 3) os contos de fadas conduzem as pessoas para supostos elementos redentores, à parte de Cristo. Observe-se que mencionamos pessoas, em vez de nos referirmos apenas às crianças, porque os contos de fadas alcançam públicos de todas as faixas etárias, tornando-se um instrumento perigoso para a educação de toda a sociedade, a partir da criança, ensinando-lhe a viver e desejar o irreal, em um mundo sem Deus nem necessidade de redenção.


1.      Os contos de fadas conduzem as pessoas para longe da realidade

Antes de tudo, é importante salientarmos que não devemos confundir conto de fadas com figuras de linguagem, pois enquanto estas servem para enfatizar e esclarecer uma mensagem relacionada à realidade, aquele cria um mundo completamente imaginário em que a realidade costuma ser irrelevante. Os contos de fadas são narrativas fictícias em que diversos elementos fogem da realidade, oferecendo modelos ilusórios para a vida. Neles, as mulheres são sempre lindas tanto de rosto quanto de corpo, encantadoras no modo de agir e falar e praticamente não cometem erros. Os homens são príncipes bonitões, corajosos, educados, gentis, amorosos e impecáveis no modo de falar e agir. Além desses, encontramos os super-heróis com força, inteligência e conquistas irreais, mas deslumbrantes, apresentadas de tal forma que induzem a criança, o jovem e até o adulto a almejarem tais coisas. Todavia, elas não existem!

Além disso, nos contos de fadas não existe Deus, de forma que a felicidade “eterna” é depositada nas mãos de personagens que sempre se dão bem no final de tudo. Para os protagonistas, não há morte; não há frustrações; não há pecados. Os únicos inimigos são os personagens malignos vencidos pela força, até desaparecerem ou serem aniquilados. Ignora-se completamente o maior adversário do ser humano: o pecado, alimentando, assim, uma fé em si mesmo. E todo aquele que se coloca no caminho entre o príncipe e a princesa é considerado inimigo, como se toda orientação contrária aos relacionamentos fosse má e o amor romântico fosse o principal propósito da vida.

Os contos de fadas, portanto, distanciam as pessoas da realidade, oferecendo-lhes um mundo imaginário, em vez de motivá-las a trabalhar sobre o mundo em que elas vivem, a partir da esperança de transformação do ser imperfeito. Estimula-se um olhar superestimado sobre si mesmo, supervalorizando o “eu” enquanto se ignora a necessidade de combater o próprio coração pecador. O problema encontra-se sempre no outro, semelhante à “síndrome de Adão”, como se o universo girasse em torno dos protagonistas da narrativa, contribuindo para a satisfação de suas vontades. Ocorre, então, a exaltação da natureza humana, onde o homem é um príncipe imaginário e a mulher, uma donzela encantada, motivando o desejo pelo estereótipo utópico oferecido tanto no príncipe quanto na princesa.

Após contato com os contos de fadas, os leitores estarão inclinados a desprezar a realidade tão díspar do imaginário. Semelhante aos personagens fictícios, os homens desejarão mulheres encantadas que jamais perdem a beleza e a compostura enquanto as mulheres procurarão príncipes matadores de dragões e montados em cavalos brancos. A busca, ou espera, inútil gera frustração e intolerância com a realidade. E, sem que tenham sido ensinados a lidar com a vida, homens e mulheres se angustiam com o presente, preferindo trocar aqueles que não se enquadram em seus sonhos a se esforçar para conviver com eles, quer marido quer esposa, sejam pais sejam filhos.

Nos clássicos contos de fadas, não há lugar para o imperfeito nem necessidade de restauração do ser. Todo problema possui cunho meramente social, pois os personagens não partilham da natureza pecadora. Portanto, ocorre a idealização do homem perfeito sem, contudo, apresentar a realidade caída da natureza humana, para que ocorra sua restauração por meio do agir gracioso e eficaz de Deus dentro do coração. O pecado, então, está sempre fora do indivíduo e sua redenção se encontra na luta contra o “outro”, motivando, assim, toda e qualquer resistência ao que não favorece o ideal particular de felicidade. E para que vençam os inimigos, os protagonistas devem ter autoconfiança, ou seja, uma fé inabalável em si mesmos.


2.      Os contos de fadas conduzem as pessoas para uma esperança de felicidade terrena

Em todos os contos de fadas, os protagonistas buscam a felicidade terrena. A morte é sempre o fim de tudo, dentro de um universo fatalista, de modo que a felicidade deve ser buscada aqui e agora. Não havendo Deus, não há esperança de vida eterna nem “refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações” (Sl.46.1). Tudo depende da força e inteligência dos heróis. E estando o homem no centro do universo, todas as coisas devem colaborar para seu bem-estar, durante os dias de sua vida. Por essa razão, a infelicidade é retratada pela ausência de um relacionamento amoroso ou através da presença de problemas cotidianos ou por meio de uma vida simples marcada por afazeres comuns diários. Basicamente, é infeliz ser uma pessoa normal com habituais problemas corriqueiros.

A esperança é um dos principais temas dos contos de fadas. Ele está presente antes do protagonista iniciar sua jornada rumo à conquista da felicidade; está presente durante a jornada, principalmente nos momentos em que aparecem obstáculos aparentemente intransponíveis, a fim de motivar o herói a não desistir de seus sonhos; e, está presente no final de tudo quando, finalmente, o mocinho alcança sua felicidade, motivando, assim, os leitores a não desistirem de seus desejos, por mais difíceis que pareçam ser. Toda esperança é concretizada por meio do alcance da felicidade proporcionada pelo amor romântico, desfrute da prosperidade e bem-estar encontrado numa vida tranquila e sem problemas.

Como devem ter percebido, encontramos três principais motivos da felicidade nos contos de fadas: O principal dos três motivos costuma ser a relação amorosa. Príncipes e princesas percorrem longas jornadas até o casamento, onde alcançarão a felicidade. Todo esforço dedicado visa o “sagrado” encontro e “imaculado” beijo, a fim de que sejam “felizes para sempre”. Neste universo romântico, os inimigos são aqueles que procuram impedir que a felicidade seja alcançada por meio da concretização do laço matrimonial entre os protagonistas. Estimulados pelo ideal de felicidade através de realização amorosa, uma sociedade educada por contos de fadas encontra, na “incompatibilidade” e “falta de sentimento”, justificativas para o divórcio, visando encontrar a felicidade num suposto par perfeito.

Em segundo lugar, normalmente atrelado ao romance, encontramos a conquista material. Quando a razão da felicidade é a prosperidade, a jornada dos protagonistas visa a conquista de grandes coisas. Os personagens moram em castelos, vestem os mais finos trajes, calçam sapatinhos de cristais, andam em carruagens espetaculares e possuem serviçais a sua disposição. O trono torna-se símbolo de máximo êxito e motivo de felicidade plena, motivando os leitores a buscarem, nas conquistas materiais, a fonte da felicidade humana. Diversos protagonistas percorrem uma jornada que vai da pobreza e simplicidade à riqueza e luxúria, como no conto da Cinderela. Não há pobres felizes nem pessoas simples plenamente satisfeitas, pois em ter mais está o segredo para a felicidade, despertando, assim, a ambição e avareza, descontentamento e materialismo naqueles que são influenciados por tais contos de fadas.

Um terceiro motivo da felicidade de personagens de contos de fadas é a vida tranquila e sem problemas, ou seja, uma felicidade contextual. Nesse caso, os problemas tornam-se grandes vilões que impedem que pessoas sejam felizes. Portanto, as circunstâncias moldam o contentamento dos protagonistas que anseiam por uma vida estável e confortável, tranquila e sem contrariedade. Diante das adversidades, a esperança dos personagens é posta sobre o alcance do retorno à tranquilidade outrora desfrutada. Não há contentamento em toda e qualquer situação nem fortalecimento de uma esperança no porvir, pois tudo que existe é o aqui e agora. Sendo assim, caso a tranquilidade não seja alcançada, nada mais resta para fundamentar o contentamento que deveria estar presente no coração, mesmo em dias maus. E não havendo nada sólido para servir de base ao edifício da felicidade, aqueles que são iludidos pelos contos de fadas sentem-se completamente infelizes na vida real, pois esperam alcançar a satisfação de uma vida sem problemas.

Em todos os três motivos, o leitor é induzido a confiar sua felicidade a grandes feitos temporários em sua vida, como se nada mais houvesse após a morte. A esperança, então, é curta e provisória, frágil e incerta, pois fundamenta-se em coisas passageiras e vulneráveis. E por mais felizes que pareçam ser os protagonistas dos contos de fadas, tais “finais felizes” são meras ilusões, pois ignoram a realidade de um mundo que “jaz no maligno” (1Jo.5.19) e está reservado “para o dia do juízo e destruição dos homens ímpios” (2Pe.3.7). Por isso, Jesus advertiu com respeito a que “não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt.6.19-21). Desse modo, os contos de fadas ajudaram a criar uma geração descontente com tudo, pois aquilo que lhes fora prometido não existe.


3.      Os contos de fadas conduzem as pessoas para supostos elementos redentores, à parte de Cristo

Como dissemos anteriormente, nos contos de fadas não há Deus. Sua ausência é percebida na causa, no propósito e no desenrolar da vida dos protagonistas. A “solidão” do divino é contrabalançada por uma abundante autoconfiança, razão da perseverança e das vitórias dos heróis. E diante da “não-existência do divino” outros elementos redentores aparecem para salvar os personagens principais, quer dentro ou fora deles.

Essa salvação, no entanto, não deve ser entendida como livramento ou resgate de algum problema externo, apenas. A solidão, a infelicidade, o sofrimento e a falta de paz também devem ser considerados problemas que requerem um “agir redentor”, a fim de que o protagonista possa ter uma “vida plena”. Assim, o amor romântico, a força, a coragem, a autoconfiança (fé em si mesmo), a amizade, príncipes e princesas, riquezas e magias, entre outros diversos elementos aparecem como agentes salvadores capazes de libertar os personagens principais da infelicidade que os aprisiona.

Por essa razão, é tão presente nos contos de fadas a idolatria do amor redentor. O amor liberta, transforma, constrói, restaura e possibilita a felicidade “eterna” para aquele que são por ele alcançados. Toda esperança, portanto, é depositada sobre o amor romântico e alcança-lo vale mais do que tudo no mundo. O amor romântico é exaltado sobre todas as demais coisas como propósito da vida humana. E por ser tão indispensável, qualquer sacrifício é justificado em nome desse amor, incluindo: negar valores, quebrar compromissos, se matar ou mesmo viver exclusivamente em função desse amor. O amor romântico torna-se um ídolo que exige total dedicação e entrega da vida, senhor daqueles que desejam desfrutar de suas benefices graciosas.

Dentro desse mundo em que o amor romântico basta para fazer as pessoas felizes, Cristo torna-se completamente desnecessário. O coração do homem deseja a própria satisfação acima de tudo, e o caminho mais curto e fácil sempre lhe será o melhor. Portanto, ao apresentar a ideia de que a felicidade habita no amor romântico, a sociedade passou a cultivá-lo acima de tudo, dando início a uma corrida pelo “amor eterno”. E para alcança-lo, vale tudo, até as mais bárbaras ideias, decisões e ações. Não é sem razão que boa parte das obras cinematográficas, até as mais sangrentas, possui um romance que faz meninos e meninas suspirarem.

Tenho visto maridos e esposas indispostos dentro do casamento, não se esforçando para tornar o lar algo agradável a Deus, porque acreditam que ainda poderão encontrar o “par perfeito” que lhes fará plenamente felizes, fora do casamento. Eles colocam toda a esperança da vida na possibilidade de viverem um relacionamento amoroso romântico e ideal, nos moldes dos contos de fadas. Desse modo, substituem a redenção realizada por Cristo pelo mito do "amor redentor". Os contos de fadas, então, tornam-se uma espécie de anticristo ao atraírem a atenção do mundo para si mesmos, oferecendo outra espécie de redenção para a vida marcada pelo sofrimento. E em vez de correrem para Jesus, a fim de encontrarem, nEle, esperança de vida eterna, as pessoas vivem a ilusão de que poderão ser plenamente felizes por intermédio da conquista do amor, da prosperidade e da tranquilidade. E sem Cristo, o mundo tem vivido em depressão, confuso por não conseguir discernir entre o real e o imaginário.

sábado, 24 de março de 2018

Cristo, Salmos e Você - Salmo 11

Porque o SENHOR é justo, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face” (Sl.11.7)

Ler alguns dos salmos de Davi se assemelha a visitar alguém internado em um hospital e, mesmo assim, sair de lá fortalecido pelas palavras do enfermo. Mas, por que isso? Porque os salmos de Davi são a expressão de suas experiências dolorosas, seus gemidos na angústia, seu clamar na tribulação. Todavia, mesmo estando em aflição, o ex-pastor de ovelhas tem sido instrumento para consolo daqueles que passam por problemas semelhantes, apontando-nos para Cristo, o Filho de Deus, que sofreu todas as mais profundas angústias da alma, por carregar nossas enfermidades do coração. Dessa forma, Deus usou seu servo atribulado para consolar os que são afligidos, também. E por meio do sofrimento de Davi, podemos ouvir os clamores daquele que nasceu para sofrer e morrer em nosso lugar: Jesus.

Diante de todas as tribulações, Davi se refugiava no Senhor. Tipificando Cristo, o filho de Jessé percorreu uma jornada de muitos desafios e sofrimentos, às vezes sentiu-se atravessando um “vale da sombra da morte” (Sl.23.4), pois os ímpios predominavam a seu redor, espreitando o justo para tirar-lhe a vida. E quando os homens maus dominam, os justos e verdadeiros fundamentos postos por Deus são relativizados e abandonados, por isso Davi clamou: “destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo” (Sl.11.3). Cercado por filhos de Belial (2Sm.23.6), Davi não encontrou, entre os homens, justiça na qual pudesse ser defendido diante dos ataques daqueles que intentavam destruí-lo malignamente.

Algo semelhante aconteceu nos dias de Cristo. O sinédrio, liderança político-religiosa dos judeus nos dias de Jesus, era composto por muitos homens injustos (Mt.26.59) e alguns poucos homens tementes a Deus (Mc.15.43). Por essa razão, as decisões do sinédrio concorriam para a morte de Cristo que poderia ter clamado à semelhança de Davi: “destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo” (Sl.11.3). Quando o mal domina a política, a cultura, a educação, a religião etc., então o justo torna-se um peregrino sem-terra, sem lugar seguro para habitar. Por isso, nem mesmo o Filho de Deus, Criador e Senhor de todas as coisas, sentiu-se seguro ao andar entre os homens chamados de seu povo, descendentes de Israel (Mt.23). Quando a Palavra de Deus não reina entre os homens, não há lugar seguro e bom para o justo habitar.

Nesse contexto sombrio, Davi corre para o único lugar seguro, seu refúgio e fortaleza: a presença do Senhor. Não importa a riqueza dos homens, a influência dos poderosos, a quantidade de adversários, pois Deus sempre agirá com justiça e amará aqueles que o buscam de todo o coração. Na justiça do Senhor os justos se gloriam, em seu poder encontram esperança e em suas Palavras encontram abrigo seguro, pois Deus os chama para descansarem em seus braços de amor, dizendo: “vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt.11.28). Mesmo entre homens injustos, Davi sabe que a justiça será feita, pois Deus, o Senhor de toda a terra, “é justo, Ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face.” (Sl.11.7).

Todavia, houve um justo que fora desamparado por Deus: Cristo. O Senhor desamparou seu próprio Filho, a fim de que os pecadores o humilhassem, o fizessem sofrer, o matassem. Jesus procurou abrigo, mas não o encontrou no Pai, indo sozinho para a cruz para sofrer a ira divina em nosso lugar. Mas, o desamparo sofrido por Jesus não foi sem propósito. Por sua humilhação, sofrimento, morte e ressurreição temos a garantia de que os cristãos sempre encontrarão amparo em Deus, pois Cristo sofreu em nosso lugar para que não mais estejamos debaixo do pecado e juízo. Jesus foi desamparado para que nós fôssemos amparados; Ele foi entregue aos pecadores para que nós vencêssemos o mundo; Cristo morreu nas mãos dos injustos para que recebêssemos sua perfeita justiça capaz de nos livrar da ira vindoura.

Em Jesus, portanto, temos real esperança, pois seu Reino é justo e verdadeiro; em Cristo podemos descansar, pois sua justiça é perfeita e eficaz e seu reinado é sobre tudo e todos. Dessa forma, mesmo peregrino nesse mundo, o cristão sempre terá um lugar seguro para repousar: Jesus, “justiça nossa” (Jr.23.6). Confiado nEle, então, devemos viver segundo sua “boa, agradável e perfeita vontade” (Rm.12.2) revelada na Sagrada Escritura enquanto oramos em todo tempo na certeza de que o Senhor “tem cuidado” de nós (1Pe.5.7) e “trabalha para aquele que nEle espera” (Is.64.4). No devido tempo, Ele virá para fazer justiça a sua igreja que sofreu nas mãos de um mundo que “jaz no maligno” (1Jo.5.19) e recompensará todos os que perseveraram até o fim, amando mais a Cristo do que a própria vida.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Não deixe a amargura contaminar você!

Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor, atentando, diligentemente, por que ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus; nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados” (Hb.12.14-15)

Infelizmente, mesmo entre os cristãos há pessoas infelizes que não conseguem sentir-se contentes “em toda e qualquer situação” (Fp.4.11). O coração ainda se encontra vazio e, não conseguindo preenchê-lo por meio de Cristo Jesus, acostuma-se a reclamar da vida, murmurando continuamente contra tudo e todos (1Co.10.10). Por mais triste que tal cenário seja, ele pode ficar ainda pior ao deixar que pessoas amarguradas contaminem o corpo de Cristo que é a igreja do Deus vivo (Hb.12.14-15).

Portanto, um duplo cuidado deve haver nesses casos: Primeiramente, aqueles que se encontram em constante infelicidade precisam conhecer Jesus por meio da fiel pregação da Palavra de Deus. Somente Cristo pode fazer uma pessoa feliz “em toda e qualquer situação” (Fp.4.11), de tal modo que consiga alegrar-se “sempre no Senhor” (Fp.4.4), pois somente Jesus pode preencher o vazio do coração do homem. Desse modo, se Cristo não for a razão da felicidade de uma pessoa não adiantará oferecer subterfúgios passageiros para ela.

Para essas pessoas não adiantará passeios, confraternizações, programações diferentes entre outras coisas, pois, após desfrutar de tudo isso, a pessoa infeliz voltará para seu estado de infelicidade e continuará reclamando de tudo, inclusive dos passeios, das confraternizações e das programações diversas. O problema das pessoas amarguradas não se encontra na falta de bons momentos, mas na carência da fonte de toda felicidade: Cristo. Por essa razão, a cura sempre estará no fiel ensino e testemunho da graça divina que nos alcançou em Jesus, mostrando para essas pessoas que a nova vida em Cristo transforma todo nosso modo de ver e viver a vida (Gl.2.20).

Em segundo lugar, é preciso advertir e ensinar às demais pessoas, membros do corpo de Cristo, quanto ao cuidado com a contaminação. O autor da carta aos Hebreus disse que a amargura é contagiosa, pois contamina outras pessoas que não estiverem vacinadas pela Palavra de Deus. É necessário, portanto, que todos os cristãos sejam vacinados contra a amargura por meio do conhecimento de Cristo Jesus, de onde vem a alegria da salvação e o verdadeiro amor que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Co.13.7).

Para isso, lembre-se que Deus provou “o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm.5.8) e que esse amor nos basta, pois nos dá a certeza de que herdaremos a vida eterna por meio da fé em Jesus. Lembre-se que nada “poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm.8.39), nossa única e perfeita fonte de toda felicidade. Então, firme seus pés sobre a Rocha para que as tempestades da vida não sejam capazes de afastar você de uma vida plena com o Senhor Jesus (Mt.7.24-25) nem a amargura consiga contaminar seu coração, tirando-lhe o contentamento “em toda e qualquer situação”.

Por isso, pergunto-lhe: “Você é feliz em Cristo Jesus? Você consegue estar contente em toda e qualquer situação? Qual o conteúdo de suas conversas: bom ou ruim, feliz ou amargo? Você está sempre agradecendo ou sempre reclamando? Você tem levado pessoas ao Reino de Cristo ou a um mundo de amargura? Você fala bem das pessoas ou fala mal delas? Você está sempre disposto a servir ou sempre murmurando de tudo que lhe é proposto? Você ajuda pessoas a se amarem por meio do amor de Cristo ou tem contaminado pessoas com fofocas perniciosas que separam os cristãos?

Essas e outras muitas perguntas devem ser feitas a si mesmo, com muita sinceridade, para que você possa detectar o estado de seu coração. Além disso, não tenha dúvida que a liderança que Deus colocou sobre você também poderá ajudá-lo a reconhecer o problema e buscar a cura, pois está sempre atenta, observando a vida de cada ovelha, a fim de ensiná-las, exortá-las, corrigi-las, confortá-las, fortalecê-las e conduzi-las em Cristo e a Cristo Jesus.

Portanto, se você não quer ser infeliz por toda a vida, busque auxílio no Senhor Jesus, pois Ele pode curar toda amargura do coração e dar ao pecador a plena felicidade que dEle procede e jorra para a vida eterna.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Esvazie-se!


Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp.2.5)

O amor é o primeiro (Mt.22.37-38), o segundo (Mc.12.31) e o terceiro (Jo.13.34-35) grande mandamento da Lei do Senhor. Jesus disse que “destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt.22.40) e depois acrescentou o terceiro para ser praticado no seio da igreja (Jo.13.34-35). Contudo, por que é tão difícil colocá-los em prática no dia a dia da vida cristã? Como vencer o pecado do egocentrismo, a fim de colocar o amor em prática?

Jesus nos deu a resposta em forma tanto verbal quanto prática: “negue-se a si mesmo” (Mt.16.24). Para amar é preciso primeiro negar a si mesmo por meio de uma entrega completa da vida a Cristo Jesus. O ser humano está sempre cheio de si mesmo, não dando espaço para amar o outro, por meio da prática da Verdade. É preciso, então, se esvaziar de si mesmo, a fim de que haja espaço para outras pessoas entrarem no coração.

Observe que desde a infância, o ser humano usa abundantemente os pronomes “meu/minha”: meu brinquedo, minha vida, meus sonhos, meu dinheiro, minha vontade, meus direitos etc. O pecado tornou o homem completamente egocêntrico, ensimesmado, voltado para si mesmo, como se o mundo todo (e até mesmo Deus) tivesse que girar a seu redor, como se o próprio coração fosse soberano sobre todas as coisas.

É preciso destronar o próprio “eu” do trono do coração para que Jesus seja Rei absoluto sobre a vida do cristão. Ao expulsar o egocentrismo, esvaziando-se de si mesmo, o orgulho, o egoísmo, a murmuração, a inveja, a maldade, o fingimento, a maledicência e outros muitos sentimentos e pensamentos maus sairão do coração para dar lugar ao fruto do Espírito: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl.5.22-23).

Cristo, portanto, é nossa esperança de uma vida melhor e, consequentemente, uma igreja e sociedade melhores. Jesus nos ensinou isso em Palavras e, ainda, nos mostrou com a própria vida, pois Ele “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp.2.7-8). Cristo negou sua própria vontade para fazer a vontade do Pai, morrendo na cruz para salvar pessoas que não mereciam ser salvas.

O esvaziamento de Jesus pode ser visto em todo seu ministério ao curar os enfermos, alimentar as multidões, andar com pecadores, chorar por seu povo, corrigir os faltosos e lavar os pés dos discípulos, dizendo: “se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo.13.14-15).

O esvaziamento de si mesmo é necessário para que o orgulho dê lugar ao perdão; para que a soberba dê lugar à humildade; para que a maledicência dê lugar ao diálogo puro e direto; para que a vontade de que todos façam seu querer dê lugar ao desejo de servir aos irmãos; para que a inveja dê lugar à alegria no bem-estar do outro; para que a intriga dê lugar ao esforço diligente por manter a unidade do corpo de Cristo por meio do ensino e prática da Verdade que é a Palavra de Deus.

Se você não está conseguindo amar as pessoas de forma pura e sincera é porque está cheio de si mesmo. Você precisa se esvaziar de si mesmo, tirar seu ego do trono do coração e entregar toda sua vida a Cristo para que Ele seja Rei absoluto sobre todo seu ser, e pelo poder do Espírito Santo possa torná-lo bênção para as pessoas.

Só Jesus pode mudar o coração do homem. Portanto, desista de viver a vida conforme suas concepções e forças, fazendo a própria vontade em vez de fazer a vontade de Deus. Entregue o coração a Jesus hoje mesmo e viva uma vida cheia do Verdadeiro e Puro Amor que vem do Espírito de Deus!

quinta-feira, 1 de março de 2018

Exemplos da pureza de Cristo

Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor?” (Mt.5.13)

Deveríamos ser exemplos de vida com respeito a toda VERDADE, AMOR e JUSTIÇA.

Em meio a cidades orgulhosas e arrogantes, deveríamos ser exemplos de humildade e modéstia, gloriando-nos somente na glória de Cristo, nosso Senhor (Gl.6.14).

Imersos em um mundo sem perdão nem confissão, deveríamos mostrar corações quebrantados, prontos para confessar as faltas ao Senhor e pedir perdão a todo aquele contra o qual pecamos; dispostos a perdoar todo aquele que nos pedir perdão.

Peregrinando por terrenos não confiáveis, em que os homens não agem com honestidade, deveríamos mostrar que Cristo mudou nossa vida, para não mais mentirmos uns para os outros, pois a Verdade nos libertou.

Entre pessoas dominadoras, que governam para si mesmas, deveríamos ser modelos de servos, servindo uns aos outros com satisfação, dispostos a dar a vida por aqueles pelos quais Jesus morreu; executando a vontade de Jesus aqui na terra como nos céus.

Em um mundo de mentiras, iras, discórdias e divisões, a igreja deveria ser um abrigo para aqueles que procuram a Verdade e o amor, a fim de que encontrem em Cristo uma singela vida pura e piedosa, adornada pela comunhão de homens e mulheres tementes a Deus.

Habitando entre pessoas maledicentes, deveríamos transmitir graça aos que ouvem (Ef.4.29), “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais” (Ef.5.19), como instrumentos para edificação de todo aquele que se achegar a Cristo.

Caminhando entre pessoas autossuficientes que querem viver por suas próprias forças, deveríamos andar em oração, em plena dependência de Deus, sempre esperando que o Senhor conduza nossos passos pela Palavra e por sua providência graciosa diária.

Na presença de homens e mulheres invejosos, que não desejam o bem ao próximo, os cristãos deveriam mostrar prazer na alegria dos irmãos e compartilhar as vitórias alcançadas pelo semelhante, pois o amor de Cristo traz satisfação ao coração daquele que contempla as bênçãos divinas derramadas sobre os outros.

Diante de sistemas corrompidos pela ganância e pela soberba dos homens, aqueles que “têm fome e sede de justiça” (Mt.5.6) deveriam ver na igreja a beleza de uma política purificada pelo sangue de Jesus, por ser administrada por homens íntegros, piedosos e abnegados.

Em uma geração relativista e pluralista, deveríamos proclamar zelosamente a Verdade, por meio da qual o homem é liberto do império das trevas e transportado para o Reino do Filho do amor de Deus (Cl.1.13), pois Cristo é a Verdade.

Deveríamos ter essas marcas, porque Jesus chamou seu povo de “sal da terra” e “luz do mundo” (Mt.5.13-16). Lembremos, portanto, que a glória da igreja de Cristo não se encontra em mostrar, para as pessoas lá de fora, simples números, valores e prédios incapazes de manifestar a glória do Senhor. Paulo disse que se gloriaria na fraqueza, para que nela Deus manifestasse seu poder e grandeza (2Co.12.9), como fez muitas vezes nos dias do Antigo Testamento por meio da vida de homens simples como José, Moisés, Josué, Gideão, Davi etc. Pois, nem mesmo todo adorno aparente dos homens pode tornar bela a noiva do Cordeiro se a pureza de Cristo não cobrir sua nudez.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Pastoreio bíblico - A voz profética do pastor

 Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina.” (2Tm.4.1-2)

Cabeça erguida, voz firme e plena convicção nas palavras. Assim, o mensageiro do Senhor proclama a Palavra de Deus ao povo. Essa postura não provém de qualquer vaidade relacionada a uma alta autoestima nem de algum orgulho por causa de sua função no corpo de Cristo (pelo menos não deveria), mas deriva-se de sua consciência acerca da origem e autoridade da Palavra que veicula ao povo de Deus: a Escritura Sagrada.

O pregador, porta-voz da mensagem divina, não pode expor a Escritura como se ele mesmo não acreditasse nela. Lembro-me de ter ouvido alguns pregadores os quais pregavam com tamanha insegurança que transmitiam a impressão de que nem eles acreditavam naquilo que expunham. Eles não pregavam com autoridade, pois não demonstravam ter profundo e íntimo conhecimento da Palavra de Deus, de modo que davam a entender que não acreditavam de todo o coração na autoridade da Escritura, naquilo que eles anunciavam. Nem mesmo o profeta Jonas, que não desejava pregar para Nínive, proferiu a Palavra de Deus com insegurança ou incerteza, pois o profeta sabia muito bem que a Palavra do Senhor era poderosa para salvar aquelas vidas (Jn.4.2).

A necessidade de uma postura convicta do pregador torna-se maior diante de contextos caóticos em que as pessoas (incluindo diversos “cristãos”) não querem ouvir a Verdade. O Evangelho, poder de Deus para a salvação, deve ser transmitido em oratória convicta para que até os incrédulos sejam persuadidos a crerem. Tal convicção não será a garantia de que os pecadores crerão na Escritura, mas servirá tanto para encantar os ouvintes (Mt.7.28-29) quanto para aumentar a culpa dos descrentes diante de Deus, por não se deixarem convencer pela Palavra de Deus pregada com fidelidade e firmeza.

Portanto, já deve ter ficado claro que “a voz profética do pastor” não diz respeito à novas revelações dadas por Deus, mas à fidelidade e convicção com as quais o pastor deve pregar a Palavra de Deus que se encontra em suas mãos, mente e coração. Para isso, o pastor deverá andar humildemente com Deus e mergulhar constantemente nas profundezas da Escritura Sagrada, a fim de falar com todo seu coração e razão, como alguém que está profundamente envolvido com a Verdade revelada por Deus a sua igreja.

Mesmo não sendo um mensageiro de novas revelações, o pastor possui diversas semelhanças com os profetas. As principais características dos profetas bíblicos eram: andar com Deus e ter uma palavra da parte de Deus. Outros elementos presentes em alguns profetas não podem ser considerados padrão, pois nem todos os profetas previram o futuro; nem todos tiveram visões; nem todos escreveram a revelação divina; nem todos tiveram dons extraordinários. Todavia, todos os profetas andaram com Deus e tinham uma palavra divina para as pessoas, mesmo que fosse a pregação da Escritura já revelada anteriormente por Deus, a semelhança de João Batista (Jo.1.22-23). E o coração dessa mensagem era a obra redentora que seria realizada por Cristo Jesus.


Análise do termo “profeta” (navi’)

Em Gênesis 20.7, aparece pela primeira vez o termo profeta (navi’) no texto hebraico: “Agora, pois, restitui a mulher a seu marido, pois ele é profeta e intercederá por ti, e viverás; se, porém, não lhe restituíres, sabe que certamente morrerás, tu e tudo o que é teu”. Abraão é chamado de profeta, mesmo não tendo escrito uma só palavra da Escritura Sagrada nem proferido algo sobre o futuro nem mostrado qualquer dom extraordinário. Seu ministério profético é relacionado a sua comunhão com Deus de forma que a intercessão de Abraão seria ouvida e atendida pelo Senhor. Além disso, Abraão tinha conhecimento da palavra divina ainda em forma oral, pois Deus lhe revelara o dia de Cristo (Jo.8.56). O Senhor confiara a Abraão sua santa promessa à semelhança da igreja de nossos dias, pois a Escritura Sagrada é a Palavra de Deus dirigida a nós. Tendo tal conhecimento, Abraão conduziu todo seu clã segundo a Palavra de Deus (ainda em forma oral), tornando-se, assim, um porta-voz do Senhor, um pastor das ovelhas que Deus lhe havia confiado. Esse elemento profético tornou-se comum a todo o povo de Deus por meio de Jesus Cristo (Jo.15.7; 1Pe.2.9; 1Jo.5.14-15; Ef.4.11-16; 2Tm.4.1-2).

Muito mais do que Abraão, o pastor deve andar com Deus, conversar com Deus e falar sobre Deus para as pessoas. Sua vida é instrumento divino para dar exemplo de como deve ser a comunhão do cristão com o Senhor e como se deve transmitir com fidelidade a Palavra de Deus, a fim de que a igreja cresça no conhecimento do Senhor. Obviamente, essas marcas cristãs básicas devem estar presentes não apenas na vida do pastor, mas, também, em todos os cristãos, pois fazem parte da nova vida proporcionada pelo Espírito do Senhor naqueles que nasceram da Palavra e do Espírito de Deus. E se essas marcas devem estar presentes na vida de todo cristão, muito mais devem ser notórias na vida do pastor do rebanho de Jesus, pois a igreja sempre precisará de exemplos e mestres tanto para lhe mostrar como viver quanto para lhe ensinar tudo que Deus nos revelou em sua Palavra.

A segunda ocorrência do termo profeta (navi’) aparece em Êxodo 7.1: “Então, disse o SENHOR a Moisés: Vê que te constituí como Deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será teu profeta.”. Esse texto é muito importante para a compreensão do termo, pois concede-nos, de forma prática, o conceito do que vem a ser um profeta. Conforme Êxodo 7.1, o profeta é um porta-voz de Deus que transmite para terceiros a mensagem recebida. Deus cria uma analogia para explicar a relação que estava estabelecendo entre Moisés e Arão. Segundo a analogia, Moisés seria semelhante a Deus, pois sua palavra seria verdadeira e autoritativa, de forma que Faraó deveria obedecê-la sob a pena de ser castigado por rebeldia contra Deus. Mas, Moisés, que havia dito não saber falar bem (Ex.4.10-17), não falaria diretamente a Faraó. Ele teria um porta-voz que levaria a Faraó a mensagem de Moisés, de modo que Arão seria o profeta de Moisés. Portanto, conforme o texto, ser profeta é ser porta-voz de Deus, transmitindo sua Palavra para outras pessoas.

Surge, então, uma pergunta: Já que o conceito de profeta é ser porta-voz da Palavra de Deus, não seria o pregador da Escritura um profeta, tendo em vista que a Escritura é a Palavra de Deus? Quando não havia Palavra de Deus escrita, o Senhor se instrumentalizou de homens como porta-vozes de sua Palavra. Com o passar do tempo, já havendo muitos livros físicos da Escritura Sagrada, os novos porta-vozes (profetas) não apenas trazem nova revelação divina para Israel, mas, também, pregam a Lei do Senhor anteriormente dada ao povo por meio de Moisés: “Lembrai-vos da Lei de Moisés, meu servo, a qual lhe prescrevi em Horebe para todo o Israel, a saber, estatutos e juízos” (Ml.4.4).

Dessa forma, os profetas clássicos fazem diversas referências aos Escritos Sagrados, principalmente o Pentateuco, exortando o povo a voltar-se para a Lei do Senhor, a fim de não ser punido por seus pecados (Is.1.10; 2.3; 5.24; 8.16,20; 24.5; 30.9; 42.4,21,24; 51.4, 7; Jr.2.8; 6.19; 8.8; 9.12; 16.11; 18.18; 26.4; 31.33; 32.23; 44.10,23; Lm.2.9; Ez.7.26; 22.26; 43.11; 44.5,24; Dn.9.10,13; Os.4.6; 8.1, 12; Am.2.4; Mq.4.2; Hc.1.4; Sf.3.4; Ag.2.11; Zc.7.12; Ml.2.6-9; 4.4). Os salmistas foram profetas que proclamaram a Palavra de Deus por meio da poesia hebraica e fizeram variadas referências à Lei do Senhor (Sl.1.2; 19.7; 37.31; 40.8; 78.1, 5, 10; 89.30; 94.12; 105.45; 119.1,18,29,34,44,51,53,55,61, 70,72,77,85,92,97,109,113,126,136,142,150,153,163,165,174). E até os livros históricos narram os acontecimentos, interpretando-os de acordo com a Lei do Senhor (Js.1.7-8; 8.31-34; 22.5; 23.6; 24.26; 2 Sm.7.19; 1 Rs.2.3; 2 Rs.10.31; 14.6; 17.13,34,37; 21.8; 22.8,11; 23.24-25; 1 Cr.16.40; 22.12; 2 Cr.6.16; 12.1; 14.4; 15.3; 17.9; 19.10; 23.18; 25.4; 30.16; 31.3-4,21; 33.8; 34.14-19; 35.26; Ed.3.2; 7.6,10; 10.3; Ne.8.1-18; 9.3,13,14,26,29,34; 10.28,29,34,36; 12.44; 13.3).

Em chegando o sétimo mês, e estando os filhos de Israel nas suas cidades, todo o povo se ajuntou como um só homem, na praça, diante da Porta das Águas; e disseram a Esdras, o escriba, que trouxesse o Livro da Lei de Moisés, que o SENHOR tinha prescrito a Israel.  2 Esdras, o sacerdote, trouxe a Lei perante a congregação, tanto de homens como de mulheres e de todos os que eram capazes de entender o que ouviam. Era o primeiro dia do sétimo mês.  3 E leu no livro, diante da praça, que está fronteira à Porta das Águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres e os que podiam entender; e todo o povo tinha os ouvidos atentos ao Livro da Lei.  4 Esdras, o escriba, estava num púlpito de madeira, que fizeram para aquele fim; estavam em pé junto a ele, à sua direita, Matitias, Sema, Anaías, Urias, Hilquias e Maaséias; e à sua esquerda, Pedaías, Misael, Malquias, Hasum, Hasbadana, Zacarias e Mesulão.  5 Esdras abriu o livro à vista de todo o povo, porque estava acima dele; abrindo-o ele, todo o povo se pôs em pé.  6 Esdras bendisse ao SENHOR, o grande Deus; e todo o povo respondeu: Amém! Amém! E, levantando as mãos; inclinaram-se e adoraram o SENHOR, com o rosto em terra. (Ne.8.1-6)

O profeta era porta-voz de Deus quer levando nova revelação ao povo do Senhor quer pregando a Palavra de Deus já revelada, a fim de que o povo do Senhor vivesse pela esperança nas promessas do Senhor, andando de acordo com sua vontade. O foco, então, não se encontra na nova revelação, mas na Palavra de Deus. O papel do profeta não era trazer nova revelação, mas ser um mensageiro da Palavra do Senhor quer oral quer escrita, seja antiga seja nova. Por isso, mesmo sendo tão diferentes e tendo marcas tão distintas, todos os profetas podem ser igualmente designados assim (navi’), pois anunciaram a Palavra de Deus com fidelidade. João Batista, o último profeta da antiga aliança não escreveu livro, não profetizou o futuro, não realizou feitos extraordinários, mas foi dito dele que “ninguém apareceu maior do que João Batista” (Mt.11.11), pois antecedeu Cristo, preparando o coração do povo por meio da fiel pregação da Escritura Sagrada (Lc.3.1-20).

O pastor deve, então, cumprir o coração da obra profética: anunciar a Palavra do Senhor com fidelidade (Rm.1.16; Ef.4.11-12; 1Tm.3.2; 2Tm.2.15; Tt.1.9). A Palavra de Deus já nos foi completamente revelada e está totalmente escrita (Hb.1.1-2). Portanto, ela precisa, apenas, de porta-vozes que a proclamem para todos, ensinando-a para a igreja que deve guardá-la e proclamá-la também, como “coluna e baluarte da Verdade” (1Tm.3.15). Todas as vezes que o pastor prega a Escritura Sagrada com fidelidade, ele cumpre seu papel profético como porta-voz de Deus, tornando Cristo conhecido para o mundo enquanto amadurece a igreja por meio do bom ensino da Verdade.

Fica evidente, ainda, que a igreja tem um caráter profético, pois todos os cristãos devem anunciar a Palavra de Deus ao mundo como porta-vozes do Senhor (At.8.4). Então, o que torna singular o papel profético do pastor? A liderança pastoral foi instituída por Deus para se dedicar ao estudo da Escritura, a fim de que seja instrumento para amadurecimento da igreja de Jesus (At.20.28-31; Ef.4.11-13; Cl.17) por meio do fiel e excelente ensino da Palavra divina. Ou seja, assim como todas as pessoas sabem alguma coisa sobre a saúde (medicina popular), mas precisam de um especialista para tratá-las com profundidade (médico), também a igreja deve conhecer a Palavra de Deus, mas sempre precisará de um especialista para ajudá-la a conhecer mais profundamente a Escritura e cuidar com precisão das enfermidades que aparecem nas igrejas locais (até que Jesus volte).

Profeta e pastor não são o mesmo ofício, pois possuem peculiaridades. Mas, o pastor exerce um papel profético ao ser porta-voz da Palavra de Deus. De forma semelhante, podemos ver semelhanças entre os demais ministérios designados por Deus, ainda que cada um possua, também, singularidades. Interessante observarmos que mesmo diferentes, todos acabam por cumprir um papel comum: aperfeiçoar os santos para que façam a obra do Senhor corretamente, edificando a igreja por meio da genuína fé, o “pleno conhecimento do Filho de Deus”. Nesse propósito, portanto, todos os ministérios citados por Paulo em Efésios 4.11, possuem um caráter profético, pois todos devem ser porta-vozes da Palavra de Deus, poder de Deus para salvação e edificação.

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres,  12 com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,  13 até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo,  14 para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro (Ef.4.11-14)


“Assim diz o Senhor”, hoje

Quando os profetas do Antigo Testamento falavam: “Assim diz o Senhor!” (Ex.4.22; Js.7.13; Jz.6.8; 1Sm.2.27; 1Rs.11.31; 1Cr.17.4; Is.7.7; Jr.2.2; Ez.2.4; Am.1.3; Ob.1.1; Mq.2.3; Na.1.12; Ag.1.5; Zc.1.3) eles estavam anunciando com plena convicção a Palavra de Deus ao povo. Portanto, o primeiro propósito da expressão é tornar clara a origem da mensagem. Em segundo lugar, ainda relacionada à origem, a expressão indica que o profeta proclamava uma palavra autoritativa que deveria ser crida e obedecida por todos os ouvintes, pois sua autoridade estava relacionada à fonte da mensagem como um mensageiro que transmitia a palavra de um Soberano.

Tendo em vista que o pastor não traz novas revelações para a igreja, não podemos fazer uso do termo com esse propósito. A tentativa de imitar os profetas do Antigo Testamento sob o pretexto de trazer novas revelações tem gerado tantos problemas para o cristianismo quanto é o número de “profetadas” de falsos profetas em nossos dias. As Testemunhas de Jeová e o Adventismo decorreram de falsas profecias surgidas no século XIX; o pentecostalismo já criou tantas seitas cristãs que já não é mais possível contá-las; e o neopentecostalismo tem envergonhado a cristandade com suas falsas promessas de prosperidade e teatros de milagres e exorcismos. Isso tudo nos faz lembrar as palavras do Senhor Jesus: “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.” (Mt.7.22-23)

Todavia, o pastor deve proclamar a Palavra de Deus em todo tempo, “quer seja oportuno quer não” (2Tm.4.2) e todas as vezes que o fizer com fidelidade estará dizendo: “assim diz o Senhor”. Esta expressão aparece no Novo Testamento algumas vezes em citações do Antigo Testamento (At.7.49; 15.17; Rm.12.19; 14.11; 1Co.14.21; 2Co.6.17,18; Hb.8.8-10; 10.16; Ap.1.8). Ou seja, em diversos momentos que os autores bíblicos estavam citando a Escritura faziam referência a autoridade do texto mencionado por meio da expressão: “assim diz o Senhor”, atraindo especial atenção dos ouvintes/leitores para a mensagem veiculada.

Contudo, uma outra expressão ganha o lugar da fórmula profética nas páginas do Novo Testamento, aparecendo 67 vezes: “está escrito” (gégraptai), afora as variações na conjugação do verbo. O Termo grego foi usado pelos tradutores da Septuaginta, aparecendo nos livros sagrados apenas 22 vezes para fazer referência tanto à Lei de Moisés quanto a outros livros (Js.8.30; 2 Sm.1.18; 1 Rs.8.53 (LXX); 11.41; 21.11; 22.39; 2 Rs.8.23; 14.6; 23.21; 2 Cr.23.18; 25.4; 32.32; 33.19; 35.12,25; Ed.5.7; Ne.10.34,36; Et.10.2; Sl.40.7; Is.65.6). Portanto, enquanto no Antigo Testamento é maior o aparecimento da fórmula “assim diz o Senhor”, no Novo Testamento é mais comum a expressão “está escrito”, pois seus autores estavam revelando o Evangelho com os olhos em toda a Escritura veterotestamentária já revelada.

Mesmo diferentes, as duas fórmulas se equivalem em propósito: apontar para a origem e autoridade da mensagem. Uma curiosidade interessante a ser observada é a semelhança de aspecto temporal entre as expressões, pois ambos se encontram no aspecto perfeito (A.T. Hebraico e N.T. Grego). Isso ocorre porque tanto a mensagem veiculada pelos profetas quanto citada pelos autores neotestamentários estava completa não importando sua aplicação presente ou futura. De forma semelhante, o pregador das gerações seguintes é chamado para proclamar a Palavra final do Senhor que não muda nem cai em desuso, aplicando-a a cada nova circunstância vivenciada pelo povo de Deus.

Quase a metade das referências bíblicas do Novo Testamento com a expressão “está escrito” encontra-se nas cartas de Paulo. O apóstolo mostrou a autoridade de seu Evangelho relacionando-o com o Antigo Testamento (Gl.3), demonstrando assim que Cristo era o cumprimento de tudo que estava escrito nos livros dos profetas veterotestamentários. Portanto, mesmo que seu Evangelho fosse Revelação direta de Cristo (1Co.11.23; Gl.1.16-17) procurou mostrar que estava em pleno acordo com a Escritura Sagrada, autoridade última para judeus e cristãos de seus dias.

Ao expor com fidelidade a Escritura Sagrada, o pregador veicula o poder de Deus para a salvação (Rm.1.16). Portanto, deve anunciá-la com tal convicção (“assim diz o Senhor” / “está escrito”) que demonstre estar plenamente convencido da sublimidade da mensagem, não com dúvida, medo, vergonha ou insegurança, mas com a firmeza de um embaixador carregando uma mensagem repleta de autoridade. A pregação não é um seminário escolar que está debaixo de avaliação; o sermão não é uma peça teatral que visa agradar a um público. O pregador tem a Verdade diante de si e deve proclamá-la com firmeza, a fim de satisfazer a vontade daquele que o designou porta-voz da Revelação Escrita, a Palavra de Deus.


Os cinco pontos da mensagem profética

Via de regra, a mensagem profética no Antigo Testamento possuía cinco pontos que nem sempre aparecem em uma mesma ordem. A organização da mensagem profética não atenderá aos requisitos da homilia ocidental, de forma que precisaremos ter cuidado ao procurar tais elementos no texto. O leitor precisa deixar o texto falar, a fim de não forçar a presença de um ou outro ponto. Também não devemos esperar proporcionalidade, ou seja, os pontos não terão tamanhos proporcionais como se esperaria de um sermão, em nossos dias. A mentalidade profética é diferente da nossa e as preocupações literárias também. Todavia, após a leitura de cada um dos dezessete livros dos profetas clássicos (maiores e menores), encontraremos em alguma medida os seguintes tópicos:

1) Denúncia dos pecados do povo transgressor – contexto 
2) Chamado ao arrependimento e mudança - convite
3) Advertência aos rebeldes sobre o juízo divino – exortação 
4) Proclamação do perdão para os arrependidos – conforto
5) Anúncio da graciosa salvação do Senhor - Cristocentrismo

1) Denúncia dos pecados do povo transgressor – os profetas foram homens de uma circunstância comum: os pecados de seus destinatários. Sempre que o povo de Israel (ou até mesmo algum outro povo ao redor deste) mergulhava numa vida de pecado, Deus suscitava um profeta para lhe anunciar a Palavra do Senhor. Interessante observarmos que dificilmente aparecem profetas em dias bons quando os servos de Deus estão obedecendo (raros, também, foram esses dias). Poucos profetas proclamaram coisas boas ao povo em dias de aparente tranquilidade, como Natã e Isaías. O profeta Natã anunciou a Davi a Palavra do Senhor sobre o desejo do rei de construir uma casa para Deus (2Sm.7). Naqueles dias, tudo estava bem e o profeta preanunciou a Davi que seu filho seria o construtor do Templo para a arca da aliança. O profeta Isaías teve o ministério mais longo dentre os profetas e viu dias bons e maus. Ele profetizou a vitória de Jerusalém sobre o rei da Assíria (2Rs.18) nos dias do rei Ezequias que “fez o que era reto perante o Senhor, segundo tudo o que fizera Davi seu pai” (2Rs.18.3). Ainda assim, devemos lembrar que a maior parte do ministério de Isaías foi destinada a apontar os pecados tanto de Israel e Judá quanto de outras nações (Is.1; 3; 5; 7; 9.8-10.34; 13-34). A profetiza Hulda anunciou palavras boas para Josias por causa da disposição humilde deste para servir ao Senhor (2Rs.22.18-20), mas aqueles dias não eram bons, pois Israel pecava muito contra Deus (2Rs.22.13//23.1-20). Dessa forma, mesmo havendo uns poucos contextos positivos, o ponto de partida dos profetas era a transgressão de um povo, principalmente o povo de Deus.

Antes, então, de chamar o povo ao arrependimento e anunciar juízo e perdão, a depender da reação dos ouvintes, o profeta deveria conscientizar a nação (ou nações) de seus muitos pecados, que atraíam sobre si a terrível ira divina. O profeta não podia ter receio de ofender o povo ao revelar seus pecados, pois o povo estava ofendendo profundamente a Deus. Por conseguinte, a mensagem profética era a resposta divina aos ultrajes sofridos pelo Senhor dos Exércitos, pois o povo não demonstrava preocupação em afrontar a glória de Deus. Por isso, a mensagem profética era direta e objetiva, autoritativa e fiel, destinada a todos os transgressores. Por meio dela, Deus revelava seus “pensamentos” e “sentimentos” sobre o povo e o confrontava declarando-lhe o futuro juízo caso não se arrependesse de seus pecados nem mudasse seu comportamento diante do Senhor. Dessa forma, Deus revelava-se Senhor de tudo e todos perante o qual todos deveriam prestar contas de suas vidas.

Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra, porque o SENHOR é quem fala: Criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim. O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende. Ai desta nação pecaminosa, povo carregado de iniquidade, raça de malignos, filhos corruptores; abandonaram o SENHOR, blasfemaram do Santo de Israel, voltaram para trás. (Isaías 1.2-4)

Esse primeiro tópico da mensagem profética permanece necessário por todas as gerações, pois sempre haverá rebeldes no meio do povo de Deus e joio no meio do trigo (Mt.13.24-30). O pastor, portanto, deve dar continuidade à mensagem profética denunciando os pecados de cada geração, a fim de conscientizar a igreja da indispensabilidade de uma vida santa e os pecadores da necessidade de urgente arrependimento e mudança de vida, pois a ira divina virá sobre todos os impuros, idólatras, adúlteros, efeminados, sodomitas, ladrões, avarentos, bêbados, maldizentes e roubadores (1Co.6.9-10).

Para isso, o pastor não trará novas revelações, pois a Palavra de Deus já nos foi dada, mas proclamará com autoridade a mensagem profética já revelada, anunciando com fidelidade as queixas do Senhor para cada geração. Ao fazer isso, o profeta põe o povo face a face com Deus pedindo contas de todos os ouvintes, assim como pediu contas das gerações passadas que ouviram a mensagem dos profetas bíblicos. Portanto, as gerações deverão ouvir a fiel pregação da Escritura Sagrada com o mesmo temor e tremor que as gerações anteriores deveriam ter ouvido as palavras dos profetas enviados por Deus. Isso ocorre porque a autoridade da pregação não se encontra no profeta ou pastor, mas na Palavra divina, quer tenha sido dada como nova revelação (Antigo e Novo Testamento) quer seja a proclamação da Palavra já revelada (pregação da Escritura Sagrada).

Anunciar esse importante tópico da mensagem profética para os pecadores nunca será fácil nem bem recepcionado, mesmo que seja pela igreja local. As pessoas não gostam de ouvir que estão erradas nem que precisam mudar. O pecado tornou o ser humano indisposto com Deus, preferindo viver conforme seu bel-prazer sem ser incomodado. Por essa razão, é tão difícil corrigir as pessoas, até mesmo filhos. O autor de Hebreus nos diz que ninguém gosta de ser disciplinado (Hb.12.11), contudo Deus corrige seus filhos mesmo sem que eles queiram, pois a correção é o caminho para a santificação do indivíduo.

Temos visto que muitos pastores têm receio de corrigir a igreja ou mesmo de pregar sobre pecado, a fim de confrontar os pecadores. Em geral, isso ocorre por causa do sustento pastoral que provém da igreja local, normalmente. O pastor, então, sente-se preso à necessidade de não contrariar as pessoas, a fim de não ser prejudicado, pois muitos “cristãos” confrontados pela Palavra de Deus se vingam dos pastores, deixando de dizimar ou procurando tirá-lo da igreja local. Essa triste realidade só confirma a necessidade de os pastores cumprirem com fidelidade o papel de porta-vozes da Palavra de Deus, pregando com zelo e sem medo contra todo pecado, atraindo as pessoas a Cristo ao mostrar a miséria em que se encontra a alma delas.

Portanto, se faz necessária uma plena confiança na provisão divina. Aquele que chama o pastor sabe os desafios que ele passará e já providenciou palavras de conforto para que o pastor possa pregar a Escritura com fidelidade e sem medo, “porque Ele tem cuidado de vós” (1Pe.5.7). Davi cantou que “os leõezinhos sofrem necessidade e passam fome, porém aos que buscam o SENHOR bem nenhum lhes faltará” (Sl.34.10). Devemos lembrar que a fidelidade dos profetas lhes custou caro muitas vezes, pois o povo os perseguiu, maltratou e até matou. O pastor, então, deve estar pronto para pagar o preço de ser porta-voz da Palavra de Deus, para que cumpra bem sua missão.

2) Chamado ao arrependimento e mudança – Após confrontar o povo, revelando-lhe seus pecados, mostrando a miséria tanto de seus atos quanto pensamentos, Deus o convocava ao arrependimento e mudança de vida. O Senhor não desejava destruir o homem, pois não tem prazer na morte do pecador (Ez.18.23,32; 33.11), mas traria seu juízo certo e terrível sobre os rebeldes caso não se arrependessem, pois sua santidade estava sendo ferida. A única forma de se livrar do juízo iminente seria apropriando-se do chamado ao arrependimento e mudança de rumo, a fim de receber as misericórdias do Senhor.

A revelação dos pecados do povo e o chamado ao arrependimento estavam intimamente ligados, e eram pronunciados de forma clara e sem rodeios (Is.1.2-15; Ml.1.1-14). Para que houvesse confissão sincera era necessário que houvesse plena consciência de pecado, razão para os profetas não deixarem dúvidas sobre as queixas de Deus. Portanto, as acusações pronunciadas contra o povo pretendiam despertar uma reação necessária e verdadeira: a confissão. Os réus estavam sendo acusados pelo santo e justo juiz de toda a terra, todavia a severidade do Senhor é contrabalançada por seu misericordioso chamado ao arrependimento e mudança de vida. Ou seja, mesmo sendo culpados por seus pecados, o povo teria a oportunidade de receber o perdão divino caso aceitasse o chamado divino.

Ainda assim, agora mesmo, diz o SENHOR: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, com choro e com pranto. Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal. Quem sabe se não se voltará, e se arrependerá, e deixará após si uma bênção, uma oferta de manjares e libação para o SENHOR, vosso Deus? Tocai a trombeta em Sião, promulgai um santo jejum, proclamai uma assembléia solene. Congregai o povo, santificai a congregação, ajuntai os anciãos, reuni os filhinhos e os que mamam; saia o noivo da sua recâmara, e a noiva, do seu aposento. Chorem os sacerdotes, ministros do SENHOR, entre o pórtico e o altar, e orem: Poupa o teu povo, ó SENHOR, e não entregues a tua herança ao opróbrio, para que as nações façam escárnio dele. Por que hão de dizer entre os povos: Onde está o seu Deus? (Jl.2.12-17)

O povo estava correndo o risco de ser destruído, porque a ira do Senhor se acendeu contra a nação, tendo em vista seus muitos pecados. Portanto, o chamado ao arrependimento também precisava ser claro, objetivo e urgente. Por meio desse chamado, Deus revela-se extremamente misericordioso, pronto para perdoar todo aquele que o buscar com sinceridade, confessando arrependido os muito pecados cometidos (At.2.37), rasgando o coração consciente dos pecados e do merecido castigo divino (Jl.2.13). Como disse o profeta Jeremias: “As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim” (Lm.3.22).

Diferente do que estamos acostumados em nossos dias, o chamado ao arrependimento não tinha floreios (Mt.3.2). Deus não implorava para o povo voltar-se para Ele como se precisasse das pessoas em alguma medida (Sl.50.12). A mensagem profética exalta a soberania do juiz de toda a terra (Gn.18.25; Sl.94.2; Is.33.22; Jr.11.20) diante do qual todos devem prestar contas de sua vida. Portanto, por mais gracioso e misericordioso que fosse o chamado ao arrependimento, não pretendia massagear o ego dos pecadores como se houvesse qualquer interesse em prendê-los dentro de uma “denominação”. O chamado ao arrependimento e mudança era uma oportunidade concedida por Deus para que os pecadores não fossem destruídos pela ira divina, de forma que exaltava a graça divina enquanto mostrava a miserável condição humana perante a glória do Senhor.

O chamado ao arrependimento mudou muito nas últimas décadas. A preocupação com o número de pessoas dentro das denominações faz com que muitos pastores andem “pisando em ovos” com medo de desagradar seus “clientes”. Por isso, em vez de proclamarem a Palavra de Deus com fidelidade, muitos têm massageado o ego do público com mensagens de autoajuda. Todavia, pessoas dentro de uma denominação não é sinônimo de ovelhas no Reino dos céus. Portanto, o pastor deve chamar os pecadores ao arrependimento de forma clara e objetiva para que a igreja visível seja a mais parecida possível com a igreja invisível. Ou seja, a preocupação pastoral deve estar no chamado e cuidado com as verdadeiras ovelhas, não com os bodes. E a melhor forma de separar uns dos outros é pregando fielmente a Palavra de Deus, pois ela sempre será desagradável àqueles que não foram tocados pelo Espírito do Senhor.

3) Advertência aos rebeldes sobre o juízo divino – Esse terceiro tópico pode ser amplamente encontrado nos livros dos profetas, somando uma porção significativa dos textos proféticos (Is.1.28-30; 2.10-22; 3.1-41; 7.17-25 etc.).

Mas os transgressores e os pecadores serão juntamente destruídos; e os que deixarem o SENHOR perecerão. Porque vos envergonhareis dos carvalhos que cobiçastes e sereis confundidos por causa dos jardins que escolhestes. Porque sereis como o carvalho, cujas folhas murcham, e como a floresta que não tem água. O forte se tornará em estopa, e a sua obra, em faísca; ambos arderão juntamente, e não haverá quem os apague. (Is.1.28-31)

O terceiro tópico da mensagem dos profetas é fundamental, pois lança luz sobre o chamado ao arrependimento. Os ouvintes poderiam perguntar: Por que devo me preocupar com as acusações? Por que devo me arrepender de meus pecados? Ao anunciar o juízo divino sobre os ímpios e rebeldes, os profetas oferecem a razão para que o povo responda favoravelmente ao chamado do Senhor, pois, caso não se arrependessem de seus pecados, todos os males proferidos viriam sobre eles. Portanto, da mesma forma como os pecados do povo eram reais, também o castigo vindouro sobre os ímpios e rebeldes seria real e ninguém conseguiria fugir da ira divina.

Essa associação entre pecado e castigo é a razão porque pessoas passando por momentos difíceis na vida (doença, desemprego, problemas familiares etc.) costumam procurar uma igreja e se dispõe com mais facilidade a ouvir o evangelho. Desde os mais antigos, em diversas culturas, é comum se fazer uma associação entre sofrimento e pecado. O objetivo do livro de Jó é responder à indagação: Todo sofrimento está relacionado ao castigo de Deus por causa de pecados? E mesmo que o livro de Jó nos mostre que nem todo sofrimento deve ser entendido como castigo divino, as gerações futuras continuam relacionando-os.

Todavia, mesmo que sofrimento nem sempre seja proveniente de um castigo divino, não podemos descartar o ensino que Deus castiga os rebeldes e trará juízo sobre todos os pecadores que não se arrependeram de seus pecados. Em Hebreus 12, o autor nos revela que Deus castiga seu povo durante a vida para que seja corrigido e aperfeiçoado, a fim de que o povo de Deus não viva de forma semelhante ao mundo pagão. Porém, os ímpios não são corrigidos, pois Deus lhes reservou o juízo vindouro, razão porque muitos pecadores que desprezam a Deus têm uma vida próspera e saudável até à morte (Sl.73).

Por conseguinte, o foco da advertência quanto ao castigo divino sobre os rebeldes não se encontra em pequenos castigos nessa vida. Podemos entender que as manifestações do juízo divino que ocorreram na história (dilúvio – Gn.6-9; destruição de Sodoma – Gn.19; pragas sobre o Egito – Ex.7-14; expulsão dos cananeus – Gn.15.16; queda de impérios – Dn.2.26-46; cativeiro de Judá – Jr.15.1-4 etc.) foram postas para exemplo e advertência acerca do juízo vindouro (2Pe.3.5-7). No último dia, Deus visitará a terra para pedir contas a todos os homens e aquele que não tiver recebido o perdão divino por ocasião de um sincero arrependimento (e justificação pelo sangue de Cristo) será destinado ao castigo divino, “lançado no inferno, onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga” (Mc.9.47-48).

As pessoas precisam saber o fim que as aguarda caso não se arrependam de seus pecados e confessem Cristo como Senhor e Salvador. Mesmo que saibamos que muitos dos ouvintes não se importarão com a advertência, Deus quer que avisemos ao mundo com respeito ao dia do juízo do Senhor. Não é uma mensagem fácil a ser transmitida, principalmente para um público incrédulo. Todavia, essa mensagem faz parte do Evangelho e pode ser encontrada na primeira pregação do apóstolo Pedro, no dia de Pentecostes (At.2.36,40), pois pretende despertar os pecadores para a necessidade de buscarem um refúgio seguro, a fim de se livrarem da ira divina, e esse refúgio é Cristo, o único que pode abrigar os pecadores livrando-os do juízo de Deus.

4) Proclamação do perdão para os arrependidos – Mas, o que acontecerá com aqueles que se arrependerem? Não há uma mensagem de esperança para os que reconhecerem seus pecados? Os profetas anunciavam que sempre haveria esperança para os verdadeiramente arrependidos, pois “perto está o SENHOR de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade” (Sl.145.18). A mensagem profética não apenas veiculava a ira divina, mas sua misericórdia também, de forma que os arrependidos tivessem esperança. Após consagrar o Templo do Senhor, Deus visitou Salomão por meio de sonho e lhe disse: “se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra” (2Cr.7.14). O Senhor revela sua disposição para aceitar a confissão de pecados e perdoar o povo arrependido, restaurando sua sorte. Assim, os profetas confortavam aqueles dentre o povo que se dispunham a reconhecer seus pecados e mudar de vida.

Todavia, nem sempre Deus deixou de derramar seu castigo sobre povos, mesmo havendo pessoas arrependidas no meio deles. O profeta Jeremias chorou a certeza da queda de Jerusalém, mesmo havendo uns poucos justos no meio da nação. Podemos dizer que o número de justos não foi suficiente para que Deus poupasse a cidade de Jerusalém (capital do reino) da queda (comparar com Gn.18.22-33). Então, Deus prometeu que os fiéis seriam poupados da morte e levados para outro reino (Babilônia) onde deveriam reconstruir a vida, pois o Senhor estaria com eles (Jr.27.17; 29.4-7). Portanto, mesmo diante de um iminente castigo, com vista à purificação da nação, os arrependidos recebiam palavras de esperança, pois o Senhor estava disposto a perdoar os pecadores quebrantados pela Palavra profética e salvar os que se achegavam humildemente à presença de Deus.

A misericórdia do Senhor permeia toda a Escritura Sagrada que não omite informações sobre os erros de inúmeros homens e mulheres, dentre os quais havia reis, profetas e sacerdotes. Dessa forma, Deus revela-se poderoso para usar pessoas mesmo diante de suas muitas limitações e ainda manifesta a grandeza de suas misericórdias dispensadas cotidianamente sobre todos os que se achegavam humildemente diante DELE. Portanto, a proclamação do perdão divino tanto trazia alento para o coração dos pecadores arrependidos quanto revelava a muita bondade do Senhor exaltando sua misericórdia, para que em todas as gerações pessoas pudessem ter esperança de salvação, mesmo que se sentissem as piores pecadoras do mundo, conforme nos diz o apóstolo Paulo:

Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna. Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém! (1Tm.1.15-17)

Não é possível dissociar da pregação da Palavra do Senhor a advertência com respeito a santa ira divina que virá sobre todos os pecadores que não se arrependeram de seus pecados (nem creram na redenção oferecida por Cristo). Também não deve ser excluída a promessa do perdão divino concedido graciosamente a todo que se entregar humildemente para receber socorro em tempo oportuno. A mensagem profética, portanto, veicula juízo e salvação; santa ira e graciosa misericórdia; justa condenação e imerecido perdão. Por essa razão, sentimentos tão opostos marcavam as reações contra a palavra profética, pois enquanto uns creram outros mataram os mensageiros que Deus enviou a pregar sua Palavra. Não devemos esperar reações diferentes de nossas gerações, como disse Jesus: “Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa” (Jo.15.20). Por conseguinte, o fiel pregador da Palavra de Deus deve estar pronto para momentos bons e tempos maus, também.

5) Anúncio da graciosa salvação do Senhor – Como ápice da mensagem profética, encontramos o anúncio do Dia de Cristo. Os profetas não poderiam encerrar a pregação sem anunciar a graciosa salvação do Senhor a ser consumada no Dia da redenção do nosso Deus. Nenhuma dádiva de perdão faria sentido sem que o Senhor preanunciasse a concretização da promessa redentora feita a Adão e Eva: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn.3.15). A história redentora estava em andamento e os profetas faziam parte dela, tanto aguardando quanto proclamando o Dia de Cristo.

Todos os demais pontos da mensagem profética dependiam do cumprimento da promessa redentora. Por isso, Cristo aparecerá em alguma medida entre as linhas dos textos proféticos seja por meio de tipologias (Ez.34.23-24) seja por intermédio de figuras (Is.9.1-7), quer utilizando-se de metáforas (Ml.4.5-6) quer através das experiências do profeta (Oséias), conforme Jesus mostrou aos discípulos que “estavam de caminho para uma aldeia chamada Emaús” (Lc.24.13), “começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc.24.27).

Ainda que os profetas anunciassem a Palavra do Senhor de acordo com as circunstâncias, enviados por Deus para o meio de problemas reais, devemos entender que a circunstancialidade da mensagem profética serviu de contexto histórico para a proclamação do cerne da Palavra profética: o Dia da salvação do Senhor. Cristo é o centro da mensagem, afinal sem Jesus não haveria história, pregação, esperança nem vida eterna. A história humana somente é possível, porque Cristo tomou sobre si a ira divina que poderia ter sido derramada sobre Adão e Eva, após a queda deles. Sem Ele não haveria razão para que os profetas pregassem aos pecadores chamando-os ao arrependimento, prometendo-lhes salvação. Sem Jesus não haveria esperança messiânica nem muito menos vida eterna, pois não haveria justificação e, consequentemente, nenhum profeta poderia chamar o povo ao arrependimento e mudança de vida. Portanto, Cristo é a razão da mensagem profética e o propósito dela também. Razão pela qual o coração dos livros proféticos é o Dia de Cristo, dia de salvação e, também, condenação.

No entanto, o Dia de Cristo não é mencionado de forma sistemática e clara, como estamos acostumados a fazer em nossos dias. Os autores do Novo Testamento comprovam isso ao aplicarem a Cristo textos que jamais entenderíamos como profecias messiânicas (Os.11.1//Mt.2.15; Gn.12.7//Gl.3.16). Isso é possível por causa de um recurso comum aos livros sagrados: tipologia. A tipologia na literatura judaico-cristã é o uso de elementos históricos (personagens, lugares, ações etc), a fim de apontar para alguém ou algo posterior (e superior) a partir da relação de semelhança. Assim, o êxodo de Israel é um tipo da libertação do império das trevas; a páscoa é um tipo do sacrifício de Cristo; a disposição de Abraão para sacrificar seu filho unigênito, Isaque, é um tipo da entrega do Filho unigênito de Deus; diversos personagens como Moisés, Josué, Davi são tipos de Cristo; o Templo de Salomão é tipo da igreja edificada sobre a Pedra angular que é Jesus; Israel, povo escolhido por Deus para ser instrumento de salvação, é tipo do Messias etc.

E continuou o SENHOR a falar com Acaz, dizendo:  11 Pede ao SENHOR, teu Deus, um sinal, quer seja embaixo, nas profundezas, ou em cima, nas alturas.  12 Acaz, porém, disse: Não o pedirei, nem tentarei ao SENHOR.  13 Então, disse o profeta: Ouvi, agora, ó casa de Davi: acaso, não vos basta fatigardes os homens, mas ainda fatigais também ao meu Deus?  14 Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel.  15 Ele comerá manteiga e mel quando souber desprezar o mal e escolher o bem.  16 Na verdade, antes que este menino saiba desprezar o mal e escolher o bem, será desamparada a terra ante cujos dois reis tu tremes de medo. (Is.7.10-16 – destaque nosso)

O texto de Isaías 7.10-16 (acima) serve de exemplo para o que estamos tratando. Observemos que o profeta fala ao rei Acaz dentro de um contexto real, ou seja, a circunstancialidade forma o cenário em que a Palavra de Deus é transmitida, mas não limita o propósito dela. A necessidade de salvação local servirá de tipo para a universal necessidade de redenção. Por isso, o versículo 14 vai além do contexto histórico e preanuncia o nascimento do Filho de Deus, Cristo, conforme nos revela o evangelho segundo Mateus: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco)” (Mt.1.23). Isso ocorre a fim de mostrar que todos os problemas de Israel (e do ser humano em geral) somente poderiam ser solucionados por meio do cumprimento da promessa redentora. Isso é comprovado pelo fato de que nem mesmo a maior intervenção do Senhor para salvar e conduzir seu povo no decurso da história foi suficiente para tornar os homens justos aos olhos do Senhor e santifica-los para uma vida santa e agradável a Deus, razão pela qual nos dias de Cristo, Israel estava vivendo uma vida religiosa medíocre outra vez.

O mesmo fenômeno ocorrerá nos demais profetas em maior ou menor medida. Portanto, é fundamental que o pregador da Palavra de Deus faça de Cristo o centro da exposição da Escritura para que a igreja entenda ser Cristo o coração da Escritura Sagrada, o cerne da mensagem profética. Sem Cristo, a pregação da Palavra de Deus torna-se uma simples mensagem moralista, bonita por fora, mas vazia por dentro, tendo em vista que o evangelho é o poder de Deus para a salvação daquele que crê. E por evangelho devemos entender a obra redentora de Jesus, pela qual fomos justificados e somos santificados através do constante operar do Espírito e da Palavra do Senhor.

Entendemos que esses cinco pontos acima, encontrados nos profetas clássicos, deveriam nortear a pregação de todas as gerações, pois abordam os elementos básicos que precisam ser proclamados ao pecador, a fim de que o pecador arrependido seja salvo por meio de sua fé em Cristo, e o ímpio rebelde adequadamente advertido sobre o dia do juízo vindouro. O ápice da mensagem profética é o dia da salvação, ou seja, a chegada do Messias prometido, redentor de seu povo. Dessa forma, as mensagens proféticas eram cristocêntricas, pois tanto o juízo divino quanto a salvação do Senhor ocorreriam no grande Dia, o Dia de Cristo (Is.40-66; Jl.2.28-3.21; Am.9.11-12; Mq.4.1).

Portanto, o coração da mensagem profética não se encontra na revelação de algo novo, mas no propósito de apontar a salvação divina para o homem: Cristo. Tendo em vista que a Escritura estava em andamento, os profetas traziam novas Revelações sobre os tópicos que mencionamos acima. Todavia, uma vez que a Revelação estivesse completa, a mensagem profética continuaria cumprindo sua missão, apontando à salvação divina já revelada pelo Senhor, conforme ocorre nos dias do Novo Testamento por meio das pregações dos apóstolos (At.2.14-36; 3.11-26; 4.8-12; 7.1-53; 8.26-40; 9.22; 10.36-43; 13.16-41, 47; 17.22-31)


A responsabilidade de pregar fielmente a Palavra de Deus

Para finalizar o capítulo, precisamos falar ainda da grande responsabilidade que pesava sobre os profetas. Deus chamava homens para cumprir uma missão e essa missão era proclamar a Palavra de Deus com fidelidade. Conforme já dissemos, o coração da proclamação profética não era algo novo, mas a Palavra divina, mesmo aquela que já havia sido revelada anteriormente (a Lei de Moisés, por exemplo), como ocorre com a pregação da Escritura Sagrada após a conclusão do Novo Testamento. E mesmo que nem todos os profetas tenham se colocado à disposição para fazer a obra do Senhor voluntariamente, à semelhança de Isaías (Is.6.1-8), pesava sobre todos a responsabilidade de anunciarem a Palavra de Deus com fidelidade.

O livro do profeta Ezequiel possui dois textos que lançam luz sobre a responsabilidade do profeta perante Deus e o povo. Nesses textos, o profeta é comparado com a atalaia, ou seja, com um vigia que guardava a cidade ficando sobre a torre para observar possíveis ameaças externas contra a cidade (2Rs.9.17):

Filho do homem, eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; da minha boca ouvirás a palavra e os avisarás da minha parte.  18 Quando eu disser ao perverso: Certamente, morrerás, e tu não o avisares e nada disseres para o advertir do seu mau caminho, para lhe salvar a vida, esse perverso morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue da tua mão o requererei.  19 Mas, se avisares o perverso, e ele não se converter da sua maldade e do seu caminho perverso, ele morrerá na sua iniquidade, mas tu salvaste a tua alma.  20 Também quando o justo se desviar da sua justiça e fizer maldade, e eu puser diante dele um tropeço, ele morrerá; visto que não o avisaste, no seu pecado morrerá, e suas justiças que praticara não serão lembradas, mas o seu sangue da tua mão o requererei.  21 No entanto, se tu avisares o justo, para que não peque, e ele não pecar, certamente, viverá, porque foi avisado; e tu salvaste a tua alma. (Ez.3.17-21)

Filho do homem, fala aos filhos de teu povo e dize-lhes: Quando eu fizer vir a espada sobre a terra, e o povo da terra tomar um homem dos seus limites, e o constituir por seu atalaia;  3 e, vendo ele que a espada vem sobre a terra, tocar a trombeta e avisar o povo;  4 se aquele que ouvir o som da trombeta não se der por avisado, e vier a espada e o abater, o seu sangue será sobre a sua cabeça.  5 Ele ouviu o som da trombeta e não se deu por avisado; o seu sangue será sobre ele; mas o que se dá por avisado salvará a sua vida.  6 Mas, se o atalaia vir que vem a espada e não tocar a trombeta, e não for avisado o povo; se a espada vier e abater uma vida dentre eles, este foi abatido na sua iniquidade, mas o seu sangue demandarei do atalaia.  7 A ti, pois, ó filho do homem, te constituí por atalaia sobre a casa de Israel; tu, pois, ouvirás a palavra da minha boca e lhe darás aviso da minha parte.  8 Se eu disser ao perverso: Ó perverso, certamente, morrerás; e tu não falares, para avisar o perverso do seu caminho, morrerá esse perverso na sua iniquidade, mas o seu sangue eu o demandarei de ti.  9 Mas, se falares ao perverso, para o avisar do seu caminho, para que dele se converta, e ele não se converter do seu caminho, morrerá ele na sua iniquidade, mas tu livraste a tua alma. (Ez.33.2-9)

Na analogia da atalaia há três personagens principais: 1) o perverso / a terra; 2) a atalaia; 3) a ameaça. O perverso representa todo os rebeldes e desobedientes de entre o povo de Deus, ou de outros povos como ocorreu no livro do profeta Jonas. Interessante observarmos que o perverso, mesmo vivendo em sua perversidade, aparece como alguém que tem a oportunidade de se arrepender e se converter de seus maus caminhos. Diante disso, é realçada a imensa longanimidade de Deus e sua muito misericórdia que não somente demora para trazer sua ira sobre o perverso como, ainda, se dispõe a perdoar todo aquele que se arrepender de todo seu coração.

No outro lado, aparece no horizonte, como um grande e poderoso exército inimigo, a ira divina. A ira de Deus se aproxima para destruir o perverso como ocorreu nos dias do dilúvio (Gn.6) em que Deus exterminou da terra todo ser vivente. Em diversos livros proféticos, os profetas anunciam a aproximação de um exército inimigo, instrumento de Deus para castigar seu povo (Jr.21.4; Jl.2.1-11; Hc.1.5-11). Deus usaria um povo ímpio para castigar seu povo e os profetas deveriam alertar a nação sobre a iminente ameaça, a fim de que houvesse tempo para os perversos se arrependerem de seus pecados e se converterem de seus maus caminhos, para que Deus não destruísse a terra.

Estando na torre de vigia, a fim de livrar a cidade dos perigos, a atalaia deveria avisar em alto e bom som a presença, ainda distante, das ameaças. Nesses textos os pecadores eram como cidades vigiadas por atalaias e a ira de Deus era a ameaça iminente que destruiria os pecadores por causa de seus pecados. Portanto, quando a atalaia soubesse que a ira de Deus estava sobrevindo aos pecadores e não alertasse em alto e bom som para que soubessem, a fim de se livrarem da ira divina por meio do arrependimento, então ela (a atalaia) pagaria com sua vida, pois a ira de Deus alcançaria os pecadores, matando-a juntamente com eles.

Nos dias de Cristo, encontramos duas atalaias fiéis que alertaram os judeus sobre a ira divina que sobreviria ao povo: João Batista e Jesus Cristo. Ambos conclamaram o povo ao arrependimento (Mt.3.2; 4.17; Mc.1.15), advertindo-os sobre o juízo divino (Mt.3.7-12; Mt.21-25). Eles viram o medíocre estado espiritual em que se encontravam os judeus (Mt.9.36) e os alertaram em alto e bom som, atraindo muitos ouvintes de coração quebrantado ao arrependimento enquanto provocaram o ódio dos endurecidos de coração, por terem revelados seus pecados (Mt.14.5; 26.4; Mc.6.19; Jo.5.18; 7.1; 11.53). O mesmo pode ser dito dos apóstolos de Jesus, conforme nos revela o livro de Atos dos apóstolos, pois exerceram o ministério a eles confiado, como verdadeiras atalaias (At.2.38; 3.19).

A responsabilidade dos profetas permanece sobre aqueles que Deus chama para anunciar sua Palavra. O pregador da Palavra de Deus tem a responsabilidade de avisar sobre o dia da ira divina que sobrevirá a todos os pecadores sem Cristo. Não é sem razão que o livro de Apocalipse traz a figura de duas testemunhas profetizando contra as nações, mesmo em dias posteriores ao fechamento da Escritura Sagrada (Ap.11.3-14). Em todas as gerações, os pregadores encontrarão um povo perverso e desobediente que atrai sobre si a ira divina, diariamente. Portanto, em todas as gerações os pastores deverão cumprir fielmente o papel da atalaia, alertando os pecadores por meio do chamado ao arrependimento e fé em nosso Senhor e Salvador Jesus. E, tendo em vista que a responsabilidade confiada ao profeta e pastor envolve trazer à luz os pecados dos pecadores, a atalaia sempre será desagradável para sua geração que prefere seguir seu caminho rumo à destruição a ter que reconhecer seus pecados e mudar o rumo da vida, para receber o perdão divino.