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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Ameaça sutil

Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem.” (Rm.1.32)

A sutileza vil é mais perigosa do que qualquer ataque explícito à fé, pois enquanto este nos desperta a reação defensiva imediata aquela nos domina lentamente, sem percebermos, até que seu veneno letal tenha consumido cada parte de nosso ser. E isso vem acontecendo desde que a mídia ganhou a atenção das famílias, tornando-se a maior responsável pelo entretenimento da sociedade, principalmente no mundo ocidental.

Você já percebeu que o cristão tornou-se insensível a muitos pecados que são abominados pelo Senhor (1Co.5.11; Ef.5.5-6; Ap.21.8) e que no passado foram repudiados pelos cristãos? Um claro e constatável exemplo disso é a origem do biquíni que chocou até mesmo as modelos da época. Todavia, após uma longa insistência persuasiva do mundo pagão, tornou-se algo tão natural que nem mesmo o “fio dental” escandaliza mais os cristãos. É provável que você, que está lendo, também esteja passando por esse problema. Por isso, faremos dez perguntas e depois mostraremos os problemas por trás de tais questões:

– Você assiste filmes em que há beijos na boca?
– Você assiste filmes em que há cenas picantes, sensualidade e coisas semelhantes?
– Você assiste filmes em que há traição ou divórcio e não se escandaliza?
– Você não vê problema no modismo sensual (roupas etc) propagado pela mídia?
– Você aprecia obras que envolvam algum tipo de sensualidade ou nudez?
– Você ri de piadas indecentes, imorais ou que envolvem o NOME de Deus?
– Você aprecia obras “de arte” relacionadas a temas pagãos idólatras, como templos pagãos?
– Você se diverte com filmes que abordam temas que confrontam a Verdade?
– Você curte filmes que fazem apologias a uma visão distorcida de Deus?
– Você patrocina o entretenimento pecaminoso, participando das coisas que o mundo oferece, se divertindo à custa das blasfêmias do mundo contra Deus?

Talvez parece exagerado para você. Por isso, gostaria, agora, de criar uma situação imaginária para ajuda-lo a entender o problema. Se alguém fizesse uma pintura ou escultura de sua mãe, esposa ou filha nua, qual seria sua reação? Imagine, ainda, que alguém falasse mentiras maldosas sobre as pessoas que você ama. Como você trataria o assunto? Como você reagiria diante das pessoas que estivessem se divertindo à custa de imagens imorais contendo as pessoas que você ama ou passando adiante as informações maledicentes sobre você, ou outra pessoa querida? Você deixaria sua esposa (ou esposo) beijar vários homens (ou mulheres)? Essas e outras perguntas mais pretendem despertar você para o absurdo de tais pecados; os mesmos que estão sendo cometidos em muitos filmes que você assistiu, mas não se apercebeu.

Qualquer cristão ficaria revoltado se fizessem coisas imorais com sua família ou se falassem mal das pessoas que ama ou, ainda, se visse a esposa (ou esposo) beijar várias pessoas. Por que, então, o mesmo cristão que repudia pecados cometidos contra sua família, também não repudia esses mesmos pecados cometidos contra outras pessoas e, principalmente contra Deus? O Criador de tudo é difamado, desprezado e afrontado por meio dos muitos pecados presentes em muitos dos filmes, mas você não fica revoltado com isso. Será que o cristão não deve lutar pelo Senhor (Jd.3)? Será que Deus não se importa quando trocam a Verdade por mentiras (Rm.1.28)? Você percebeu a contradição nas atitudes? A incongruência no modo de agir também é pecado contra Deus, como diz Paulo: “Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova” (Rm.14.22).

As perguntas que fizemos podem ser tratadas em apenas três categorias: 1) sobre a sensualidade; 2) sobre a idolatria; 3) sobre a mentira:

1) O prazer físico que começa com um beijo na boca e pode se expressar de várias outras formas somente é permitido por Deus para o casal (Gn.2.24). Fora do casamento tais relações físicas são chamadas de adultério (Ez.16.32) ou prostituição (Gl.5.19). Portanto, as relações físicas entre os atores e atrizes são adultérios (para aqueles que são casados) ou prostituições (para os solteiros), pecados repudiados por Deus tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, pois a Escritura diz: “o SENHOR, Deus de Israel, diz que odeia o repúdio e também aquele que cobre de violência as suas vestes, diz o SENHOR dos Exércitos; portanto, cuidai de vós mesmos e não sejais infiéis”; e: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros” (Ml.2.16; Hb.13.4 // Rm.2.22; 1Ts.4.3-8).

Ao se divertir com aquilo que Deus abomina, você afronta a Deus, favorecendo os inimigos dEle. Sobre isso, Tiago diz: “Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg.4.4). Portanto, para que um filme seja considerado saudável com respeito à pureza, não deve conter prostituições nem adultérios, ou seja, nenhum ator ou atriz pode ter relações (desde o beijo na boca) com outro. Tenho certeza que você não deixaria sua esposa ou esposo fazer um filme em que tivesse que beijar outro homem ou mulher. Então, por que favorecer aqueles que fazem isso? A participação no pecado alheio torna o homem cúmplice diante de Deus (Ef.5.11).

2) Outro problema é a apreciação de obras e práticas idólatras, um tema completamente abominado pelo Senhor. Por todo o Antigo Testamento Deus mostrou o quanto odeia a idolatria. Israel deveria destruir tudo que fosse associado à idolatria, sem qualquer receio. O povo de Deus nunca foi motivado a apreciar as expressões idólatras como “arte”, pois a idolatria é aborrecida por Deus. Como, então, poderíamos apreciar templos pagãos idólatras e obras pagãs que retratam a idolatria de um povo que afronta a Deus ao trocar o Deus vivo por vãs imaginações de seu coração? Paulo diz que Deus entregou os idólatras à deploração para se destruírem por mudarem a glória de Deus, “servindo a criatura em lugar do Criador” (Rm.1.25).

Ao apreciar tais expressões da ignorância e maldade do homem, o cristão está concordando com a idolatria dos povos, pois aquilo que Deus abomina está sendo elogiado. Não há beleza no pecado; não há encanto naquilo que confronta a santidade de Deus. Somente o que glorifica a Deus pode ser apreciado; apenas aquilo que reluz perante a luz da glória do Senhor deve ser considerado belo. Se todo cristão odiasse o pecado, como a Escritura ordena, então repudiaria completamente toda expressão idólatra do homem, quer imagens pagãs, templos pagãos ou mesmo a avareza, glutonaria, bebedice, apreciação demasiada de pessoas (mesmo que sejam pregadores) etc (Cl.3.5-11). Toda idolatria é pecado contra Deus; é uma tentativa de substituir o Deus vivo e verdadeiro; uma expressão de rebeldia de quem não deseja servir ao Senhor.

3) O mundo ama a mentira, porque ele jaz no maligno (1Jo.5.19) que é mentiroso e pai da mentira (Jo.8.44). Portanto, toda mentira procede do maligno, nunca de Deus, porque “mentira alguma jamais procede da Verdade” (1Jo.2.21). Desta forma, toda expressão “artística” que propague mentiras, vãs filosofias, enganos de qualquer ordem, fazendo apologia a ideias contrárias à Verdade deve ser considerada afrontosa e blasfema, pois se levanta contra Cristo que é a Verdade (Cl.2.8; 1Tm.4.1-5). As mentiras desse mundo não são obras de inocência humana, pois não há homem inocente após a queda de Adão e Eva (Rm.3.9-18). Os enganos são obras malignas do diabo, do mundo e do pecado que propositadamente se voltam contra Deus (Ef.2.1-3), pois são seus inimigos, como diz o Salmo 2: “Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o SENHOR e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas” (Sl.2.2-3).

Você deve conhecer a Verdade e lutar por ela (1Tm.3.15), a fim de não ser apanhado concordando com toda sorte de mentiras. Israel tornou-se deplorável por causa da falta de conhecimento da Verdade e Deus castigou a nação por viver conforme a mentira: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos” (Os.4.6). Não devemos pensar que o mesmo não possa sobrevir àqueles que desprezam o conhecimento de Deus em nossos dias. Mas, a luta pela Verdade não se expressa apenas em debates teológicos quando temos a oportunidade de combater as heresias. O bom combate do Senhor (1Tm.1.18-19; 6.12) ocorre no dia a dia quando agimos de acordo com a Verdade, confrontando todas as mentiras desse mundo, quer expressas em filmes, no ambiente de trabalho ou nas escolas e universidades cheias de professores inimigos de Deus.

Mas, como o cristão chegou ao absurdo de admirar, aplaudir e até concordar com pecados tão combatidos pela Escritura? Como o cristão tornou-se amigo do mundo favorecendo os inimigos de Deus? Não foi de uma hora para a outra! O mundo conseguiu injetar seu veneno no cristianismo e esperou que ele se espalhasse lentamente pelo corpo de Cristo que é a igreja. A insistência do mundo fez com que o cristão fosse cedendo pouco a pouco até que não mais conseguisse distinguir entre o certo e o errado. Ao tornar-se insensível, o cristão passou a favorecer toda forma de mal. Foi assim, também, que os filósofos que fornecem as bases para todo partido de esquerda maquinaram a inversão de valores da cultura, transformando as imagens negativas em imagens agradáveis e aceitas pela sociedade (Leia sobre as ideias do filósofo marxista Antonio Gramsci para entender os planos malignos dos líderes esquerdistas). A mesma técnica tem sido utilizada pela mídia para disseminar todo tipo de pecado na sociedade.

Para ilustrar isso, podemos relembrar o processo de aceitação do homossexualismo. Esse pecado sempre foi odiado pelo povo de Deus e tratado como abominação perante os olhos do Senhor. Mas, o mundo começou a fazer piadas sobre homossexualismo para que as pessoas começassem a rir, quebrando o rigor, tornando o assunto um pouco mais simpático aos olhos da sociedade. Aos poucos foram inserindo homossexuais “bonzinhos” em filmes, seriados e novelas para que as pessoas olhassem para eles como pessoas “boas”, a fim de que as aceitassem naturalmente. Então, a sociedade deixou de ver o homessexualismo da mesma forma como Deus o vê: uma abominação (Gn.19.1-25; Rm.1.26-27).

No final desse artigo, é possível que você esteja pensando: “- Se retiramos dos filmes tudo isso que foi dito acima, não sobrará nada para assistir”. Caso não sobre mais nada, então seu desafio é mostrar que ama mais a Deus do que a si mesmo. Quem disse para você que ser cristão seria fácil? Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” (Mt.16.24-27). A vida cristã é uma constante renuncia, pois vivemos em um mundo que jaz no maligno (1Jo.5.19). Foi assim que viveram os grandes homens de Deus do passado e é desse modo que o Senhor deseja que vivamos ainda hoje.


Esse é o momento em que os verdadeiros cristãos são revelados, pois “venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap.12.11). Para isso, você deverá amar a Deus “de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt.22.37), pois a única forma de vencer o mundo, a carne e o diabo é por meio do poder de Deus que vem do Espírito e da Palavra, em Cristo Jesus. A busca pelo que é bom envolve guerra contra si mesmo, negação de si mesmo, pois a natureza caída não dará trégua, tentando seduzi-lo a se satisfazer por meio do pecado. E para vencer, você precisará viver uma vida em Cristo. Então, procure em Jesus a capacidade para buscar aquilo que é bom e agradável a Deus, a fim de que tudo que você faça seja realmente para a glória do Senhor (1Co.10.31). Então, busque um lazer aprovado por Deus! 

sábado, 18 de novembro de 2017

Pastoreio bíblico - Abnegação completa da vida

Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.” (At.20.24)

Desde minha infância até o chamado ao ministério pastoral, sonhei em ser cientista da tecnologia e aperfeiçoei o sonho com o passar do tempo almejando ingressar no estudo da robótica, mecatrônica ou afins. Sempre gostei de matemática e física e ficava fascinado com cada avanço da tecnologia. Todavia, sem que eu tivesse planejado ou mesmo desejado, minha vida mudou completamente de direção. A princípio recusei a possibilidade de ser chamado para o pastorado, mas fui vencido pela vontade de Deus e, então, comecei uma nova jornada. Da área de exatas fui para humanas, deixando o curso de eletrônica fui direcionado para o seminário presbiteriano. Em vez de criar e cuidar de máquinas, fui designado para dedicar a vida ao pastoreio das ovelhas de Jesus. Um grande redirecionamento da vida, pelo qual agradeço a bondade do Senhor.

Para percorrer a jornada proposta pelo Senhor foi preciso negar sonhos e projetos, foi necessário negar a si mesmo. Foi preciso aceitar que além de ter sido comprado pelo precioso sangue do Cordeiro, também havia sido destinado para uma tarefa especial que exigiria a abnegação completa da vida: pastorear a igreja de Jesus. Como disse acima, recusei a ideia durante um tempo. Não encontrei em mim mesmo qualquer qualificação que pudesse justificar tal chamado, todavia não consegui resisti ao chamado por muito tempo, pois Deus tomou cativos mente e coração e os prostrou aos pés de Seu Filho, a fim de que eu executasse todo seu querer.

Deus não precisava de minhas competências, mas queria minha obediência. Como barro, eu deveria esperar pela modelação proveniente das poderosas e habilidosas mãos do Oleiro. Entendi o medo de Moisés (Ex.3-4) e o sentimento de miséria presente em Pedro (Lc.5.1-11). Vi o mudo falar, pois Deus me abriu a boca; vi o cego ver, pois Cristo me capacitou a entender melhor a Escritura; vi o surdo ouvir, pois o Espírito do Senhor me tornou apto a entender as pessoas e suas reais necessidades, a fim de que estivesse apto para pastorear o rebanho do Senhor com fidelidade a Escritura e excelência na dedicação.

Foi necessário deixar sonhos para trás. Vimos em capítulo anterior que os escolhidos por Deus sempre deixam algo para trás e isso incluía sonhos, também. Tentar conciliar sonhos e ministério pastoral sempre dividirá o coração do ministro de forma que estará diante do dilema entre fazer sua vontade ou a vontade do Senhor. Essa é uma das razões para que haja uma grande concentração de pastores em metrópoles, onde o ministro e sua família podem usufruir algumas vantagens acadêmicas e trabalhistas. Eles estão divididos entre a necessidade real de pregar o Evangelho ao mundo e o desejo, tão real quanto, de desfrutarem de uma vida mais confortável com a família.

Não conhecemos os planos e sonhos do apóstolo Paulo, anteriores a sua conversão e chamado para o apostolado. Mas, sem conjecturar demais, podemos inferir que estavam relacionados a seu estudo aos pés de Gamaliel (At.22.3), a seu conhecimento artístico-empreendedor como fabricante de tendas (At.18.3) e a sua participação na seita dos fariseus (Fp.3.5). Em nenhum de seus propósitos para a vida encontrava-se: ser apóstolo de Cristo. E mesmo que Paulo não tenha esquecido o conhecimento adquirido sobre as coisas passadas, ele deixou para trás a velha jornada que percorria, os antigos desejos do coração, abrindo mãos de sonhos e planos para começar uma nova jornada com o coração completamente abnegado, pronto para fazer a vontade de seu Senhor; por isso, disse: “em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus” (At.20.24).


Aptidão para sofrer por Cristo

O versículo mencionado acima expressa bem a visão de Paulo sobre seu chamado e, dentro do contexto textual de Atos 20, pretendia ser um exemplo para os demais líderes, a fim de que a igreja de Jesus estivesse em boas mãos e fosse bem guardada por aqueles que foram chamados para pastoreá-la (At.20.17-38). Conforme Atos 20.24, a missão do apóstolo envolvia dois elementos importantes para o bom exercício do ministério: 1) abnegação completa da vida; 2) e, foco preciso de seu papel como pregador do Evangelho da graça de Deus.

Paulo estava ciente da necessidade de abrir mão da própria vida, a fim de executar a vontade de Deus sem empecilho. Ele não estava preso a suas vontades nem se frustrava caso precisasse negar seus planos. Às vezes em que foi impedido de realizar sua vontade, não desanimou nem desobedeceu (At.16.6-10; Rm.1.13; 15.22). Cooperando com a necessidade de abnegar suas vontades, Paulo mantinha seu foco sobre a missão para a qual fora designado: pregar o Evangelho. Ter a convicção do propósito do chamado é fundamental para que o pastor não se perca pelo caminho, distraindo-se em muitas outras ideias aparentemente atraentes e pragmáticas. Sua missão não é encher igrejas locais, mas pregar fielmente a Escritura, cuidando do rebanho a ele confiado. Convicto disso e pronto para negar a si mesmo, o ministro de Jesus seguirá sempre em frente quer passando por pastos verdejantes ou vales da sombra da morte (Sl.23).

Para entender melhor a necessidade da abnegação completa da vida, precisamos recorrer a alguns testemunhos de Paulo acerca de sua caminhada como apóstolo de Jesus. Os dois textos mais fortes encontram-se na segunda carta de Paulo aos Coríntios (2Co.6.1-10; 11.23-33). Para que o apóstolo pudesse passar por todas aquelas tribulações e, ainda, permanecer firme no propósito de exercer o ministério apostólico, foi necessário abnegar a própria vida, estando pronto a sofrer e morrer por Jesus:

E nós, na qualidade de cooperadores com ele, também vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus  2 (porque ele diz: Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação);  3 não dando nós nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, para que o ministério não seja censurado.  4 Pelo contrário, em tudo recomendando-nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias,  5 nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns,  6 na pureza, no saber, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido,  7 na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, quer ofensivas, quer defensivas;  8 por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama, como enganadores e sendo verdadeiros;  9 como desconhecidos e, entretanto, bem conhecidos; como se estivéssemos morrendo e, contudo, eis que vivemos; como castigados, porém não mortos;  10 entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo (2Co.6.1-10).

Contrapondo as muitas acusações contra ele, tendo em vista ser o último apóstolo, que não andou com Cristo nem fez parte do colegiado, Paulo reivindica sua autoridade e integridade expondo sua vida perante a igreja. Ninguém poderia acusa-lo de nada, pois em tudo havia sido fiel, “na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias...”. Seu sofrimento, portanto, não lhe era vergonhoso, mas glorioso, pois, unido à perseverança e fidelidade, testemunhava sua dedicação e abnegação na obra de Cristo Jesus. E diante da imensa lista de lutas presentes em sua jornada, os acusadores deveria se envergonhar por buscar glória em sinais e milagres.

É bem verdade que o ministério apostólico de Paulo não é padrão para todo ministério pastoral, no que diz respeito a seu sofrimento. A história cristã testifica que muitos pastores cuidaram bem de suas ovelhas, mas foram privados do privilégio de sofrer por Cristo (Fp.1.29). Todavia, o sofrimento do apóstolo nos aponta para o fato de que o fiel exercício do ministério pastoral pode atrair muitas angustias, tendo em vista que o mundo, o pecado e o diabo são afrontados por meio da fiel pregação da Escritura Sagrada, poder de Deus para a salvação.

Desta forma, o sofrimento é muito possível e bastante provável no curso do exercício do pastoreio. Será necessário, portanto, a abnegação completa da vida, para que o homem de Deus não fuja das angústias nem abandone o ministério a ele confiado. Fica evidente, então, que o ministério pastoral não pode ser exercido como uma profissão, pois o salário mais certo, nesta vida, é a tribulação, ainda que Deus jamais desampare seus servos, pois aqueles que o Senhor chama, também recebem dEle o cuidado necessário durante a vida.

Mais adiante, em 2 Coríntios, Paulo fala, novamente, das lutas presentes em seu ministério, mostrando, assim, que carregava, em sua história e corpo, as marcas de suas lutas enfrentadas por Cristo:

São ministros de Cristo? (Falo como fora de mim.) Eu ainda mais: em trabalhos, muito mais; muito mais em prisões; em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes.  24 Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um;  25 fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar;  26 em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos;  27 em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez.  28 Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas.  29 Quem enfraquece, que também eu não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu não me inflame?  30 Se tenho de gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza.  31 O Deus e Pai do Senhor Jesus, que é eternamente bendito, sabe que não minto.  32 Em Damasco, o governador preposto do rei Aretas montou guarda na cidade dos damascenos, para me prender;  33 mas, num grande cesto, me desceram por uma janela da muralha abaixo, e assim me livrei das suas mãos (2Co.11.23-33).

Observemos que o desejo vaidoso do coração humano não é novidade de nossos dias. Nos dias do apóstolo Paulo, muitos queriam glória e fama, semelhante ao tempo atual, e se gabavam por seus dons. Outros criaram partidos enaltecendo figuras proeminentes (1Co.1.12). Todavia, Paulo afirma que a glória do obreiro não se encontra nas grandes coisas que faz, já que é sua obrigação fazê-las (1Co.9.16), mas na perseverança manifesta nas mais profundas tribulações e angustias sofridas por causa do ministério recebido do Senhor Jesus. É interessante que Paulo não mencione seus muitos dons, como o faz em outro momento (1Co.14.18), nem faça alusão às revelações especiais recebidas do Senhor (2Co.12.1-5). Ele não se gaba de suas origens (Fp.3.4-5) nem de seu preparo acadêmico, tendo estudado aos pés de Gamaliel (At.22.3). Sua glória encontrava-se no privilégio de sofrer por Cristo e permanecer íntegro tanto no testemunho de vida cristã quanto na fiel pregação da Escritura Sagrada, sem procurar glória humana alguma (1Ts.2.5-6).

A profissionalização do ministério pastoral retirou a glória do sofrimento por Cristo. O pastor profissional vive para manter seu ministério, cumprindo obrigações de forma semelhante a qualquer funcionário de uma empresa. Por isso, preocupa-se muito mais em agregar pessoas dentro da denominação do que conduzir pecadores a Cristo, por meio da fiel pregação; costuma promover atividades sociais agradáveis para manter o interesse das pessoas em participarem da vida eclesiástica local, mas pouco exorta o povo a abandonar a religiosidade infrutífera, tantas vezes hipócrita, que mascara a dureza do coração que vive não para Cristo, mas para si mesmo; e está sempre sorridente, fazendo o povo sorrir, pois tem medo de desagradar seus clientes, fruto de uma geração que acha ter sempre razão, a fim de não ser “demitido”.

Se você não está pronto para negar completamente sua vida, também não está pronto para ser ministro de Cristo Jesus nem muito menos cristão. A abnegação da própria vida faz parte do ser discípulo de Jesus e será absolutamente necessária no curso do exercício pastoral: “Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt.16.24). Paulo entendeu o desafio e o aceitou consciente das dificuldades e, também, da eficácia do poder de Deus que opera naqueles que vivem em plena dependência do Senhor:

De tal coisa me gloriarei; não, porém, de mim mesmo, salvo nas minhas fraquezas.  6 Pois, se eu vier a gloriar-me, não serei néscio, porque direi a verdade; mas abstenho-me para que ninguém se preocupe comigo mais do que em mim vê ou de mim ouve.  7 E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte.  8 Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim.  9 Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.  10 Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte (2Co.12.5-10).

Interessante observarmos que o apóstolo não tem vergonha de expor suas próprias fraquezas como temos em nossos dias. Costumamos mostrar somente o que temos de bom para que as pessoas nos amem e nos queiram. Essa é uma das implicações de uma geração superficial, alimentada por heróis de quadrinhos. As pessoas não querem o fraco, o pobre, o pequeno, pois tais características não estão presentes nos heróis. Elas menosprezam pessoas assim, pois o humanismo idealizou o homem perfeito e o exaltou para que todos vivam na busca por alcançar tal ideal. Desta forma, até mesmo o pastor tem dificuldades para depender exclusivamente do Senhor, confiando que toda capacidade para realizar a obra que lhe fora designada encontra-se em Deus que, pelo Espírito e Palavra, opera eficazmente nos que lhe obedecem.

O que torna possível o exercício do ministério pastoral por parte de cristãos, homens falhos e pequenos, é a presença de Deus que atua no pastor e por meio do pastor. Por essa razão, quando pastores passam a olhar para si mesmos, sua família e circunstâncias, começam a sucumbi diante das tribulações que advém ao ministério. A condução do ministério pastoral não pode ser determinada por interesses ou ocasiões, mas deve submeter-se completamente à vontade de Deus que chama com propósito bem definido, a fim de ser glorificado na vida/ministério daquele que ele escolheu para pastorear sua igreja. E, para que isso ocorra, será necessária abnegação completa da vida.

Faço referência ao pastoreio como “vida/ministério”, porque o chamado do Senhor torna o ministério pastoral parte integral da vida do ministro. Nesse sentido, não estamos pastores, mas somos pastores. Ou seja, o pastoreio não é uma profissão conferida ao homem e que, portanto, pode ser abandonada, trocada ou encerrada com a aposentadoria. O chamado de Deus confere ao homem escolhido um novo status de vida e somente a morte pode encerrá-lo. Em Apocalipse, a Jerusalém celestial tem “doze fundamentos, e estavam sobre estes os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.” (Ap.21.14). Ou seja, nem mesmo a morte apagará ofício conferido por Deus àqueles que Ele escolheu. Todavia, isso não significa que o pastor deva ser chamado de “ungido do Senhor”, pois o último ungido de Deus é Cristo[1], mas que a vida do verdadeiro chamado por Deus não pode ser divorciada de seu chamado pastoral.

Devemos lembrar que a vida dos profetas fazia parte do ministério profético deles, razão pela qual Oséias teve que casar com uma prostituta (Os.1.2), Isaías “andou três anos despido e descalço” (Is.20.3), um profeta de Judá foi morto por um leão como garantia de que sua profecia provinha de Deus (1Rs.13.1-34), Jeremias viveu solitário no meio de Jerusalém (Jr.16) etc. A vida/ministério desses, entre outros, homens de Deus não podia ser desassociada, pois o chamado profético tornou-se parte da vida integral deles. E ainda que o ministério pastoral não seja um equivalente exato do ofício profético, possui o mesmo principal elemento: separação e destinação para pregação da Escritura ao povo de Deus, parte do projeto redentor.

Outro texto em que Paulo relaciona suas desventuras referentes ao ministério encontra-se em Filipenses 4.10-16. Neste texto, o apóstolo nos conta que a capacidade para viver as lutas presentes na jornada ministerial provinha de Deus que o fortalecia, ou seja, que o capacitava para cumprir cabalmente a missão a qual fora destinado, o que incluía muitas privações na vida:

Alegrei-me, sobremaneira, no Senhor porque, agora, uma vez mais, renovastes a meu favor o vosso cuidado; o qual também já tínheis antes, mas vos faltava oportunidade.  11 Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação.  12 Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez;  13 tudo posso naquele que me fortalece.  14 Todavia, fizestes bem, associando-vos na minha tribulação.  15 E sabeis também vós, ó filipenses, que, no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se associou comigo no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros;  16 porque até para Tessalônica mandastes não somente uma vez, mas duas, o bastante para as minhas necessidades (Fp.4.10-16).

Não devemos omitir que o fato de haver muitas tribulações na vida ministerial, não significa que o pastor apenas sofrerá o tempo todo, mas estará sujeito a muitos sofrimentos, caso seja fiel na pregação da Escritura Sagrada, pois o “mundo inteiro jaz no maligno” (1Jo.5.19). Observemos que o apóstolo Paulo não faz referência apenas a momentos ruins de sua vida, mas, também, a boas experiências. O cerne da questão, nesse texto, é sua capacidade de lidar com toda e qualquer situação, pois sua abnegação completa da vida está relacionada à sua plena satisfação em Cristo Jesus e total disposição em viver para cumprir o chamado a ele conferido. O sofrimento, então, não lhe era demasiadamente penoso, para que o fizesse desistir, nem os momentos bons suficientemente tentadores, para que Paulo quisesse se acomodar.


Abnegação da própria vontade

Todo ser humano tem sonhos, gostos e vontades, pois eles fazem parte da busca pela felicidade. E mesmo que o cristão tenha em Cristo sua felicidade, também almejará o bem-estar próprio relacionado à suas peculiaridades. Ou seja, um gosta de pizza e deseja comê-la, pois lhe faz bem; outro prefere a cor azul, pois lhe agrada mais a vista; e outro gostaria de ser médico para cuidar das pessoas, pois sentir-se útil lhe faz muito bem. Desta forma, as escolhas são feitas visando o próprio bem-estar, tantas vezes confundido com “querer fazer a vontade de Deus”.

Observe-se, então, que os sonhos, gostos e vontades estão relacionados ao bem-estar próprio. Por essa razão, as pessoas escolhem o que lhes parece melhor e, tantas vezes, lutam ferrenhamente para alcançar seus propósitos. Quando essa busca pelo bem-estar próprio torna-se maior que o amor a Deus, então os pecados aparecem como atalhos que viabilizam a “fuga da dor e busca por prazer”. De acordo com Sigmund Freud, a “fuga da dor e busca por prazer” é a força motriz que move o ser humano em toda sua vida. Essa é uma das raras vezes em que Sigmund Freud teve uma correta percepção da realidade dos pecadores. Mas, o que ele não observou é que essa triste realidade está relacionada ao vazio do homem sem Cristo que, não tendo propósito eterno para sua vida nem a satisfação da alma pela presença do Espírito, vive, então, para alcançar seu bem-estar momentâneo.

Em outra de suas cartas, Paulo elogia a igreja de Tessalônica pela presença de três importantes marcas que indicavam uma real operação do Espírito e Palavra de Deus na vida daqueles irmãos (1Ts.1.3-4): 1) fé operosa; 2) amor abnegado; 3) esperança firme. Como nosso propósito não é expor o texto, destacamos apenas a segunda marca: amor abnegado. Aqueles irmãos estavam abrindo mão de suas vontades, tantas vezes, para abençoarem uns aos outros, de forma semelhante ao que foi narrado sobre os dias iniciais da igreja cristã em Jerusalém: “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade.” (At.2.44-45). Portanto, uma vida abnegada não deve ser algo exclusivo do pastor, tendo em vista que assim deve ser o amor de todo cristão. Isso significa que o cristão deve estar disposto a negar suas vontades por amor a Jesus e, também, aos irmãos, demonstrando, assim, que não é escravo das próprias paixões.

Diante disso, somos instigados a questionar: Se o cristão deve proceder assim, como deveria agir aquele que fora chamado para exercer o ministério pastoral? A abnegação da própria vontade deve acompanhar o pastor e, quando necessário, a família do pastor, também, tendo em vista ser ele o líder da casa, por instituição divina. Por esta razão, sonhos e planos pessoais, e familiares, deverão sempre estar em segundo plano. Às vezes, eles serão possíveis, pois estarão em pleno acordo com a obra que Deus lhe confiara; outras vezes o pastor deverá abrir mão de suas vontades, para que nada atrapalhe o bom desempenho do trabalho que foi designado a executar.

Lembro-me de certo diálogo com um pastor que estava cursando mestrado em Universidade Federal, na área de humanas. Ele contou com empolgação sobre seus estudos, mas não vi o mesmo com respeito ao ministério; contou sobre planos de fazer parte de seu curso fora do país, mas não demonstrava empenho no conhecimento teológico nem boa prática na arte da pregação. Diante disso, perguntei: “- Seus sonhos e planos cooperam com o chamado que Deus lhe confiou?” Seu histórico, suas pregações e modo de tratar o ministério pastoral demonstravam falta de interesse ou preocupação com a necessidade de se esmerar no exercício da obra do Senhor. Ele queria se dedicar a um estudo paralelo sem que tivesse se dedicado o suficiente no estudo da Escritura Sagrada. E mesmo com todas as dificuldades que demonstrava, em vez de querer se aprimorar naquilo que realmente importava para o exercício do ministério, estava gastando tempo, esforço e dinheiro em coisas desnecessárias, dividindo o coração entre o ministério e seus sonhos.

Qual deveria ser a prioridade acadêmica do pastor? Qualificar-se para melhor pregar a Escritura, a fim de pastorear o rebanho com maior convicção e maturidade. Portanto, o pastor deve procurar cursos que realmente o qualifiquem para melhor servir ao Senhor, dedicando-lhes prioridade em detrimento de qualquer outra qualificação acadêmica, afinal não se pastoreia uma igreja por meio de teorias e conjecturas, mas por intermédio do fiel ensino da Verdade que é a Escritura Sagrada. De que servirá para o Reino de Deus ter pastores que conhecem bem filosofia, mas não teologia; que sabem bem letras, mas não são capazes de fazer uma boa exegese e teologia bíblica; que manejam bem diversos saberes acadêmicos, mas não ensinam com destreza e fidelidade a Palavra de Deus, poder de Deus para salvação? Como disse Paulo:

Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino:  2 prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina.  3 Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos;  4 e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas (2Tm.4.1-4).

Outros pastores estão passando por problemas com o ministério ao adequá-lo aos anseios e sonhos da família. A esposa quer ganhar bem, alimentar suas vaidades e ter uma vida social interessante; querem boas escolas para os filhos ou estes querem boas universidades; e todos os membros da família querem uma vida confortável e próspera. Então, o pastor sente-se tentado (ou obrigado) a morar em algum lugar que atenda a estes anseios e sonhos da família, tornando seu ministério subordinado aos planos familiares. Para não deixar o ministério, tais pastores procuram alguma igreja para pastorear ao redor dos sonhos da família. E para tirar o peso da consciência, justificam-se sobre a ideia de que a família está em primeiro lugar. Mas, foi para isso que Deus chamou homens? O ministério pastoral se resume a um emprego eclesiástico? Essas perguntas devem ser respondidas para o bem do pastor e da igreja.

Para por em prática a abnegação necessária ao ministério pastoral, será preciso que o coração do pastor encontra-se profundamente envolvido com a obra de Cristo. Quanto mais prazer houver em satisfazer a Deus, maior será sua prontidão em abrir mão de suas vontades pelos interesses da obra do Senhor. Nem sempre será fácil deixar muitas coisas para trás e, ainda, conduzir a família ao propósito de viver uma vida para a glória de Deus, em completa dedicação à obra do Senhor. Todavia, já que Deus nos chamou para este fim, então Ele mesmo nos dará força, sabedoria e graça para colocar em prática a abnegação completa da vida em prol do ministério conferido por Cristo.


Propósito de vida definido por Deus

Acredito que você já tenha ouvido sobre a importância da ordem correta de prioridades em sua vida: 1) Deus; 2) família; 3) igreja. A ordem é bonita e proveitosa para exortar os cristãos a não abandonarem a família por uma instituição eclesiástica, mas essa sequência não consegue expressar com exatidão o ensino bíblico, pois a igreja de Jesus não é sinônima de “instituição eclesiástica organizada”, mas, sim, o povo de Deus, aqueles que Jesus chamou de família (Mc.3.31-35) e Paulo diz que compõe a família de Deus (Ef.2.19).

Tem ocorrido um problema na aplicação dessa sequência de prioridades. Em vez de aplicarem a ordem de preferências ao cuidado que se deve ter com a família, passaram a fazer da sequência uma razão para conduzir o ministério pastoral segundo a vontade da família, mesmo quando não é justificado por necessidades reais. Por causa do interesse dos filhos em fazer uma boa universidade, pastores querem morar em grandes centros urbanos que favoreçam esse desejo. Por causa do interesse da esposa em algum trabalho, o pastor finca residência na cidade escolhida pela esposa, a fim de satisfazer-lhe a vontade. Ou seja, a família decide o rumo do ministério e não o ministério a direção da família.

Portanto, precisamos responder a importante pergunta: Quem define a direção do ministério pastoral? Vamos pensar na vida militar. Meu pai é militar aposentado e esteve a serviço do exército até meus cinco anos de idade. Eu nasci em Recife, mas aos dois anos de idade, aproximadamente, precisei morar em Brasília, pois meu pai foi transferido para lá. Depois, fomos morar no Rio de Janeiro, pois, mais uma vez, meu pai foi transferido. Ou seja, quem dá a direção para o militar é a instituição. Mesmo que a família não queira, caso o exército ordene a transferência do militar para alguma outra cidade, ele deverá ir junto à família inteira. Portanto, a família deve estar preparada para os desafios da vida de um oficial das forças armadas.

Algo semelhante acontece com o ministério pastoral. Aquele que arregimenta o pastor, também destina seus soldados para onde desejar. É evidente que essa destinação possui um caráter subjetivo, mas não impossível de ser compreendida. A maior dificuldade de um pastor para compreender a hora de sair de uma igreja ou a necessidade de pastorear em outro lugar é sua indisposição. O coração é o primeiro a colocar os obstáculos, tendo em vista incertezas sobre o novo ou medos de perder confortos. Observemos uma narrativa de Atos dos Apóstolos:

E, percorrendo a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia,  7 defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu.  8 E, tendo contornado Mísia, desceram a Trôade.  9 À noite, sobreveio a Paulo uma visão na qual um varão macedônio estava em pé e lhe rogava, dizendo: Passa à Macedônia e ajuda-nos.  10 Assim que teve a visão, imediatamente, procuramos partir para aquele destino, concluindo que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o evangelho.  11 Tendo, pois, navegado de Trôade, seguimos em direitura a Samotrácia, no dia seguinte, a Neápolis  12 e dali, a Filipos, cidade da Macedônia, primeira do distrito e colônia. Nesta cidade, permanecemos alguns dias (At.16.6-12).

Paulo tinha planos missionários para a Ásia e não contava com o impedimento promovido pelo Espírito do Senhor, afinal, por que Deus impediria a obra da pregação de sua Palavra? Todavia, o Senhor tinha outros planos para Paulo e o impediu de seguir seus próprios planos. Após o impedimento, Paulo recebeu orientação divina sobre o lugar para onde deveria se destinar. Diante disso, o destino do apóstolo estava certo e, então, Paulo seguiu rumo a Macedônio onde plantou diversas igrejas no decorrer de alguns anos. O destino certo o levou aos frutos certos.

A narrativa sobre o ministério de Paulo não deve ser tomada como padrão, mas nos serve de exemplo sobre a direção divina para aqueles que Ele chamou para o ministério da pregação da Palavra. O pastor deve estar interessado e sensível à necessidade de direção para o ministério pastoral. Consequentemente, o pastor deverá lutar contra o próprio coração tão tendencioso a querer conforto e facilidades. Por falta de interesse e sensibilidade para seguir novos rumos, muitos pastores estão brigando dentro de igrejas ou abrindo mão da fidelidade, a fim de permanecerem por toda a vida em uma igreja local. Todos já perceberam que o tempo dele acabou naquele lugar, porém ele não reconhece a necessidade de partir para servir em novos campos nem a família aceita a perda de privilégios. Desta forma, tanto o pastor se desgasta quanto a igreja sofre a falta de percepção daquele que deveria ser dirigido por Deus, não por seu próprio coração.

O pastor deve orar ao Senhor para que seu próprio coração esteja sensível ao direcionamento divino. Também deve orar para que sua família coopere com o ministério a ele confiado, por meio da concordância e acompanhamento, a fim de tornar mais fácil a caminhada pastoral. O pastor deve estar atento às necessidades a seu redor. Ou seja, ao observar que há muitos pastores na região que podem fazer o mesmo trabalho que ele está realizando, então, talvez, seja o momento de ir para algum lugar, direcionado por Deus, que tenha real necessidade de pastores. Se isto ocorresse naturalmente, havendo um investimento humano e financeiro mais abrangente, haveria um número maior de cidades brasileiras com igrejas bem pastoreadas.

É importante realçarmos o fato de que Deus chamou pastores para edificar a igreja, ou seja, para atender à necessidade de aperfeiçoar o povo de Deus (Ef.4.1-16). Isso deve conduzir o ministro a buscar o lugar onde melhor possa ser útil na edificação do povo de Deus. Ao contrário disso, como já dissemos, muitos estão saturando metrópoles por simples conveniência familiar. A escolha por pastorear as igrejas tem sido determinada por interesses particulares e esse fenômeno contraria o propósito de Deus para o ministério pastoral. O pastor deve ser instrumento para alcançar vidas e cuidar do rebanho de Jesus, atendendo às necessidades da igreja; não o contrário. Enquanto pastores não se virem como instrumentos divinos, separados e chamados para cumprir propósito definido por Deus, então farão das igrejas meios para sustento pessoal ou patrocínio para o alcance de planos particulares.


Uma família dentro do ministério

Qual a relação de sua família com o ministério pastoral conferido a você? Não estou dizendo que a esposa do pastor deva ser chamada de pastora (porque ela não é) nem que os filhos do pastor devam ser líderes na igreja. O pastor é você, mas sua família terá que se envolver com o ministério por meio da compreensão e acompanhamento, pois onde você estiver ela deverá estar e para onde você for enviado sua família deverá ir, também. Portanto, a família do pastor deve ser amadurecida para ajuda-lo por meio do apoio contínuo, tornando a vida pastoral mais fácil, ou menos difícil.

O pastor é o líder da família, assim como todo homem, e tem o direito/dever de educar a família, conduzindo-a conforme a Palavra do Senhor. Essa educação envolverá a submissão feminina, o respeito e obediência dos filhos e o prazer de todos em fazer a vontade de Deus (Ef.5.18-6.9). Nesse ponto, o pastor deve ser exemplo na liderança familiar, afinal “se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?” (1Tm.3.5). Portanto, não é adequado ao pastor a incapacidade de conduzir a família conforme a direção divina para o ministério pastoral.

A família do pastor precisa se enquadrar no ministério que Deus confiou ao chamado. Isso exigirá uma caminhada íntima com o Senhor, ou seja, piedade da parte da família para aceitar a direção divina e submeter-se à vontade do Senhor. Portanto, a abnegação completa da vida terminará por envolver a família, exigindo-lhe que abra mão de muitas coisas por amor à obra divina. Desta forma, ela deverá confrontar a si mesma por meio da Palavra de Deus, a fim de que haja sempre plena satisfação em Cristo em toda e qualquer circunstância.

Contudo, reações possíveis por parte tanto da esposa quanto dos filhos são a murmuração e a indisposição, sentindo-se prejudicados por culpa do marido e pai. Tal sentimento dividirá a família, transformando-a num peso para o pastor. Este ambiente não é adequado para o bom exercício do ministério pastoral, pois ainda que o homem seja o líder responsável pelo cuidado, sustento, ensino e proteção do lar, não é um mártir da família. A esposa não foi dada ao homem para ser um peso em seus ombros, mas um auxílio em suas responsabilidades (Gn.2.18-25). Os filhos não são problemas confiados aos pais, mas “fechas nas mãos do guerreiro” (Sl.127.4). O que fazer diante disso? Oração e ensino da Escritura sempre serão soluções para os problemas pessoais e familiares, pois tanto Deus é poderoso para quebrantar cada coração quanto a Palavra do Senhor é poderosa para convencer-nos de todos os nossos pecados (Jo.3; 16).

Tentar resolver problemas com shoppings ou presentes ou outras vantagens materiais somente “colocará a sujeira para debaixo do tapete”. O que a família precisa não pode ser encontrado no comércio nem alcançado por qualquer dádiva material. O problema do ser humano está em seu coração e somente Deus pode resolvê-lo. O convencimento superficial apenas adia o problema, pois as murmurações virão à tona outra vez. Todavia, se pela Palavra de Deus e pelo Espírito do Senhor sua esposa e filhos forem convencidos sobre a necessidade de se submeterem à vontade de Deus e encontrarem em Cristo plena satisfação para a vida, então o pastor encontrará aliados de seu ministério para toda a jornada pastoral a ele confiada.

É fundamental que o pastor seja firme o bastante para não ceder às pressões das pessoas, quer família, igreja ou sociedade em geral, pois caso não tenha postura sólida diante das adversidades e oposições, será manipulado por todos, perdendo, então, a utilidade, pois Deus o chamou para conduzir pessoas pela Escritura, independentemente da vontade do povo. Com tal firmeza, o pastor desenvolverá um longo processo de ensino da vontade divina, mostrando o caminho pelo qual seu lar deverá percorrer a jornada cristã. Isso lhe exigirá, também, paciência e perseverança, pois o coração humano é volúvel por natureza (pecadora).


Andando com Deus

Por fim, é fundamental que falemos sobre a caminhada do pastor junto a Deus, por meio de sua contínua vida devocional. Mais que qualquer outro cristão, o pastor deve andar com Deus como Enoque andou (Gn.5.22,24) e ter alegria em Cristo, nosso salvador, como o apóstolo Paulo tinha (Fp.4.4; At.16.25). Ou seja, o pastor é apresentado como exemplo de vida de comunhão com Deus para que toda a igreja tenha um modelo palpável que a conduza a Cristo Jesus (1Co.11.1; 1Pe.5.3).

O fato de que precisamos abnegar completamente a vida significa que há algo errado em nós. Se nosso coração, mente e corpo tivessem plena satisfação em Deus, não haveria qualquer necessidade de lutar contra eles. No entanto, o pecado tornou todo nosso ser indisposto a Deus, de tal forma que o coração, a mente e todo o corpo mostram constante rebeldia contra a vontade de Deus, conduzindo-nos para longe de tudo que é bom e agradável ao Senhor (Gl.5.16. Rm.7). Por isso, é necessário dominar a si mesmo (Gl.5.23), lutar contra si mesmo (Hb.12.1,4) e se esforçar “muito para guardardes e cumprirdes tudo quanto está escrito no Livro da Lei de Moisés, para que dela não vos aparteis, nem para a direita nem para a esquerda” (Js.23.6; Lc.13.24; Rm.12.17).

Portanto, a comunhão plena com o Senhor não é algo natural da vida, nem mesmo da vida cristã. Ou seja, caso o cristão não se cuide, fazendo uso dos meios de graça (Escritura, Sacramentos e Oração), estará sujeito a muitas quedas e ao desânimo. É necessário muito esforço e contínua luta contra a carne para que todo nosso ser torne-se cativo à vontade de Deus. O homem acorda bem cedo, trabalha o dia todo e, ainda, estuda a noite, suportando o cansaço e a fome para ser bem-sucedido em sua vida profissional e financeira. Todavia, um simples abrir a Bíblia, a fim de ler alguns poucos capítulos da Palavra de Deus parece ser o mais penoso, difícil e cansativo exercício humano. Por que é tão difícil buscar uma vida devocional mergulhada na leitura da Escritura e constante oração? Porque tudo em nós tornou-se indisposto a Deus.

Por essa razão, Cristo veio ao mundo, tornou-se um de nós, morreu em nosso lugar e enviou o Espírito Santo para habitar com sua igreja. Ou seja, Jesus veio restaurar o que se perdeu, a fim de que o homem encontre plena satisfação em Deus outra vez, como foi no jardim do Éden. A conversão, então, é o marco inicial do processo de restauração que Deus opera naqueles que creem no Senhor Jesus. Inicial porque a conversão não nos torna perfeitos, mas dá início à caminhada rumo à perfeição progressiva operada pelo Espírito e Palavra de Deus, que será alcançada na ocasião da volta de Jesus (1Co.15.50-58). Isso significa que poderão ocorrer acertos e erros, altos e baixos, momentos bons e ruins ao longo de toda a jornada cristã.

Então, não devemos pensar que o fato de sermos pastores nos torna iguais a Enoque ou imunes ao esfriamento espiritual. A mesma necessidade que todo cristão tem de buscar a Deus, constantemente, também se faz presente na vida do pastor. Porém, a profissionalização do ministério tem esfriado muitos pastores por causa do ativismo a que foram sujeitos os ministros. Ou seja, o excesso de reuniões político-eclesiásticas, as visitas superficiais para comer e beber, os constantes trabalhos manuais para manutenção do prédio da igreja e o exercício administrativo da igreja local tanto exaurem o pastor quanto criam uma falsa impressão de que seu ativismo é sinônimo de vida produtiva com Deus e para Deus. Com o tempo, tal pastor estará negligenciando o estudo da Escritura antes de pregá-la para a igreja; trocará o fiel ensino da Palavra por programações divertidas e se contentará com a presença numérica de pessoas dentro da denominação.

Mas, o que significa andar com Deus? A expressão não apenas caracteriza a vida de Enoque (Gn.5.22,24), como, também, a vida de Noé (Gn.6.9). Josué adverte “os rubenitas, os gaditas e a meia tribo de Manassés” (Js.22.1) a “guardar com diligência o mandamento e a lei” (Js.22.5), andando, assim, em todos os caminhos do Senhor. Salomão abençoa Israel, admoestando a nação a andar com Deus (1Rs.8.61); e, muito depois, Paulo afirma perante o Sinédrio que andava com o Senhor desde sua mocidade (At.23.1). Além disso, o profeta Miquéias exorta o povo a que ande “humildemente com o teu Deus” (Mq.6.8). Como, então, o cristão anda com Deus? Como se expressa a caminhada de um cristão com o Senhor?

Andar com Deus significa viver em acordo com sua vontade como Jesus andou, fazendo sempre o que agrada o Pai, mesmo em meio a um mundo que jaz na escuridão (Jo.4.34). O cerne da caminhada com Deus é a obediência, conforme disse Jesus: “aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo.14.21). Porém, devemos observar que a prática dos mandamentos não deve ser apenas mecânica ou ritual (Mt.19.16-23), antes deve ser motivada pelo temor e amor a Deus, pela satisfação de viver para agradar àquele que nos amou e “a si mesmo se entregou” por nós (Gl.2.20). E para cultivar essa caminhada com o Senhor, será necessária a abnegação completa da vida, a fim de que os prazeres da carne sejam substituídos pelo alimento celestial.


Gostaria de concluir relembrando que não apenas estamos pastores, nós somos pastores. O ministério pastoral é a vida do pastor, não apenas parte dela nem muito menos apenas uma profissão dada por Deus. O fim do ministério se dá com a morte, pois o propósito da vida do pastor é cumprir a missão para a qual foi chamado (2Tm.4.7). Portanto, antes de enveredar por esse maravilhoso caminho, reflita sobre as características dele. E se você realmente foi chamado, ponha em prática a abnegação completa de sua vida, pois está destinado a viver e sofrer por amor a Jesus e sua igreja.





[1] Recomenda-se, para tornar mais clara essa afirmação, a leitura do ensaio intitulado: CRISTO, o último UNGIDO de Deus, disponível em www.voxscripturae.blogspot.com.br. Neste artigo, será demonstrado que a prática da unção e o termo ungido, amplamente presentes no Antigo Testamento, tinham um propósito profético messiânico que, naturalmente, cumpriu-se em Jesus. Por essa razão, o termo “ungido” é utilizado no Novo Testamento apenas para se referir ao Filho de Deus, também chamado de Cristo (“ungido”).

sábado, 11 de novembro de 2017

Cristo, Salmos e Você - SALMO 9

Levanta-te, SENHOR; não prevaleça o mortal. Sejam as nações julgadas na tua presença. Infunde-lhes, SENHOR, o medo; saibam as nações que não passam de mortais.” (Sl.9.19-20)

Há várias causas para o elevado número de pessoas com depressão em nossos dias. Uma dessas causas é a falta de esperança diante dos problemas da vida, unido ao amor demasiado a si mesmo. Mas, é possível uma pessoa ter alegria e esperança no coração em dias maus? Agradecer a Deus e louvá-lo mesmo diante de sofrimentos? Sim! Pois, a segurança daquele que teme ao Senhor encontra-se na justiça do Rei de toda a Terra. O Salmo 9 nos revela que Davi esperava em Deus e nEle punha sua confiança mesmo em dias maus quando seus inimigos pareciam prevalecer.

A nobreza de Davi não se encontrava em sua realeza, mas em sua plena confiança no Reinado do SENHOR, o Deus de toda a Terra. Ele tinha valentes em sua guarda pessoal e um grande exército a seu dispor, mas sua segurança estava no poder e justiça de Deus que “permanece no seu trono eternamente” e “julga o mundo com justiça; administra os povos com retidão” (Sl.9.7,8). Portanto, Davi não olhava para si mesmo nem confiava em sua força; ele não vivia para si mesmo nem olhava apenas para as circunstâncias a seu redor. Por essa razão, Davi encontrava ânimo, esperança, força e alegria mesmo nos piores dias de sua vida, pois seus olhos estavam sempre fitos em Deus, sua rocha e fortaleza.

Com o coração em Deus, Davi encontrava razões de sobra para glorificar o Senhor, oferecendo graças e louvores ao Criador; firmado sobre a rocha, Davi esperava naquele que é “refúgio e fortaleza, socorro bem presente na tribulação” (Sl.46.1). Com esta confiança, Davi venceu Golias e muitos outros adversários e aguardava pacientemente o dia do Senhor quando este traria juízo sobre os inimigos de Deus e plena salvação para todos os que esperavam a redenção de Israel.

A confiança e a esperança em Deus são características fortemente presentes nos salmos de Davi. Boa parte de seus 73 salmos revelam as muitas aflições a que sujeitaram o ungido do Senhor. Seu clamor, em grande medida, prefigurou o sofrimento de Cristo que se humilhou e se sujeitou a este mundo para ser nosso redentor. Assim como Davi, Jesus era odiado por muitos de sua geração; e semelhante ao filho de Jessé, Cristo teve que lutar contra muitos adversários para trazer paz sobre o povo de Deus.

Mas, não apenas o sofrimento davídico tipificava as angústias do servo sofredor (Is.53). A confiança daquele servo de Deus, também, nos remete à firmeza de Cristo que viveu para dar glórias ao Pai (Sl.9.11; Jo.4.34). Em suas orações, Jesus sempre dava graças a Deus (Mt.11.5; 15.36; 26.27; Jo.6.11; 11.41) e mesmo diante de seus inimigos, Ele esteve pronto para perdoar (2Sm.19.16-23//Lc.23.34). Sua alegria era fazer a vontade do Pai (Jo.5.30) mesmo quando esta o colocou em aperto diante de seus adversários (Mc.14.36), pois sabia que do Senhor é “o reino, o poder e a glória para sempre” (Mt.6.13), “porque Tu, SENHOR, não desamparas os que Te buscam” (Sl.9.10).

Tal confiança e alegria no Senhor, mesmo em dias maus, provêm do Espírito de Deus que habita em seu povo. Jesus foi cheio do Espírito do Senhor (Lc.4.1) e nos deu de Seu Espírito para que sejamos cheios, também (Jo.20.22; At.4.8; Ef.5.18). Por isso, os apóstolos louvavam a Deus mesmo em cadeias (At.16.25) e não desistiram da fiel pregação da Escritura mesmo diante das muitas ameaças sofridas (At.5.40-42). E quando se viam diante das muitas ameaças do mundo ao redor, a igreja clamava a Deus, confiante, pois sua segurança estava no governo do Senhor da glória (At.4.29). Desta forma, a igreja seguia, corajosamente, pregando o Evangelho da graça de Cristo Jesus (At.4.31).

Jesus é nossa rocha sobre a qual firmamos nossa fé (1Co.10.4); Ele é nosso Rei eterno que governa o mundo com “cetro de ferro” (Sl.2.9); Cristo é nosso resgatador que nos livrou do império das trevas (Cl.1.13); Ele é o Senhor de tudo que fará separação entre as ovelhas e os bodes, a fim de que seu povo tenha paz eterna (Mt.25.31-46). Pois, em Jesus, Deus manifestará tanto sua poderosa e graciosa salvação quanto seu justo e santo juízo, para que em tudo o Senhor seja glorificado (Sl.9.19-20). Diante disso, espere nEle com perseverança, alegria e esperança; e “não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor” (Rm.12.19)!


Mantenha seu olhar fito sobre Cristo, então, em dias maus, você encontrará, nEle, ânimo e alegria, força e sabedoria para enfrentar as adversidades sem se abalar. Lembre-se que o Senhor é o juiz de toda a Terra e “fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los” (L.c.18.7). Aguarde em Jesus, pois Deus não desamparará seu povo jamais, então “regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração, perseverantes” (Rm.12.12).

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

CRISTO, o último UNGIDO de Deus

Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.” (Hb.1.9)

Com o surgimento do movimento pentecostal, alguns termos tornaram-se comuns no meio evangélico. Dentre esses termos, encontra-se a palavra “ungido”, aplicada aos cristãos, em geral, mas, principalmente à figura do pastor ou líder dentro da igreja. Além disso, incorporaram ao termo a prática de “ungir com óleo” em diversas ocasiões, justificando-se tal prática com a leitura de alguns textos como Marcos 6.13, Lucas 7.46 e Tiago 5.14 etc. Com o passar do tempo, a palavra passou a ser usada como lei protetora do ministério pastoral, a fim de evitar que qualquer pessoa possa ir contra ensinos e práticas daqueles que querem ter todo poder centrado em si mesmos, rejeitando o ensino bíblico de que a autoridade pastoral está associada à fidelidade à Escritura Sagrada. Portanto, há uma grande necessidade de se compreender o significado e propósito da unção ensinada no Antigo e Novo Testamento.

Para entendermos bem o assunto, dissipando, assim, todas as dúvidas com respeito à unção com óleo, precisaremos compreender primeiro o propósito da unção no Antigo Testamento e sua relação com Cristo. O propósito da Escritura Sagrada é apontar para o Filho de Deus “a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles.” (Hb.1.2-4). Os diversos autores do Novo Testamento nos conduzem sempre para Cristo, cumprimento da Palavra de Deus (Rm.11.36; Lc.24.25-27; Gl.3.16,19,22,24-29; 4.4; Jo.14.6; Rm.16.25-27; Ef.1.3-14; Cl.1.27; 2.2; 4.3-4 etc.). Portanto, uma das principais causas de diversas interpretações erradas da Palavra de Deus é a leitura da Escritura sem Cristo, de forma que o leitor procura outros alvos, quer o cristão quer a nação de Israel etc., para aplicar os textos bíblicos.

O termo ungir surge pela primeira vez em Gênesis 31.13: “Eu sou o Deus de Betel, onde ungiste uma coluna, onde me fizeste um voto; levanta-te agora, sai desta terra e volta para a terra de tua parentela”, uma referência a Gênesis 28.18: “Tendo-se levantado Jacó, cedo, de madrugada, tomou a pedra que havia posto por travesseiro e a erigiu em coluna, sobre cujo topo entornou azeite”. Observe-se que o significado de ungir é dado na junção entre os dois textos acima: ungir é entornar azeite. Também, deve-se observar que a prática parece não ser desconhecida de Jacó, uma espécie de batismo, pois, após ungir a coluna, Jacó deu nome à cidade (Gn.28.19).

Depois de Gênesis 31.13, o termo hebraico “mashar” (ungir) só aparecerá em Êxodo 28.41 em referência à consagração do sacerdote. A partir de então, o verbo ungir (“mashar”) é usado para consagrar os três ofícios de Israel: Sacerdote, Rei e Profeta, além das coisas sagradas (Ex.28.41; 29.2,7,36; 30.26,30; 40.9,10,13,15; Lv.6.20; 7.36; 8.10,11,12; 16.32; Nm.3.3; 7.1,10,84,88; 35.25; Jz.9.8,15; 1Sm.9.16; 10.1; 15.1,17; 16.3,12,13; 2Sm.1.21; 2.4,7; 3.39; 5.3,17; 12.7; 19.10; 1Rs.1.34,39,45; 5.1; 19.15,16; 2Rs.9.3,6,12; 11.12; 23.30; 1Cr.11.3; 14.8; 29.22; 2Cr.22.7; 23.11; Sl.45.7; 89.20; Is.61.1; Dn.9.24). Em Levítico, o termo “ungir” (“mashar”), ainda, aparece relacionado à aplicação de azeite como ingrediente de bolos que seriam ofertados ao Senhor (Lv.2.4; 7.12; Nm.6.15). Além de seu uso relacionado ao sagrado, há algumas poucas referências a aplicação do óleo de forma comum para consagração de objeto, no sentido de aplicar um líquido sobre algo ou como perfume (Is.21.5; Jr.22.14; Am.6.6).

Ainda outro termo hebraico é usado para se referir à ação de ungir: "suk" (Ex.30.32; Dt.28.40; Rt.3.3; 2Sm.12.20; 14.2; 2Cr.28.15; Ez.16.9; Dn.10.3; Mq.6.15). O profeta Isaías usa o verbo "suk" com o significado de “ir contra” (Is.9.11; 19.2), como se um povo fosse derramado sobre o outro por adversário. Diferente de “mashar”, o verbo “suk” é utilizado para referir-se a qualquer uso de óleo como bálsamo (Rt.3.3; 2Sm.12.20; 2Sm.14.2; Ez.16.9; Dn.10.3). Seu equivalente grego mais próximo é “aleifo” que, apesar de aparecer na Septuaginta para traduzir ambos os termos hebraicos (“mashar” e “suk”), aparece no Novo Testamento para se referir, somente, a bálsamos e curativos (Mt.6.17; Mc.16.1; Lc.7.38,46; Jo.11.2; 12.3). Mais adiante analisaremos o uso desse termo no Novo Testamento.

A importância e restrição do óleo sagrado, destinado a unção dos ofícios de Israel, é revelada por meio da ordenança de Êxodo 30.22-33:

Disse mais o SENHOR a Moisés:  23 Tu, pois, toma das mais excelentes especiarias: de mirra fluida quinhentos siclos, de cinamomo odoroso a metade, a saber, duzentos e cinqüenta siclos, e de cálamo aromático duzentos e cinqüenta siclos,  24 e de cássia quinhentos siclos, segundo o siclo do santuário, e de azeite de oliveira um him.  25 Disto farás o óleo sagrado para a unção (misherah), o perfume composto segundo a arte do perfumista; este será o óleo sagrado da unção (misherah)26 Com ele ungirás (mashar) a tenda da congregação, e a arca do Testemunho,  27 e a mesa com todos os seus utensílios, e o candelabro com os seus utensílios, e o altar do incenso,  28 e o altar do holocausto com todos os utensílios, e a bacia com o seu suporte.  29 Assim consagrarás estas coisas, para que sejam santíssimas; tudo o que tocar nelas será santo.  30 Também ungirás (mashar) Arão e seus filhos e os consagrarás para que me oficiem como sacerdotes.  31 Dirás aos filhos de Israel: Este me será o óleo sagrado da unção (misherah) nas vossas gerações.  32 Não se ungirá (suk) com ele o corpo do homem que não seja sacerdote, nem fareis outro semelhante, da mesma composição; é santo e será santo para vós outros.  33 Qualquer que compuser óleo igual a este ou dele puser sobre um estranho será eliminado do seu povo.

Esse texto é de suma importância, pois além de atribuir a finalidade do santo óleo (Nm.35.25) feito pelos sacerdotes, também proíbe, permanentemente, que esse óleo seja usado para outra finalidade a não ser a unção das coisas sagradas. Posteriormente, o óleo será usado para consagrar profetas e reis: “Tomou Samuel o chifre do azeite e o ungiu no meio de seus irmãos; e, daquele dia em diante, o Espírito do SENHOR se apossou de Davi.” (1Sm.16.13) e “a Jeú, filho de Ninsi, ungirás rei sobre Israel e também Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, ungirás profeta em teu lugar” (1Rs.19.16). Mais adiante, antes da morte do rei Davi, o sumo sacerdote Zadoque, junto ao profeta Natã, ungiram Salomão (1Rs.1.34,39). O óleo usado pelo sumo sacerdote para ungir o filho de Davi foi o mesmo óleo de uso no tabernáculo, pois “Zadoque, o sacerdote, tomou do tabernáculo o chifre do azeite e ungiu a Salomão” (1Rs.1.39). Desta forma, o óleo sagrado era destinado aos ofícios sagrados de Israel: sacerdote, rei e profeta.

Devemos chamar a atenção para a proibição final do texto de Êxodo 30.22-33: “Qualquer que compuser óleo igual a este ou dele puser sobre um estranho será eliminado do seu povo” (Ex.30.33). Diante dessa ordenança, não é possível se imaginar que os judeus dos dias de Jesus tivessem quebrado o mandamento mosaico nem muito menos podemos entender que Cristo tivesse ferido a Escritura, pois seu propósito era cumpri-la, não revoga-la (Mt.5.17). Se qualquer um deles tivesse desobedecido ao mandamento, seria acusado de quebra da lei, ou seja, desobediência contra Deus. Portanto, a fabricação do santo óleo de forma particular e para fins diferentes do que preceitua a Escritura deve ser considerada fora de cogitação.

Dois termos gregos são usados para traduzir os verbos “suk” e “mashar” (ungir - hebraico): “aleifo” e “chrio” (ungir - grego). Este último termo é o equivalente mais próximo de “mashar”, utilizado para referir-se à consagração dos ofícios e coisas sagradas de Israel. No Novo Testamento, o verbo “chrio” aparece apenas 5 vezes (Lc.4.18; At.4.27; 10.38; 2Co.1.21; Hb.1.9) sempre se referindo a pessoa de Cristo. Em 2 Coríntios 1.21, “chrio” se refere a unção de Cristo partilhada por aqueles que nEle creem e dEle receberam “o penhor do Espírito” (2Co.1.22). Ou seja, Cristo tornou a igreja participante de sua vida, sendo Ele o ungido de Deus. Portanto, a igreja partilha da unção de Cristo por duas razões: sua identificação com a morte e ressurreição de Jesus e sua participação da habitação do Espírito (Rm.6.4; 1Co.3.16; 1Pe.2.5). Todavia, Jesus continua sendo o Cristo (o ungido). Essa unção não veio sobre a igreja por meio de derramamento de óleo, mas por meio de sua fé em Jesus, tornando o cristão um só corpo com Cristo. Por estarmos nEle, partilhamos da presença do Espírito Santo à semelhança de Jesus (Lc.4.1) e vivemos uma nova vida para a glória de Deus (Gl.2.20). Semelhante ideia encontra-se na primeira carta de João, onde o apóstolo diz que a igreja “tem unção da parte do Santo” (1Jo.2.20,27 – “chrisma”).

Do verbo “chrio” surgiu o adjetivo “christós” (posteriormente, substantivado) para identificar aquele que recebeu o óleo da unção: Sacerdote (Lv.4.5,16; 6.22; 21.10,12), Rei (1Sm.2.10,35; 12.3,5; 16.6; 24.6,10; 26.9,11,16,23; 2Sm.1.14,16; 19.21; 22.51; 23.1; 2Cr.6.42; 22.7; Sl.2.2; 18.50; 20.6; 28.8; 84.9; 89.38,51; 132.10,17; Is.45.1) e profeta (1Rs.19.16 – povo profético: Sl.105.15). Tendo chegado o Filho de Deus, o termo “Christós” passa a ser usado exclusivamente para se referir a Jesus como “o ungido” de Deus. A palavra “christós” é usada 529 vezes no Novo Testamento, quase 13 vezes o número de ocorrências no Antigo Testamento (41 vezes, apenas), mas em nenhuma das ocorrências ela se dirige para os sacerdotes nem para os reis nem mesmo para o profeta João Batista, pois aquele (Jesus) para quem os ofícios de Israel apontavam já havia chegado, de forma que os autores do Novo Testamento se referem somente a Jesus como “o ungido”, ou seja: Cristo. Nenhuma outra pessoa do Novo Testamento é chamada de “christós”, ou seja, de “ungido”, em todas as 529 vezes em que ocorre o termo “ungido”, e nem mesmo os apóstolos receberam esse título.

Qual o propósito do Senhor ter ordenado a Israel a prática da unção destinada especialmente à consagração dos ofícios: Sacerdote, Profeta e Rei? O objetivo era apontar para o status e papel de Jesus Cristo como Sumo Sacerdote que adentrou ao santo dos santos em nosso lugar para oferecer a si mesmo como oferta perfeita e única por nós, a fim de aplacar, definitivamente, a ira do Senhor contra seu povo (Hb.4.14; 7.26-28); como Profeta por quem Deus falou “nestes últimos dias”, revelando-nos o mistério outrora oculto nos dias do Antigo Testamento, para que a igreja conheça a perfeita vontade do Senhor (Hb.1.1-2; Cl.1.26-27); como Rei do Reino de Deus que governa nossos corações, sendo Senhor de tudo e todos (Sl.2; Jo.19.19-21).

Um texto profético, mencionado por Jesus, nos ajudará a entender o propósito da unção no Antigo Testamento: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Is.61.1//Lc.4.18). Isaías profetiza a chegada de alguém que seria ungido por Deus, ou seja, que seria cheio do Espírito Santo e operaria todas as maravilhas de Deus no meio de seu povo. Jesus aplicou a profecia a si mesmo em Lucas 4.18, portanto, conforme Cristo, a profecia de Isaías cumpriu-se nEle, ou seja, encerrou-se em Jesus, pois o propósito dela era apontar ao ministério de Cristo, cheio do Espírito de Deus. Isaías, portanto, não estava se referindo ao cristão, mas ao Messias, ou seja, ao Cristo profetizado e esperado por todas as páginas da Escritura Sagrada. Jesus é o ungido, cheio do Espírito de Deus, a quem se referiram os profetas. Sua vinda, então, cumpre as profecias e encerra a espera pelo ungido do Senhor.

Devemos observar, ainda, a forma como o livro de Apocalipse faz referência a Jesus como “o ungido” (o Cristo), mesmo estando à destra de Deus. Não há outro ungido em Apocalipse, pois sua unção não foi temporária com o fim de exercer uma função importante, mas escatológica, exclusiva e permanente (Ap.11.15). Jesus é o Cristo para sempre, aquele que possui toda a unção divina, pois carrega em si os três ofícios (profeta, sacerdote e rei) e cumpriu todos os sacrifícios e ofertas ao Senhor, sendo Ele mesmo, também, o lugar da adoração, pois nEle habita a plenitude de Deus e por Ele o pecador pode se achegar a Deus (Jo.14.6; Cl.2.9). Portanto, Jesus é “o Ungido” do Senhor:

sétimo anjo tocou a trombeta, e houve no céu grandes vozes, dizendo: O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo (do seu ungido), e ele reinará pelos séculos dos séculos (Ap.11.15).
Então, ouvi grande voz do céu, proclamando: Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo (do seu ungido), pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus (Ap.12.10).

Portanto, a unção do Antigo Testamento cumpria papel tipológico-profético que apontava para Cristo. A unção figurava a escolha divina e o derramamento do Espírito sobre a pessoa, e ambos encontraram seu cumprimento e plenitude em Jesus, o Filho de Deus. Ele é o ungido de Deus e não há outro; nEle habita toda a plenitude de Deus e em mais nenhum outro; Ele é o cumprimento das profecias redentoras do Antigo Testamento e mais ninguém; Ele é o perfeito Sumo Sacerdote-Profeta-Rei e nunca mais Israel terá esses três ofícios em seu meio. Por isso, diz a Escritura que, no passado, “ministravam em figura e sombra das coisas celestiais” (Hb.8.5) e que as coisas passadas “são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl.2.17).

Uma vez que tenha ficado claro que somente Jesus é chamado de “ungido” no Novo Testamento (Cristo) e que apenas em relação a Ele o verbo “ungir” (“chrio”) é usado, devemos nos voltar para o aparecimento do outro termo “ungir” (“aleifo”) utilizado para a aplicação de bálsamos e curativos. O verbo “aleifo” aparece, apenas, em oito versículos no Novo Testamento (Mt.6.17; Mc.6.13; 16.1; Lc.7.38,46; Jo.11.2; 12.3; Tg.5.14). Das oito ocorrências, seis delas fazem referência clara a perfumes:

Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará (Mt.6.17-18).
Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem embalsamá-lo [ungir – “aleifo”] (Mc.16.1).
E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento; e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o unguento (Lc.7.37-38).
Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés (Lc.7.44-46).
Esta Maria, cujo irmão Lázaro estava enfermo, era a mesma que ungiu com bálsamo o Senhor e lhe enxugou os pés com os seus cabelos (Jo.11.2).
Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do balsamo (Jo.12.3).

Restam-nos, apenas, dois versículos para análise, a fim de que compreendamos o uso do termo “ungir” (aleifo) aplicado sobre enfermos. O primeiro texto está inserido na primeira comissão dada aos apóstolos que deveriam ir, de dois a dois, às casas, pregando, expulsando demônios e curando: “Então, saindo eles, pregavam ao povo que se arrependesse; expeliam muitos demônios e curavam numerosos enfermos, ungindo-os com óleo” (Mc.6.12-13). Devemos lembrar que a palavra ungir significa: entornar, ou aplicar, óleo sobre algo ou alguém (Gn.28.18//31.13). Portanto, Marcos nos diz que os apóstolos despejavam, ou aplicavam, óleo sobre doentes. Mas, por que eles faziam isso? A oração não seria suficiente? O óleo teria poderes mágicos? Qual seria o simbolismo do óleo nesses casos? Por acaso o Espírito de Deus seria derramado sobre a ferida da pessoa, já que a verdadeira unção representava a presença do Espírito do Senhor?

Para entendermos melhor esse texto, o colocaremos em paralelo com outro texto em que o óleo (“elaion”) é usado em circunstância semelhante, ou seja, o óleo é aplicado sobre uma pessoa ferida: “Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele” (Lc.10.33-34). A palavra aplicar (“epichéo”) é a mesma utilizada pela Septuaginta em Gênesis 28.18: “Então, levantou-se Jacó pela manhã, de madrugada, e tomou a pedra que tinha posto por sua cabeceira, e a pôs por coluna, e derramou azeite em cima dela”. Portanto, tanto Jacó derramou (“epichéo”) óleo sobre a coluna, ungindo-a (Gn.31.13) quanto o Samaritano aplicou (“epichéo”) óleo e vinho sobre o ferimento do judeu ferido. Desta forma, percebemos que “epichéo” é outro termo usado para se referir a mesma prática: derramar, despejar, aplicar (“epichéo”) óleo sobre algo.

O importante nesse caso não é o termo óleo (“elaion”), mas seu uso em casos de ferimentos. O Samaritano da parábola de Jesus aplicou óleo e vinho para higienizar e remediar os ferimentos do judeu que havia sido assaltado. Devemos lembrar nesse momento que os remédios antigos possuíam o óleo como veículo em que se misturavam as plantas medicinais. Além disso, sabemos que o álcool (vinho) possui propriedades antissépticas, por isso usado para higienizar os ferimentos. Portanto, o que o Samaritano fez foi cuidar das feridas daquele homem aplicando remédios que tinha em suas mãos. E como esse texto nos ajuda a entender Marcos 6.13? A questão é que o contexto é similar. Os apóstolos aplicavam óleo sobre os enfermos e oravam pelos doentes e estes eram curados, não por causa do óleo, mas da oração. O Novo Testamento não fornece nenhum indício de que os apóstolos tivessem algum tipo de óleo milagroso nem existe qualquer ensino a fabricação de tal coisa. Todavia, muitas são as evidências de que a aplicação de óleo era comum tanto como perfume quanto como curativo.

Diante de todo o exposto acima, devemos compreender que o mesmo óleo é aplicado no texto de Tiago 5.14 como curativo de feridas:

“Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg.5.14-16).

Como dissemos anteriormente, o termo “ungir” em Tiago 5.14 é “aleifo”, o mesmo verbo usado nos sete versículos mencionados anteriormente. Observe-se que o contexto é o mesmo: aplicação de óleo em pessoas doentes. Todavia, em Tiago fica mais evidente que o foco não é a aplicação do óleo e que a causa da atuação divina sobre a pessoa doente não é a unção, mas a oração. Os presbíteros, portanto, deveriam confiar que Deus curaria o enfermo sem, contudo, tentarem a Deus, negligenciando a aplicação do remédio (Mt.4.7). Paulo ensina algo semelhante a Timóteo, dizendo: “Não continues a beber somente água; usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades” (1Tm.5.23). Interessante observar que Paulo não ordena que Timóteo apenas ore nem muito menos diz ao jovem pastor que peça aos presbíteros para ungi-lo com óleo. Paulo ordena que Timóteo tome providências medicamentosas, enquanto mantinha uma vida de oração (1Tm.2.8).

Durante seu ministério terreno, Jesus aplicou saliva, diversas vezes, em doentes (Mc.7.33; 8.23; Jo.9.6 – com propósito específico), contudo não ungiu nem mesmo uma pessoa com óleo, para que ela fosse curada. Sua oração era suficiente para que o morto ressuscitasse, o endemoniado fosse liberto, o doente fosse curado (Mc.6.5; 9.29). Isso ocorreu porque Jesus é o ungido de Deus, aquele que estava “cheio do Espírito Santo” (Lc.4.1), enviado “para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos,  e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc.4.18-19). Portanto, estando em Cristo, a igreja partilha de sua unção, ou seja, do enchimento do Espírito Santo. Desta forma, não precisamos mais de objetos como óleo para representar a presença do Espírito de Deus, pois aquele para quem o óleo apontava já veio e seu Espírito, “penhor da nossa herança”, já nos foi dado para sempre (Ef.1.14).

A unção teve seu papel no Antigo Testamento e cumpriu seu propósito apontando para Cristo. Depois de Jesus, não há mais ungidos especiais (a não ser a igreja que está em Cristo), pois Ele é o único ungido do Senhor. Qualquer outro que apareça se dizendo ungido de Deus deve ser compreendido como um psedocristo, ou seja, um falso cristo, uma identidade assumida pelo anticristo que deseja ser semelhante a Cristo (Mt.24.23-24; Mc.13.21-22). Portanto, usar o termo ungido para o pastor, ou para outra pessoa qualquer, como referência a alguém escolhido por Deus para o desempenho de uma função especial está completamente errado; e, ainda, coloca tal pessoa em oposição a Jesus que é o único ungido de Deus (Cristo).

Por que, então, muitos querem ser chamados de ungidos, hoje? Em grande medida, há ignorância no meio do povo de Deus que não estuda a Palavra do Senhor. Todavia, também há vaidade e soberba, pois muitos cristãos querem ter o “status de espirituais”, pecando contra o Senhor ao usurparem para si a condição que pertence somente a Jesus: ser o ungido de Deus (Cristo). Além disso, muitos anticristos têm surgido em nosso meio, querendo ser semelhante a Cristo, por isso se dizem ungidos especiais de Deus com poderes miraculosos. Devemos lembrar que Jesus advertiu quanto ao surgimento de tais pessoas: “surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt.24.24). Os falsos cristos estiveram presentes no primeiro século e estão presentes em nossa geração, também. Em vista disso, a igreja deve estar atenta para não se deixar enganar. E para isso, basta que o cristão lembre que o único ungido do Senhor é Jesus chamado de Cristo.

Portanto, a unção com óleo não deve ser mais praticada pela igreja, pois essa prática tinha o propósito de apontar para Jesus, nosso Sacerdote-Profeta-Rei. Seu uso, então, torna-se estranho ao Evangelho, pois Cristo basta para sua igreja e seu Espírito é suficiente para enchê-la. Além disso, não precisamos usar óleo ou vinho para curar pessoas feridas, quando já temos muitos outros remédios mais aprimorados. E quando usarmos qualquer remédio, devemos orar ao Senhor confiando que de Deus vem a cura graciosa sobre o enfermo, porque tudo depende dEle, e somente dEle. Em vista disso, em vez de buscar “muletas espirituais” que desviam o olhar de Cristo, “enchei-vos do Espírito” por meio da leitura da Palavra de Deus e perseverança na oração (Ef.5.18-20), pois o ungido do Senhor já veio e está com sua igreja.