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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A fonte do amor

Se amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa? Porque até os pecadores amam aos que os amam.” (Lc.6.32)

Você já observou como o amor humano é estranho, confuso e problemático? Pessoas que prometeram se amar por toda a vida, no dia seguinte estão brigando. Irmãos que deveriam cuidar um do outro deixam de se falar por causa de dinheiro, herança e coisas semelhantes. Amigos que diziam querer o bem recíproco ficam enciumados ao verem o sucesso do outro ou o surgimento de novos amigos. Pais deixam de dar aos filhos o melhor da educação, tomados por cuidados consigo mesmos. Por que o amor dos homens é tão estranho? Por causa da natureza pecadora.

O que fazer para mudar o comportamento do homem? Como é possível amar verdadeiramente? Para ambas as perguntas, a resposta é: Cristo. Jesus foi exemplo de vida em todas as coisas, inclusive com respeito ao amor. Todavia, não é ao exemplo de Cristo que precisamos recorrer, mas ao que Jesus fez e pode fazer na vida do ser humano. Tentar imitar Cristo sem crer na obra do Cordeiro de Deus nem desfrutar da nova vida em Jesus será uma tentativa inútil, pois nem pode satisfazer a justiça de Deus nem muito menos será suficiente para vencer a natureza pecaminosa que habita na carne. O homem precisa de ajuda para amar como Cristo nos amou. E essa ajuda precisa ocorrer diretamente no coração.

Mas, qual a diferença entre o amor comum, presente nos seres humanos, em geral, e o amor que emana de Jesus? Mesmo um perigoso criminoso pode amar um filho ou uma esposa. Ou seja, mesmo sem conhecer Jesus, o homem pode viver fragmentos do amor, pois Deus criou o homem a sua “imagem e semelhança” (Gn.1.26). Todavia, por causa do pecado, esse amor sempre estará marcado por deficiências visíveis e invisíveis aos olhos, ou seja, por imperfeições que ora podem ser vistas pelos homens ora só podem ser sentidas pelo coração. O amor dos homens é egoísta, pois funciona como moeda de troca quer desejando elogios das pessoas e/ou seus benefícios quer esperando merecer algo do Criador, diante do qual pretende mostrar que é digno de alguma coisa.

O amor de Cristo, todavia, é perfeito e sempre glorifica a Deus. Seu amor é todo santo e virtuoso, plenamente em acordo com a Verdade. Por amor, Jesus esvaziou-se de si mesmo, entregando-se numa cruz sem esperar receber nada em troca. Seu amor trouxe benefícios eternos para os homens e glória eterna para o Pai. O amor de Jesus estava fundamentado na Verdade da qual nunca abriu mão para agradar homens nem muito menos para alcançar benefícios. Seu amor não lhe trouxe status, poder, honras, elogios ou riquezas, mas humilhação, sofrimento e morte.

Contudo, ser cristão não é suficiente para viver o abundante amor de Deus, pois mesmo o cristão ainda precisa buscar em Jesus o auxílio necessário para vencer a natureza pecaminosa que insiste em coabitar com a nova vida concedida pelo Espírito Santo. Somente, a volta de Jesus trará ao cristão a completa vitória sobre a natureza pecaminosa. Portanto, enquanto esperamos Cristo voltar, precisamos lutar contra o pecado. Por isso, Paulo conclama a igreja a buscar uma vida cheia do Espírito Santo, a fim de vencer toda má inclinação da carne (Gl.5.16,22-23). Isso significa que você precisará buscar ao Senhor por meio da meditação na Palavra de Deus e constante oração.

Mas, como perceber que ainda precisamos buscar auxílio no Senhor para amar como Ele nos amou? Você precisa conhecer a si mesmo. Para isso, precisará ser confrontado pela Escritura que revelará seus pecados mais profundos e íntimos, os pensamentos e sentimentos mais ocultos e pecaminosos. Talvez, você consiga fingir para as pessoas e para si mesmo, mas diante de Deus estamos despidos de qualquer máscara. O verdadeiro cristão deve buscar a verdade sobre si mesmo, a fim de que o Senhor trabalhe sua vida por meio da Palavra e do Espírito. Não deixe seu coração enganá-lo, conheça-o por meio da Verdade e você poderá dominá-lo através do poder do Espírito.

Alguns testes simples podem mostrar que você precisa da ajuda de Jesus para amar como Ele nos amou: Você sente ciúmes de seus amigos mesmo sabendo que estão felizes com novas amizades? Seu coração espera reconhecimento quando você faz algo bom para as pessoas? Você só dá aquilo que tem em abundância? Você trata bem as pessoas, mas não se importa com a Verdade? Você dá prioridade a si mesmo nas filas de banco, supermercados, almoços etc? Seu coração sente inveja do sucesso de outras pessoas? Você faz seu melhor querendo ser visto e elogiado? Você gosta de ter a primazia? Você sente o coração triste quando não o notam ou não o elogiam por algo que fez? Você trata bem todas as pessoas ou somente aquelas que você escolhe? Você nega a si mesmo para que outros sejam abençoados?

Não faça uma avaliação simplória de si mesmo. Seja sincero, a fim de reconhecer seus próprios pecados, pois somente aquele que conhece a si mesmo pode confessar suas faltas e, arrependido, buscar no Senhor perdão e capacidade para viver uma nova vida em pleno acordo com o amor e santidade do Senhor. Será necessário, então, lutar contra si mesmo por meio do poder de Deus que provém da Escritura Sagrada e do Espírito Santo. Por meio deles, você se tornará mais parecido com Cristo a cada dia, crescendo no amor de Deus, dando testemunho da beleza da nova vida que encontramos em Cristo Jesus.

Portanto, se esforce para viver o amor de Deus. Muitos se acomodaram a uma vida comum, de sorrisos aparentes, relacionamentos superficiais e trocas de favores como expressões de um amor qualquer. Não deixe que isso aconteça com você, também. A igreja deve manifestar o Reino de Deus, o ambiente da graça, onde as pessoas deverão encontrar a Verdade, a Justiça e o Amor. Nela, os pecadores que se achegam a Cristo poderão ser motivados a buscar uma vida cheia do amor de Deus e, no aconchego dos irmãos, um refúgio do mundo hostil, injusto, mentiroso e mau. Aqueles que andam com Cristo há mais tempo tornam-se exemplos a serem seguidos ajudando os recém-convertidos a amarem uns aos outros como Cristo nos amou. E, desta forma, o amor de Deus é posto em prática no dia a dia da igreja de Jesus.


Portanto, mesmo que o amor possa ser praticado, parcialmente, por qualquer pessoa, você não deve se acomodar a isto. Ao perceber que seu coração precisa do trabalhar gracioso do Senhor, comece a sondá-lo à luz da Escritura, orando em busca de uma vida cheia de amor. Por meio do agir do Espírito e da Palavra de Deus você poderá viver o amor de Deus, seguindo os passos de Cristo. Mas, lembre-se que esse amor não o levará a honras, status e benefícios. O amor de Deus se manifesta no deserto, nos vales “da sombra da morte”, na cruz. A única glória desse amor está em agradar a Deus, colocando sempre a vontade do Senhor acima de sua própria vontade. Pois o amor que vem de Deus também volta para Ele, pois o “amamos porque Ele nos amou primeiro” (1Jo.4.19).

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Geração de aparência

Porém o SENHOR disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração.” (1Sm.16.7)

Como é difícil ter amigos em nossos dias! A inflação alcançou as amizades, tornando-as caríssimas. Contudo, o preço não indica o valor de tais amizades, mas a corrupção dos valores morais responsáveis pela atribuição dos preços especulativos que não correspondem à verdade. A amizade mais barata custa o preço da bajulação ou hipocrisia, exigindo, ainda, impostos de uma vida acostumada com a falsidade e tolerância. Depois que verdade saiu de circulação, a economia-moral entrou em crise e os relacionamentos perderam a qualidade. Portanto, pagamos muito caro por algo que não vale nada.
Dentro desse contexto esdrúxulo, somos exigidos a viver pela aparência. Um aparente sorriso vale mais que uma palavra sincera de reprovação necessária. Lembro-me, então, de um cômico longa-metragem chamado Madagascar:
– Sorriam e acenem!
Diz o capitão para sua tropa, alvo dos olhares da multidão.
Em um zoológico, quatro pinguins põe em prática seu plano de fuga enquanto sorriam e acenavam para a multidão encantada com a aparente “fofurinha” daqueles quatro animaizinhos. Essa cena engraçada dos pinguins de Madagascar, que agradavam ao público enquanto maquinavam a fuga secreta, parece expressar bem o "amor" em nossos dias. Poderíamos chamar essa atitude de “síndrome da pessoa pública”, pois, ao subir em um palanque, tribuna ou algo semelhante, ou, ainda, estando sob a mira de câmeras, políticos, atores, palestrantes entre outros “famosos” expressam um “natural” sorriso cativante, atraindo multidões de discípulos e fãs magicamente apaixonados. Carisma tornou-se fundamental para a preservação de amizades, cargos, status social e fama.
O cultivo da simples aparência desenvolveu a cultura do melindre, habituando o povo a relações superficiais que se contentam com sorrisos e “boas palavras”, por mais falsas que sejam. Pessoas melindrosas não são capazes de ouvir a verdade quando esta os confronta, pois se magoam com facilidade. Os relacionamentos passam a depender da manutenção de uma aparência agradável aos outros. Por causa da incapacidade de ouvir a verdade, houve o abandono da sinceridade, para não “magoar” o ouvinte. E por causa da hipersensibilidade, a geração deixou de ser confrontada diante de seus pecados, passando a correr livre rumo ao abismo para sua própria destruição, pois não há mais quem lhe corrija os erros.
Decorrente disso surge um crescente aumento de outro pecado: a maledicência. Os mesmos que não dizem a verdade pela frente são motivados a dizer para terceiros, difamando uns aos outros sem dar-lhes qualquer direito à defesa. As mesmas pessoas que andam ao seu lado, difamando outras pessoas enquanto concordam com você em tudo, andarão, também, com as demais pessoas procedendo de igual forma enquanto difamam você perante elas. A confiança e transparência, sinceridade e lealdade foram retirados completamente do vocabulário das relações sociais atuais. Desta forma, trocaram a verdade que vem de Deus pela mentira de corações pecadores.
Diversas cenas poderiam ser reconstruídas, como exemplo: José e Maria foram visitar uma família amiga que ofereceu um jantar para seus queridos convidados. A “dona de casa”, então, preparou tudo com carinho, esperando agradar seus queridos visitantes. Todavia, teve a infelicidade de não acertar a receita. Seu prato principal não ficou bom, mas José e Maria comeram tudo. Então, perto do final da janta, a “dona de casa” pergunta para José e Maria: “– Gostaram do prato principal?”. Nesse momento José e Maria suam frio com receio de dizer a verdade. O que eles deveriam dizer? Que não estava bom ou, simplesmente, fingir que estava gostoso? O que você diria? Arrisco-me a dizer que a maioria diria que estava bom para não ofender a cozinheira.
Outro exemplo bastante comum pode ser tirado de relacionamentos conjugais (ou mesmo entre namorados): Uma moça (esposa ou namorada) decide comprar um vestido bonito aos olhos, mas decotado demais. Acostumada a ver tal costura desfilando pelas ruas, ela o compra sem qualquer preocupação com a decência nem mesmo com os problemas que causará para o marido (ou namorado). No domingo, por ocasião do culto vespertino, a moça decide usar o vestido. O marido (ou namorado) olha para ela, vê os decotes, mas não diz nada. Ele não tem coragem de dizer a verdade, pois o relacionamento não está fundamentado na verdade. Mesmo antes de chegar na igreja ele já está preocupado e com ciúmes, pois sabe que as curvas de sua esposa (ou namorada) atrairão até mesmo os olhares de quem não quer ver nada. Mesmo diante de todo esse problema, o esposo (ou namorado) não diz nada. As pessoas percebem a falta de bom senso da moça, porém, também, não dizem nada. Todos sabem do problema, contudo ninguém tem coragem de dizer a verdade, pois tem medo de magoá-la. E caso alguém, mesmo que fosse o esposo (ou namorado), dissesse a verdade, receberia em troca um olhar de reprovação, uma discussão, uma inimizade, pois a moça, também, não está preparada para ser confrontada pela verdade. Ela prefere a mentira e hipocrisia do silêncio aparentemente aprovador.
Estes quadros simples e comuns exemplificam as relações no dia a dia. Quantas mentiras são ditas diariamente sob a justificativa de não querer ofender. As pessoas não dizem o que sentem ou pensam, verdadeiramente. Por isso, os pais ficam bastante envergonhados quando seus filhos, ainda crianças, dizem a verdade diante de outros adultos. Caso houvesse uma criança naquele jantar, ela diria, sem medo nem maldade, que o prato principal não estava bom. Provavelmente, os adultos ouviriam as seguintes palavras: “– Eu não gostei disso não!”. A verdade, então, faria os pais sentirem-se envergonhados e indignados com as palavras do filho. Em casa, José e Maria chamariam a atenção do filho por dizer a verdade na frente dos anfitriões daquela noite. A vida social hipócrita é transmitida de pais para filhos por meio da educação familiar, acentuando um pecado já presente no coração da criança: a mentira.
Acostumados em ouvir mentiras, as pessoas se satisfazem com sorrisos e elogios falsos. É dessa forma que políticos (seculares e eclesiásticos) se mantêm no poder por longos anos, agradando a gregos e troianos por meio de sorrisos e acenos. Isso ocorre porque a massa não se importa com a mentira, desde que esteja bastante adoçada e bem ornamentada com Glacê, à semelhança a muitos bolos de casamentos: bonitos por fora mais horríveis com respeito ao sabor. E qualquer pessoa que se destaque de entre as multidões, por não se deixar enganar pela aparência, torna-se um tipo de arqui-inimigo da presente geração que prefere levar uma vida de aparência. Contudo, por mais doce que sejam tais aparências não são capazes de tornar a vida social bonita nem dar caráter duradouro para os relacionamentos.
A cultura da aparência está crescendo desenfreadamente, ajudando a produzir uma geração hipersensível. As pessoas que falam a verdade são excluídas e consideradas rudes, pois o povo não suporta palavras sinceras. Cristãos passaram a ler a Escritura como uma “caixinha de promessas”, selecionando os textos que prometem paz e alegria. Psicólogos jogam os pecados de seus clientes para debaixo do tapete enquanto o governo obriga o povo a “aceitar cada pessoa do jeito que ela é” como se não houvesse certo ou errado. Sermões confrontadores são repudiados pelas multidões, pressionando até mesmo os mais famosos pregadores a falar mansinho para não ofender seus “fãs”.
Estando em São Paulo, fui a uma igreja próxima de onde eu estava hospedado. E, dentre as muitas palavras ditas pelo pregador, fui marcado pelos seguintes dizeres: “– Não quero ofender vocês”. Ele estava com medo de falar sobre pecado. Frequentemente, então, tentava suavizar suas palavras com eufemismos e introduções massageadoras. Diante disso, devemos perguntar: Que tipo de relacionamento os cristãos atuais tem com Deus? Por qual razão as pessoas estão frequentando as igrejas locais? Se a razão não é o temor e amor a Deus; a certeza de que somente Cristo pode livrá-las da ira vindoura; a consciência de que são pecadoras e precisam da justiça de Jesus bem como da santificação do Espírito, então, por qual razão estão indo às igrejas locais? Se não suportam ser confrontadas, por que razão as multidões estão sendo atraídas a Cristo?
O cultivo da mera aparência, melindre e hipersensibilidade afetaram até as orações. Comumente me deparo com pessoas que não contam tudo para Deus, pois não querem “aborrecê-lo”. Ou seja, Deus foi incluído na cultura da superficialidade como se o Senhor não suportasse ouvir aquilo que temos para contar. Desta forma, as orações ficam incompletas, pois mesmo que o cristão tenha tantos motivos para agradecer, deixa de dizer tudo o que está sentindo, com receio de “magoar” o Senhor. Por isso, muitos pecados não são confessados; fraquezas deixam de ser externadas para Deus; reais necessidades decorrentes das lutas internas e problemas externos não são apresentadas diante do Senhor, por causa do receio de não agradá-lo. Mas, será que Deus deseja que nossas orações sejam aparentes? É evidente que não!
Outro fenômeno decorrente das relações aparentes é o grande número de denominações e, ainda, de pessoas sem igreja. A superficialidade das relações baseadas em hipocrisias tem alimentado uma geração de desigrejados. É bastante comum pessoas que foram disciplinadas saírem da igreja local, pois, mesmo estando erradas, não querem ouvir a verdade nem ser corrigidas. Muitas outras abandonam a comunhão com os irmãos por causa de qualquer problema. E mesmo que seja contraditório para uma igreja, tem sido comum o êxodo eclesiástico por causa da verdade, pois os cristãos não querem ouvir a Escritura dizer-lhes que são pecadores nem suportam receber um “NÃO” da liderança. “Democracia”, “liberdade”, “tolerância” e “positivismo” enchem a mentalidade de uma geração acostumada com a aparência enquanto se intitula dona do próprio coração.
Todavia, o amor não é simplório assim. É preciso muito mais do que aparência para vivermos o amor de Deus presente em toda a Escritura. O amor de Deus é perfeito, puro e límpido. Ele não sorri para as pessoas enquanto fala mal delas pelas costas. Antes, "o Senhor corrige ao que ama, e açoita a todo o que recebe por filho" (Hb.12.6). Deus sempre foi, é e será sincero conosco dizendo somente a Verdade, pois Ele mesmo é a Verdade. Deus não tem medo de nos magoar com a Verdade. Quando as multidões não gostaram das palavras de Jesus, ele as deixou ir embora (Jo.6.60-71), pois seu amor estava fundamentado na Verdade e, somente, por meio dela os pecadores se tornariam seus discípulos e amigos.
No decorrer da história redentora, Deus mostrou seu amor para com aqueles que se achegavam humildemente a Ele. Mas, Deus não despiu-se do amor em sua relação com os ímpios e rebeldes. Deus é amor em seus atos criativos de Gênesis 1-2 e, também, em seu juízo manifesto no dilúvio de Gênesis 6; Deus é amor na escolha de Abraão (Gn.12) e na condenação de Sodoma e Gomorra (Gn.19); Deus é amor na libertação de Israel do Egito (Ex.1-15) e na entrega da nação para o cativeiro da Babilônia (2Rs.25); assim, Deus é amor na promessa de vida eterna e nos anúncios sobre o juízo vindouro.
Temos um grande desafio: mudar as relações sociais. Para isso, o cristão deve acostumar-se com a verdade e praticá-la em todo tempo, não importando se agradará ou não seu público. Essa é a única forma de glorificar a Deus e, também, transformar vidas. Sorrisos e agrados podem atrair pessoas para uma igreja local, mas não podem transformar o coração pecador que precisa ser confrontado, a fim de que se arrependa de seus pecados e encontre em Cristo o perdão e poder para mudar. A luta contra a hipocrisia, melindre, hipersensibilidade, falsidade e maledicência somente pode ser vencida por meio da Verdade dita tanto de púlpito quanto no dia a dia das relações sociais entre os cristãos e, também, não cristãos.
Por meio do cultivo da verdade, as pessoas serão fortalecidas, pois estarão preparadas para ouvir o que for necessário, mesmo que isso as machuque, a fim de que mudem. Por meio da verdade, os relacionamentos serão confiáveis, sem ter quem maldiga o outro pelas costas, pois, quando for necessário, as pessoas serão capazes de dizer o que pensam, mesmo que isso não seja agradável aos olhos. Por meio da verdade, as relações serão duradouras e as amizades, verdadeiras, pois problemas, divergências e mútuas correções não abalarão o coração que fora fortalecido pela verdade.

Para que seu amor seja perfeito como o amor de Deus, você precisará olhar para Jesus que tanto acolheu os humildes quanto resistiu aos soberbos (Tg.4.6). Somente assim, você amará com a misericórdia e com a justiça; com o carinho materno e com a disciplina paterna, também. Não ame por aparência, apenas, nem tenha medo de dizer a Verdade, pois a Escritura diz que o amor "não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade" (1Co.13.6). Ame com o amor do Senhor: perfeito, puro e límpido, pois é este amor que reflete o caráter de Cristo e glorifica a Deus que é amor.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A exclusividade do ministério pastoral masculino

Quem define o papel do homem e da mulher dentro da família, sociedade e criação? Quem define os limites para o homem e a mulher? A resposta não é difícil, afinal o oleiro tem direito sobre a massa (Rm.9.21) e todo criador tem poder sobre suas criaturas. O que impede o entendimento e aceitação do assunto está dentro do homem, não fora dele. A natureza pecaminosa não suporta subordinar-se a Cristo, pois é contrária a Ele. Todavia, é evidente que o Criador do Universo define o papel de cada criatura de forma que todo e qualquer limite da submissão feminina deve ser definido pela Palavra de Deus. Convenções sociais ou conjecturas filosóficas não podem resolver essa questão, pois pertence ao Senhor o direito de ditar as regras.
Para nos ensinar sua vontade a esse respeito, Deus nos deu mandamentos em meio a um povo formado, chamado, conduzido e ensinado por Ele. A cultura em Israel (do Antigo e Novo Testamento) foi construída, cuidadosamente, por Deus, a fim de compor o cenário para a revelação da vontade do Senhor. O papel do homem e da mulher dentro de Israel não era apenas um elemento cultural local, mas um instrumento para a manifestação da revelação divina. A vida de Israel era “sal da terra” e “luz do mundo” (Mt.5.13-16) com o propósito de refletir ao mundo o querer de Deus (Dt.4.1-6). A cultura de Israel não era sagrada, mas todos os elementos que nos foram revelados por ordenanças devem ser considerados como expressão da vontade do Senhor. Por isso, disse o Senhor, acerca de seus mandamentos: “Guardai-os, pois, e cumpri-os, porque isto será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos que, ouvindo todos estes estatutos, dirão: Certamente, este grande povo é gente sábia e inteligente” (Dt.4.6 – ARA).


Mas, primeiro: Como estudar um tema da Escritura Sagrada?

A Bíblia não é um biscoito da sorte chinês com provérbios soltos que profetizam coisas boas ou ruins ao leitor. Ler a Escritura aleatoriamente ou transformá-la em “caixinha de promessas”, além de ser uma leitura deficiente e de pouco proveito, pode constituir-se numa idolatria ao transformar a Bíblia em um “amuleto da sorte”. Poderíamos, ainda, assemelhar tal leitura a uma pessoa que só está presente em momentos bons. Porém, amizades sólidas são construídas por meio de um relacionamento integral, experimentado nas diversas circunstâncias proporcionadas pela vida. De forma semelhante, o conhecimento de Deus é amadurecido dentro de um relacionamento cristão-Bíblia integral em que cada página da Escritura é experimentada integralmente numa leitura que percorre toda a história redentora da revelação divina.
A Escritura Sagrada é a revelação histórica, progressiva orgânica e adaptável de Deus[1] para o homem sobre a história redentora que se inicia na criação, encontra seu clímax na morte e ressurreição do Filho de Deus e é concluída com a chegada do Novo Céu e Nova Terra. Portanto, a Palavra de Deus foi revelada dentro da história humana, confiada pouco a pouco ao povo de Deus no decurso de muitos anos, de forma que fosse compreendida em cada tempo, atendendo a necessidade de cada geração acerca do conhecimento de Deus, enquanto clareava a cada nova revelação o Evangelho anunciado embrionariamente desde a primeira Palavra divina.
Os temas, então, não estão soltos e fora de contexto nem são apresentados isoladamente por um único autor. Por causa de seu autor primário (Espírito Santo) que unifica a diversidade da Escritura, a Palavra de Deus trata cada assunto ao longo de suas páginas, revelando-nos pouco a pouco o conteúdo completo sobre cada determinado tema. O leitor que deseja entender sobre liderança, não deve abrir apenas uma ou mais cartas de Paulo, usando-as como se fossem um dicionário em que os verbetes encontram-se sistematicamente explicados. Para compreender os temas abordados pela Escritura, é preciso folhear pacientemente a Bíblia toda, desde Gênesis até Apocalipse, observando como Deus acrescentou informação à revelação do assunto em cada período da história. Isso é fazer teologia bíblica!
A costumeira leitura isolada e limitada ao estudo etimológico de alguns termos considerados importantes costuma ser deficiente e pode conduzir o leitor a conclusões erradas de natureza tanto semântica quanto teológica. Por essa razão, faremos uma análise do assunto, acompanhando a revelação de Deus sobre o papel do homem e da mulher. Veremos como a Escritura revela progressivamente o tema, preservando plena unidade em todas as partes.


Papeis definidos por Deus

Antes de prosseguirmos, é necessário lembrar que o estudo sobre os papéis do homem e da mulher não exalta nem diminui qualquer um deles. Para auxiliar na compreensão, lembremos os papéis definidos por Deus a cada elemento da criação, pois o homem e a mulher não foram os únicos seres que receberam leis e papeis a serem cumpridos dentro de um universo criado para o louvor da glória de Deus.
Durante os estudos acadêmicos básicos, exercidos nas escolas de ensino fundamental e médio, aprendemos diversas leis que regem o Universo. A criação obedece a diversas leis físicas e químicas, tornando possível a perfeita harmonia entre todos os seres animados e inanimados. Sem a lei da gravidade, por exemplo, não estaríamos fixados ao chão, os planetas não circuncidariam o sol com distância e velocidade precisas nem os satélites naturais girariam em torno dos planetas em fina constante. Semelhantes observações podem ser feitas com respeito ao ciclo de vida em que água, terra, ar, sal, carbono etc. possuem papéis necessários. Além desses exemplos, podemos ainda citar o funcionamento de nosso corpo onde cada parte dele possui uma função definida, importante para o todo. Quando qualquer elemento do Universo não cumpre sua função ocorre uma desarmonia que implica em catástrofes. Quando os seres criados se recusam a cumprir os papeis que lhes foram entregues por determinação, a criação sofre os danos. Quando parte de nosso corpo não segue o que lhe fora determinado, então padecemos doenças.
Os exemplos acima não são encontrados apenas em páginas de livros escolares. No livro de Jó, encontramos leis, limites e papeis determinados para a criação que deve cumpri-los conforme o mandado do Senhor. De acordo com Jó, Deus “regulou o peso do vento e fixou a medida das águas” e, ainda, “determinou leis para a chuva e caminho para o relâmpago dos trovões” (Jó.28.25-26). Todas as coisas foram feitas sob medida, regidas por leis e delimitadas conforme a vontade do Senhor (Jó.38-41). A perfeição dessa vontade divina se manifesta na harmonia da criação e encontra-se expressa desde as primeiras palavras proferidas pelo Senhor nos seis dias criativos, ao atribuir papel para cada ser animado e inanimado criados por Ele (Gn.1-2).
Paulo usa a importância de tais papeis naturais como analogia para ensinar sobre a distribuição dos diferentes dons para a igreja. Conforme o apóstolo, Deus é o autor de todos os dons e os distribui a cada um conforme sua vontade, atribuindo a cada cristão papel definido dentro do corpo de Cristo (1Co.12.1-11). Diante dessa distribuição de dons, Paulo exorta a igreja a desenvolver o serviço ao Senhor com satisfação, sem reclamar nem menosprezar ou tentar mudar o dom concedido por Deus. Segundo Paulo, as diferenças não tornam um cristão melhor do que o outro, pois todos são importantes e necessários dentro do corpo de Cristo. Cada cristão deve se contentar com seu dom, servindo a Deus com o que recebeu graciosamente do Criador (1Co.12.12-30).
Mesmo que o homem e a mulher sejam especiais, por terem sido criados à imagem de Deus, também fazem parte da criação e receberam papeis definidos a serem exercidos dentro dela. A imagem de Deus no homem e na mulher não é sinônimo de liberdade para viver conforme a própria vontade. Após criar o homem, Deus lhe deu ordens que deveriam ser obedecidas estritamente e o não cumprimento de tais ordens seria tratado como rebelde desobediência, resultando em justo castigo divino (Gn.2.15-17; 3.8-24). Após a queda de Adão e Eva, Deus relembra ao homem e à mulher seus respectivos papeis por meio de castigos específicos relacionados a função de cada um (Gn.3.16-19).
Por fim, podemos afirmar, com certeza, que todos os seres humanos possuem esse conhecimento gravado no coração, ainda que decidam desprezá-lo ou transgredi-lo. Um exemplo disso encontra-se nas estruturas sociais. As pessoas sabem a importância dos papeis definidos para o bom funcionamento de uma sociedade. Se um funcionário não cumpre seu papel dentro de uma empresa ou tenta mudar sua função por conta própria ocorre uma desarmonia dentro da instituição. Mesmo sendo um exemplo rudimentar, serve para ilustrar a necessidade de sermos fiéis aos papeis definidos dentro da criação.


A revelação embrionária de Gênesis 1 a 3

São apenas três pequenos capítulos, mas Gênesis 1 a 3 contém uma ampla revelação embrionária acerca de diversos assuntos, incluindo a questão pastoral. O apóstolo Paulo nos ajuda a entender isso ao utilizar-se desses três capítulos de Gênesis para embasar seu ensino sobre a liderança masculina e a submissão feminina (1Tm.2.13-14). Conforme Paulo, a narrativa da criação e a narrativa da queda possuem claros indicativos sobre a vontade de Deus acerca do papel do homem e o papel da mulher dentro da família e sociedade.
Em Gênesis 1 e 2, a Escritura revela que Deus criou todas as coisas e as estabeleceu com leis. Essas leis deveriam ser obedecidas pelos seres animados e inanimados, porque expressam a vontade do Senhor para o Universo que lhe pertence. Por meio das leis, Deus concede ordem e harmonia a tudo e governa sua criação com perfeição. No sexto dia, Deus criou o homem e a mulher à sua imagem, dando-lhes, em seguida, ordens para a vida (Gn.1.26-29).
Gênesis 1 nos conta como ocorreu a criação de tudo numa macro visão. Gênesis 2 é um corte do sexto dia da criação, focando sobre o ser humano. Após ter criado os “animais domésticos, répteis e animais selváticos” (Gn.1.24), Deus criou Adão, ou seja, apenas o homem. Podemos considerar que o dia ainda estava em seu início e que o capítulo 2 de Gênesis nos conta o que aconteceu durante todo o sexto dia, após Deus ter criado o homem (sexo masculino) à sua imagem e semelhança.
Em seguida, o Senhor fez um jardim, colocou o homem nele e deu-lhe algumas leis (Gn.2.15-17). Desta forma, Adão foi o primogênito dentre os seres humanos, pois Deus não fez o homem e a mulher ao mesmo tempo. Durante aquele dia, Adão exerceu a importante tarefa de classificar os animais (Gn.2.19-20), mas não encontrou alguém semelhante, entre os seres vivos. Por isso, Deus tirou a costela do homem e a usou como matéria-prima para formar uma mulher, a fim de ser-lhe auxiliadora. A mulher foi um presente de Deus para o homem, criada conforme a imagem do homem (1Co.11.7). Portanto, homem e mulher não foram criados independentes, pois a mulher foi criada para um propósito definido: ser auxiliadora do homem.
Devemos destacar alguns pontos importantes dentro da narrativa da criação, associados à liderança:
1) A ordem de criação indica prioridade e responsabilidade (1Tm.2.13) de forma que Adão tanto possuía o direito quanto a responsabilidade de liderar a criação, incluindo a mulher criada depois dele.
2) Adão recebeu ordens diretas de Deus para cuidar da criação, principalmente do jardim, a fim de que dominasse sobre tudo (Gn.2.15; 3.9-11).
3) Adão exerceu seu domínio sobre os animais nomeando-os sozinho, confirmando seu governo sobre os mesmos (Gn.2.19-20).
4) A mulher foi criada por causa do homem, tendo neste tanto a causa quanto o propósito, pois foi originada de sua costela para ser-lhe bênção (Gn.2.18; 1Co.11.9).
5) A mulher foi criada para auxiliar o homem, ou seja, seu papel seria coadjuvante com o propósito de fazer companhia ao homem, tornar possível a multiplicação da raça humana e auxiliar no exercício de tarefas com o propósito de glorificar a Deus.
6) O homem confirmou seu governo sobre a mulher dando-lhe nome: Primeiro a chamou de “varoa” (Gn.2.23) e depois de “Eva” (Gn.3.20).
7) Ao receber a mulher, o homem tornou-se o pastor dela, responsável por cuidar de seu bem estar integral (Gn.3.11; Ef.5.25-28). A mulher deveria aprender as leis que foram dadas para Adão, a fim de não desobedecer ao mandamento referente a não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn.2.17; 3.2-3).
8) Por fim, a ordem estabelecida deveria ser transmitida para as gerações seguintes, para que cada homem cumprisse bem seu papel ao deixar pai e mãe unindo-se a sua própria mulher constituindo uma unidade familiar formada por um líder e uma liderada, um pastor e sua ovelha (Sl.128; Ef.5.22-33).
A mulher compartilha da mesma natureza do homem e possui igual valor a este diante do Senhor, pois foi criada do homem e dele herdou a mesma imagem e semelhança divina. Porém, ao ser feita do homem e para o homem, a mulher recebe o dever de presta-lhe respeito e submissão (1Co.11.8-9), tendo como função ser auxiliadora (incluindo o papel de mãe – 1Tm.2.15). O Senhor poderia ter feito Adão e Eva do mesmo barro, na mesma hora, dando-lhes as mesmas ordens para cultivar e guardar o jardim, nomear os animais e auxiliar um ao outro. Todavia, aprouve a Deus que o homem fosse criado primeiro e que a mulher fosse criada do homem e para o homem. Essa escolha divina acerca da criação do homem e da mulher carrega consigo elementos indicadores da vontade do Senhor com respeito ao relacionamento social em que o homem deve ser o líder (pastor) e a mulher sua fiel auxiliadora submissa (1Pe.3.1-6).


Narrativas confirmatórias de preceitos

O paraíso não permaneceu, pois o homem não pastoreou corretamente, deixando que a mulher pecasse contra Deus e, ainda, o seduzisse a transgredir a lei do Senhor que lhe fora entregue no início. E apesar da quebra da aliança, a desobediência do homem e da mulher não mudou a ordem estabelecida pelo Senhor. As punições divinas ratificaram as ordens dadas anteriormente, tornando penoso seu cumprimento (Gn.3.16-19). Antes da queda, dar à luz filho não seria um exercício marcado com tanta dor, afinal Eva daria à luz a homens santos, sem pecado. Após a queda, a dor lhe lembraria da transgressão e sua consequência: os filhos da mulher seriam pecadores. Também o governo do homem foi confirmado, mas a submissão feminina deixaria de ser confortável. A natureza pecadora do homem o faria subjugar a mulher com hostilidade. Quanto ao homem, sua responsabilidade de cultivar e guardar a terra seriam acompanhados por desgaste, obstáculos e adversidades, pois a criação toda estaria sujeita a pecado.
As narrativas bíblicas subsequentes, inspiradas pelo Espírito Santo, continuaram confirmando o propósito inicial de Deus de que o homem fosse o pastor das ovelhas do Senhor. A liderança de Adão é repassada para Sete, após a morte de Abel e afastamento de Caim (Gn.4.8-16), e, depois de Sete, Enos assume o pastoreio do clã (Gn.5.25-26). Todas as genealogias que surgem a partir de Gênesis 5, elencam apenas os cabeças de cada família, homens responsáveis por pastorear não somente a família, mas, também, todos que estivessem debaixo de seu teto (Gn.17.9-14, 23-27). Observe-se ainda que a narrativa de Gênesis conta não somente os feitos dos homens, mas, ainda, as escolhas, promessas e ações de Deus. E este nunca contradiz sua vontade revelada anteriormente.
Durante o enredo, Deus escolhe homens (Abraão, Isaque e Jacó) para herdarem a promessa redentora e mulheres para serem mães, participantes da história da redenção (Sara, Rebeca, Lia etc). Cada patriarca tornou-se responsável pelo ensino e condução de seu clã. Deus lhes revelava a Palavra e eles deveriam repassá-la para a família, a fim de que todos debaixo de sua responsabilidade fossem corretamente pastoreados para Deus. Quando Deus ordenou que Jacó o adorasse em Betel, Israel convocou a família e mandou que todos lançassem fora seus ídolos, purificando, assim, seu rebanho para uma adoração agradável ao Senhor (Gn.35.1-4). E, por maior que fosse o número de mulheres no mundo, o cajado pastoral era passado para um homem da geração seguinte, debaixo da aprovação do Senhor.
Nada disso ocorreu por acaso. A história da redenção estava em curso e seu propósito aponta para Cristo Jesus, o Filho de Deus. Em Números 27, Deus anuncia o sucessor de Moisés para o pastoreio de Israel. Nesse texto, ocorrem algumas indicações daquele que viria para apascentar o povo de Deus: Primeiramente, Moisés pede ao Senhor que ponha um homem sobre a congregação (Nm.27.16). Sozinho, esse texto talvez não seja tão claro, mas unido ao texto profético de Miquéias 5.2, somos conduzidos ao propósito do Senhor de indicar a necessidade daquele que haveria de apascentar o povo de Deus (“e ti sairá o Guia que há de apascentar a meu povo, Israel” - Mt.2.6). Esse objetivo é clareado pouco a pouco nos versos seguintes de Números 27. Em seguida, Moisés preocupa-se que “a congregação do SENHOR não seja como ovelhas que não tem pastor” (Nm.27.17). Essa preocupação é ratificada durante a história de Israel (1Rs.22.17; 2Cr.18.16; Zc.10.2) até a chegada do Messias, quando a mesma observação é feita por Jesus durante seu ministério (Mt.9.36). Israel precisava daquele que fora prometido para pastorear o povo de Deus, um profeta semelhante a Moisés (Dt.18.18). Outro indicativo de que Números 27 aponta para Cristo encontra-se naquele que fora escolhido para liderar o povo como sucessor de Moisés: Josué (Nm.27.18). Esse indicativo está no fato de que em Hebraico e Grego o nome dele é Jesus. Seu nome é Yehoshuah (Nm.27.18. Posteriormente escrito Yeshuah – Ne.8.17), traduzido pela Septuaginta como Iesûs, ou seja: Jesus.
Desta forma, a liderança do homem ao longo da história da redenção carrega um importante indicativo: o governo de Cristo. Todas as vezes que um homem cumpre fielmente seu papel como líder, pastoreando a família, governando a sociedade e conduzindo a igreja na Palavra de Deus, Cristo é apontado como Senhor de tudo, governando tudo por meio daqueles que escolheu para representa-lo. A igreja propaga a presença do Reino de Jesus (Lc.17.21) e cada homem fiel a Cristo anuncia seu governo absoluto (1Tm.2.7-8). Assim, o pastoreio masculino tem importante papel dentro da história redentora.


Exemplos para não serem seguidos

Todo texto bíblico possui contexto literário e propósito autoral. Quando não observados, os textos podem se tornar pretexto para diversas doutrinas estranhas à própria Escritura. Um exemplo disso é o texto de Juízes 4 e 5, onde o autor narra o período em que a profetisa Débora julgou a Israel. É bastante comum a utilização dessa narrativa como suposto texto prova a favor da liderança feminina. Portanto, a fim de esclarecer a mensagem do texto dentro de seu contexto literário maior, precisamos identificar o propósito do livro de Juízes.
Como moldura de uma obra de arte, o propósito de Juízes aparece no início e no fim do livro: apontar para a necessidade do supremo pastor (Rei) de Israel, mostrando o que aconteceu com o povo de Deus quando cada um fazia aquilo que estava em seu coração (Jz.2.6-3.6; 21.25). Foram, aproximadamente, 450 anos (At.13.20) pecando contra Deus por meio de idolatrias, homossexualismo, casamentos com povos pagãos, prostituição, chacina de familiares, covardia e irresponsabilidade, votos impensados etc. A falta de conhecimento da lei do Senhor e a ausência de um líder que pastoreasse o povo por meio da Palavra de Deus fez com que Israel fosse como ovelha que não tem pastor (Nm.27.16-17; Jz.21.25).
Todavia, ainda, outro propósito pode ser indicado na leitura conjunto dos livros de Juízes e Rute. Os dois livros juntos apontam para a imensa graça e fidelidade de Deus em preservar seu plano redentor apesar do contexto caótico instaurado pelos pecados humanos. O resultado dessa graça é o casamento entre Boaz e Rute, bisavós de Davi (Rt.4.21-22), por meio dos quais viria o grande Rei que haveria de apascentar o povo de Deus (Mt.2.6). Portanto, mesmo que Deus tenha realizado proezas, no livro de Juízes, por meio de alguns poucos personagens, exaltando, assim, as misericórdias do Senhor, o livro não conta a glória de Israel, antes desnuda a vida leviana do povo para vergonha daquelas gerações tão distantes de Deus.
É nesse contexto literário que Juízes 4 e 5 devem ser lidos. O texto apresenta certa desordem social por causa da covardia dos homens daquela geração. A narrativa começa com o castigo de Israel por causa de seus muitos pecados cometidos contra o Senhor (Jz.4.1), razão pela qual o povo sofria nas mãos dos cananeus (Jz.4.2). Mas, Israel clamou a Deus e este lhe prometeu, por meio da profetisa Débora, vitória sobre os inimigos. A Palavra é dirigida a Baraque que obedeceu à Palavra do Senhor proferida por Débora, mas não teve coragem de assumir a liderança que lhe fora designada. Por isso, mesmo sendo vitorioso, Baraque não recebeu a honra da vitória, pois “às mãos de uma mulher” Deus derrotaria os inimigos de Israel (Jz.4.9). Ao dizer essas palavras, Debora não estava se gloriando, mas revelando a vergonha que sobreviria a Baraque por causa de sua covardia. Diante desse episódio, o leitor torna-se capaz de entender a razão de haver uma mulher julgando o povo de Deus: covardia masculina. Dentre tantos pecados de Israel, acrescentou-se a negligência do homem para com a responsabilidade de liderar o povo de Deus na Palavra do Senhor.
A Escritura registra diversas profetisas: Miriã (Ex.15.20); Débora (Jz.4.4); Hulda (2Rs.22.14; 2Cr.34.22); Noadia (Ne.6.14); a esposa de Isaías (Is.8.3); Ana (Lc.2.36). Diversas mulheres tiveram o dom de profecia, mas nenhuma delas registrou a Escritura Sagrada. Diversas mulheres profetizaram, mas nenhuma delas foi designada para pastorear o povo de Deus, pois o dom de profecia não anula o propósito do Senhor para a mulher: ser auxiliadora (Gn.2.18). Nenhuma das profetisas exerceu papel de liderança, exceto Debora. A razão da exceção de Débora não é positiva, mas negativa, conforme demonstramos acima, pois o contexto em que ela assumiu a condução do povo está relacionado à covardia e negligência dos homens de Israel. Portanto, o exercício de sua liderança não foi motivo de glória para Israel, mas vergonha, pois manifestou a covardia dos homens de seus dias.
Interessante observar, ainda, que, mesmo tendo Débora julgado a Israel durante o período de Juízes, o autor de Hebreus a exclui da lista de heróis da fé (Hb.11). O autor faz referência a Baraque, por causa da vitória sobre Sísera (Hb.11.32), mas não menciona a profetisa Débora que o encorajou a confiar em Deus. Uma vez que “toda a Escritura é inspirada por Deus” (2Tm.3.16), esse registro, também, foi inspirado pelo Espírito Santo à semelhança de todo o restante da Palavra do Senhor. Portanto, atribuir qualquer preconceito ao livro seria o mesmo que acusar Deus de fazer acepção de pessoas. E porque Deus não faz acepção de Pessoas (Dt.10.17; 1Pe.1.17), Sara é mencionada na relação de heróis da fé, não por pastorear ou liderar alguém, mas por crer na promessa divina acerca do filho prometido.


A chegada do supremo pastor

Na plenitude do tempo (Gl.4.4), Cristo habita entre os homens (Jo.1.14), a fim de cumprir o projeto redentor por meio de sua morte e ressurreição (Hb.10.1-23). A associação de Cristo com os homens do passado é descortinada. Jesus é chamado de Último Adão (1Co.15.45), Filho de Davi (Mt.1.1), Profeta à semelhança de Moisés (At.3.22), Filho de Deus (Lc.1.35), Rei sobre todas as nações (Ap.12.5), Noivo da igreja (Jo.3.29), bom Pastor (Jo.10.11), Cabeça da igreja (Ef.5.23). Jesus é indicado como varão perfeito, modelo para todo homem com respeito ao cumprimento de seu papel de líder (Ef.5.25).
Durante sua vida e ministério Jesus confirmou a Escritura, afinal Ele não veio “revogar a Lei ou os Profetas”, mas cumpri-la (Mt.5.17). Cristo elogiou mulheres (Mc.14.6-9), foi servido por elas (Mc.15.40-41), atendeu a pedidos (Mt.15.28), perdoou-lhes os pecados (Lc.7.36-48), mas nunca designou para qualquer uma delas papéis de homens. Certa feita, Jesus refutou uma provável tentativa de exaltar a maternidade, dizendo: “antes, bem-aventurados são os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam!” (Lc.11.27-28). E mesmo tendo chocado diversas vezes aquela geração (Mt.9.11; 12.1-2; 15.2; Lc.13.32; Jo.2.19; 10.33; [Jo.8.1-11]), Jesus nunca atribuiu a qualquer mulher o papel de liderança. Ele escolheu pescadores (Mt.4.18), publicano (Lc.5.27) e zelote (Mt.10.4), homens considerados indignos (At.4.13) para o papel a eles confiados (liderar o povo de Deus), mas não atribuiu a qualquer mulher o papel pastoral. Na cruz, Jesus voltou-se para Maria, sua mãe, e João, um dos apóstolos, a fim de que este tomasse conta daquela (Jo.19.26-27). Assim, Jesus confirmou, em sua vida e ministério, a vontade do Pai de que o homem fosse líder e a mulher liderada, numa relação pastor-ovelha.


Os atos da igreja de Cristo nos dias dos apóstolos

Não foi por acaso que Jesus escolheu apenas homens para o ministério apostólico (Mt.10.2-4). Supor que a escolha exclusiva de homens foi um elemento meramente cultural subestima a soberania do Senhor sobre a história, ignora a liberdade divina para contrapor uma cultura, como ocorre a respeito de diversos assuntos (1Co.11.2-16; Ef.6.5-9; Fm.10-20), e, ainda, despreza o fato de que a história redentora foi, diligentemente, administrada por Deus (At.2.22-23; 4.24-30). As páginas seguintes do Novo Testamento continuaram confirmando a revelação anterior tanto por meio da narrativa sobre a vida da igreja quanto nas ordenanças deixadas pelos escritores neotestamentários.
Antes de Pentecostes, quando os discípulos de Jesus se reuniam num cenáculo, perseverando “unânimes em oração” junto a diversas mulheres (At.1.13-14), levantou-se Pedro com o propósito de promover a escolha daquele que preencheria a vacância do apostolado de Judas. Foram sugeridos dois candidatos, Matias e Barsabás (At.1.23), e mesmo que houvesse diversas mulheres que preenchiam os requisitos necessários (At.1.21-22), nenhuma delas foi indicada para concorrer. Mais adiante, quando surge a necessidade de se escolher pessoas para cuidar das necessidades materiais da igreja, os apóstolos ordenaram que fossem escolhidos 7 “homens” (ándras) para assumirem um novo ofício eclesiástico: a diaconia (At.6.1-6).
Em Atos 9, uma mulher recebe proeminente destaque por suas obras: Dorcas. Ela não foi pastora nem exerceu qualquer liderança entre os discípulos de Jesus, mas era uma serva fiel e dedicada que abençoava muitas pessoas, “notável pelas boas obras e esmolas que fazia” (At.9.36). Depois dela aparece outra mulher chamada Lídia, “vendedora de púrpura, temente a Deus” (At.16.14). Essa mulher cumpriu importante papel ao servir Paulo e Silas na manutenção de sua missão. Como ela, diversas mulheres foram grandes instrumentos do Senhor, cooperando com a obra missionária por meio de manutenção financeira e disponibilização da própria casa para uso da igreja (Cl.4.15). Ainda outra mulher aparece em Atos dos Apóstolos, servindo ao Senhor junto ao marido, Priscila. Ao lado do esposo, Áquila, ela cooperou com o ministério de Paulo e, ainda, contribuiu com o discipulado de Apolo (At.18.24-26). E mesmo que todas essas mulheres tenham exercido importante papel dentro da igreja, nenhuma delas foi pastora ou líder; sobre nenhuma delas os apóstolos impuseram as mãos, a fim de consagrá-las para qualquer ofício eclesiástico.
A mulher, portanto, recebeu do Senhor diversos papeis dentro da igreja, tornando-a importante no andamento e crescimento do povo de Deus. Todavia, a Escritura é bastante clara em negar à mulher a função de líder (pastorear), pois desde o princípio aprouve a Deus que o homem desempenhasse essa função na família, igreja e sociedade.


O Antigo Testamento como base para o pastorado masculino

O Novo Testamento não tem o propósito de revogar o Antigo Testamento, mas apresentar seu cumprimento em Cristo Jesus. Há três características na relação entre o Antigo e o Novo Testamento: 1) cumprimento; 2) continuidade; 3) novidade. Esses três elementos da relação entre os testamentos precisam ser observados cuidadosamente, a fim de que a igreja não os aplique erroneamente, pois nem tudo encerrou-se por meio do cumprimento em Cristo; nem tudo teve continuidade, permanecendo nos dias do Novo Testamento; e as novidades acrescentadas no Novo Testamento nem sempre foram substitutivas com respeito aos preceitos do Antigo Testamento.
Quase todos os mandamentos ensinados no Novo Testamento tem seu fundamento no Pentateuco e nos Profetas Clássicos. Desta forma, o Novo Testamento faz ampla referência, direta e indireta, aos textos Veterotestamentários como autoridade que determina a vida da igreja de Jesus (Mt.5.17-48; Rm.12.19; 13.9; 1Co.4.6; 9.9; Ef.6.1-3; 1Pe.1.16 etc). Não é diferente com respeito ao ensino sobre a submissão feminina (1Co.11.7-9; 1Tm.2.12-14; 1Pe.3.5-6). Os apóstolos, então, confirmam a relação de continuidade entre os Testamentos, com respeito ao assunto, conduzindo a igreja a procurar nas páginas do Antigo Testamento o que Deus ordena para as mulheres em suas relações sociais a partir da família.
A principal base Veterotestamentária para a ordem social é o texto de Gênesis 1 a 3. Conforme Paulo (1Co.11.2-16; 1Tm.2.8-15), a ordem da criação e o evento da queda de Adão e Eva são indicadores da vontade de Deus, confirmada posteriormente por meio de mandamentos dados por Moisés (Nm.30.1-16). Pedro também faz referência ao Antigo Testamento, evocando a narrativa de Abraão e Sara (1Pe.3.1-6) para exortar as mulheres a serem submissas e respeitosas no trato para com os maridos. E já que os escritores do Novo Testamento ensinaram a igreja a recorrer ao Antigo Testamento como autoridade, os cristãos devem buscar nessas páginas as bases para a submissão feminina.


Os limites da submissão feminina

Todavia, até onde vai a submissão feminina? A Escritura não nos deixou sem resposta sobre os limites da submissão feminina. Para isso, dois textos nos ajudarão a compreender a vontade do Senhor sobre o assunto: 1) Em Números 30, ao tratar sobre os votos, Moisés nos ensina a dimensão da submissão feminina em sua relação com o pai e o marido; 2) e, em Deuteronômio 13, encontramos os limites não somente para a submissão feminina, mas, também, para outras relações sociais.
Conforme já fora dito, o Novo Testamento confirma os ensinamentos anteriores acerca da submissão feminina de duas formas: 1) os escritores do Novo Testamento não revogam a Palavra de Deus sobre o assunto; 2) os autores do Novo Testamento reafirmam que a mulher deve ser submissa ao marido:

Conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina (1Co.14.34 – ARA [grifo nosso])
As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor [...] Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido (Ef.5.22,24 – ARA [grifo nosso])
Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor (Cl.3.18 – ARA [grifo nosso])
A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão (1Tm.2.11 – ARA [grifo nosso])
Mulheres, sede vós, igualmente, submissas a vosso próprio marido [...] Pois foi assim também que a si mesmas se ataviaram, outrora, as santas mulheres que esperavam em Deus, estando submissas a seu próprio marido, como fazia Sara, que obedeceu a Abraão, chamando-lhe senhor, da qual vós vos tornastes filhas, praticando o bem e não temendo perturbação alguma. (1Pe.3.1,5-6 – ARA [grifo nosso])

Essa submissão é aplicada, ainda, na relação entre Cristo e a igreja (Ef.5.23-24); e, também, na relação pais-filho (Ef.6.1-3), senhor-escravo (Ef.6.5-8), líder-liderado (Rm.13.1-7), pastor-ovelha (Fp.2.29; 1Ts.5.12-13; 1Tm.5.17). Corrigindo os Coríntios, Paulo diz estar pronto para punir os rebeldes que não queriam submeter-se à Palavra do Senhor:

Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa obediência. (2Co.10.4-6 [grifo nosso])

Todo esse ensino provém do conhecimento das leis mosaicas e nelas está radicado. Em Números 30, Moisés ensina diversos preceitos do Senhor a respeito dos votos feitos por um homem ou por uma mulher. De acordo com o texto, o homem é obrigado a cumprir seu voto “segundo tudo o que prometeu” (Nm.30.2). O mesmo seria válido para uma mulher viúva ou divorciada, pois não estaria debaixo de autoridade nem de pai nem de marido. Contudo, a mulher que vivesse na cada dos pais (ou seja, nem viúva nem divorciada) ou fosse casada, por estar debaixo de autoridade masculina, quer de seu pai ou marido, deveria submeter-se às decisões da autoridade sobre ela, abrindo ressalvas acerca de sua obrigação com os votos.
Mesmo que uma mulher solteira ou casada fizesse um voto, este poderia ser desfeito pelo pai ou marido (Nm.30.3-8, 10-15). Caso o pai ou marido soubesse do voto e não se agradasse dele, poderia desobrigar a mulher a cumpri-lo, pois o homem recebeu poder outorgado por Deus sobre a mulher. Desta forma, o poder de decisão da mulher estava subordinado à autoridade do pai ou marido (mais adiante, veremos a única ressalva, feita por Deus, que possibilita a quebra dessa submissão). Ou seja, da mesma forma como a nação de Israel deveria se submeter ao Senhor e a igreja deve submeter-se a Cristo, foi ordenado à mulher que se submeta ao homem em tudo, quer pai ou marido (Ef.5.22-24; 6.1-3). Paulo usa a comparação entre a relação igreja-Cristo e esposa-marido para elucidar a clara ordenança divina sobre a submissão feminina:

As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido. (Ef.5.22-24 – ARA [grifo meu])

Importante observar que Jesus ratificou a lei do Senhor a respeito dos votos, dizendo: “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não” (Mt.5.37). De forma semelhante, Tiago confirma que todo voto feito deveria ser cumprido cabalmente, pois o não cumprimento de um voto desonra o Senhor, Juiz de todos (Tg.5.12)[2]. Portanto, até o momento, vimos que a Escritura ordena que a mulher seja submissa ao marido em tudo, devendo-lhe obediência e respeito por toda a vida. Essa submissão deve começar em casa na relação com o pai, sendo repassada para o Marido, por ocasião do casamento. Todo homem, então, recebe de Deus o papel de liderar a sociedade a partir de seu núcleo básico, a família. Enquanto isso, a mulher serve a Deus na família, igreja e sociedade por meio de outros papeis que lhe foram atribuídos, preservando fiel submissão ao homem.
Todavia, a submissão feminina ao homem possui uma importante ressalva. Quando o homem impõe ordenanças que ferem a Palavra de Deus, a mulher fica desobrigada a obedecê-lo tendo em vista que o Senhor tem a primazia sobre todos. Devemos lembrar que toda a vida é regida por Deus: a mulher deve ser submissa ao homem, por causa do mandamento do Senhor; as pessoas devem adorar a Deus, porque o Senhor ordenou; devemos amar uns aos outros, por ser um preceito divino etc. Ou seja, nossa regra de fé e prática provém de Deus que fala por meio da Escritura Sagrada. Desta forma, ninguém pode obrigar-nos a fazer algo que desonre o próprio Deus, ferindo a Escritura Sagrada. Nem pais nem governantes nem cônjuges nem amigos devem ser obedecidos quando suas ordens, pedidos ou ensinos confrontam a Deus. Esse ensino provém de Deuteronômio 13, onde Moisés ordena que Israel rejeite qualquer pessoa que tente afastar o povo do temor ao Senhor, conduzindo-o à idolatria.
Portanto, caso o homem conduza a mulher naquilo que é bom, sem exigir-lhe o que desonra a Deus, ela deverá obedecê-lo em tudo, pois é mandamento do Senhor que “as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido” (Ef.5.24). Essa submissão deve ser grata e fiel, porque provém de Deus que a ordenou para o bem estar da família e sociedade. Em ser fiel submissa ao homem, a mulher glorifica a Deus dando bom testemunho de como deve a igreja proceder para com Cristo, tendo em vista que o relacionamento familiar em conformidade com a Palavra de Deus prefigura o relacionamento entre Cristo e a igreja.

A coerência dos mandamentos de Deus

A família é o núcleo da sociedade, ou seja, as cidades são formadas de famílias. Desta forma, ao dar ordenanças que alcançam a família, Deus dirige, também, toda a vida social, pois tais mandamentos devem ser obedecidos por todas as famílias da terra, de forma a constituir uma sociedade obediente a Deus. Por conseguinte, a submissão feminina se estende a vida social no propósito de formar uma civilização composta por homens responsáveis no exercício da liderança e mulheres piedosas que dão o devido respeito e honra àqueles que Deus constituiu como legítimos representantes do senhorio de Cristo aqui na terra: os homens.
Uma pequena análise de 1 Coríntios 11.3, nos ajuda a entender que a submissão da mulher tem como ponto de partida a família, mas estende-se para a sociedade. O apóstolo Paulo diz: “Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo” (1Co.11.3). Nesse versículo, Paulo faz a supressão de duas palavras usadas no início: “todo” e “ser[3]”. Esse recurso literário chama-se zeugma e tem como propósito evitar a repetição desnecessária de termos, dando mais beleza ao texto. Sem esse recurso, o versículo deveria ser escrito assim: “Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem ser o cabeça de toda mulher, e Deus ser o cabeça de [todo] Cristo. É evidente não ser possível colocar o termo “todo” antes de “Cristo” por uma questão de coerência, tendo em vista haver apenas um Cristo. Conforme 1 Coríntios 11.3, a liderança masculina não está restrita à família, mas abrange a vida social, pois toda mulher deve ser submissa ao homem, em Cristo Jesus.
Observe-se, então, que os mandamentos de Deus são todos coerentes e conduzem a vida social à plena harmonia. Quão confuso seria se a mulher tivesse a obrigação de ser submissa ao marido apenas no contexto familiar, mas, ao mesmo tempo, ser sua superior ordenando-lhe o que fazer como pastora, líder político ou ocupante de outro cargo de liderança qualquer. Por causa dessas incoerências humanas a sociedade está confusa e em desarmonia.
Conforme a Escritura, a estrutura familiar é base e modelo para a estrutura social. Isso acontece, também, na relação de respeito e obediência dos filhos para com os pais, que se estende à relação entre líderes e liderados. Ou seja, da mesma forma como um filho deve honrar os pais obedecendo em tudo, no Senhor, também devem os cidadãos honrar e obedecer a seus líderes políticos e religiosos, no Senhor (Rm.13.1-7). Esse modelo de leitura da Escritura será encontrado no “sermão do monte” (Mt.5.17-48) quando Jesus mostra a ampla aplicabilidade dos mandamentos que abrangem tanto a vida pessoal quanto familiar e social.


Tudo menos liderar

Você já observou que a criança quer exatamente aquilo que não pode? A natureza pecadora do homem o conduz sempre para o proibido. Por essa razão, já encontrei avisos com a seguinte frase: “Não leia!”, a fim de estimular a curiosidade dos outros no propósito de que leiam o escrito. O coração pecador é diametricamente oposto a Deus. Seu prazer é fazer exatamente aquilo que Deus não quer, pois é contrário a Deus em tudo (Sl.14; 53; Jr.17.9; Rm.3.10-18). Por essa razão, mesmo tendo muitas opções diante de seus olhos, o pecador desejará, exatamente, a única opção que não lhe fora permitida.
A mulher tem diversas opções de trabalho dentro da sociedade e uma grande variedade de serviços dentro do Reino de Deus. Ela pode fazer quase tudo o que o homem faz: construir, dirigir veículos, cozinhar, evangelizar, lecionar, vender, comprar, cantar, tocar, orar, administrar, vigiar etc. Todavia, à mulher foi-lhe negado, completamente, o papel de líder, pois esta responsabilidade foi outorgada ao homem, tão somente. Diante disso, todos deveriam se perguntar: “Por que as mulheres insistem tanto em fazer a única coisa que lhes fora proibida por Deus?” A resposta é simples: o coração pecador deseja aquilo que desagrada a Deus. Ou seja, as mulheres não se contentam com o que Deus lhes permitiu, pois o coração pecador só encontra satisfação no pecado. Agradar a Deus não é suficiente nem prazeroso ao coração pecador.
Essa atitude pode ser encontrada em Eva quando esta não considerou suficiente o conhecimento que tinha do bem nem se deu por satisfeita com a vida que Deus lhe havia concedido. Por isso, usurpou a glória do Senhor, querendo conhecer não somente o bem, mas, ainda, o mal (Gn.3.5-6). É preciso fazer o coração submeter-se à vontade de Cristo; é necessário conduzir o coração à plena satisfação em Jesus. Somente uma vida restaurada em Cristo terá plena satisfação em Deus e se contentará com o propósito do Senhor para nossa vida. Tanto o homem quanto a mulher devem fazer ecoar ao coração as Palavras de Deus: “a minha graça te basta” (2Co.12.9).
Portanto, mulher, o que você precisa é de Jesus. O vazio de seu coração querendo ser satisfeito por meio daquilo que desagrada a Deus não trará alegria à sua alma ou realização para sua vida. Não se engane com os desejos de seu coração, pois Deus não ordena algo que seja contrário a sua Santa Palavra. A ideia de que você possa ser chamada para o ministério pastoral ou para outra liderança não provém do Senhor, mas, tão somente, de seu coração. Então, submeta seu coração a Deus e busque na Escritura o conhecimento da Vontade do Senhor, a fim de que sua vida esteja sempre no centro da vontade divina. E, diante do que Deus lhe deu, alegre-se, pois tudo que vem do Senhor é bom e nos conduz a uma vida agradável a Ele.





[1] GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Velho Testamento. São Paulo: Luz para o Caminho, 1995.
[2] Todavia, Jesus e Tiago combatem os juramentos (hórcos) que envolviam alguma coisa como “penhor” de uma promessa. Esses juramentos acrescidos de “penhores”, para dar valor à promessa feita, poderiam ser quebrados, pois caso houvesse a quebra da promessa o valor juramentado ficava em lugar do cumprimento do voto, anulando assim o mandamento acerca da verdade (Mc.7.9-13). Esse procedimento não foi ensinado pelas Escrituras (Nm.30.2,), mas pelos anciãos de Israel, por meio de tradições. Jesus adverte sobre os problemas desses juramentos: 1) Deus exige plena verdade no falar do homem e nada pode substituir a verdade. Penhores não credenciam a mentira, ou seja, o não cumprimento de uma palavra. 2) Além disso, o homem não é dono nem mesmo da própria vida, pois tudo pertence ao Senhor e “penhorar” aquilo que pertence ao Senhor é uma afronta a Deus.
[3] Em grego o verbo “ser” encontra-se na terceira pessoa do presente do indicativo (“é”). Então, a tradução do versículo palavra por palavra seria: “de todo homem, o cabeça o Cristo é”. O tradutor, no entanto, procurou adequar a oração a um modo de falar comum ao contexto brasileiro, sem perder nem a estrutura nem o significado do que Paulo disse.