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segunda-feira, 21 de maio de 2018

O que é ser cristão?

Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos” (At.11.26)

O que é ser cristão? Há tantas pessoas se dizendo cristãs em nossos dias que precisamos definir bem o termo, a fim de peneirar todos os grupos, extraindo apenas aqueles que realmente se enquadram no conceito bíblico de cristianismo, enquanto motivamos as pessoas que realmente querem ter uma vida cristã autêntica a se adequarem à Palavra de Deus, honrando ao Senhor por meio de suas vidas. Ou seja, a melhor forma de glorificar o Senhor é vivendo uma genuína vida cristã, nem mais nem menos, pois tanto aponta para a graça divina que justifica o pecador por meio de Cristo quanto testemunha a graça divina que santifica o pecador por intermédio da Palavra e Espírito de Deus.
Diante da pergunta: “o que é ser cristão?” provavelmente a maioria responderá: “Ser cristão é crer em Cristo.” Mas, essa resposta estaria completa? Parece-nos que definir o cristão como aquele que crê em Cristo não é suficiente, pois as mais diversas seitas do cristianismo: Espiritismo, Testemunhas de Jeová, Mormonismo, Arianismo, Seitas adeptas da teologia da prosperidade etc. também acreditam em Jesus e até pregam algo sobre Ele. Esses grupos ensinam um evangelho diferente (enganoso, deturpado) daquele que fora pregado pelos apóstolos (2Co.11.3-4; Gl.1.6-9), mas se dizem cristãos por acreditarem em alguma coisa sobre Cristo. Além dessas seitas, há milhões de pessoas que se dizem cristãs (anônimas), mas não tem compromisso nem frutos que testifiquem a presença da nova vida que Jesus dá para todo aquele que verdadeiramente se torna um cristão.
Outro problema é a multiplicação de igrejas com líderes leigos que reduzem o Evangelho a dizer: “Jesus te ama!” Boa parte das pessoas que fazem parte dessas “igrejas” crê em Cristo sem nem mesmo saber quais as implicações disso. Elas acreditam que Jesus é bom, mas não entendem a obra realizada por Cristo na cruz do Calvário; elas aprendem que Jesus salva, mas nem mesmo sabem de que precisam ser salvas; elas falam em nova vida, mas a reduzem a participar das atividades de uma “igreja local”. Entendem-se por cristãs, mas desconhecem os elementos mais fundamentais da obra redentora, tais como a justificação realizada por Jesus e imputada pelo Espírito Santo na vida daqueles que creem. Consideram-se cristãs, mas não compreendem a “ordem da salvação” apresentada por Paulo à igreja de Roma: “aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm.8.30). E, de modo semelhante ao Catolicismo Romano, essas pessoas sentem-se seguras e salvas por participarem ativamente da vida eclesiástica de uma “comunidade local” marcada, comumente, por programações atraentes. Essas pessoas são realmente cristãs? Por isso, é realmente importante respondermos à pergunta: O que é ser cristão?
Mesmo nos dias da igreja primitiva, ser cristão não era “apenas crer em Cristo”, pois tanto Jesus disse que “nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt.7.21) quanto os apóstolos advertiram com respeito a “alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (Gl.1.7), ou seja, admoestaram as igrejas a terem cuidado com os falsos profetas que pregavam um falso evangelho (2Co.11.13; Gl.2.4; 2Pe.2.1; 1Jo.4.1-6). À medida que a Escritura do Novo Testamento era dada para a igreja, a fé cristã alicerçava-se em fundamentos mais precisos (Ef.2.20), revelando o ser de Deus e sua obra redentora externa e interna ao pecador. Então, os verdadeiros cristãos deveriam crer e defender a Verdade recebida, pois a igreja foi posta por “coluna e baluarte da Verdade” (1Tm.3.15).
Portanto, dizer que ser cristão é simplesmente crer em Cristo não é suficiente. O verdadeiro cristão é identificado tanto pela crença no genuíno Evangelho do Senhor Jesus (Jo.8.32; Jd.3) quanto por uma nova vida marcada por frutos de justiça (Gl.2.20; 5.22-23). Por essa razão, o Novo Testamento exorta à igreja que preserve com fidelidade a sã doutrina e a prática da santidade, sabendo que “estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela” (Mt.7.14). E, por ser estreita a porta não entrarão muitos nem quaisquer um; por ser apertado o caminho não pode ser percorrido de qualquer jeito, antes é necessário andar fiel e humildemente com Cristo.
Quando Paulo fala da unicidade da doutrina do Evangelho, em que “há somente um corpo e um Espírito [...] um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef.4.4-6), ele exorta à igreja que seja cuidadosa com a unidade do corpo e, também, rejeita completamente todos os pseudo-evangelhos de seus dias. Por outro lado, Tiago observou que o cristão não é aquele que se diz crente, mas que se mostra crente por meio de sua vida, afinal “meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?” (Tg.2.14). Assim como Paulo observou que nem todos que se diziam cristãos criam no genuíno Evangelho de Cristo, também Tiago percebeu que algumas pessoas que se diziam cristãs não tinham uma vida coerente com a santidade do Reino de Cristo.
Mas, o que é ser cristão? Ser cristão é andar com Cristo! Aquele que anda com Jesus não somente crê que Ele existe, já que “até os demônios creem e tremem” (Tg.2.19), mas, também, tem disposição mental para compreender a história redentora revelada por Sua Santa Palavra; não somente fala algo sobre Cristo, mas, também, tem alegria em estar ao lado dEle (Jo.14.3) em todo tempo por meio de uma vida de oração e meditação na Escritura Sagrada; não somente diz ser cristão, mas, também, se esforça para obedecer seus mandamentos com satisfação, pois quer viver uma vida para a glória do Senhor (1Pe.1.16); não somente vai para uma igreja local, mas, também, tem um coração quebrantado e humilde para se arrepender de todos os seus pecados, desejoso por ser transformado à imagem do Senhor Jesus (2Co.3.18). Portanto, ser cristão é desfrutar da nova vida com Cristo, conforme disse Paulo: “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl.2.20).
Para começar a caminhada com Cristo é necessário ter a correta compreensão de quem Cristo é e o que Ele realizou por nós. Para muitos Jesus é um mero “mártir da paz” ou apenas um grande homem que deu o maior exemplo de amor que o mundo já viu. Desse modo, muitas pessoas estão andando ao lado de alguém idealizado pela própria imaginação sem se aperceberem que esse alguém não é o Filho Unigênito de Deus que morreu numa cruz para livrar-nos da ira divina. Esse fenômeno é semelhante a uma criança que encontra alguém com vestes parecidas com as roupas de seu pai e aproxima-se dessa pessoa pensando estar andando com o pai, até que o próprio se achegue para ela e lhe revele quem verdadeiramente ele é. Por mais tempo que a criança ande ao lado do pseudo-pai, estará andando lado a lado com um estranho.
Devemos lembrar, ainda, que a redenção tem um caráter jurídico que exige a correta compreensão de todos os elementos presentes: 1) Deus é o santo e justo juiz que executará seus retos juízos sobre todos os culpados (Gn.18.25); 2) o ser humano é o réu que quebrou todos os preceitos da Lei divina (Zc.3.1-3) e é incapaz de pagar a dívida de seu pecado (Na.1.6; Rm.3.10-18); 3) Satanás era (vencido pela cruz) o advogado de acusação interessado na condenação do homem (Ap.12.10); 4) Jesus é o advogado de defesa que se dispõe, graciosamente, a apresentar o pagamento da dívida de todo aquele que se achegar verdadeiramente arrependido (1Jo.2.1). Há ainda as testemunhas (Hb.12.1) que assistem tudo o que acontece na história redentora (1Co.4.9). Para receber o gracioso benefício é necessário compreender os termos do cancelamento do “escrito de dívida” (Cl.2.14) que envolvem: 1) o operar regenerador do Espírito Santo; 2) a justificação alcançada por Cristo na cruz do Calvário por meio de seu precioso sangue; 3) o verdadeiro arrependimento acompanhado com uma sincera mudança de vida operados pelo Espírito de Deus.
Portanto, receber a salvação envolve entendimento, razão pela qual Jesus disse aos discípulos: “conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará” (Jo.8.32). Sem entendimento, o pecador não saberá o real perigo que corre: a ira divina vindoura (1Ts.1.10); sem entendimento, o pecador não admite sua profunda miséria: a natureza pecadora completamente corrompida (Rm.3.10-18); sem entendimento, o pecador não reconhece sua plena necessidade de Cristo, o justificador, o único que poderia pagar a dívida tanto do pecado original de Adão e Eva quanto dos pecados de todo aquele que nEle crê (Rm.5). sem entendimento, o pecador não vive de forma agradável a Deus, enganando a si mesmo, pois ignora que sem a santificação “ninguém verá o Senhor” (Hb.12.14). Sem a correta compreensão do plano redentor, o homem torna-se um mero religioso quer legalista quer libertino.
O cristão anda com Jesus como um discípulo muito amado, comprado e lavado pelo sangue do Cordeiro. O discípulo tem como objetivo ser semelhante a seu mestre, razão pela qual deve andar com ele em todo tempo, observando seu modo de agir, falar, resolver questões, lidar com as pessoas etc. Por isso, Jesus também é nosso modelo perfeito, como disse Paulo: “sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1 Co.11.1), haja vista que Ele nos deu gracioso poder para vencer a natureza pecadora (Gl.5.16), a fim de que possamos viver uma vida santa e agradável a Deus. O genuíno cristão, portanto, caminha com Cristo rumo a perfeição, na esperança de que Deus (que justifica o pecador) haverá de aperfeiçoá-lo por ocasião da volta do Senhor Jesus (1Co.15.50-58).
Nessa caminhada com Cristo, o discípulo aprende seu modo de viver, sabendo que Aquele que cumpriu toda a Lei (Mt.5.17) sem jamais pecar (Hb.4.15), também capacita os regenerados-justificados (Jo.3.3; Rm.5.1), por meio do Espírito Santo (Gl.5.22-23), para que vivam uma vida santa e agradável a Deus, por meio do enchimento “do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef.5.18-21).
Os dez mandamentos resumem a vontade de Deus para a vida de seu povo. O primeiro dos dez mandamentos ordena ao homem que não tenha outros deuses (Ex.20.1-3). Parece muito simples o cumprimento desse mandamento dentro de uma cultura cristã. Todavia, o homem pode criar tantos deuses quantos o coração é capaz de fabricá-los: esposo, esposa, filhos, amigos, pessoas importantes, o próprio “eu”, dinheiro, bens, a felicidade etc. Por isso, não é estranho encontrarmos pessoas cheias de ídolos dentro das igrejas. Elas idolatram pastores, tradições, o prédio da igreja, cargos eclesiásticos, suas ideias, a denominação, a família, entre outros elementos presentes no contexto cristão. Quando isso ocorre, há grande possibilidade de que tais pessoas sejam apenas religiosas, servindo aos deuses que criaram em lugar do Criador, sem perceberem.
Dentre os deuses criados pelo coração do homem encontra-se o orgulho. Este é um dos piores deuses do coração, porque costuma ser sanguinário, disposto a destruir ou matar tudo o que se opuser à sua vontade. O cristão não pode ser orgulhoso (2Co.12.20), pois o Espírito do Senhor o libertou de toda soberba, arrogância, orgulho, vaidade e presunção, para que tenha uma vida humilde à semelhança de Cristo, que viveu como servo (Fp.2.5-11). O orgulho é pecado, obra da carne (1Jo.2.16), e o Senhor adverte sobre as consequências da arrogância: “Não multipliqueis palavras de orgulho, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca; porque o SENHOR é o Deus da sabedoria e pesa todos os feitos na balança” (1Sm.2.3). Como, então, um cristão poderia maquinar o mal para satisfazer o orgulho do coração, ou deixar de fazer o que é certo por soberba? Como um cristão poderia querer mostrar que manda na igreja ou que é superior a outra pessoa? Esse procedimento não é cristão, antes é maligno e procede do diabo (Sl.8.13). Ao cristão, no entanto, cabe a humildade e o prazer em servir, conforme Cristo nos ensinou: “Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mt.20.25-28).
Ser cristão, portanto, não significa estar numa igreja aparente nem possuir algum cargo eclesiástico. Ser cristão é andar com Jesus tendo sido liberto de toda idolatria do coração para amar somente a Deus “de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt.6.5). O cristão não possui ídolos, mas um único Deus que é Senhor absoluto sobre sua vida, conduzindo-a por meio da Palavra e do Espírito que são poderosos para transformar “de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co.3.18).
O segundo mandamento ordenado por Deus ao homem diz que não devemos fazer imagens do Senhor (Ex.20.4-6). Esse mandamento anda bem próximo do anterior, mas é diferente, pois, enquanto o primeiro mandamento proíbe a criação de novos deuses, o segundo mandamento proíbe a criação de falsas imagens a respeito do Verdadeiro Deus. Esse mandamento proíbe pintar ou esculpir imagens sobre Deus, assim como conceber ideias erradas sobre o Criador. Isso costuma ocorrer por meio das falsas concepções teológicas sobre quem é Deus. Vou explicar: Quando alguém conta algo sobre outra pessoa, então passo a ter uma impressão sobre esta pessoa baseada nas informações que recebi. Se as informações forem verdadeiras e justas, então a imagem que formarei sobre aquela pessoa também será verdadeira e justa, mas se as informações forem falsas, parciais ou injustas, então a imagem que terei da pessoa será uma imagem distorcida, falsa e injusta.
O mesmo ocorre com respeito a Deus. Só podemos saber quem é Deus por meio de sua autorevelação, afinal quem mais poderia revelar-nos quem Ele é senão Ele mesmo, como disse Paulo: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?” (Rm.11.33-34). Portanto, para conhecermos a Deus, precisamos recorrer à Escritura Sagrada com dedicada, zelosa, humilde, piedosa e temerosa atenção, a fim de que não incorramos no erro de criarmos uma imagem equivocada sobre Deus, a partir de uma má leitura de sua autorevelação.
Ser cristão, portanto, significa conhecer a Deus tal como Ele é, não como gostaríamos que Ele fosse. O verdadeiro cristão se contenta com aquilo que o Senhor quis revelar sobre si mesmo e se alegra em possuir o conhecimento do ser de Deus e de suas obras. O verdadeiro cristão zela pela Verdade, pois somente ela pode revelar quem realmente Deus é e a propaga, a fim de que muitos outros possam conhecer o Senhor. Ser cristão é andar com o verdadeiro Cristo, discernindo-o dos muitos falsos cristos que usurpam a glória de Jesus.
O terceiro mandamento ordenado por Deus ao homem diz que não devemos falar o NOME do Senhor em vão (Ex.20.7). Os judeus aplicam esse mandamento, principalmente, ao uso do TETAGRAMA, razão pela qual ele tornou-se impronunciável em nossos dias. Vale salientar que nem “JEOVÁ” nem “YAHWEH” são exatas e fiéis transliterações do TETAGRAMA, tendo em vista serem o resultado de especulações de estudiosos sobre sua possível pronúncia, ao induzirem algumas vogais às consoantes do NOME do Senhor. Os escribas judeus tinham tanto zelo pelo NOME do Senhor que apenas o escreviam, sugerindo em notas marginais que o leitor o substituísse na leitura, falando a palavra hebraica equivalente a termo Senhor ([adon]).
Todavia, a aplicação desse mandamento vai muito além do TETAGRAMA, pois o NOME do Senhor representa seu Ser. O verdadeiro cristão, portanto, não deve tratar Deus e suas obras de forma vulgar, banal. Piadas “religiosas” não são engraçadas, pois vulgarizam o ser de Deus, a noiva do cordeiro ou os dons do Espírito. O cristão deve andar piedosamente, falando apenas o que for justo e bom, de forma que “não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef.4.29).
O verdadeiro cristão não anda zombando daquele a quem diz amar nem permite que outros zombem do Senhor de sua vida. Devemos lembrar que “a boca fala do que está cheio o coração” (Lc.6.45), razão para que os lábios do cristão proclamem somente aquilo que é bom, santo, justo, verdadeiro e agradável a Deus, assim como “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp.4.8).
O quarto mandamento ordenado pelo Senhor ao homem diz que devemos guardar um dia para descansarmos na presença DELE (Ex.20.8-11). Mesmo estando entre os demais mandamentos morais, confirmados por Cristo (Mt.22.40) em seu sermão do monte (Mt.5-7), o quarto mandamento sofre grande resistência por parte de muitos cristãos de nossos dias que o confundem com o ritual sabático de Israel, que exigia a prática do sacrifício: “No dia de sábado, oferecerás dois cordeiros de um ano, sem defeito, e duas décimas de um efa de flor de farinha, amassada com azeite, em oferta de manjares, e a sua libação; é holocausto de cada sábado, além do holocausto contínuo e a sua libação” (Nm.28.9-10). O ritual sabático de Israel foi ordenado por Deus para que apontasse a vinda de Cristo (1Co.5.7; Cl.2.16; 1Pe.1.19), e não deve ser confundido com o quarto mandamento. Mesmo tão parecidos, os dois mandamentos são distintos, razão para que um permaneça enquanto o outro tenha alcançado seu cumprimento com a chegada do “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo.1.29).
Quando Cristo veio, cumpriu todos os rituais judaicos, pois o propósito deles era apontar para a obra redentora de Jesus, e o livro de hebreus explica isso muito bem (Hb.4.14; 9.14). Todavia, o quarto mandamento não é um ritual, mas uma lei moral semelhante a não matar, não adulterar ou não dar falso testemunho. Ou seja, o quarto mandamento é uma benção divina para o bem-estar do homem tanto em seu relacionamento com Deus quanto em seu relacionamento social. Esse mandamento exige, do homem, tempo de atenção para Deus, o Criador de tudo, e evita a exploração dos ricos sobre os pobres, pois garante o direito a um dia semanal de descanso para todos os homens. O quarto mandamento combate a avareza, pois o homem é obrigado a não trabalhar um dia da semana; combate o descaso com a adoração, pois o homem é obrigado a comparecer perante o Senhor; educa os filhos de Deus a terem uma vida regular de meditação na Palavra do Senhor; e, alimenta a esperança cristã na volta do Senhor Jesus, advertindo que “se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Cl.3.1-3).
Ser cristão é andar de tal modo com Jesus que dedique verdadeiro tempo para conversar com Deus e ouvir sua voz. Ou seja, o culto não deve ser uma tradição, apenas, nem mesmo um hábito mecânico. O cristão deve parar para dedicar tempo a Deus, não somente descansando o corpo, mas, sobretudo, o coração, em Cristo Jesus. Afinal se aquele que diz ser cristão não tem satisfação em dedicar algumas poucas horas para Deus, como poderá viver eternamente na presença de Deus? Portanto, o quarto mandamento é mais que uma ordenança divina: é uma bênção do Senhor para todos os que realmente o amam (Jo.14.21,23).
O quinto mandamento ordenado por Deus ao homem diz que todos devem honrar pai e mãe (Ex.20.12). O cristão não pode ser rebelde nem desobediente nem cheio de si mesmo, pois aquele que quer ser discípulo do Senhor Jesus, primeiro deve negar a si mesmo (Mt.16.24) e entregar toda a vida a Deus (Dt.6.5) disposto a submeter-se completamente à vontade de Deus (Jo.14.15), de forma que esteja pronto para ouvir todo ensino da Escritura: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros” (Hb.13.17). Quem acha que não precisa dar satisfação de sua vida para seus líderes, não está vivendo em acordo com a Palavra do Senhor e se esqueceu que o próprio Deus instituiu “pastores e mestres” “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos” (Ef.4.11-16), pois toda autoridade provém do Senhor (Rm.13.1) e a insubordinação é uma obra da carne (Tt.1.10), como disse Pedro: “Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno” (2Pe.3.17-18). Enquanto pai, mãe, esposo, líder político, conselho pastoral da igreja, chefe de seu trabalho ou outro líder não ordenarem algo que seja contrário à Palavra de Deus, os liderados tem obrigação de obedecê-los, pois “isto é justo” (Ef.6.1).
O sexto mandamento ordenado pelo Senhor ao homem diz que não devemos matar (Ex.20.13). Os judeus não entenderam esse mandamento, pois ao entregarem Jesus para ser morto por Pôncio Pilatos, disseram-lhe: “a nós não é lícito matar ninguém” (Jo.18.31). Ou seja, eles odiaram profundamente Jesus (Mt.27.18; Lc.19.14), armaram planos para entregar Jesus à morte (Mc.14.1), deram falso testemunho (Mt.26.60) com o propósito de incriminar Jesus, a fim de condená-lo à morte, mas não se consideravam transgressores do sexto mandamento. Eles não entendiam que a quebra dos mandamentos não ocorria diante dos homens, mas na presença do Senhor que conhece o mais íntimo do coração humano.
A melhor explicação sobre a amplitude do mandamento foi dada pelo Senhor Jesus em seu sermão do monte, mostrando para as multidões que até o mais religioso dos homens, bom aos olhos das pessoas, também é um pecador aos olhos de Deus, pois ninguém pode esconder os pensamentos de diante da face do Senhor:

Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento.  22 Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo.  23 Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,  24 deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta.  25 Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás com ele a caminho, para que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz, ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão.  26 Em verdade te digo que não sairás dali, enquanto não pagares o último centavo. (Mt.5.21-26)

Portanto, ser cristão é ter um novo coração capaz de negar a si mesmo (Mt.16.24), amar o próximo como a si mesmo (Mt.22.39) e ao irmão na fé assim como Cristo nos amou e morreu por nós (Jo.13.34-35). Isso só é possível andando com Jesus, pois Ele partilha de seu amor conosco para que amemos como Ele nos amou, a fim de que testifiquemos o poder da Palavra e do Espírito de Deus que opera eficazmente na vida daqueles que creem verdadeiramente em Cristo.
O sétimo mandamento ordenado por Deus ao homem diz que não devemos adulterar (Ex.20.14). É importante lembrar que o adultério aponta para duas ações distintas que podem ocorrer tanto de modo independente quanto unidas para a geração de um só ato: 1) engano ou traição; 2) imoralidade. Por essa razão, podemos falar em adulterar documentos, resultados e coisas semelhantes. O adultério envolve, portanto, a desonestidade pois aquele que o pratica quebra um contrato: a aliança conjugal. Dessa forma, o sétimo mandamento também proíbe a mentira, o engano, a traição, o fingimento, a desonestidade, a hipocrisia, a dissimulação e coisas semelhantes a estas. Além disso, este mandamento adverte quanto a obrigação de buscar uma vida santa, pura e piedosa, fugindo de tudo o que for imoral e impuro, mesmo que seja um pensamento ou palavra (Mt.5.28).
De forma semelhante ao que ocorre com o sexto mandamento, o Senhor Jesus nos ensina como devemos aplicar o sétimo mandamento (não adulterarás) ao mais íntimos sentimentos e pensamentos:

Ouvistes que foi dito: Não adulterarás.  28 Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela.  29 Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno.  30 E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo para o inferno.  31 Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio.  32 Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério. (Mt.5.27-32)

Ser cristão é ter uma nova disposição mental guiada pelo Espírito e pela Palavra de Deus, por meio dos quais as palavras de nossos lábios e o meditar de nosso coração são agradáveis na presença do Senhor (Sl.19.14). A melhor forma de vencer as tentações relacionadas aos desejos sexuais é mantendo a mente cheia da Palavra de Deus e os olhos fitos nas “coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Cl.3.1), através de uma vida cheia do Espírito de Deus (Ef.5.18) adquirida num andar diário com Cristo Jesus.
O oitavo mandamento ordenado pelo Senhor ao homem diz que não devemos furtar (Ex.20.15). Furtar é tirar do outro aquilo que lhe é de direito quer seja dinheiro, bens ou honra. Um cônjuge que não cumpre seu papel conjugal está roubando o direito que o outro tem de satisfazer sua necessidade sexual, pois diz a Escritura: “O marido conceda à esposa o que lhe é devido, e também, semelhantemente, a esposa, ao seu marido. A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim o marido; e também, semelhantemente, o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim a mulher” (1Co.7.3-4). O dono de uma empresa que não paga os funcionários corretamente está roubando deles o direito ao salário digno, pois diz a Palavra de Deus: “Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário” (1Tm.5.18). O cristão que não dá ao Senhor aquilo que lhe é devido (adoração, obediência, oração) está roubando de Deus todos os direitos que possui como Criador, pois assim diz o Salmo 100:

Celebrai com júbilo ao SENHOR, todas as terras.  2 Servi ao SENHOR com alegria, apresentai-vos diante dele com cântico.  3 Sabei que o SENHOR é Deus; foi ele quem nos fez, e dele somos; somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio.  4 Entrai por suas portas com ações de graças e nos seus átrios, com hinos de louvor; rendei-lhe graças e bendizei-lhe o nome.  5 Porque o SENHOR é bom, a sua misericórdia dura para sempre, e, de geração em geração, a sua fidelidade.

Ser cristão, portanto, é pensar no bem do próximo, como Jesus que abençoou sua geração manifestando a glória e graça do Senhor, de modo que “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres, anuncia-se-lhes o evangelho” (Lc.7.22). Por isso, o apóstolo Paulo ensina à igreja de Éfeso que o trabalho é um instrumento para abençoar vidas, não apenas para conquistar benefícios particulares: “Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado” (Ef.4.28); e, aquele que se nega a fazer da vida um instrumento de bênção está furtando das pessoas o direito de ser abençoado, visto que “aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando” (Tg.4.17).
O nono mandamento ordena que o homem não dê falso testemunho (Ex.20.16). O cristão não pode ser mentiroso, pois a Verdade o libertou, a fim de que viva nessa Verdade (Jo.8.32). De Deus jamais procede qualquer mentira, quer aparentemente “grande” quer “pequena” aos olhos dos homens. Jesus afirma que toda mentira procede do diabo que “é mentiroso e pai da mentira” (Jo.8.44). Todo diálogo com Jesus será fundamentado na Verdade enquanto que o diabo se satisfaz em falar mentiras. Portanto, o cristão não pode andar com Jesus e com o diabo ao mesmo tempo.
O cristão não pode ser fingido com as pessoas, com o propósito de agradá-las. O fingimento é uma marca do diabo que está sempre enganando as pessoas, iludindo as vítimas por meio do fingimento para destruí-las depois. Fingir que gosta de alguém ou que concorda com essa pessoa enquanto está maquinando o mal contra ela é algo maligno (2Tm.3.4) e Deus odeia essa malignidade, pois vem de Satanás (Jo.8.44). Foi assim que procedeu Judas, como narra o Evangelho de Lucas: “Jesus, porém, lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?” (Lc.22.48). Fingir ser bonzinho para atrair as pessoas para si mesmo enquanto mente e engana é um papel do anticristo (2Ts.2.3-4), portanto jamais poderia vir de um verdadeiro cristão.
Esse mandamento também é uma advertência contra todo relativismo e pluralismo. A relativização da Verdade não passa de uma mentira, pois afirma que a Verdade não existe. Ao negar a existência da Verdade, o relativismo nega tanto a veracidade da Escritura Sagrada, que é a Verdade (Jo.17.17), quanto a existência de Deus, de quem procede toda Verdade (Sl.19.7-10). Do mesmo modo, a pluralização da Verdade transforma as pessoas em senhoras da verdade, deuses de si mesmo que só precisam ouvir a si mesmas. Portanto, o relativismo e o pluralismo são, por natureza, ateístas, ou seja, quebras tanto do nono mandamento quanto do primeiro mandamento.
O décimo mandamento ordenado pelo Senhor ao homem diz que não devemos cobiçar (Ex.20.17). A cobiça é resultado da necessidade que coração pecador tem de satisfazer-se. O homem quer ser feliz, mas não sabe como alcançar essa felicidade. Então, ele cobiça as coisas ao seu redor, pensando que alcançará a felicidade por meio delas. A cobiça, portanto, está arraigada na idolatria, sendo uma quebra do primeiro mandamento, também. Por isso, a cura para a cobiça não é a realização de todos os desejos, mas a plena satisfação em Deus de forma que o coração não sinta necessidade de nada mais, pois alcançou, no conhecimento de Deus, a plena felicidade que somente o Espírito Santo pode conceder ao homem.
O salmista Davi afirma que a graça do Senhor basta para aquele que anda com Deus (Sl.63.3). Afinal, o Senhor é a fonte da vida (At.3.15) e da nova vida (Ez.36.26-27; Hb.12.2), causa e propósito da existência humana, “porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente” (Rm.11.36). Antes de Jesus ir para a cruz, consolou os discípulos prometendo voltar (ressuscitar) para que eles estivessem onde Ele está, ou seja, no Pai (Jo.14.3). Quando a obra redentora fosse consumada (Jo.19.30), Cristo disse que “o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar” (Jo.16.22). Portanto, a felicidade dos discípulos estaria alicerçada em Cristo e procederia do Espírito do Senhor.
Como, então, um coração satisfeito por Cristo cobiçaria as coisas desse mundo? O profeta Jeremias proclamou a perplexidade de Deus diante de Israel, pois o povo havia trocado o Deus da glória pelos anseios do coração idólatra: “Houve alguma nação que trocasse os seus deuses, posto que não eram deuses? Todavia, o meu povo trocou a sua Glória por aquilo que é de nenhum proveito.” (Jr.2.11). Aquilo que o profeta falou sobre a idolatria do povo, aplica-se às mais diversas cobiças do homem, pois quando Deus não satisfaz o coração, as pessoas murmuram diante do que têm e cobiçam aquilo que não têm. Desse modo, o decimo mandamento proíbe a inveja e a insatisfação, assim como ordena o contentamento em Deus. Paulo disse que “aprendeu a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp.4.11), de forma que mesmo passando por todo tipo de problema e privação, não reclamou da vida, antes deu graças a Deus por tudo (Ef.5.20). Esse contentamento decorre de uma vida cheia do Espírito de Deus, de um coração plenamente satisfeito com o conhecimento de Cristo.

Ser cristão é andar com Cristo, cheio do Espírito Santo, em santidade de vida, rumo à cidade celestial preparada para o povo de Deus. Não basta estar na igreja, é preciso ter o coração convertido como disse o profeta Ezequiel: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez.36.26-27). É esse coração novo que sempre estará arrependido de seus pecados e buscará a vontade do Senhor. É esse coração novo que luta contra as obras da carne, por meio do Espírito do Senhor, e vence os desejos da natureza pecadora que ainda insiste em habitar no homem (Gl.5.16-23).
Então, você é realmente um cristão? Você sabe quem é Cristo e o que Ele fez na cruz? Você realmente nasceu da Palavra e do Espírito do Senhor? Você tem prazer em viver uma vida para Cristo? Seu coração foi quebrantado pelo poder de Cristo para uma vida humilde? Então, mostre essa nova vida por meio de seu dia a dia, em palavras e atitudes, firmado na Verdade que é a Palavra de Deus e cheio de frutos de justiça decorrentes de uma vida cheia do Espírito Santo, pois o verdadeiro cristão é aquele que anda o tempo todo com o Senhor Jesus.




quinta-feira, 10 de maio de 2018

Escravos das emoções

Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração” (Dt.6.5-6)

Entre 1591 e 1595, Shakespeare escreveu o que se tornou, provavelmente, o romance mais conhecido no mundo: Romeu e Julieta. Nesse romance trágico, Romeu e Julieta vivem um amor proibido por causa de brigas entre as famílias. Sem que os pais de Julieta soubessem de seu relacionamento com Romeu, decidem casá-la em Paris, mas o frei que faria a cerimônia arma um plano para ajudar Romeu e Julieta a ficarem juntos. Julieta deveria beber uma poção que faria com que ela parecesse morta, a fim de Romeu resgatá-la no cemitério. Todavia, Romeu é avisado da morte de sua amada antes do frei contar-lhe o plano. Por essa razão, o jovem toma uma poção venenosa e morre ao lado de Julieta. Após acordar, Julieta encontra seu amado morto e, tomando seu punhal, se mata ao lado dele. Eles haviam entregue o coração um para o outro, por isso não suportaram a ideia de viverem sem a pessoa que tanto amavam.

O sentimento entre Romeu e Julieta seria amor ou escravidão emocional? Não seria possível que eles vivessem felizes mesmo diante da perda de alguém que amavam? Seria certo dizer que dependemos de alguém para viver? As questões levantadas em torno desse romance trágico devem chamar nossa atenção para a atual condição emocional em que vive a sociedade tão dependente das paixões. Por que os homens não conseguem mais lidar com as perdas da vida? Cônjuges entram em colapso por causa de crises no casamento. Pais perdem o desejo de viver após a morte de filhos. Jovens casais dizem não conseguir mais ficar sem o outro. E, consequentemente, consultórios de psicólogos estão cheios (e não secam), sem saber qual o real problema do homem nem muito menos sua solução.

O estado de espírito das pessoas tem dependido completamente das circunstâncias, razão para multidões estarem infelizes e “depressivas”; emocionalmente doentes. A felicidade é procurada no dinheiro, no prazer, no lazer e nos relacionamentos, tornando-se uma mera satisfação tão passageira quanto os momentos da vida. Então, a indústria do lazer investe pesado, a fim de proporcionar momentos agradáveis para pessoas infelizes, pois o único meio de alegrá-las é oferecendo alguma distração momentânea; grupos religiosos que se dizem cristãos promovem diversas programações atraentes para motivar pessoas vazias, sem qualquer alegria em Cristo; e, indústrias farmacêuticas têm lucros elevados com a venda de remédios que escravizam seus dependentes e escondem o verdadeiro problema da alma humana: amor mal direcionado.

Um quadro irônico do filme “Meu malvado favorito 2” retrata bem o que estamos dizendo: Gru se apaixona pela colega de trabalho Lucy Wilde. Na manhã seguinte, ele acorda animado, brincalhão, cantarolando e cumprimentando todas as pessoas na rua, em seu caminho até chegar ao trabalho. Lá, Gru recebe a notícia de que Lucy será transferida para a Austrália e que, portanto, não poderia vê-la, mais. Então, ele volta para casa cabisbaixo, tratando mal todos à sua frente, como se a vida não tivesse mais sentido. Onde estava a causa da aparente felicidade dele? A alegria de Gru era circunstancial e dependia completamente daquela para quem ele havia entregue seu coração: Lucy. Por isso, cedo, Gru viu as implicações de amar demasiadamente alguém, colocando a esperança da própria felicidade sobre essa pessoa, pois “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt.6.21).

O amor demasiado entre namorados, cônjuges e familiares tem sido fonte de muitas angústias, tendo em vista a instabilidade natural da vida humana marcada por defeitos e finitude. Não é incomum ouvirmos pessoas dizerem para alguém: “Você é minha razão de viver!” “Amo você mais que tudo!” “Meus filhos são minha joia mais preciosa!” “Por você eu faço qualquer coisa!” Tudo isso parece muito bonito, afinal o casal deve se amar e o bem mais precioso (dentre as bênçãos divinas) de uma pessoa é sua família (Pv.19.14). No entanto, essas pessoas realmente não sabem o que estão dizendo nem muito menos as implicações daquilo que estão falando, mesmo que estejam dizendo a verdade, pois realmente tornaram-se bastante dependentes de outra pessoa. Todavia, será que isso é realmente bíblico? Será que devemos dedicar todo nosso amor às pessoas, mesmo que seja um familiar? Será que esse é, realmente, o amor que Deus nos ordenou?

NÃO! Definitivamente Deus não nos ensinou a amarmos as pessoas, mesmo familiares, com todo nosso amor. Os três grandes mandamentos sobre o amor, sabendo que deles “dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt.22.40), ordenam que somente Deus seja amado “de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt.22.37), que o próximo seja amado do mesmo modo que cada pessoa se ama (Mt.22.39) e que os cristãos devem amar uns aos outros como Cristo nos amou (Jo.13.34-35). Portanto, não há qualquer mandamento que faça alusão a um amor demasiado direcionado para pessoas ou coisas, afinal mesmo Jesus, que morreu numa cruz para nos salvar mostrando seu grande amor para conosco (Rm.5.8), não nos amou demasiadamente, pois antes de Cristo nos amar, Ele amou o Pai, e acima de seu amor para conosco, estava o amor dEle para com Deus. Por isso, Jesus não levará todas as pessoas para o novo céu e nova terra (Ap.21.1-7), mas somente aqueles que o Pai lhe entregar (Jo.6.37).

O primeiro problema em amarmos as pessoas “de todo o coração” é que esse amor deve ser destinado somente para Deus, e não pode ser dividido com mais ninguém, pois “o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt.6.4). Além disso, Jesus disse que “ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro” (Mt.6.24). Portanto, ao entregar o coração para alguém, o homem está deixando de amar a Deus “de todo coração”, ferindo assim o grande mandamento da Lei (Dt.6.5). Deus é o Criador de tudo e todos, e tem o direito de exigir que toda sua criação o ame de “de todo o coração”, pois, para isso, foi criada. Então, desviar esse amor para outro ser é roubar do Senhor aquilo que lhe é de direito.

Além de ser pecado, o amor “de todo coração” direcionado para homens ou mulheres traz sérias consequências para a mente. Devemos lembrar que tudo nesse mundo se acaba: as coisas se estragam (Mt.6.19), as pessoas cometem erros (Rm.3.10-18) e todos morrem um dia (Gn.3.19). Portanto, colocar o coração sobre coisas ou pessoas, falhas e finitas, é semelhante a construir uma casa sobre a areia: quando a forte tempestade vier derrubará tudo, deixando o coração desabrigado, sem um lugar firme e seguro para repousar. Consequentemente, ao perderem aquilo que tanto amavam, as pessoas perdem, também, o prazer de viver, pois estavam fortemente presas (dependentes) ao relacionamento. Essa é uma das principais razões do elevado número de pessoas emocionalmente doentes, em nossos dias. Afinal, somente Deus é perfeito, imutável e eterno, uma firme Rocha onde podemos repousar o coração.

As gerações estão cada vez mais emotivas. O pós-modernismo misturou o racionalismo renascentista/iluminista com o sentimentalismo do romantismo neoplatônico. A mistura resultou numa geração confusa que se entrega às paixões enquanto acredita que a ciência tem resposta para todas as coisas da vida. Dessa forma, as pessoas buscam fortes emoções, amando demasiadamente outras pessoas e coisas, mas negam que seus problemas possam ser resolvidos pelo Criador, pois se orgulham demais nas faculdades mentais do ser humano; “inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Rm.1.22). O resultado dessa mutação é a depressão em larga escala, pois o homem está completamente perdido em seus sentimentos e pensamentos; totalmente dependente das relações humanas para preencher o vazio do coração sem Cristo.

Ao contrário do que os “cientistas” pensam, a cura para os problemas emocionais do ser humano foi dada há, aproximadamente, 3400 anos atrás, quando Moisés escreveu a revelação de Deus, dizendo: “Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração” (Dt.6.5-6). O homem sente a necessidade de amar e ser amado; ele sente a necessidade de devotar todo seu amor para alguém, tornando esse alguém o propósito de sua vida. Então, não conhecendo a Deus, o homem procura outro ser para amar, sem se aperceber que esse alguém não é capaz de fazê-lo verdadeiramente feliz. Por isso, ao perder aquele que era alvo de todo seu amor (cônjuge, filhos, pais ou outra pessoa), o homem perde, também, o propósito de sua vida, experimentando o vazio do coração, sentindo-se profundamente infeliz.

Essas pessoas precisam ser libertas da escravidão emocional em que se encontram. Elas não conseguem se libertar daquilo que as aprisionam e, nessa dependência servil e doentia, vivem infelizes sem propósito para existir. Elas precisam ser direcionadas para Cristo, “pois, se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo.8.36). Somente Jesus pode libertar esses pobres corações dependentes, para que nunca mais sofram por causa de perdas da vida; somente Cristo pode dar-lhes capacidade para amarem ao único que é poderoso para fazê-las plenamente felizes sem que jamais mude, falhe ou morra: Deus, o Criador e Senhor de tudo. Apenas em Cristo, as pessoas conseguirão viver plenamente felizes “em toda e qualquer situação” da vida (Fp.4.11).

Portanto, a cura da sociedade está na pregação da Palavra de Deus e na operação do Espírito Santo, não em programações atraentes e momentâneas que massageiam o ego do homem por algum tempo e logo passam, deixando-o vazio e infeliz. Amar a Deus de todo o coração é a solução para as mais diversas angústias da vida humana, pois esse amor é inabalável, eterno e pleno. Corações entregues completamente (e unicamente) a Deus são fortalecidos pelo Senhor, a fim de suportarem todas as intempéries da vida. Por meio desse amor, o homem encontra causa e propósito para sua vida, pois tem no Criador sua origem e o alvo de todos os seus esforços. Através do verdadeiro relacionamento com Deus, por intermédio de Cristo, o homem recebe todo amor que precisa, na medida certa e da forma correta, e tem o prazer de devotar todo seu amor para aquele que é digno de recebê-lo, sabendo que jamais será abandonado, frustrado, trocado ou abalado.

Deus nos fez para si mesmo, por isso sentimos tanta necessidade de devotar todo nosso amor para alguém. Portanto, entregue seu coração para o único ser que jamais lhe deixará na mão, pois é fiel e eterno. Somente assim, você deixará de ser escravo(a) de emoções e será capaz de suportar as muitas perdas da vida. Isso não significa deixar de amar pessoas: cônjuges, filhos, parentes e amigos. Todavia, significa que seu coração não se abalará mais quando os perder por alguma razão, pois seu coração estará bem firmado sobre a Rocha que é Cristo Jesus; sua esperança estará bem guardada nas promessas do Senhor; e, sua felicidade emanará da certeza do amor que o Senhor tem por você, demonstrado na cruz do Calvário (Rm.5.8).

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Uma vida integralmente cristã


Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.” (Rm.14.17)

Quanto de sua vida é cristã? Parece estranha a pergunta, mas é assim que a geração pós-moderna (subjetivista) entende o cristianismo: uma questão de “fé”, apenas. Ou seja, para os cristãos de nossos dias, questões de fé são tratadas na “igreja”, e não há nenhuma relação com o trabalho, o estudo, a família, o comércio, a política, a arte, a economia e os diversos planos para a vida.

Fruto desse subjetivismo, surgiu a ideia que sobre “política, futebol e religião não se discute”. Ou seja, “cada cabeça é um mundo” e “o que é verdade para um não é verdade para o outro”. Todas essas frases mostram que a vida cristã tornou-se uma “mera religião” dentro do universo subjetivo de cada indivíduo. A conversão deixou de ser uma realidade objetiva operada no sujeito pecador. E sem o conceito de Verdade absoluta, a vida cristã também deixou de estar em acordo com essa Verdade que se distingue de toda mentira própria de um mundo em pecado.

Certo dia, fomos a uma loja de roupas e, enquanto minha esposa provava alguns vestidos, fiquei observando os detalhes da loja: a música ambiente era evangélica, as atendentes estavam vestidas com “saias jeans” características de algumas denominações, mas havia diversas roupas inapropriadas à venda (minissaias e shortinhos). Então, perguntei para uma das atendentes se o dono da loja era evangélico. A resposta foi afirmativa. Diante disso, questionei: “Como vocês conseguem vender algo que nem mesmo usariam, pois sabem que é indecente?”

Aqueles cristãos não conseguiam perceber a incoerência de suas ações. Para ficar mais claro, podemos dizer que seria semelhante a um cristão não usar drogas, mas vendê-las na rua para que outras pessoas vivam escravas das drogas. O cristão pode fazer isso? NÃO! Como é possível alguém pertencer ao Santo e Justo Rei, Senhor da glória, e ao mesmo tempo fazer papel de funcionário de Satanás, oferecendo ao mundo algo que é reprovado por Deus em Sua Santa Palavra?

O mesmo tem acontecido em diversas outras áreas da vida social: cristãos tocam na igreja glorificando a Deus, mas o negam em outros ambientes tocando músicas que desprezam o conhecimento do Senhor; cristãos adoram a Deus na igreja, mas ensinam nas aulas de biologia que tudo é fruto de uma evolução; cristãos defendem, na igreja, que Deus é justo e verdadeiro, mas são desonestos na administração dos bens e mentirosos nas transações comerciais.

A conversão tornou-se uma passagem de uma religião para outra, exigindo, apenas, um compromisso com “programações” de uma igreja local. O ativismo das igrejas locais tem ajudado a cegar seus membros e a falta de cuidado na pregação da Escritura tem mantido o povo sem o conhecimento da Verdade libertadora. Por essa razão, pessoas que participam das atividades de uma denominação consideram que isso as torna cristãs, mesmo que a vida diária esteja tão longe de Deus quanto se estivessem vivendo longe da igreja.

Para entendermos a integridade da vida cristã, precisamos entender, primeiramente, o Reino de Cristo, pois, conforme nos ensina Paulo, a conversão é uma passagem do império das trevas “para o Reino do Filho do seu amor” (Cl.1.13). Ou seja, o cristão é aquela pessoa que foi liberta pelo poder da Palavra e do Espírito de Deus, sendo por eles transportado da escravidão do pecado, do mundo e do diabo para viver uma vida santa, justa e agradável a Deus dentro do Reino de Seu Filho, Jesus Cristo.

Quando Jesus veio, trouxe consigo seu Reino glorioso, razão pela qual grandes maravilhas foram operadas por Ele e seus discípulos, mostrando ao mundo que o Reino dos céus estava chegando. Sua morte e ressurreição marcaram o estabelecimento do Reino de Deus entre os homens, e o Pentecostes confirmou tal presença concedendo, aos súditos desse Reino, poder para realizarem a vontade do Rei dos reis e Senhor dos senhores. A igreja, então, avança confiante, pois as portas do inferno não podem resistir ao poder da Palavra e do Espírito de Deus (Mt.16.18).

Mas, o Reino do Senhor Jesus não diz respeito apenas à evangelização ou aos cultos ou à pregação. Nesse Reino, tudo é novo e santo, justo e verdadeiro, amável e bom. Quando a Palavra e o Espírito de Deus convertem uma pessoa, ela é liberta de todo jugo do império das trevas para viver uma vida completamente nova no Reino de Deus. Por isso, tanto Jesus ensinou sobre a santidade (Mt.5-7) quanto os apóstolos aplicaram a obra redentora ao dia a dia das igrejas, de modo que todas as esferas da vida pessoal e social deveriam ser redirecionadas para Cristo por meio de um viver “de modo digno do Senhor” (Ef.4.1; Fp.1.27; Cl.1.10; 2 Ts.2.12).

Os cristãos, portanto, tem um jeito santo e agradável a Deus, dirigido pela Escritura Sagrada e pelo Espírito Santo, de trabalhar, estudar, se relacionar, viver em família, tratar os problemas, lidar com as tentações, se submeter às lideranças, administrar os bens, se envolver com a política, comer e beber, se divertir, fazer e apreciar a arte, educar filhos, procurar uma pessoa para casar, ver a si mesmo e aos outros e fazer planos para a vida. Essa é a nova vida que Jesus dá para aqueles que são alcançados pelo poder da Palavra e do Espírito de Deus. Tudo se faz novo (Gl.2.20)!

Isso ocorre porque a conversão atinge e muda aquilo que é mais essencial na vida: o coração. Conversão não é mudança de status social nem do pobre para o rico nem do rico para o pobre; conversão não é deixar alguns vícios, apenas: bebida, fumo, prostituição ou drogas; conversão não é mudança de roupa, apenas; conversão não é mudança de algumas ideias. A conversão é mudança de coração, pois do coração brotam todas as coisas, e somente Deus tem poder para fazer essa cirurgia (Ez.36.26-27). Quando ocorre a genuína conversão, o indivíduo é conduzido a deixar de amar a si mesmo, a fim de dedicar todo seu amor a Cristo, o Salvador. Como disse Jesus: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt.16.24).

Quando pessoas mudam coisas externas tais como: roupas, hábitos, ideias etc, mas não têm o coração transformado pelo poder de Deus, elas se tornam meras religiosas que serão parte de um igreja local, frequentarão as programações da denominação, mas não terão o fruto do Espírito Santo, pois são incapazes de produzir frutos de justiça, como disse Jesus: “Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons” (Mt.7.18).

Sua vida inteira é cristã? Tudo em você realmente glorifica a Deus: palavras, ações, intenções, ideias, satisfações, planos e motivações? Você já crucificou suas paixões, orgulho, desejos maus e pensamentos pecaminosos? Somente por meio da verdadeira conversão que ocorre no mais íntimo do coração, você viverá a inteireza de sua vida para a glória de Deus, como verdadeiro súdito do Reino dos céus. Portanto, corra para Cristo, pois somente Ele pode transplantar um novo coração em seu peito para que a nova vida, proporcionada pelo Espírito de Deus, pulse cheia de vigor dentro e fora de você.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Não separe a ortodoxia da ortopraxia

Guardo no coração as tuas Palavras, para não pecar contra ti” (Sl.119.11)

Ser cristão é confessar convicção plena em todo ensino da Escritura Sagrada (Ef.4.4-6), procurando, a partir de então, viver uma vida segundo “a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm.12.2) revelada por sua Santa Palavra, conforme disse o apóstolo Paulo: “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl.2.20).

O legítimo cristianismo consiste do casamento entre a ortodoxia (pureza na doutrina) e a ortopraxia (pureza no viver). E como um casamento, a ortodoxia e a ortopraxia precisam dialogar, viver concordemente e andar juntas o tempo todo, pois o divórcio entre os termos, também consiste em transgressão da Palavra de Deus. E como todo bom marido, a ortodoxia deve nortear sua esposa, ortopraxia, a fim de que o viver cristão esteja sempre em pleno acordo com todo ensino da Escritura Sagrada.

Portanto, quanto mais fiel à Escritura for o conhecimento doutrinário do cristão mais puro deverá ser seu viver; quanto mais profundo o entendimento cristão sobre os ensinamentos bíblicos mais amadurecido deverá ser o agir desse cristão, em seu dia a dia; quanto mais ampla for a compreensão do cristão sobre a história da redenção mais desfrutará dos benefícios dela, pois sua mente e seu coração estarão bem focados na graça proveniente do Senhor que em Cristo Jesus nos concedeu o dom do Espírito Santo para uma vida abundante, agora e eternamente.

De modo semelhante, o oposto também é verdade. Ou seja, quanto menos conhecimento, entendimento e compreensão os cristãos tiverem das doutrinas bíblicas menos desfrutarão dos benefícios divinos; e, ainda, inferior será o modo de viver, pois assim como “a boca fala do que está cheio o coração” (Mt.12.34) a vida reflete nossas mais íntimas convicções doutrinárias, aquelas que realmente estão arraigadas no coração. Essa é uma das razões porque há tantos “cristãos” que causam mais problemas dentro das igrejas do que servem de alguma forma ao Reino de Deus.

O divórcio entre ortodoxia e ortopraxia gera muitas incoerências dentro das igrejas. As implicações podem ser vistas tanto na dimensão individual quanto na esfera coletiva, as comunidades eclesiásticas. Já que Deus é soberano, por que o cristão fica preocupado e ansioso? A doutrina da soberania divina não deveria conduzir o cristão à plena confiança em Deus e consequente paz na mente e no coração (Fp.4.6-7)? Esse é o entendimento do apóstolo Paulo que conduz os cristãos de Filipos a descansarem completamente no Senhor, mesmo em dias maus como aqueles vividos por Paulo, por ocasião da escrita da carta (Fp.1.7,13). Todavia, tem sido comum a separação entre o conhecimento e a prática, criando, assim, incoerências que prejudicam tanto a vida do cristão quanto seu testemunho perante a sociedade.

Um dos assuntos mais falados em nossos dias, tanto no mundo pagão quanto nas igrejas cristãs evangélicas, é o amor. Mas, por falta de relação com a Verdade, a Palavra de Deus, até os mais absurdos pecados, condenados pela Escritura (Rm.1.18-32; 1Co.6.9-10; Ap.21.8), são adornados e aceitos. Por causa da errada compreensão sobre o amor, os mesmos que professam ter amor no coração estão falando mal um dos outros, denegrindo a imagem de qualquer um que os desagradem, quer ovelhas quer pastores; “cristãos” cantam que amam a Deus, mas o desonram no dia a dia, vivendo como se o Senhor não existisse, fazendo somente aquilo que é bom para si mesmos; “cristãos” juram, na profissão de fé, serem submissos e obedientes à Palavra de Deus e às lideranças (enquanto fiéis à Palavra de Deus), mas se enchem de si mesmos ao primeiro sinal de contrariedade, quebrando, assim, todo o voto feito na presença da igreja e do Senhor, Criador e Senhor de tudo e todos.

Assim, podemos dizer que o povo de Deus “está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento” (Os.4.6) e a presença de obras da carne no meio da igreja: “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas” (Gl.5.19-21) decorre da separação entre a ortodoxia e a ortopraxia, de forma que se repete o que foi dito pelo apóstolo Paulo: “o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa” (Is.52.5//Rm.2.24).

Tudo isso decorre tanto da falta de conhecimento da Palavra de Deus, pois muitos cristãos pós-modernos pensam que o cristianismo é apenas um conjunto de sentimentos externados em rito cúltico dominical, quanto por causa do divórcio entre a ortodoxia e a ortopraxia que já não dialogam, nem vivem concordemente nem andam juntas. Decorrente disso, também, vem os extremos: igrejas apáticas com corretas doutrinas e igrejas ativas na evangelização e oração, mas repletas de problemas doutrinários que levam os membros às práticas mais absurdas, como tomar banho de bermuda ou calça, condenar o uso de barba ou mesmo se jogar ao chão como suposta expressão da presença do Espírito de Deus.

Portanto, estudar as doutrinas ensinadas pela Escritura Sagrada não é um exercício apenas teórico nem muito menos infrutífero. O cristão deve se debruçar sobre todo ensino bíblico por meio de muita oração, para que o coração esteja bastante quebrantado pelo Espírito Santo, a fim de que todo conhecimento resulte em sincera confissão de pecados, aumento da alegria da salvação, desejo de viver segundo a vontade do Senhor, interesse em testemunhar as maravilhas de Deus ao mundo e compaixão para com os pecadores perdidos que não conhecem o Evangelho da graça de Deus.

Motivamos, assim, todo cristão a se esmerar na leitura e estudo da Escritura Sagrada, com o propósito de conhecer melhor a Deus e seu projeto redentor e, em Cristo, na dependência do Espírito do Senhor, aperfeiçoar a vida para que, nela, Deus seja glorificado tanto na força quanto na fraqueza de uma vida totalmente obediente e dedicada a Cristo, o Senhor de toda a glória.

sábado, 14 de abril de 2018

Olhe para Jesus!

Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos” (Fp.4.4)

É tão comum encontrarmos problemas dentro das igrejas que o número de desigrejados tem crescido bastante. Ou seja, há tantos problemas causados pelos membros das mais diversas denominações que alguns deles, procurando fugir de tais problemas, se afastam definitivamente da comunhão dos santos, na tentativa de viver um cristianismo solitário. Outros saem da igreja local levados por uma espécie de síndrome de superioridade, pois consideram-se superiores aos demais irmãos que julgam estarem sempre errados. Portanto, o descuido dos cristãos no exercício de uma vida piedosa bem firmada em Jesus tem gerado diversos problemas tanto para a comunhão no seio da igreja quanto para o avanço do Reino de Deus. Melindre, maldade, maledicência, carnalidade e egocentrismo tem gerado contendas internas, disputas eclesiásticas, empecilhos na evangelização, além de expor um mau testemunho perante o mundo que tem encontrado diversos motivos para falar mal da igreja de Cristo, em nossos dias.

Contudo, por piores que sejam os problemas, a Escritura nos diz que eles também podem cumprir o bom propósito de auxiliar a revelar quem são os fiéis tanto com respeito à teologia quanto em relação a sua prática. A igreja de Coríntios possuía muitos problemas, principalmente de ordem moral, mas, diante de alguns desses problemas, o apóstolo Paulo disse: “Porque até mesmo importa que haja partidos entre vós, para que também os aprovados se tornem conhecidos em vosso meio” (1Co.11.19). Ou seja, muitos problemas ajudarão a igreja a ver quem são os fiéis que não abandonam a fé por causa de dificuldades nem negam Cristo por causa da pressão das pessoas nem trocam Jesus por causa da sedução do mundo nem se rebelam diante da disciplina do Senhor nem tentam prejudicar a obra de Cristo quando são desagradados etc.

Mesmo assim, não devemos almejar que a igreja de Jesus viva em constante conflito e deficiência. Ver o povo de Deus andando fielmente e alegremente com o Senhor é algo bom, pois demonstra maturidade na fé, amor fundamentado na Verdade e firmeza na esperança da glória a ser revelada dos céus (1Ts.1.3). Por essa razão, Paulo combateu diversos pecados e problemas através do fiel ensino da Palavra de Deus, de forma que, em todas as suas cartas, encontramos o apóstolo conduzindo os cristãos a Cristo, a fim de que, olhando para o Senhor e Salvador, pudessem viver uma vida cristã autêntica em que fosse “Cristo engrandecido” “quer pela vida, quer pela morte” (Fp.1.20).

Qual, então, a solução do Senhor para que a igreja viva uma vida plena? A resposta é Cristo! Na ocasião em que escreveu a carta aos filipenses, Paulo estava preso. Portanto, o apóstolo tinha um problema que tanto poderia entristece-lo quanto poderia dificultar o avanço do evangelho. Então, olhando para Cristo, Paulo motiva a igreja a alegrar-se em Jesus, viver de modo digno do Senhor e descansar o coração naquele que a salvou. Toda a carta aponta para Cristo, tanto como fundamento da fé quanto como exemplo de vida que deve ser seguido por todos. Tudo gira em torno de Cristo, pois somente nEle os filipenses poderiam dar graças a Deus mesmo diante das dificuldades (Fp.1.3-11); conseguiriam ver que as cadeias não impediam a pregação da Palavra de Deus (Fp.1.12-26); seriam capazes de lutar juntos pela fé que lhes fora entregue, esvaziando-se de si mesmos (Fp.1.27-2.18); teriam forças para buscar aquilo que é de Cristo, não apenas o que é próprio (Fp.2.19-30); resistiriam aos falsos profetas por meio da plena convicção da Verdade que lhes fora ensinada fielmente (Fp.3.2-21); superariam as diferenças e a ansiedade, a fim de terem apenas o que é puro e verdadeiro na mente e no coração (Fp.4.2-9); e, venceriam, com firmeza, todos os obstáculos da vida, a fim de não desistirem jamais da caminhada cristã (Fp.4.10-20).

É preciso olhar para Cristo! Dificilmente os problemas criados pelos cristãos não estão relacionados à deficiência no olhar para Cristo. Uns não compreendem Cristo, pois não se esforçam por entendê-lo; outros não olham atentamente para Cristo, como deveriam, mostrando-se incapazes de imitá-lo em tudo; há quem olhe mais para si mesmo, ou para outras pessoas, do que para Cristo, alimentando uma espécie de egocentrismo ou idolatria; e, há quem desvie os olhos de Cristo, deixando-se levar por seduções desse mundo que “jaz no maligno” (1Jo.5.19). Sempre contemplamos algo, pois, para isso, Deus nos deu olhos. Portanto, se não estivermos com os olhos fitos no Senhor Jesus, estaremos atentos ao mundo que está ao nosso redor. E já que o ser humano costuma aprender por mimetismo, ou seja, imitando, então nos tornamos parecidos com aquilo que tanto contemplamos seja bom seja ruim, quer Cristo quer o maligno.

Olhe para Cristo! Veja como Jesus pregou para as multidões e como ensinou seus discípulos preparando-os para transmitir o Evangelho ao mundo. Jesus não abriu mão da Verdade, pois veio cumpri-la (Mt.5.17-48) e mesmo diante da indisposição das pessoas não deixou de ensinar somente a Verdade (Jo.6.22-71). Jesus não se intimidou diante dos adversários que tentavam prendê-lo (Mt.23.1-39) nem atraiu pessoas por meio de carisma, mas por intermédio da pregação do Evangelho (Mc.1.38). Jesus falava abertamente e era sincero com todos, mesmo quando a Verdade machucava o coração orgulhoso do ser humano. O falar de Cristo era manso e suave para com os quebrantados e arrependidos (Mt.11.28-29), mas firme e duro ao se dirigir para os hipócritas e enganadores (Mt.23), pois tanto recebia com amor aqueles que queriam ser transformados pelo poder da Palavra de Deus quanto lutava contra todos que desviavam o povo de Deus dos santos caminhos do Senhor.

Olhe para Cristo! Contemple o viver de Cristo que andou humildemente entre os pecadores, pois “se esvaziou, assumindo a forma de servo” (Fp.2.7), servindo sua geração com graça e amor, dizendo: “sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo.13.14-15). Observe o sacrifício de Jesus por meio do qual todo aquele que nEle crê recebe a vida eterna (Jo.3.16) e imite-o entregando, totalmente, sua vida ao Senhor para que outras pessoas possam ser abençoadas por meio de seu falar e agir, não vivendo mais para si, mas para aquele que por nós morreu. Veja o grande amor de Cristo pelo Pai a quem dedicou sua vida para fazer exatamente a vontade do Senhor. Portanto, olhe para aquele que tanto é poderoso para salvar quanto para nos fazer frutíferos, por meio de seu Espírito e Palavra que nos foram dados graciosamente.

Para que seu olhar esteja direcionado a Cristo, você precisará “negar a si mesmo” (Mt.16.24), deixando, assim, de contemplar a própria vida. Em si mesmo, você encontrará fraquezas e pecados que o afastarão do Senhor e o desmotivarão durante a caminhada cristã. Porém, em Cristo, você encontrará força e santidade que tanto o confortarão diante das adversidades quanto o motivarão a continuar lutando pelo Senhor, na certeza de que Deus está presente para capacitá-lo a ser fiel e abundante na obra, “sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1 Co.15.58).

Olhando para Jesus, não há como desistir nem desanimar, pois nEle sempre encontraremos poder para vencer as tentações, resistir ao inimigo, superar as tribulações. Olhando para Jesus, lutamos por algo superior ao que pode ser oferecido nesse mundo, pois lutamos por uma pátria celestial que do céu será manifesta para aqueles que perseverarem até o fim. Olhando para Jesus, temos uma verdadeira compreensão sobre a igreja, pois entendemos tanto sua glória quanto suas fraquezas, tendo em vista que ela já desfruta do Reino de Deus, mas ainda não em sua plenitude. Somente por meio de um firme e constante olhar para Cristo, cada cristão saberá lidar com as fraquezas e os defeitos dos irmãos, bem como tratar as próprias lutas travadas no coração; saberá viver de modo digno do Senhor para que Deus seja glorificado na humildade, na santidade, na pureza, na bondade, na submissão, na fidelidade, na paciência, na compaixão, na justiça e na integridade presente em todos os relacionamentos de um povo que existe por Cristo e para Cristo. Portanto, olhe para Jesus e não desvie seu olhar dEle, sabendo que somente Cristo pode sustentar você até o fim, preservando-o para o dia de seu glorioso retorno.



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Perigos nos contos de fadas

Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas caducas. Exercita-te, pessoalmente, na piedade.” (1Tm.4.7)

Você já observou que as histórias bíblicas são reais e límpidas, pois não visam agradar aos leitores, mas ensinar-lhes a Verdade sobre o desenrolar da história redentora? Quando lemos sobre os grandes personagens da história da salvação, descobrimos que erraram e sofreram consequências. Somos ensinados que as vitórias do povo de Deus não vinham da força do valente, mas da manifestação da graça divina em favor de seu povo. Nas histórias bíblicas, nem sempre os “mocinhos” conseguem o que querem, de forma que nem mesmo a Moisés foi permitido entrar na terra de Canaã (Dt.3.23-28). São essas mesmas histórias que Deus ordena que sejam ensinadas para toda a família, desde a criança mais tenra (Dt.6.5-7), sem ocultar nem a graça divina nem os pecados do povo (Ex.13.14-15; Dt.6.20-25), a fim de que todas as gerações conheçam a Verdade sobre o problema do pecado e, também, a salvação graciosa do Senhor.

Antes do surgimento dos contos de fadas como os conhecemos hoje, as estórias contadas para as crianças visavam alertá-las quanto aos perigos do mundo. Por essa razão, os contos não tinham finais felizes nem eram melosos. Então, no século XVII, Charles Perrault (1628-1703) deu início a uma nova forma de escrever para o novel público, introduzindo, na literatura infantil, os contos de fadas, nos moldes conhecidos em nossos dias, dentre os quais estão: Cinderela, a Bela Adormecida, Barba Azul, o Gato de Botas, Chapeuzinho Vermelho, as Fadas e o Pequeno Polegar. Seu objetivo era amenizar o peso das estórias, a fim de não chocar nem amedrontar as crianças, proporcionando-lhes bem-estar na relação com as estórias infantis.

Charles Perrault foi bem-sucedido em seu propósito, de modo que é difícil não ser atraído para o mundo dos contos de fadas que alimentam, no leitor, sonhos e esperanças adornados por alguns valores morais. Se é assim, qual a razão de refletirmos sobre os perigos nos contos de fadas? Não seria bom alimentar a esperança das pessoas, motivando-as a não desistirem de seus sonhos? Talvez! Mas, e se esses sonhos estiverem alicerçados em ilusões? E se essa esperança estiver focada em conquistas meramente físico-materiais? E se os contos de fadas direcionarem os olhos das pessoas para si mesmas, desviando-as da felicidade eterna que se encontra somente em Cristo? Diante de tudo isso, veremos que o inocente mundo dos contos de fadas pode ser uma larga estrada rumo a uma vida de ilusões.

Gostaríamos de mostrar três problemas encontrados nos contos de fadas: 1) os contos de fadas conduzem as pessoas para longe da realidade; 2) os contos de fadas conduzem as pessoas para uma esperança de felicidade terrena; 3) os contos de fadas conduzem as pessoas para supostos elementos redentores, à parte de Cristo. Observe-se que mencionamos pessoas, em vez de nos referirmos apenas às crianças, porque os contos de fadas alcançam públicos de todas as faixas etárias, tornando-se um instrumento perigoso para a educação de toda a sociedade, a partir da criança, ensinando-lhe a viver e desejar o irreal, em um mundo sem Deus nem necessidade de redenção.


1.      Os contos de fadas conduzem as pessoas para longe da realidade

Antes de tudo, é importante salientarmos que não devemos confundir conto de fadas com figuras de linguagem, pois enquanto estas servem para enfatizar e esclarecer uma mensagem relacionada à realidade, aquele cria um mundo completamente imaginário em que a realidade costuma ser irrelevante. Os contos de fadas são narrativas fictícias em que diversos elementos fogem da realidade, oferecendo modelos ilusórios para a vida. Neles, as mulheres são sempre lindas tanto de rosto quanto de corpo, encantadoras no modo de agir e falar e praticamente não cometem erros. Os homens são príncipes bonitões, corajosos, educados, gentis, amorosos e impecáveis no modo de falar e agir. Além desses, encontramos os super-heróis com força, inteligência e conquistas irreais, mas deslumbrantes, apresentadas de tal forma que induzem a criança, o jovem e até o adulto a almejarem tais coisas. Todavia, elas não existem!

Além disso, nos contos de fadas não existe Deus, de forma que a felicidade “eterna” é depositada nas mãos de personagens que sempre se dão bem no final de tudo. Para os protagonistas, não há morte; não há frustrações; não há pecados. Os únicos inimigos são os personagens malignos vencidos pela força, até desaparecerem ou serem aniquilados. Ignora-se completamente o maior adversário do ser humano: o pecado, alimentando, assim, uma fé em si mesmo. E todo aquele que se coloca no caminho entre o príncipe e a princesa é considerado inimigo, como se toda orientação contrária aos relacionamentos fosse má e o amor romântico fosse o principal propósito da vida.

Os contos de fadas, portanto, distanciam as pessoas da realidade, oferecendo-lhes um mundo imaginário, em vez de motivá-las a trabalhar sobre o mundo em que elas vivem, a partir da esperança de transformação do ser imperfeito. Estimula-se um olhar superestimado sobre si mesmo, supervalorizando o “eu” enquanto se ignora a necessidade de combater o próprio coração pecador. O problema encontra-se sempre no outro, semelhante à “síndrome de Adão”, como se o universo girasse em torno dos protagonistas da narrativa, contribuindo para a satisfação de suas vontades. Ocorre, então, a exaltação da natureza humana, onde o homem é um príncipe imaginário e a mulher, uma donzela encantada, motivando o desejo pelo estereótipo utópico oferecido tanto no príncipe quanto na princesa.

Após contato com os contos de fadas, os leitores estarão inclinados a desprezar a realidade tão díspar do imaginário. Semelhante aos personagens fictícios, os homens desejarão mulheres encantadas que jamais perdem a beleza e a compostura enquanto as mulheres procurarão príncipes matadores de dragões e montados em cavalos brancos. A busca, ou espera, inútil gera frustração e intolerância com a realidade. E, sem que tenham sido ensinados a lidar com a vida, homens e mulheres se angustiam com o presente, preferindo trocar aqueles que não se enquadram em seus sonhos a se esforçar para conviver com eles, quer marido quer esposa, sejam pais sejam filhos.

Nos clássicos contos de fadas, não há lugar para o imperfeito nem necessidade de restauração do ser. Todo problema possui cunho meramente social, pois os personagens não partilham da natureza pecadora. Portanto, ocorre a idealização do homem perfeito sem, contudo, apresentar a realidade caída da natureza humana, para que ocorra sua restauração por meio do agir gracioso e eficaz de Deus dentro do coração. O pecado, então, está sempre fora do indivíduo e sua redenção se encontra na luta contra o “outro”, motivando, assim, toda e qualquer resistência ao que não favorece o ideal particular de felicidade. E para que vençam os inimigos, os protagonistas devem ter autoconfiança, ou seja, uma fé inabalável em si mesmos.


2.      Os contos de fadas conduzem as pessoas para uma esperança de felicidade terrena

Em todos os contos de fadas, os protagonistas buscam a felicidade terrena. A morte é sempre o fim de tudo, dentro de um universo fatalista, de modo que a felicidade deve ser buscada aqui e agora. Não havendo Deus, não há esperança de vida eterna nem “refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações” (Sl.46.1). Tudo depende da força e inteligência dos heróis. E estando o homem no centro do universo, todas as coisas devem colaborar para seu bem-estar, durante os dias de sua vida. Por essa razão, a infelicidade é retratada pela ausência de um relacionamento amoroso ou através da presença de problemas cotidianos ou por meio de uma vida simples marcada por afazeres comuns diários. Basicamente, é infeliz ser uma pessoa normal com habituais problemas corriqueiros.

A esperança é um dos principais temas dos contos de fadas. Ele está presente antes do protagonista iniciar sua jornada rumo à conquista da felicidade; está presente durante a jornada, principalmente nos momentos em que aparecem obstáculos aparentemente intransponíveis, a fim de motivar o herói a não desistir de seus sonhos; e, está presente no final de tudo quando, finalmente, o mocinho alcança sua felicidade, motivando, assim, os leitores a não desistirem de seus desejos, por mais difíceis que pareçam ser. Toda esperança é concretizada por meio do alcance da felicidade proporcionada pelo amor romântico, desfrute da prosperidade e bem-estar encontrado numa vida tranquila e sem problemas.

Como devem ter percebido, encontramos três principais motivos da felicidade nos contos de fadas: O principal dos três motivos costuma ser a relação amorosa. Príncipes e princesas percorrem longas jornadas até o casamento, onde alcançarão a felicidade. Todo esforço dedicado visa o “sagrado” encontro e “imaculado” beijo, a fim de que sejam “felizes para sempre”. Neste universo romântico, os inimigos são aqueles que procuram impedir que a felicidade seja alcançada por meio da concretização do laço matrimonial entre os protagonistas. Estimulados pelo ideal de felicidade através de realização amorosa, uma sociedade educada por contos de fadas encontra, na “incompatibilidade” e “falta de sentimento”, justificativas para o divórcio, visando encontrar a felicidade num suposto par perfeito.

Em segundo lugar, normalmente atrelado ao romance, encontramos a conquista material. Quando a razão da felicidade é a prosperidade, a jornada dos protagonistas visa a conquista de grandes coisas. Os personagens moram em castelos, vestem os mais finos trajes, calçam sapatinhos de cristais, andam em carruagens espetaculares e possuem serviçais a sua disposição. O trono torna-se símbolo de máximo êxito e motivo de felicidade plena, motivando os leitores a buscarem, nas conquistas materiais, a fonte da felicidade humana. Diversos protagonistas percorrem uma jornada que vai da pobreza e simplicidade à riqueza e luxúria, como no conto da Cinderela. Não há pobres felizes nem pessoas simples plenamente satisfeitas, pois em ter mais está o segredo para a felicidade, despertando, assim, a ambição e avareza, descontentamento e materialismo naqueles que são influenciados por tais contos de fadas.

Um terceiro motivo da felicidade de personagens de contos de fadas é a vida tranquila e sem problemas, ou seja, uma felicidade contextual. Nesse caso, os problemas tornam-se grandes vilões que impedem que pessoas sejam felizes. Portanto, as circunstâncias moldam o contentamento dos protagonistas que anseiam por uma vida estável e confortável, tranquila e sem contrariedade. Diante das adversidades, a esperança dos personagens é posta sobre o alcance do retorno à tranquilidade outrora desfrutada. Não há contentamento em toda e qualquer situação nem fortalecimento de uma esperança no porvir, pois tudo que existe é o aqui e agora. Sendo assim, caso a tranquilidade não seja alcançada, nada mais resta para fundamentar o contentamento que deveria estar presente no coração, mesmo em dias maus. E não havendo nada sólido para servir de base ao edifício da felicidade, aqueles que são iludidos pelos contos de fadas sentem-se completamente infelizes na vida real, pois esperam alcançar a satisfação de uma vida sem problemas.

Em todos os três motivos, o leitor é induzido a confiar sua felicidade a grandes feitos temporários em sua vida, como se nada mais houvesse após a morte. A esperança, então, é curta e provisória, frágil e incerta, pois fundamenta-se em coisas passageiras e vulneráveis. E por mais felizes que pareçam ser os protagonistas dos contos de fadas, tais “finais felizes” são meras ilusões, pois ignoram a realidade de um mundo que “jaz no maligno” (1Jo.5.19) e está reservado “para o dia do juízo e destruição dos homens ímpios” (2Pe.3.7). Por isso, Jesus advertiu com respeito a que “não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt.6.19-21). Desse modo, os contos de fadas ajudaram a criar uma geração descontente com tudo, pois aquilo que lhes fora prometido não existe.


3.      Os contos de fadas conduzem as pessoas para supostos elementos redentores, à parte de Cristo

Como dissemos anteriormente, nos contos de fadas não há Deus. Sua ausência é percebida na causa, no propósito e no desenrolar da vida dos protagonistas. A “solidão” do divino é contrabalançada por uma abundante autoconfiança, razão da perseverança e das vitórias dos heróis. E diante da “não-existência do divino” outros elementos redentores aparecem para salvar os personagens principais, quer dentro ou fora deles.

Essa salvação, no entanto, não deve ser entendida como livramento ou resgate de algum problema externo, apenas. A solidão, a infelicidade, o sofrimento e a falta de paz também devem ser considerados problemas que requerem um “agir redentor”, a fim de que o protagonista possa ter uma “vida plena”. Assim, o amor romântico, a força, a coragem, a autoconfiança (fé em si mesmo), a amizade, príncipes e princesas, riquezas e magias, entre outros diversos elementos aparecem como agentes salvadores capazes de libertar os personagens principais da infelicidade que os aprisiona.

Por essa razão, é tão presente nos contos de fadas a idolatria do amor redentor. O amor liberta, transforma, constrói, restaura e possibilita a felicidade “eterna” para aquele que são por ele alcançados. Toda esperança, portanto, é depositada sobre o amor romântico e alcança-lo vale mais do que tudo no mundo. O amor romântico é exaltado sobre todas as demais coisas como propósito da vida humana. E por ser tão indispensável, qualquer sacrifício é justificado em nome desse amor, incluindo: negar valores, quebrar compromissos, se matar ou mesmo viver exclusivamente em função desse amor. O amor romântico torna-se um ídolo que exige total dedicação e entrega da vida, senhor daqueles que desejam desfrutar de suas benefices graciosas.

Dentro desse mundo em que o amor romântico basta para fazer as pessoas felizes, Cristo torna-se completamente desnecessário. O coração do homem deseja a própria satisfação acima de tudo, e o caminho mais curto e fácil sempre lhe será o melhor. Portanto, ao apresentar a ideia de que a felicidade habita no amor romântico, a sociedade passou a cultivá-lo acima de tudo, dando início a uma corrida pelo “amor eterno”. E para alcança-lo, vale tudo, até as mais bárbaras ideias, decisões e ações. Não é sem razão que boa parte das obras cinematográficas, até as mais sangrentas, possui um romance que faz meninos e meninas suspirarem.

Tenho visto maridos e esposas indispostos dentro do casamento, não se esforçando para tornar o lar algo agradável a Deus, porque acreditam que ainda poderão encontrar o “par perfeito” que lhes fará plenamente felizes, fora do casamento. Eles colocam toda a esperança da vida na possibilidade de viverem um relacionamento amoroso romântico e ideal, nos moldes dos contos de fadas. Desse modo, substituem a redenção realizada por Cristo pelo mito do "amor redentor". Os contos de fadas, então, tornam-se uma espécie de anticristo ao atraírem a atenção do mundo para si mesmos, oferecendo outra espécie de redenção para a vida marcada pelo sofrimento. E em vez de correrem para Jesus, a fim de encontrarem, nEle, esperança de vida eterna, as pessoas vivem a ilusão de que poderão ser plenamente felizes por intermédio da conquista do amor, da prosperidade e da tranquilidade. E sem Cristo, o mundo tem vivido em depressão, confuso por não conseguir discernir entre o real e o imaginário.