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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A idolatria do "amor" redentor

Um ao outro ajudou e ao seu próximo disse: Sê forte. Assim, o artífice anima ao ourives, e o que alisa com o martelo, ao que bate na bigorna, dizendo da soldadura: Está bem feita. Então, com pregos fixa o ídolo para que não oscile.” (Is.41.6-7)

Guerras desnecessárias, desigualdade social, corrupção política, abandono da necessidade alheia, grande número de mortos por brutalidade, cidades violentas, famílias destruídas, alto índice de pessoas depressivas etc. Esses são alguns males vividos pela presente geração. Mesmo diante de tudo isso, a maior parte das pessoas não quer ouvir falar de Jesus nem muito menos de sua salvação. Com ar de piedade, elas proclamam outro caminho para a redenção desse mundo: o “amor”, atribuindo-lhe o poder de mudar todas as coisas, conceder harmonia para a vida social e trazer paz para a Terra.

Mas, teria o amor poder para transformar pessoas? Se isto fosse verdade, então toda a geração de Jesus deveria ter crido nEle. Todavia, aqueles que presenciaram o amor de Cristo, recebendo curas, ressurreição de mortos, multiplicação de alimentos e o bom ensino da Escritura, depois estavam gritando diante de Pôncio Pilatos: “Crucifica-o!” (Mc.15.13-14; Lc.23.21). Nenhuma manifestação de amor foi tão grande, pois Jesus sofreu aquela geração má com paciência e benignidade, sem desistir de sua missão de salvar os pecadores. Depois de sua morte, ressurreição e ascensão, os apóstolos continuaram pregando a Escritura e a igreja prosseguiu fazendo a obra do Senhor (At.2.42-47), contudo o amor dos discípulos não foi suficiente para alcançar sua geração; e somente “creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna.” (At.13.48).

A fim de substituir Cristo, o mundo passou a cultivar a ideia (aparentemente “bonita”, mas totalmente errada) de que o amor tem poder salvador. Por isso, contos de fadas, sustentabilidade, “direitos humanos” e diversos trabalhos sociais tem sido motivados na esperança de que tais gestos sejam capazes de dar ao mundo uma nova vida. Isso desperta em nós um questionamento: Como o mundo que odeia tanto a Deus e o despreza diariamente por meio de atitudes e conceitos, que além de ignorarem sua existência também o afrontam claramente, consegue falar tanto sobre “amor”? Jesus levantou semelhante questionamento em seus dias: “Raça de víboras, como podeis falar coisas boas, sendo maus? Porque a boca fala do que está cheio o coração.” (Mt.12.34). Esse fenômeno confunde a muitos, fazendo-os achar que as pessoas são boas, até mesmo considerando que Deus possa ser mau, tendo em vista seus justos juízos dispensados sobre os pecadores indignos.

Há duas razões para ocorrer tal incongruência: A primeira, diz respeito à natureza do “amor” propalado pelo mundo em nossos dias. Boa medida desse “amor” que o mundo proclama é, na verdade, a paixão, algo instintivo e preservativo, pois intenciona a autopreservação e autossatisfação, ou mesmo a autoglorificação. Em segundo lugar, o amor venerado em nossos dias tornou-se uma espécie de salvador, sob a ideia de que tudo é possível ao amor considerado o único capaz de mudar todas as coisas. Assim, o “autor e consumador da salvação” (Hb.12.2) está sendo trocado por outra concepção de redenção, em que o “amor” é a solução capaz de trazer felicidade e transformação para todas as pessoas.

Contudo, há grande diferença entre o amor, um atributo proveniente de Deus e o sentimento instintivo, também, denominado de “amor”, popularmente. O primeiro é santo, justo e perfeito (1Co.13.1-7); o segundo é apenas impulsivo e pode ser agente motivador dos mais terríveis pecados. Por causa do verdadeiro amor, Jesus entregou sua vida pela igreja (Ef.5.25-27), morrendo por muitos para que obtivessem justificação e vida eterna (Rm.5.16-18). Contudo, também em nome do “amor”, um suposto “amor”, pessoas tem cometido os mais bárbaros crimes, a ponto de matarem alguém em nome de um sentimento confuso e egoísta, pois o “amor”, segundo o mundo, escraviza a mente e o coração daqueles que o veneram, tornando-o uma espécie de salvação, fonte de felicidade eterna.

Que tipo de afetividade um animal doméstico tem por seu dono? Ou mesmo que tipo de relação possuem os animais entre si. Eles se apegam aos donos, mas são incapazes de refletir sobre a relação entre o amor e as demais virtudes. Eles não ponderam sobre a Verdade na qual está fundamentado o amor, atributo divino. A afetividade deles corresponde apenas a diversas combinações hormonais que os impulsionam a querer estar perto de seus donos ou de seus pares, pois isto lhes proporciona bem-estar. Tal sentimento, portanto, é egoísta, pois visa à satisfação própria. Não há virtude nisso, apenas instintos naturais em funcionamento. Algo semelhante também ocorre com os seres humanos, razão porque buscamos a procriação. Esse “amor” instintivo, também denominado paixão, não tem nenhuma relação com o atributo divino chamado de Amor.

As discrepâncias entre os frutos do amor divino e as obras resultantes do “amor” instintivo, cultivado pelos pecadores, são tão evidentes que o sentimento concebido pelo mundo pagão não pode ser confundido com o verdadeiro amor revelado pela Escritura Sagrada. O “amor” segundo o mundo segue o coração sem se importar com a razão nem muito menos com a Verdade. Porém, o amor que vem de Deus está bem firmado sobre a Verdade e a retidão, pronto para abnegar-se, a fim de glorificar aquele de quem provém todo amor: Deus (1Jo.4.8).

Portanto, além de ser uma virtude proveniente do Senhor, o verdadeiro amor não substitui Cristo, antes o glorifica, pois dEle depende e dEle provém. Por esta razão, o amor de Deus jamais conduzirá alguém à idolatria, ou seja, ao sentimento de dependência plena do outro, pois somente Deus é indispensável à vida. Esse amor não negocia nem abre mão da santidade para agradar alguém, pois tem compromisso certo com a Verdade e a Justiça, pois se origina do Senhor (1Co.13.4-7). Por isso, Deus tanto salvará aqueles que creram em Jesus quanto condenará aqueles que o desprezaram. E para aplicar salvação e juízo, Deus não deixará de ser amor, pois seu amor é justo e reto.

No entanto, o mundo está difundindo outra espécie de “amor”, sempre relacionado ao romantismo. Em nome dele, pessoas fazem juras de amor eterno, dizendo: “Sem você não vivo!” ou “Você é a razão da minha vida!” ou “Por você faço qualquer coisa!”. Por esta razão, muitos entram em depressão e perdem o propósito de viver ao ficar sem a pessoa adorada por esse amor doentio, quer cônjuge, filhos, pais ou amigos. Elas entregaram suas vidas a esse amor, confiando-lhe a felicidade, como se esse amor fosse a salvação de suas vidas. Ao atribuir a salvação ao amor, o mundo o tornou uma espécie de deus, um instrumento de redenção.

Outro problema decorrente da falsa concepção sobre o amor é o empobrecimento da pregação. Muitos cristãos limitam o evangelismo aos dizeres: “Deus ama você”. Ainda que o amor de Deus por sua igreja seja real, o Evangelho não pode ser resumido nessa frase nem se deve creditar a ela poder para transformar vidas. O Evangelho diz respeito ao nascimento, vida, morte, ressurreição e volta de Jesus. Por meio do Evangelho, o pecador conhece o plano redentor de Deus, a causa da necessidade de salvação, o meio pelo qual o Senhor proveu redenção e a promessa de vida eterna. O amor não tem poder para persuadir os pecadores nem transformá-los, mas o Espírito Santo é poderoso para convencer o homem “do pecado, da justiça e do juízo” (Jo.16.8) por meio da Verdade que liberta, a Escritura Sagrada (Jo.8.32).


A salvação não vem pelo amor nem é possível mudar o mundo por meio de sentimentos. O amor não é o poder de Deus para a salvação e transformação do pecador, pois o amor é um atributo divino, não uma força divina. Somente Deus pode conceder-nos felicidade eterna; só Cristo pode justificar o pecador; apenas o Espírito de Deus pode mudar os corações. Deus nos amou e enviou seu Filho para nos salvar, mas esse amor não é o poder de Deus para a salvação. Portanto, não atribua ao amor a solução para os problemas dos pecadores. Para transformar pecadores e salvar vidas, Deus nos deu seu Evangelho pelo qual o Espírito Santo opera nos corações. Por isso, a igreja deve pregar fielmente a Escritura, com amor, confiando tão somente que Jesus Cristo é poderoso para salvar aqueles que estão perdidos e trazer-nos um novo céu e nova terra.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Cristo, Salmos e você - SALMO 8

Ó SENHOR, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome!” (Sl.8.1)

Davi era o grande rei de Israel, mas encontrava magnitude na formosura de Deus, não em um espelho. Ele tinha os olhos no Senhor e, sempre atento às obras das mãos de Deus, contemplava, maravilhado, a manifestação da glória do Senhor na criação e na história da redenção. A grandeza do Senhor e sua muita bondade atraíam Davi à presença de Deus diante do qual se aproximava com humilde e feliz coração, pois, no Senhor, ele encontrava a salvação.

Mas, a glória de Deus não se manifestava em grandes coisas, somente. Sua maior glória haveria de ser manifesta por meio de uma criança, suscitada pelo Senhor para ser o Redentor de seu povo. A vitória de Deus sobre os inimigos não viria de valentes como Davi, mas de uma descendência santa capaz de “emudecer o inimigo e o vingador” (Sl.8.2). E Davi conhecia bem essa esperança, pois lhe fora revelado que seu filho seria o Messias prometido (2Sm.7.1-29). Tal notícia o deixou maravilhado e grato, pois mediante este Filho, o reinado davídico estava garantido para sempre. Desta forma, a grandeza do Senhor poderia ser percebida tanto na formosura e magnitude da criação, obras de suas mãos, quanto na pequenez e fragilidade da linhagem santa escolhida por Deus e preservada no decurso dos séculos, para que na “plenitude do tempo” (Gl.4.4) trouxesse à luz o Filho de Deus, Rei eterno sobre tudo e todos.

Encantado com a graça divina dispensada ao ser humano, Davi profetizou a humilde vida de Cristo, pequeno aos olhos dos homens, mas poderoso para redimir a criação. Glória e humildade, grandeza e simplicidade andariam lado a lado no Filho de Deus (Hb.2.6-8). Por meio dEle, a magnificência do Senhor revelava-se completa por meio de seu sábio poder criador e seus santos atributos manifestos na justiça do Redentor. Confundindo a todos os inimigos, Deus traria salvação por meio da humilhação e morte de seu Filho, “despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” (Cl.2.15).

Os judeus dos dias de Cristo não compreenderam isso. Seus olhos carnais só contemplavam a aparência e, por isso, eram incapazes de apreciar a glória de Deus manifesta em Cristo. Por conseguinte, aquela geração rejeitou a maior manifestação do poder divino contra todos os inimigos do povo de Deus: a crucificação de Jesus. O Filho de Deus, então, ensinou a seus discípulos a não se guiarem pela aparência (Lc.17.20) nem buscarem glória de homens, mas uma vida de humilde serviço a Deus na sociedade (Mt.20.25-28). Paulo, então, exorta a igreja de Filipenses a seguir o exemplo de Cristo que manifestou a glória de Deus sem qualquer poder aparente, mas por meio da humilde obediência à vontade do Senhor (Fp.2.5-11). São estes que exaltam a Deus com a vida, sem que atraiam para si qualquer glória. Eles são pequenos aos olhos dos homens, mas grandes diante do Senhor, instrumentos para a propagação da sabedoria de Deus: Cristo.


Portanto, de forma semelhante a Davi, contemple a glória de Deus manifesta tanto na grandeza e vastidão da criação quanto na simplicidade da pregação e vida da igreja de Cristo. Lembre-se que “o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm.14.17) pois não veio “com visível aparência” (Lc.17.20), mas por meio da crucificação de Jesus. Então, não busque grandes coisas nem despreze as pequenas, pois a maior manifestação da glória de Deus não está visível aos olhos humanos, mas será revelada para todos no ultimo dia.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Casamento: Uma Teologia Bíblica

Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gn.2.24)

O assunto está no auge, ainda que o casamento esteja passando por uma de suas piores crises da história humana. Há diversos livros tratando sobre o assunto e, parece-me que a maioria tem como propósito adequar a Escritura a esta geração ao invés de conduzir as pessoas ao casamento conforme a Palavra de Deus. Por conseguinte, o número de divórcios entre cristãos tem aumentado tão consideravelmente quanto entre aqueles que não são cristãos.

Por esta razão, nosso propósito aqui não é tirar peso da consciência de quem pretende se divorciar, mas mostrar qual o verdadeiro ensino bíblico sobre o casamento e o divórcio, respondendo as perguntas: O que Deus ensina sobre o casamento? A separação é permitida pela Bíblia? Pessoas separadas podem casar outra vez? O que fazer para ter um casamento bíblico? Os mandamentos do Senhor sobre o casamento tem validade para todas as gerações?

Estas e outras questões serão respondidas por meio de uma teologia bíblica do casamento. Ou seja, desejamos demonstrar o ensino da Escritura sobre o casamento em cada etapa da história humana: 1) O casamento no Éden; 2) O casamento antes da Lei; 3) O casamento entre a Lei e Cristo; 4) O casamento em Cristo; 5) A eternidade e o casamento. Por meio de uma teologia bíblica do casamento, poderemos compreender melhor os problemas que ocorreram em cada período e a resposta divina para eles.


O CASAMENTO NO ÉDEN
O casamento é uma bênção divina que aponta para Cristo. O fato de ser uma bênção é evidente nas primeiras páginas de Gênesis quando o Senhor cria a mulher como presente gracioso para o homem solitário. Adão havia recebido do Senhor a missão de cultivar e guardar o jardim (Gn.2.15) e, ainda no sexto dia da criação, ele começou a exercer sua missão organizando a criação ao nomear os animais. O homem estava num paraíso, plantado por Deus, bem regado, com ouro e pedras preciosas, árvores frutíferas e animais de diversas espécies (Gn.2.8). No Éden, não havia sofrimento nem fome nem morte. Tudo era perfeito e harmônico, tudo era lindo e agradável. Todavia, a beleza e perfeição da criação não foram suficientes para Adão, pois, em meio a todas as maravilhas criadas pelo Senhor, o homem sentiu falta de uma companhia com a qual pudesse partilhar todos os encantos da vida gerada por Deus.

Esse vazio do coração do homem pode ser considerado instrumento para o cumprimento dos planos do Senhor (Pv.21.1). O propósito de Deus nunca foi ter apenas um homem em meio a toda a criação. O profeta Malaquias faz menção do casamento como propósito gerador desde o início: “E não fez Ele somente um, ainda que lhe sobrasse o espírito? E por que somente um? Ele buscava uma descendência para Deus” (Ml.2.15 ou “descendência de Deus”). Conforme o profeta, portanto, todos os seres humanos vieram de uma só pessoa, Adão, por que Deus queria trazer uma descendência especial, na qual todos estariam ligados. Para os judeus essa descendência é o povo de Israel, mas para o cristão, conforme o Novo Testamento, a descendência prometida é Cristo (Gl.3.16,19), no qual todos estamos ligados, tanto pela carne quanto pela fé, formando um só corpo, o corpo de Cristo (1Co.12.27).

Diante da necessidade sentida por Adão, Deus formou a mulher a partir da costela do homem (Gn.2.21-22). O poema que Adão pronunciou ao ver a mulher (Gn.2.23) demonstra sua alegria em ter uma companheira semelhante a ele com a qual poderia dividir as tarefas, conversar sobre as maravilhas de Deus e formar um povo santo para o Senhor. O homem foi a fonte primária da mulher, a fim de indicar sua primazia sobre a mesma, para que lhe estivesse subordinada por todos os dias (1Co.11.8-9), ao mesmo tempo em que ele teria a responsabilidade de cuidar daquela que era carne de sua carne e osso de seus ossos (Gn.2.23). Surge uma relação marcada pelo dever-responsabilidade de ambos em que o homem teria o dever-responsabilidade de cuidar da mulher e a mulher teria o dever-responsabilidade de ajudar o homem, sendo-lhe, portanto, submissa em tudo (Ef.5.24).

Havia uma íntima ligação entre o homem e a mulher, pois esta fora feita daquele. A forma como o ato criativo de Deus se deu estabeleceu as características da relação conjugal a partir dos primeiros pais (liderança e submissão, cuidado e respeito etc.). Todas as vezes que um homem quisesse se unir a uma mulher, o faria por meio da formação de uma família, deixando pai e mãe e “tornando-se os dois uma só carne” (Gn.2.24). Esta ultima expressão do versículo indica a presença de uma aliança pela qual eles estariam ligados por toda a vida. A aliança seria confirmada por meio do ato sexual que, curiosamente, possui um elemento comum ao estabelecimento das alianças no Antigo Testamento: o derramar de sangue. Quando o homem se relaciona, sexualmente, pela primeira vez, com sua mulher, ele corta o hímen dela, fazendo com que a mulher derrame sangue em sua primeira relação com o marido. Uma vez que não havia morte no paraíso, o “lacre” da mulher só seria rompido uma única vez, estabelecendo uma aliança conjugal permanente. A aliança matrimonial, então, era confirmada por meio do ato sexual que, no derramar de sangue, aponta para seu caráter vital.

Esse fenômeno nos lembra da forma como as alianças eram estabelecidas no passado, antes dos contratos de papel, a semelhança do que ocorreu com Abraão (Gn.15). Os participantes matavam animais, partindo-os ao meio e colocavam suas bandas uma afastada da outra para que pudessem passar pelo meio num gesto que significa: assim como esses animais foram partidos, será aquele que quebrar a aliança aqui estabelecida. Algumas culturas costumam ferir o corpo (normalmente dedo ou mão), a fim de extrair sangue que será partilhado com o outro, simbolizando uma aliança de sangue, ou seja, de vida entre indivíduos (alguns ainda possuem essa prática, hoje). Esses símbolos apontam para o caráter permanente e irrevogável da palavra (voto) que uma vez dada não poderia ser desfeita (Js.9.19). As alianças duravam para a vida inteira e, por isso, eram alianças de vida, pois este foi o modelo dado por Deus a partir da aliança conjugal estabelecida no Éden.

Portanto, no Éden, o casamento duraria para sempre. Ou seja, enquanto Adão e Eva estivessem vivos (ou seja, enquanto não pecassem trazendo morte para a criação) eles estariam casados. O casamento não teria fim enquanto fossem imortais. Para um mundo de pecados, isso pode soar como uma longa prisão. Mas, devemos lembrar que Adão e Eva eram perfeitos e, portanto, o relacionamento, também, era perfeito. Casamento era sinônimo de amizade, partilha, cumplicidade, auxílio, carinho, cuidado mútuo etc. Desta forma, ter um cônjuge significava ter alguém para amar e ser amado por toda a vida, compartilhando as maravilhas de uma vida no paraíso. Portanto, o que já era bom, o paraíso, com o casamento ficou ainda melhor.

O casamento cumpriria diversos papéis fundamentais: 1) Veicular o nascimento do Filho de Deus, conforme plano divino elaborado antes da criação, a respeito da redenção do homem (Jo.17.24; 1Co.2.7; Ef.1.4; 1Pe.1.20); 2) Promover auxílio para o bom desempenho das ordenanças dadas por Deus ao homem, de forma que cultivar e guardar o jardim fosse partilhado por sua companheira; 3) Formar um povo santo para Deus, constituído de famílias firmadas em aliança, a partir do fiel relacionamento conjugal entre o homem e sua mulher; 4) Proporcionar uma relação de comunhão entre seres humanos, a fim de que houvesse mútuo cuidado, edificação, carinho e auxílio em tudo; 5) Ser uma oficina para o exercício das virtudes divinas partilhadas pelo homem. Desses papéis, evidentemente o primeiro já alcançou seu cumprimento, pois o Filho de Deus já nasceu, morreu, ressuscitou e subiu aos céus. Porém, os demais papéis permanecem em pleno vigor até a volta de Jesus, confirmados pelo restante da Escritura, Antigo e Novo Testamento (Cantares de Salomão, Salmo 127; Salmo 128; Efésios 5.22-31 etc).

A partir do exposto acima, podemos deduzir como era a vida familiar de Adão e Eva no paraíso. Deus os criara perfeitos, sem pecado, sem maldade. Portanto, o relacionamento deles adequava-se perfeitamente ao que Deus havia estipulado, ou seja, o homem era o cabeça da família e cuidava da mulher com amor e responsabilidade, tornando a vida de Eva agradável e tranquila, pois seu marido a amava e provia tudo o que era necessário para que ela tivesse conforto e direção certa conforme a Palavra de Deus. De forma semelhante, a mulher cumpria seu papel de ajudar o homem em suas tarefas estipuladas por Deus, sendo-lhe submissa. Essa submissão tornava a liderança de Adão mais fácil, pois encontrava em Eva tanto uma companheira de trabalho como, também, uma subordinada fiel. Ou seja, não havia discussões, pois ambos cumpriam bem o papel a eles designados. A harmonia familiar provinha do fiel exercício do papel de cada um. Assim, eles estariam sempre satisfeitos um com o outro e seus diálogos santos estariam adornados de gratidão e alegria, focados no Criador que lhes proporcionara todas as bênçãos e os visitava na viração do dia (Gn.3.8), a fim de ver como estava aquela família estabelecida em aliança para toda a vida.

A partir de Gênesis 3, toda a história humana será vivida debaixo do pecado. Devemos considerar, portanto, quão importante é o texto narrativo da criação (Gn.1-2), pois nele o Senhor revelou sua vontade perfeita ao homem (uma aliança matrimonial indissolúvel, estabelecida para toda a vida), ensinando-lhe o padrão para todas as coisas dentro de um contexto santo e puro. Desta forma, o modelo conjugal perfeito para todas as épocas da história humana encontra-se em Gênesis 2, quando o ambiente possibilitava uma vida plena em acordo com a revelação divina. Depois da queda, isso não acontecerá, pois o pecado impossibilitou o homem de viver uma vida plena com Deus. Segue-se, então, que o povo de Deus sempre será remetido pela Escritura para a narrativa da criação, como fez Jesus ao dizer: “desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher” (Mc.10.6). Esse padrão perfeito estabelecido por Deus permanece como referencial para o qual todos devem olhar, mas somente em Cristo ele é restaurado, por meio da capacitação do Espírito Santo que, operando a santificação na igreja, torna o cristão apto a viver a perfeita vontade de Deus.


O CASAMENTO ANTES DA LEI
Tudo estava muito bom até que a mulher deu ouvidos ao tentador (Gn.3.1-7). Eva quebrou seu dever-responsabilidade de ser submissa ao marido, agindo de forma contrária às ordens antes estabelecidas por Deus e ensinadas pelo homem. Observe-se, no entanto, que a infidelidade da mulher ao seu papel estabelecido por Deus, em sua relação com o homem, não anulou sua aliança com o marido. Ao cobiçar a glória de Deus, o homem e a mulher deram início a uma nova etapa para toda a criação. O pecado entrou no mundo e com ele a imperfeição, desarmonia e sofrimento. Eles não mais estariam em um paraíso, onde tudo era perfeito, inclusive eles, mas em um mundo de “cardos e abrolhos”, dor e suor, até a morte (Gn.3.18, 16, 19). Essa nova etapa afetou, também, a relação familiar de Adão e Eva e seus descendentes, pois a partir daquele dia, o pecado estaria presente no coração tanto do homem quanto da mulher, inclinando-os a tudo o que é mau. A vontade do Senhor deixou de ser o centro da vida individual e familiar sendo substituída pela própria vontade (Pv.16.2; Jr.17.9).

Os capítulos 3 a 11 de Gênesis nos contam as consequências cósmicas da queda. Diversos pecados são cometidos em pouco tempo, exigindo a intervenção divina diversas vezes (Gn.4.10-16; 6-9; 11.1-9). O primeiro dano causado pelo pecado ocorreu dentro da família, quando Caim matou seu irmão Abel (Gn.4.8). Em seguida, Lameque, descendente de Caim, toma para si duas esposas (Gn.4.19). O coração pecador repudiou o casamento estabelecido por Deus, criando novas formas de se relacionar com o fim de alcançar a satisfação pessoal, tentando preencher o vazio do coração sem Deus. O homem passa a dominar sobre a mulher com tirania, fazendo dela um objeto sexual para satisfação de seus apetites incontroláveis. Então, os descendentes de Caim se proliferam desordenadamente reproduzindo gerações sem domínio de si, sem lei, sem compromisso. Durante certo tempo, os descendentes de Sete, filho de Adão, conseguem viver uma relação familiar agradável, gerando filhos santos (Gn.5.21-24; 28-29). Todavia, a força do pecado sobrepôs o santo temor que os filhos de Deus tinham em seu coração e, sem lei, se deixaram conduzir pelas paixões do coração pecador (Gn.6.2). A população cresce e os filhos malignos seduzem os filhos de Deus conduzindo-os a relações familiares pagãs. As mulheres se rebaixaram ao status de objeto sexual dos homens e estes tomavam para si tantas quantas podiam sustentar (Gn.6.1-2).

As relações familiares estavam de tal modo deformadas que Deus decidiu destruir a humanidade. O homem tornou-se um tirano dominando sobre a mulher para seu próprio benefício, fazendo-a vulgar ou escrava e, portanto, infeliz. A mulher deixou sua submissão sadia para adotar uma postura máscula ou escrava. A visão familiar original estava perdida e os filhos aprendiam com seus pais aquele que seria o comportamento pagão padrão para as gerações e nações espalhadas pelo mundo. As gerações que tinham o conhecimento de Deus estavam morrendo e a vontade de Deus revelada para Adão e Eva estava se perdendo. Não havia lei, não havia regra. Então, o mundo seguiu seus próprios passos rumo à destruição de tudo, de si mesmo.

A ausência da Palavra de Deus nos dias anteriores a Moisés trouxe diversos malefícios, pois o enganoso coração do homem o conduzia para bem longe do Criador. Sem Lei, os jovens aprendiam de seus pais apenas o senso comum que, em sua grande maioria, era bastante deformado. Algumas gerações haviam conservado o conhecimento de Deus revelado no Éden, oferecendo para a posteridade uma educação melhor, mas ainda bastante deficiente. Diante de toda essa deficiência decorrente da falta de conhecimento do Senhor, a Escritura diz que “não levou Deus em conta os tempos da ignorância” (At.17.30). Contudo, a família sofreu muito nesses dias, pois nem o homem nem a mulher sabia viver seu respectivo papel em acordo com a vontade de Deus revelada no Paraíso.

Pouco podemos falar sobre esse período por falta de informações, mas conforme a narrativa de Gênesis 4.1-24, aqueles dias foram imorais, violentos e ambiciosos. As cidades foram construídas para saciar os desejos do homem e a masculinidade deixou de refletir o caráter de Deus que criou o homem a sua imagem e semelhança. Quase nada se aproveitava daqueles dias, a não ser uma família que havia preservado o mandamento do Senhor, mantendo-se fiel à aliança matrimonial, gerando filhos para Deus (Gn.6.8-10). A família de Noé manteve o padrão estabelecido por Deus: aliança entre um homem e uma mulher para toda a vida. Seus filhos foram ensinados da mesma forma, tendo em seus pais o modelo (Gn.6.18). Cada filho casou com uma mulher, mostrando que, apesar do caos do mundo, a Palavra do Senhor dada para Adão e Eva mantinha-se acesa no coração dos filhos de Deus. Ao matar todos os homens, preservando apenas a família de Noé e seus filhos, Deus reafirmou sua vontade para o homem a cerca dos mandatos originais dados no paraíso. Todas as formas estranhas de relacionamentos, não previstas por Deus no Éden foram reprovadas pelo Senhor, quer a poligamia quer o divórcio quer o homossexualismo.

Portanto, sem o conhecimento de Deus, as famílias vivem de acordo com o coração pecador sem perceberem que o pecado distorce a noção de certo e errado, bom e ruim, a fim de atender ao desejo mais egoísta do pecador. Assim, o casamento tornou-se sinônimo de infelicidade, sendo substituído pelo simples saciar das necessidades sexuais sem qualquer compromisso. O bem estar da família clama pela direção divina, necessitando da Lei do Senhor, a fim de que homem e mulher saibam (cada um) o papel que deve desempenhar para o bem estar de ambos. Hoje, temos a lei do Senhor e toda tentativa de distorcer o modelo familiar estabelecido por Deus não pode ser considerado como ignorância (em níveis gerais), mas rebelde afronta do mundo “anti-Deus” contra o Criador, com o propósito de saciar os desejos carnais do coração pecador.

Todavia, não podemos negar que algumas pessoas têm cometido o erro do divórcio por ignorância, tendo em vista que a interpretação correta dos textos nem sempre é conhecida. Esse fenômeno não justifica o pecado nem o aprova, mas conduz-nos às misericórdias de Deus que “não levou Deus em conta os tempos da ignorância” (At.17.30). Ou seja, mesmo que o mundo não tenha mais o argumento de não conhecer a vontade de Deus, o Senhor pode tratar alguns casos particulares como reais casos de ignorância acerca do pecado. Essas pessoas devem ser tratadas com misericórdia e ensinadas para que procedam corretamente a partir do verdadeiro conhecimento da vontade divina revelada, assim como Jesus tratou a mulher samaritana de João 4.15-30.


O CASAMENTO NO PERÍODO ENTRE A LEI E CRISTO
Após o dilúvio, a sociedade começou a se estruturar outra vez, tendo como base legal apenas aquilo que fora revelado no Éden e, também, a Noé após o dilúvio (Gn.2.15-24; 9.1-29). O pouco conteúdo revelado sobre a vontade do Senhor era suficiente para que o ser humano vivesse pela fé nas promessas de Deus, agindo de acordo com a vontade do Senhor, construindo cidades tementes a Deus. Todavia, o homem sentiu falta de mais leis e cada nação criou suas próprias regras. Dentre elas, estavam estatutos contrários à Lei do Senhor. A família, então, passou, outra vez, a ser guiada conforme convenções humanas, criando problemas para o indivíduo e a sociedade, ao contrariar a Lei primária estabelecida por Deus no Éden.

Quando a Lei foi entregue para Israel (Ex.20), a vida familiar já estava distorcida. O mundo pagão aderiu a novos costumes e os espalhou pelo mundo (Gn.29.26-27). Por isso, poligamia, divórcio e homossexualismo voltaram a serem práticas aceitas pela sociedade. Enganado por Labão, Jacó se casou com duas jovens irmãs e teve filhos de quatro mulheres (Gn.29.31-30.24; 35.16-18). Esse mal trouxe diversos prejuízos para a família, vistos na história de seus filhos (Gn.34-50). Em vez de amor, cuidado, fidelidade, cumplicidade e partilha, a família viveu dramas profundos que somente foram vencidos por causa da graça de Deus derramada sobre eles (Gn.45-50). As experiências sociais clamavam por intervenção divina, de forma que a Lei do Senhor tornou-se necessária para reconduzir o povo de Deus a uma vida santa em conformidade com sua santa vontade.

Dá-se início a uma nova etapa para o ser humano. Por meio de Moisés, Deus entregou sua Lei para Israel, uma herança para toda a humanidade, a fim de guiar o mundo na justiça. Todavia, Moisés recebeu do Senhor a autorização para dar ao povo leis niveladas ao estado em que se encontrava o ser humano duro de coração (Mt.19.8). Sem o Espírito de Deus para capacitar o pecador a viver segundo a santidade da Lei do Senhor (Ez.36.26-27), o homem jamais conseguiria proceder de forma santa e agradável a Deus (Jo.8.43). Esta Lei escondia em seu coração a profundidade do que Deus queria para seu povo (Ex.20.1-17; Mt.5-7), mas fora dada com tamanha simplicidade que se adequava à pobre realidade em que se encontrava o coração do homem.

O primeiro mandamento, dado por Moisés, a fim de reger a vida conjugal, nos dias de Israel, foi: “Não adulterarás!” (Ex.20.14). A relação matrimonial deveria ser regida pela fidelidade. Esse mandamento reafirma a forma original como o casamento foi estabelecido, uma aliança indissolúvel entre um homem e uma mulher para toda a vida. Contudo, a dureza do coração humano não foi capaz de entender a dimensão daquilo que Deus estava reafirmando por meio desse curto mandamento. E por causa dos problemas existentes nas relações, fruto do pecado no ser humano, as pessoas passaram a desejar a troca de cônjuge, esperando encontrar alguém melhor para conviver (Dt.22.13). Desta forma, o povo ignorava que o problema dos casamentos chamava-se pecado e este encontrava-se no coração de todos os pecadores, indistintamente.

Foi diante dessa dureza de coração, para compreender a beleza da vontade do Senhor revelada em seu ato criativo narrado em Gênesis 1-2 (Mc.10.2-9), que Moisés “permitiu” ao povo de Deus o divórcio, com o fim de pôr ordem na vida social dentro de Israel, para que o pecado não tornasse a nação em um caos semelhante ao que ocorrera com Sodoma e Gomorra e com os povos que antes habitaram a terra de Canaã (Dt.12.29-31). Moisés pôs ordem em práticas comuns, a fim de que as relações familiares não se tornassem mais vulgares do que já estavam.

No Evangelho de Mateus (o mesmo não acontece em Marcos e Lucas), Cristo corrige a visão distorcida dos líderes da época, acerca do casamento (Mt.19.7-8), trocando o termo “mandar” (entéllo) por permitir “permitir” (epitrépo). Após Jesus reafirmar o mandato social inicial (Mt.19.4-6), dado por Deus ao homem, no sexto dia da criação (Gn.2.21-25), parece que Cristo corrige o termo usado pelo oponente quando este afirmou que Moisés “mandou” (entéllo) dar carta de divórcio (Mt.19.7), sendo que, na verdade, Moisés apenas a “permitiu” (epitrépo).

Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la?
Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio. (Mt.19.7-8)


Conforme Jesus, o texto de Deuteronômio 24.1-4 não é uma ordenança ao divórcio, mas uma permissão à prática comum daqueles dias. Parece-nos, então, que Cristo interpretou os termos usados por Moisés (katav e natan no qal perfeito com vav consecutivo) como sequências temporais no futuro, não como ordenanças. No evangelho de Marcos, os oponentes de Jesus confirmam a interpretação de Cristo dizendo que “Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar” (Mc.10.4). Portanto, o acréscimo legal dado por Moisés não pretendia servir de ordenança permanente para o povo de Deus, mas norteou a vida social da nação até a chegada daquele que capacitaria o povo a viver de acordo com a perfeita vontade de Deus.

Mas, por que não há diversas leis mosaicas sobre o casamento no sistema legal de Israel? Isso ocorre, porque Deus já havia deixado clara sua vontade sobre o casamento nos dias de Adão e Eva e esta lei vigoraria para todas as gerações: uma aliança matrimonial indissolúvel entre um homem e uma mulher para toda a vida. O acréscimo permitido por Moisés não invalidou a vontade revelada por Deus anteriormente, mas serviu de nota de rodapé temporária para um período em que as pessoas não eram capazes de viver a beleza de uma vida familiar santa e agradável a Deus.

Mais adiante, o profeta Malaquias relembrará a ordenança original do Senhor sobre o casamento, tornando evidente que a permissão dada por Moisés era circunstancial e temporária, explicitando, assim, o propósito do Senhor para a relação conjugal, desde o princípio:

13 Ainda fazeis isto: cobris o altar do SENHOR de lágrimas, de choro e de gemidos, de sorte que ele já não olha para a oferta, nem a aceita com prazer da vossa mão. 
14 E perguntais: Por quê? Porque o SENHOR foi testemunha da aliança entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira e a mulher da tua aliança.
15 Não fez o SENHOR um, mesmo que havendo nele um pouco de espírito? E por que somente um? Ele buscava a descendência que prometera. Portanto, cuidai de vós mesmos, e ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade.
16 Porque o SENHOR, Deus de Israel, diz que odeia o repúdio e também aquele que cobre de violência as suas vestes, diz o SENHOR dos Exércitos; portanto, cuidai de vós mesmos e não sejais infiéis.
17 Enfadais o SENHOR com vossas palavras; e ainda dizeis: Em que o enfadamos? Nisto, que pensais: Qualquer que faz o mal passa por bom aos olhos do SENHOR, e desses é que ele se agrada; ou: Onde está o Deus do juízo? (Ml.2.13-17)


Observe-se que Malaquias se dirige ao casamento como relação singular. O profeta não faz referência a mulheres ou homens, mas a aliança feita entre um homem e uma mulher, pois essa aliança fora revelada no Éden e tinha caráter permanente. O termo aliança carrega em si todos os ensinamentos revelados por meio das alianças divinas feitas com a criação, desde o Éden: solenidade, permanência, santidade e bênçãos. O divórcio, portanto, era mal aos olhos do Senhor, pois este “odeia o repúdio”, ou seja, o divórcio. O versículo 16 parece ser um trocadilho com Deuteronômio 24.3 que diz: “se este último odiar [a mulher] e escrever carta de divórcio”, então o Senhor diz: “eu odeio a carta de divórcio [que é dado para a mulher]”. Portanto, enquanto um cônjuge se aborrecia do outro e lhe dava carta de divórcio, Deus se aborrecia da prática de dar carta de divórcio ao cônjuge, pois sua vontade sempre foi a preservação da aliança matrimonial por toda a vida.

Malaquias fez parte de uma importante sequência de profetas que prepararam o povo de Israel para a chegada dos dias neotestamentários. O povo precisava ser purificado em diversos aspectos da vida pessoal e social, dentre estes o casamento, e esta purificação seria completada nos dias próximos ao ministério de Jesus quando João Batista, o último profeta veterotestamentário prepararia “o caminho do Senhor” (Is.40.3). Quando Cristo viesse, ele confirmaria a Lei do Senhor (Mt.5.17), trazendo um novo e importante elemento para o povo de Deus: a regeneração (Jo.3.5), ou seja, a capacidade de viver a nova vida que o Filho de Deus traria para todo aquele que nEle cresse (Gl.2.20).


O CASAMENTO EM CRISTO
Finalmente, o restaurador (Sl.14.7; At.3.21) de todas as coisas foi enviado da parte de Deus (Jo.6.29). Aqueles que haviam sido convidados ao arrependimento por João Batista, são ensinados a viver a nova vida do Reino de Deus por meio da pregação de Cristo. Jesus, então, oferece a perfeita interpretação dos textos bíblicos, ensinando a seu povo a perfeita vontade de Deus. O primeiro texto referente ao casamento aparece em Mateus 5.27-32:

27 Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. 28 Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela. 29 Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno. 30 E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo para o inferno. 31 Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. 32 Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério. (Mt.5.27-32)


Jesus aplica o mandamento: “Não adulterarás” ao interior e exterior do homem. O mandamento, portanto exige mais que uma conduta, exige uma disposição do coração, também, o que somente é possível, por meio do operar do Espírito Santo no coração do pecador (Ez.11.19-20). Jesus ensina ao povo que a aliança matrimonial exige fidelidade completa, portanto qualquer desvio do olhar (impuro) para alguém fora do casamento se constitui em pecado de adultério (interior), à semelhança daqueles que, cobiçando, praticam a relação sexual (exterior). Todavia, o adultério praticado no coração não se constitui em razão para que a aliança conjugal seja quebrada. Caso o adultério fosse razão para que o casamento fosse desfeito, então todas as vezes que alguém olhasse “com intenção impura no coração” estaria dando razão para o cônjuge solicitar a separação.

Em seguida, Jesus reafirma a impossibilidade de se desfazer o casamento. Moisés havia permitido a carta de divórcio e os anciãos tornaram a permissão num mandamento. Cristo, então, rejeita a tradição dos anciãos, repudiando completamente o divórcio. Surge no meio da fala de Jesus, uma cláusula parentética: “exceto em caso de relações sexuais ilícitas” (Mt.5.32; 19.9). Essa expressão parece nos conduzir para a possibilidade de haver divórcio justificado. Todavia, apresento aqui a explicação de alguns estudiosos, nas palavras de John Piper, sobre o significado da expressão parentética:

A próxima pista de minha busca por uma explicação veio quando estudei sobre o uso de porneia em João 8.41, em que os líderes judeus indiretamente acusam Jesus de ser nascido de porneia. Em outras palavras, uma vez que eles não aceitavam o nascimento virginal, assumem que Maria havia cometido fornicação, e Jesus era resultado deste ato. Com base nesta pista, eu voltei para estudar o registro de Mateus do nascimento de Jesus em Mateus 1.18-20. Isto foi extremamente elucidador. Nesses versos, José e Maria são referidos como marido (aner) e esposa (gunaika). Ainda assim, eles são descritos como noivos somente. Isto provavelmente vem do fato de que as palavras para marido e esposa eram simplesmente homem e mulher, e do fato de que o noivado era um comprometimento muito mais significante do que é hoje. No verso 19, José resolve “divorciar-se” de Maria. A palavra para “deixá-la” é a mesma palavra de Mateus 5.32 e 19.9. Mas, mais importante que tudo, Mateus diz que José foi “justo” ao tomar a decisão de divorciar-se de Maria, presumivelmente por causa de porneia, fornicação.
Portanto, enquanto Mateus procede em construir a narrativa de seu Evangelho, ele encontra-se no capítulo 5 e depois no capítulo 19 precisando proibir todo casamento pós-divórcio (como ensinado por Jesus) e ainda permitir “divórcios” como aquele que José considerou como possibilidade, por pensar que sua noiva era culpada de fornicação (porneia). Assim, Mateus inclui a cláusula de exceção em particular para exonerar José, mas também no geral para apresentar que o tipo de “divórcio” que alguém talvez procure durante um noivado por causa de fornicação não está incluído na proibição absoluta de Jesus. (John Piper)


Essa interpretação coaduna-se bem com os versículos anteriores, em que o adultério no pensamento e coração não autorizam o divórcio, e com os Sinóticos (Mc.10.2-12; Lc.16.18) onde não aparece a cláusula parentética de Mateus. Portanto, o divórcio é repudiado por Jesus mesmo em caso de traição e o novo casamento é proibido mesmo em caso de adultério, pois o propósito original de Deus para o casamento se mantém firme desde sua origem até a volta de Jesus: uma aliança matrimonial indissolúvel, estabelecida para toda a vida.

Todavia, Jesus não ignora as dificuldades existentes dentro do casamento, tendo em vista a natureza pecadora do ser humano. Quando abordado pelos discípulos sobre a difícil condição de se estar obrigado a permanecer casado por toda a vida (Mt.19.10), Cristo diz que “nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado” (Mt.19.11). Convém-nos, então, perguntar: seria apenas esse o mandamento impossível de ser plenamente cumprido pelo homem sem Cristo? Israel havia experimentado a impossibilidade do homem, sem o Espírito Santo, obedecer aos mandamentos do Senhor, durante toda sua história. Mesmo tendo os mandamentos de Deus, a nação vivera aproximadamente 1400 anos pecando contra o Senhor, pois lhes faltava o “Espírito da Verdade” responsável por guiar o pecador a toda Verdade, habitando no homem e testificando de Cristo pela Escritura (Jo.16.13; 14.17; 15.26; Ez.36.26-27). Por isso, Cristo afirma: “Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível” (Mc.10.27). Desta forma, somente aqueles que tem o Espírito de Deus estão aptos a viver toda a vontade do Senhor, incluindo os mandamentos relacionados ao casamento.

Portanto, a solução para o casamento é a conversão, pois por meio dela o pecador tem nova vida promovida pela Escritura e pelo Espírito de Deus (Jo.3.1-7; 4.23-24). Paulo aplicará esse conceito em suas cartas para as igrejas, pois “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co.5.17). Por meio do Espírito do Senhor, o pecador recebe a capacidade para viver uma vida em plena conformidade com a santidade de Deus revelada na Escritura Sagrada, pois “o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl.5.22-23), de forma que “como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele” (Cl.2.6).

A nova vida promovida pelo Espírito e Palavra de Deus proporciona ao ser humano a capacidade de resistir as tentações (Tg.4.7) e viver uma vida agradável a Cristo. Somente assim, o casamento dura a vida toda, apesar das lutas presentes no caminho. Com um coração novo, a conduta do homem e da mulher é adornada de pureza, para que expresse a beleza da santidade de Cristo (2Co.3.18; Ef.5.22-31), servindo de testemunho para cristãos e não cristãos (1Pe.3.1-7). Por meio deste novo viver a vida conjugal torna-se agradável e os cônjuges revestem-se de força para resistir às intempéries da vida. Desta forma, a resposta para os pecados cometidos no casamento não é o divórcio, mas a nova vida em Cristo e o poder do Espírito Santo que nos capacita a vencer toda “concupiscência da carne” (Gl.5.16). Essa é a resposta dada pelo Novo Testamento para a perplexidade dos discípulos frente a não permissão divina para o divórcio e novo casamento (Mt.19.10).

Reafirmando o caráter vitalício da aliança matrimonial, Paulo exorta o homem e a mulher a viverem a relação conjugal conforme Deus a instituiu, ou seja: a mulher deveria ser submissa ao marido e o marido deveria ser um bom líder, cuidando da esposa em amor (Cl.3.18-19). Essas afirmações de Paulo não eram novidades, pois Moisés já havia revelado o mandato social dado pelo Senhor no paraíso (Gn.2.18-25). Todavia, Paulo acrescenta uma importante informação: o casamento representa a relação entre Cristo e sua igreja (Ef.5.22-31), indissolúvel. Então, para que os cônjuges desfrutem de uma vida conjugal plena, é necessário que cada um assuma seu papel à semelhança de Cristo e da igreja. Ou seja, para que o homem saiba agir como verdadeiro esposo, ele precisará olhar para Cristo e copiar seu fiel, amável e zeloso tratamento para com a igreja (Ef.5.25-28). De forma semelhante, para a mulher agir de forma agradável a Deus e ao marido, ela deverá lembrar-se do papel da igreja que em tudo deve ser submissa, obediente e respeitosa para com Jesus, o Senhor da igreja (Ef.5.22-24). Por meio dessa analogia entre o relacionamento conjugal e o relacionamento entre Cristo e a igreja, a indissolubilidade do casamento é mais uma vez confirmada, pois mesmo quando “somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo” (2Tm.2.13).

Resta-nos analisar um texto de Paulo: 1 Coríntios 7.1-40. Esse capítulo inteiro trata sobre o casamento, mas é direcionado a várias questões particulares diferentes. Primeiramente, Paulo deixa claro que o casamento não é obrigatório e a depender do contexto em que vive o cristão (perseguição, por exemplo) é melhor estar solteiro do que casado (1Co.7.1,7-8). Mas, uma vez casados, os cônjuges devem observar os mandamentos do Senhor. O primeiro deles é a necessidade de cuidarem um do outro por meio da satisfação sexual, a fim de se protegerem contra as ameaças de um mundo de impurezas (1Co.7.2-6). O segundo mandamento aos casados é a preservação do casamento: o marido não deve se separar da mulher nem a esposa do homem (1Co.7.10).

Todavia, alguns cristãos, casados com pessoas ímpias estavam passando por lutas dentro do casamento enquanto outros estavam sendo abandonados. Diante disso, Paulo dá ordenanças adequadas a cada necessidade. Então, a separação aparece como opção possível, diante de desafios considerados intransponíveis. Porém, a separação não seria sinônima de divórcio, ou seja, mesmo separados os cônjuges ainda estariam ligados um ao outro, pois a distância não invalidaria a aliança matrimonial estabelecida para toda a vida (1Co.7.11). O mesmo seria válido para casamentos entre cristãos e não cristãos (1Co.7.12-13). Por essa razão, os cristãos deveriam pensar muito bem antes de se separarem, pois não poderiam unir-se a mais ninguém enquanto a morte não desfizesse a aliança um dia firmada entre eles (Rm.7.3).

Mas, caso o descrente, por seu coração endurecido, se mantivesse irredutível, o cristão não deveria se preocupar ou desesperar: Deus o havia chamado para a paz, pois mesmo ainda ligados (dédetai) por meio da aliança matrimonial indissolúvel (Rm.7.2), o cristão não estaria mais na condição de escravo (dedúlontai) de uma relação sofrível (1Co.7.15-16). E tendo Deus chamado o cristão para a paz, daria ao mesmo a capacidade para ser fiel por toda sua vida, mantendo-se firme na condição que lhe fora dada (1Co.7.17), suportando a condição de alguém vivendo sozinho, mas ao mesmo tempo ligado àquele com quem havia casado.

Em seguida, Paulo reafirma seu desejo de que o cristão viva uma vida dedicada exclusivamente para Deus (1Co.7.32-34), sem contudo proibir o casamento. Paulo tem diante de si três públicos distintos: os casados, os solteiros e os viúvos. Para cada grupo, há uma ordenança apropriada: 1) Os casados não deveriam procurar separar-se (1Co.7.27a); 2) Os solteiros não deveriam procurar o casamento como se fosse uma necessidade (1Co.7.27b,37); 3) Mas, se os solteiros não conseguissem se dominar, então deveriam se casar no Senhor (1Co.7.9,28,36); 4) E, de forma semelhante, aqueles que eram viúvos tanto poderiam manter-se livres (sozinhos) quanto poderiam casar, pois uma vez morto o cônjuge, estariam livres para casar outra vez (1Co.7.39-40). Portanto, tanto os solteiros quanto os viúvos podem casar, caso desejem, mas o apóstolo considera melhor que se mantenham livres. Quer solteiros (livres) ou casados (ligados), todos devem viver de acordo com a Palavra de Deus, de forma que os casados não podem divorciar-se nem casar outra vez, e os solteiros (incluindo as viúvas) só podem casar no Senhor (1Co.7.39).

Portanto, de acordo com o Novo Testamento, o mandamento original de Deus sempre esteve em vigor e, por meio de Jesus, o cristão recebe a capacitação para viver a vontade do Senhor. Essa capacidade de viver o relacionamento conjugal com inteireza de coração faz parte da restauração operada por Cristo no ser humano. São essas pessoas capacitadas por Deus que cumprem os mandamentos do Senhor, mesmo que muitas vezes falhem. São elas que herdarão a vida eterna, pois amaram mais a Deus do que a própria vontade (Mt.16.24-25) e, pelo poder do Espírito e da Palavra de Deus resistem às tentações do mundo (Gl.5.16). Se caírem em algum pecado, não ficam prostradas, pois Deus as ergue (Sl.37.24). E mesmo diante dos mais fortes desejos do coração, encontram no Espírito Santo o poder necessário para vencer as inclinações da carne, a fim de que se mostrem fiéis filhos de Deus (Fp.4.13).


A ETERNIDADE E O CASAMENTO
Na ocasião da volta de Cristo, o casamento terá cumprido todos os propósitos divinos, mencionados anteriormente: 1) Veicular o nascimento do Filho de Deus; 2) Promover auxílio para o bom desempenho das ordenanças dadas por Deus ao homem, de forma que cultivar e guardar o jardim fosse partilhado por sua companheira; 3) Formar um povo santo para Deus, constituído de famílias firmadas em aliança, a partir do fiel relacionamento conjugal entre o homem e sua mulher; 4) Proporcionar uma relação de comunhão entre seres humanos, a fim de que houvesse mútuo cuidado, edificação, carinho e auxílio em tudo; 5) Ser uma oficina para o exercício das virtudes divinas partilhadas pelo homem.

Na eternidade, o casamento será visto na relação da igreja com Cristo (Ef.5.32), pois não haverá mais relação conjugal no Reino de Deus (Mt.22.30). Naquele dia, haverá um grande povo santo que fora gerado no decorrer das gerações. Seus concidadãos são chamados de irmãos, pois são partes de uma mesma família chamada de “família de Deus” (Ef.2.19). A aliança dentro dessa família durará para sempre e será perfeita. Como uma grande família, todos partilharão do amor, bondade, paciência, benignidade, contentamento, mansidão, cuidado mútuo etc. Uma aliança estabelecida por Cristo regerá todo o povo de Deus, aliança que não poderá ser quebrada por nada nem ninguém, assim como o casamento ordenado pelo Senhor.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Adultos para os prazeres, jovens demais para responsabilidades

De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a tua palavra” (Sl.119.9)

Até o século XVIII, o menino crescia aprendendo a profissão do pai e a menina os papeis de esposa e mãe. Aos 12 anos, ambos já estavam prontos para o casamento, pois haviam sido preparados por seus pais, desenvolvendo a maturidade dentro do lar. Com o avanço tecnológico, no século XIX, o conforto atraiu a atenção das pessoas para um novo estilo de vida, despertando novos olhares ambiciosos de alguns enquanto prometia novos entretenimentos para os cidadãos em geral. Então, homens e mulheres voltaram os olhos para a profissão em detrimento da família, com o fim de alcançar uma vida confortável. A simplicidade foi, pouco a pouco, substituída pelo hedonismo, motivando as pessoas a lutarem pelo bem-estar financeiro, instrumento para a realização de todos os sonhos de consumo. Meninos e meninas passaram a ser preparados apenas para o bom desenvolvimento de suas competências profissionais e a maturidade de ambos os sexos foi se tornando cada vez mais tardia. Hoje, aos 30 anos, os jovens têm o comportamento de uma criança de 10 anos apenas, com uma diferença: querem todos os privilégios da fase adulta (sexo, dinheiro e independência).
A sociedade pagã amoral criou um grupo de indivíduos fora de qualquer padrão Bíblico. O cristianismo havia educado o mundo para uma vida digna e responsável diante do Criador. Todavia, o paganismo ganhou força e, a partir do relaxamento do cristianismo, conseguiu destruir os fundamentos da educação familiar, formando gerações de crianças irresponsáveis que querem todos os benefícios dos adultos sem qualquer responsabilidade compatível. Como um vírus, o paganismo entrou por todas as brechas que apareceram, reivindicando para si a salvação para problemas pessoais e sociais que não haviam sido resolvidos pelo cristianismo por displicência de gerações envolvidas demais com as distrações promovidas pelo mundo pagão. Muitos dos que se dizem defensores dos direitos humanos, hoje, na verdade são apenas propagadores do totalitarismo, fazendo de tudo para tirar da família o direito humano de educar seus filhos dentro do contexto familiar, fragilizando cada dia mais os lares, tirando da criança o privilégio de ser castigada, ensinada a trabalhar, obrigada a respeitar e obedecer os pais (e todas as autoridades superiores) e ser educada no cristianismo, a fim de, livremente e refletidamente, poder decidir qual rumo tomará na vida.
Devemos lembrar que as gerações que hoje compõe os políticos ladrões, médicos gananciosos, sindicalistas preguiçosos, advogados mentirosos, cientistas incoerentes, pais irresponsáveis, mães despreparadas, homens covardes, mulheres cheias de si e cidadãos ignorantes são fruto de um longo processo de desconstrução de valores cristãos, substituindo-os por uma má educação. Eles têm todas as características correspondentes à educação que tiveram como meninos mimados, rebeldes, irresponsáveis e egocêntricos. Esse exemplo serve para alertar aos pais de hoje quanto às implicações da má educação. Os meninos que mentiam no passado estão roubando milhões dos cofres públicos; as meninas que não aprenderam a ser mulher e mãe já destruíram várias famílias fazendo mal ao próprio marido e filhos, e hoje estão divorciadas; as crianças que eram mimadas e não recebiam “não” de seus pais estão afrontando todo tipo de autoridade, desprezando as pessoas e achando que o mundo tem que ser do jeito delas; e aqueles que não foram ensinados a trabalhar quando crianças estão nos sindicatos e ruas reclamando pois querem bolsa família, pois preferem esmolas do governo ao digno trabalho. Ou seja, as pessoas que estão destruindo o mundo de hoje são as mesmas crianças mal educadas de algumas décadas atrás.
Então, pergunto aos adolescentes e jovens de hoje: “Quem quer casar?” Boa parte deles, com a sensualidade à “flor da pele”, levantará as mãos, afirmativamente. O mundo tem bombardeado a cabeça dos adolescentes e jovens com a exposição constante da sensualidade na TV, internet, outdoors e nas roupas cada vez mais curtas das meninas. Por isso, os meninos e as meninas estão tentando ingressar numa vida sexual cada vez mais cedo. Mas, a maturação da juventude não está acompanhando o crescimento muito rápido dos apetites e interesses pessoais da mocidade. Seus pais os ensinaram, a partir do mau exemplo próprio, que não é preciso ter compromisso com nada. Os mesmos que geraram, também entregam seus filhos para alguém criar, quer seja um familiar, babá ou creche. A partir desse mau exemplo, os filhos almejam os benefícios de importantes compromissos sem responsabilidade alguma. Eles não querem casar nem estudar nem cumprir deveres familiares e civis. Eles querem enriquecer para não ter que trabalhar (por isso, muita gente aposta na lotérica) e fazer sexo sem ter qualquer compromisso conjugal. Se o país está hoje na miséria moral, política e econômica é por que seus cidadãos foram ensinados a não ter caráter ao longo de várias décadas, pois “por todos os lugares andam os perversos, quando entre os filhos dos homens a vileza é exaltada” (Sl.12.8).
O problema entrou, também, na igreja. Os jovens querem namorar, pensando nos prazeres que o namoro proporciona, motivados pelo desejo sexual, mas muitos não demonstram nenhuma, ou pouca, responsabilidade com a vida. Eles são incapazes de expor a “razão da esperança” (1Pe.3.15) cristã; estudam apenas pela obrigação de terem um diploma, pois não refletem sobre a importância do papel cristão na sociedade. As reuniões de oração e doutrina são escassas de jovens. Eles jogam vídeo-game, vão ao cinema, namoram, ficam horas no Facebook, saem e querem chegar tarde, mas nem mesmo as mínimas responsabilidades domésticas e eclesiásticas querem assumir. E quando um adulto os chama de infantis eles acham ruim e se sentem ofendidos, pois não são capazes de avaliarem a si mesmos. De forma semelhante, os pais procriam, mas não educam. O conhecido “cultinho infantil”, momento em que algumas igrejas tiram as crianças do culto, antes do sermão, também serve de exemplo sobre o mau hábito de se substituir a responsabilidade dos pais. Não estão ensinando os pais a: educarem seus filhos, fazendo-os se comportarem no culto; ouvirem o sermão cuidadosamente, para ensiná-lo aos filhos em casa; e, serem a fonte do ensino cristão para os filhos no dia a dia. Em vez disso, a responsabilidade é repassada para outra pessoa escolhida para cuidar dos filhos dos outros, enfraquecendo, assim, a relação familiar em torno da Escritura Sagrada.
Dentro desse contexto, os adolescentes e jovens querem crescer para aproveitar as coisas boas da fase adulta, mas não querem amadurecer para não receberem as responsabilidades correspondentes. Eles querem namorar bastante, ter dinheiro para gastar com o que desejarem e mandar “no próprio nariz”, mas quando são chamados à responsabilidade cristã: ter uma vida de oração, meditar e estudar a Palavra do Senhor, se envolver com a vida social de forma refletida e relevante, assumir compromissos com a família e igreja, então eles se apresentam como "jovens demais" para tais responsabilidades. Portanto, enquanto os jovens demonstrarem imaturidade e irresponsabilidade com a vida que Deus os confiou não estarão aptos para receberem bênçãos maiores, pois estas também serão acompanhadas de responsabilidades maiores. Por isso, é necessário que os pais não tenham receio de cortar benefícios de seus filhos até que estes queiram aceitar as responsabilidades, também. Assim, os pais estarão obrigando seus filhos a aceitarem o desenvolvimento da maturidade. Caso eles não queiram crescer em maturidade, se tornarão adultos infantis que serão problema para a sociedade, como muitos tem sido em nossos dias.
É claro que, tendo em vista o elevado grau de imoralidade exposta nas ruas, o casamento entre cristãos tornou-se um importante instrumento divino para preservar seu povo na santidade. O casamento se mostra, mais do que em outras gerações, uma bênção divina importante para proteger os cristãos desse mundo imoral. Então, torna-se mais gritante a necessidade de prepararmos nossos jovens para o casamento, a fim de que usufruam da benção de ter seu próprio cônjuge e desfrutem de todas as alegrias de uma vida conjugal abençoada por Deus. Assim, poderão se regozijar no sexo saudável e aprovado pelo Senhor, protegendo-se mutuamente por meio da oração e do saciar mútuo diário, edificando-se, também, mutuamente por meio da Escritura Sagrada. Mas, para que isso aconteça, as famílias precisarão dedicar todo esforço à educação de seus filhos por meio de um ensino fiel e maduro da Escritura Sagrada. Os filhos precisarão aprender sobre o papel do homem e da mulher e o propósito da família, a fim de participarem da construção de uma sociedade temente a Deus em que tudo é feito para a glória do Senhor. E mesmo que o esforço para educar possa parecer improdutivo no presente, lembrem-se que os frutos da boa educação aparecem quando a árvore finalmente chega na fase adulta, como diz Provérbios: “Ensina ao menino o caminho que deve seguir, e assim, mesmo quando for velho, não se afastará dele” (Pv.22.6).
Portanto, pais, eduquem seus filhos para que sejam homens e mulheres, não crianças a vida toda. Eles precisam ser castigados no momento certo, necessitam da presença dos pais como exemplos para a vida e carecem do conhecimento da Verdade, a Palavra de Deus, por meio da qual serão conduzidos a Cristo, o varão perfeito. Somente em Jesus, crianças tornam-se homens ou mulheres maduros capazes de refletirem sobre tudo na vida. Os filhos ensinados na Escritura, hoje, serão capazes de refutar doutores marxistas amanhã; filhos conduzidos à maturidade por meio da Palavra de Deus, hoje, estarão aptos a lutar pelo futuro do país; filhos que foram alvos do zelo de seus pais, hoje, formarão famílias fortes dentro da igreja e da sociedade por muitas gerações.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O apostolado conforme a Escritura Sagrada

Mas o que faço e farei é para cortar ocasião àqueles que a buscam com o intuito de serem considerados iguais a nós, naquilo em que se gloriam. Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras.” (2Co.11.12-15)

A igreja do Senhor Jesus é chamada de apostólica. Este adjetivo aponta tanto para o fundamento doutrinário colocado pelos apóstolos escolhidos pelo Senhor Jesus quanto para o caráter missionário da igreja, pois foi enviada pelo Senhor para pregar o evangelho ao mundo. Portanto, o termo “apostólico” assume duas conotações: a primeira relacionada ao ofício instituído por Jesus e a segunda relacionada ao sentido mais amplo do termo que primariamente significa “enviado”, para se referir à pessoa que recebia a incumbência de levar uma mensagem oficial em nome de uma autoridade. É neste ultimo sentido que “apóstolo” foi usado para se referir a outras pessoas que não os Doze e Paulo.
Há alguns termos no Novo Testamento que tanto são usados em seu sentido mais comum quanto em referência ao ofício o qual denominam. É o caso do termo “diácono” usado para se referir ao grupo de oficiais escolhidos para servir a igreja (At.6.1-3; Fp.1.1; 1Tm.3.8), mas também para se referir ao serviço (ministério) em geral (At.1.17; Rm.11.13). Neste sentido mais abrangente, Paulo se refere a si mesmo e ao seu trabalho com o termo “diácono/diaconia” (1Co.3.5; 2Co.5.18). O mesmo ocorre com o termo “presbítero”, que tanto se refere à pessoa idosa quanto ao oficial que pastoreia a igreja (At.2.17; At.15.4). É evidente que há alguma relação entre os usos (diácono-servo; ancião/sábio-presbítero), mas enquanto um deles somente pode ser direcionado aos oficiais legalmente escolhidos conforme as Escrituras instruem, o outro sentido dos termos pode ser aplicados a muitas outras pessoas. Somente o contexto demostrará em qual sentido o termo está sendo usado pelo autor numa oração específica.
Apóstolo é um desses termos usados tanto em seu sentido comum quanto para designar um ofício específico (At.1.2; At.4.14; 2Co.8.23). Na grande maioria das vezes em que “apóstolo” aparece no Novo Testamento refere-se: aos Doze homens escolhidos por Jesus, ao substituto de Judas, Matias, e a Paulo, o último dos apóstolos. Mas, “apóstolo” também é usado para se referir a outras pessoas a partir de seu significado comum, presente, da mesma forma, no Antigo Testamento: “mensageiro”, “enviado” (Sl.77.49; Jo.13.16). Em Lucas 10.1, Jesus envia setenta discípulos para pregar a chegada do Reino de Deus. Esses setenta são “enviados”, verbo “apostoléo”, como mensageiros das boas novas. Nesse sentido, o termo “apóstolo” pode ser usado para qualquer pessoa que seja enviada pela igreja como a missão de pregar o evangelho. Contudo, ainda assim, as pessoas que receberam a designação (Barnabé, por exemplo) foram destinadas oficialmente, não como os Doze e Paulo, mas como missionários da igreja de Jesus, levando as boas novas.
Timóteo, Tito, Silas, Barnabé, Epafrodito, Lucas, Onésimo e muitos outros irmãos fizeram parte do ministério do apóstolo Paulo. Alguns deles eram pastores, outros não sabemos se realmente exerciam esse ministério. Timóteo era o mais próximo dos amigos e cooperadores de Paulo. Seu nome aparece em dez das treze cartas do apóstolo e, na ausência de Paulo, Timóteo organizava e ensinava as igrejas, preparando homens para serem presbíteros, corrigindo problemas presentes entre estes e exortando a igreja (1Tm.5.22). Contudo, em vez de Timóteo substituir Paulo como um supervisor, ele ajudava o apóstolo, tanto estando presente em sua jornada quanto cuidando da igreja em sua ausência, de forma que, quando Paulo chegava à igreja onde Timóteo estava, logo o apóstolo assumia tudo. Timóteo era um presbítero/pastor, mas, por sua íntima relação com Paulo, cumpria seu ministério auxiliando o apóstolo.
Ainda que Paulo tenha participado da ordenação de Timóteo, este foi ordenado sob a imposição de mãos do presbitério, da mesma forma como ele impunha a mão para ordenar outros presbíteros/pastores (1Tm.4.14). Não há indicação de alguma diferença entre sua ordenação e a ordenação dos demais presbíteros. Em 1 Timóteo 3.1-7, Paulo lista as qualificações dos bispos sobre os quais Timóteo poderia impor as mãos para que fossem ordenados. Junto aos critérios para a escolha de bispos, Paulo elencou o que era necessário para a escolha de diáconos. Se bispo e presbítero não são o mesmo ofício, por que, então, Paulo omitiu os critérios para a escolha dos presbíteros/pastores? É obvio que não houve omissão, pois o episcopado é uma referência à única liderança pastoral da igreja local: o presbiterato. Um pouco mais à frente, quando Paulo trata do salário desses líderes, ele os chama de presbíteros (1Tm.5.17). Na relação de ofícios escrita por Paulo à igreja de Éfeso, não aparece o suposto ofício intermediário, o “bispo”: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” (Ef.4.11). Desta forma, não há qualquer indicação nas cartas de Paulo, da existência de um ofício entre o presbiterato e o apostolado. Além disso, Timóteo e Tito não eram os únicos que auxiliavam Paulo. Epafrodito também era “companheiro de lutas” de Paulo (Fp.2.25) e realizava tarefas semelhantes às dos outros jovens pastores, Timóteo e Tito, na igreja de Filipos.
Conforme Calvino, a carta de Paulo a Timóteo não tinha como propósito apenas instruir Timóteo, mas ensinar outros também como uma carta pública. Além disso, uma vez que Timóteo deve ter encontrado alguns obstáculos na igreja, Paulo queria credenciar Timóteo embasando sua autoridade para realizar tudo o que Paulo o havia designado a fazer. A carta de Paulo a Tito cumpre semelhante propósito. Provavelmente, somente Tito e Timóteo receberam cartas, porque elas deveriam ser lidas por todos os líderes, não somente os que ajudavam Paulo, mas também pelos demais. Além disso, nem todas as igrejas apresentaram os mesmos problemas, tornando desnecessárias tais palavras de Paulo em outras regiões e ocasiões. Timóteo (nem outro personagem do Novo Testamento), portanto não recebeu sucessão do ministério de Paulo nem possuía outro ministério além do presbiterato.
Conforme Herron, apostolado, antes da morte e ressurreição de Jesus, vem da noção judaica de representatividade dos oficiais enviados em uma missão específica. Segundo Robert Duncan Culver, “embora a palavra seja antiga, e haja uma palavra hebraica equivalente-próximo usada no Antigo Testamento e na literatura Rabínica, o uso do Novo Testamento é sem precedente” (CULVER, 1977, p.131) O substantivo “apóstolos” não aparece na Septuaginta, mas o verbo “apostoléo” é usado 521 vezes, geralmente no contexto de uma missão importante: O corvo que deveria mostrar para Noé se as águas já haviam secado (Gn.8.7); os anjos do Senhor enviados para destruir Sodoma e Gomorra (Gn.19.13); o anjo enviado por Deus para guiar Abraão (Gn.24.7); o envio de Moisés para libertar Israel (Ex.3.14); o envio dos moços de Davi para falar com Nabal (1Sm.25.5) etc.
No Novo Testamento, o substantivo “apóstolos” é usado 80 vezes das quais 99% dessas ocorrências são indicações diretas e claras aos Doze homens escolhidos por Jesus, incluindo Matias no lugar de Judas, e Paulo, o último dos apóstolos. O verbo “apostoléo” aparece 132 vezes no Novo Testamento e também se refere ao envio para uma missão importante. Em Mateus 10, Jesus usa o verbo para se referir à missão dos apóstolos como representantes legais do Senhor Jesus: “Quem vos recebe a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou.” (Mt.10.40). Desta forma, o termo está envolta de um caráter legal, oficial, que Cristo usa para denominar suas oficiais testemunhas, responsáveis pela mensagem oficial do evangelho de Jesus para sua igreja.
O apostolado foi algo extraordinário, à semelhança dos profetas do Antigo Testamento que desapareceram após os últimos profetas Ageu, Zacarias e Malaquias. Sua existência cumpriu propósito determinado e temporário. Kuyper adjetiva o apostolado como Santo, por causa do caráter exclusivo deste ofício. Os apóstolos foram testemunhas de Jesus que viveram com Jesus e receberam o ensino direto de Jesus. Uma vez que um dos critérios para o apostolado era ter visto Jesus, a fim de ser testemunha de sua ressurreição, o ofício fica restrito àqueles que foram chamados pessoalmente por Jesus, ou que viram a ressureição de Jesus. Uma série de figuras no livro de Apocalipse apontam para os Doze apóstolos somente. A nova Jerusalém é edificada sobre 12 colunas, há 12 portas, 12 fundamentos (Ap.12.1; 21.12,14,21). Por essa razão, Paulo gastou muito tempo defendendo seu ministério apostólico, comprovando que se enquadrava nos critérios exigidos.
A escolha de Matias para ocupar a ultima vaga mostra que o circulo era fechado, não houve mais vaga. A nova Jerusalém está fundamentada sobre os 12 apóstolos, um número fechado. Por ser um grupo fechado até Paulo teve dificuldade de ter seu apostolado reconhecido por algumas igrejas. Eles haviam sido escolhidos pelo Senhor Jesus pessoalmente, receberam autoridade do Senhor para lançar o fundamento da igreja e eram testemunhas da ressurreição de Jesus. Além de Paulo e dos doze, incluindo Matias que foi escolhido pela direção do Espírito de Deus, nenhuma outra pessoa foi escolhida por Jesus para exercer o ministério apostólico. A autoridade deles estava no chamado pessoal recebido de Cristo e isto não era compartilhado com mais ninguém.
Pouco a pouco os apóstolos foram morrendo, ou sendo mortos, contudo a igreja não os substituiu, pois a igreja sempre compreendeu o caráter extraordinário do ministério apostólico. Caso houvesse qualquer necessidade de se manter os doze apóstolos permanentemente na igreja, após a morte de qualquer um deles haveria a substituição imediata, o que não aconteceu. Os “pais da igreja” não se viam como sucessores dos apóstolos, mas como ministros de Deus que deveriam propagar a Palavra deixada pelos apóstolos, À semelhança do que os pastores da presente geração devem fazer. Não há, na história da igreja dos primeiros séculos, a presença de apóstolos. Somente movimentos heréticos reivindicavam tal autoridade para propagarem suas heresias no meio da igreja. Somente na idade média aparecem as primeiras reivindicações de sucessão apostólicas, influenciados por doutrinas estranhas que ficaram à margem da igreja sem serem completamente destruídas.
Os movimentos apostólicos sempre estão intimamente relacionados com falsas doutrinas, como a teologia da prosperidade, além de criarem divisões no meio da igreja como aconteceu com Edward Irving criador da Igreja Católica Apostólica. Apesar de darem bastante ênfase ao número doze, contraditoriamente possuem centenas de apóstolos espalhados pelo mundo. Ao estarem em desacordo com a Palavra de Deus, muitas vezes discordando dela abertamente, o movimento demonstra que não procede de Deus que jamais poderia se contradizer. Tal movimento se assemelha muito aos movimentos gnósticos do segundo século que além de se considerarem portadores de revelações especiais também reivindicavam autoridade superior.
Em 1Co 12.28 e Ef 4.11, o apóstolo Paulo faz referência aos ofícios existentes na igreja naqueles dias, pois todos os cinco ministério ainda eram vigentes, necessários para edificar a igreja que ainda estava amadurecendo, pois as Escrituras do Novo Testamento ainda não lhes tinha sido dada.
No texto de Efésios 4.11, a lista se restringe aos ofícios e o apostolado aparece primeiro, pois foram postos por responsáveis pela colocação do fundamento da igreja (Ef.2.20). A liderança máxima da igreja era formada pelos apóstolos escolhidos pelo Senhor Jesus, inclusive Paulo, o ultimo a ser chamado por Jesus. As quatro vezes em que Paulo usa o termo “apóstolos” na sua carta aos Éfesos, ele está se dirigindo ao colegiado fechado de apóstolos (Ef.1.1; 2.20; 3.5; 4.11). A primeira menção (Ef.1.1) se refere a Paulo que estava, por meio da carta, dando Palavra de Deus para a igreja. A segunda e terceira aparição do termo (Ef.2.20 e 3.5), apontam para o papel fundamentador revelador dos apóstolos que seriam os instrumentos legais para revelar e administrar a revelação da Escritura da Nova Aliança. Por isso, a ultima vez em que aparece o termo apóstolo (Ef.4.11), ele vem em primeiro lugar, tendo em vista todo seu singular ofício dentro da igreja, mostrado por Paulo nas ocorrências anteriores. Uma vez que Paulo está se referindo aos apóstolos escolhidos por Jesus, administradores da revelação divina da Nova Aliança, não poderia estar se referindo à permanência do apostolado na história da igreja.
O fato de o termo aparecer junto a outros termos que permaneceram, “pastores e mestres”, não significa em hipótese alguma que o apostolado também devesse permanecer. Os apóstolos edificaram a igreja durante o primeiro século, colocando o fundamento e administrando a revelação. Após a morte de todos os apóstolos, os pastores e mestres, junto aos irmãos da igreja, edificam o corpo de Cristo, alicerçados no fundamento posto pelos apóstolos. Desta forma, pode-se dizer que os apóstolos sempre estão presentes na edificação da igreja, por meio das Escrituras sagradas.
Em 1 Coríntios 12.28, o apostolado aparece junto à lista de alguns dons, pois os irmãos da igreja estavam dando mais ênfase nos dons do que ao ministério dos apóstolos e consequentemente à Escritura dada por eles à igreja. Paulo não está dizendo que o apostolado é um dom simplesmente, mas que tem primazia dentre os ministérios, profetas e mestres, e mais ainda sobre os dons que aparecem por ultimo. Os cristãos deveriam não só honrar os apóstolos, mas principalmente ouvi-los obedientemente, pois deles viria a Palavra de Deus que estava pouco a pouco sendo revelada para a igreja. Dentre o conjunto de revelações, os livros do Novo Testamento, estavam as cartas dirigidas à igreja de Coríntios que deveria ser recebida como Palavra de Deus, a fim de ser obedecida. Vale salientar que a igreja tinha um sério problema com respeito à submissão. Irmãos se achavam muito espirituais, homens e até mulheres, e por causa dos dons que possuíam, rejeitavam a liderança oficial da igreja.
Desta forma, em nenhum dos textos, Paulo está defendendo a permanência do ministério apostólico, mas sua primazia que, no primeiro século, deveria ser dada aos apóstolos escolhidos pelo Senhor, a fim de que todos recebessem o fundamento posto por eles: Jesus Cristo. Após a morte dos apóstolos a igreja é submissa ao ensino apostólico por meio da humilde obediência à Palavra de Deus entregue por eles.

Um dos perigos da Nova Reforma Apostólica é sua aparência de piedade. Uma pessoa menos esclarecida no conhecimento das Escrituras Sagradas pode ser facilmente envolvida a aderir ao movimento. Os adeptos desse movimento citam as Escrituras, fazem referencia à necessidade de se buscar uma vida piedosa, utilizam-se da história da igreja e até fazem menção da reforma protestante e a volta de Jesus, inserindo, assim, o movimento dentro do curso histórico da igreja. Alguns dos erros teológicos da Nova Reforma Apostólica são:

Sucessão do ofício apostólico
Conforme a Nova Reforma Apostólica, o ministério apostólico é permanente e deve durar até a chegada de Jesus. A ausência desse ministério durante centenas de anos é atribuído a um erro da igreja e seus problemas históricos estariam relacionados a ausência dos cinco ministério: apóstolo, profeta, evangelista, pastor e mestre.
Como já foi demonstrado acima, As Escrituras não ensinam a sucessão do ministério apostólico, erro cometido, também, pelo Catolicismo Romano. Os próprios apóstolos não escolheram novas pessoas para substituírem os que estavam morrendo nem muito menos acrescentaram outros ao grupo. Matias foi escolhido para fechar o número, pois se houvesse a possibilidade de haver outros apóstolos, não apenas Matias, mas outras pessoas poderiam ter sido inseridas uma vez que muitos irmãos, aproximadamente 500, foram testemunhas da ressurreição de Jesus (1Co.15.6). O apóstolo João, último dos apóstolos a morrer, não teve qualquer preocupação em manter uma sucessão apostólica. Não há qualquer ensino no Novo Testamento para que a igreja esteja escolhendo apóstolos, ou mesmo para que não deixe que esse ministério desapareça. Mas, há um cuidado com a escolha de presbíteros (pastores) que deveriam cuidar da igreja de Jesus, segundo o legado dos apóstolos, ou seja, segundo as Escrituras do Novo Testamento.

Autoridade acima das Escrituras
Os apóstolos do movimento atual reivindicam autoridade Escriturística, inclusive superior às Escrituras Sagradas. Eles discordam da Palavra de Deus e acrescentam seus próprios ensinos como se estes fossem sagrados.
Uma vez que as Escrituras são a Palavra de Deus, inspirada pelo Espírito de Deus, não se pode esperar que o Espírito de Deus entrasse em contradição, ensinando algo por uma pessoa e depois desfazendo o que disse. Deus não mente e sua Palavra permanece para sempre. Uma das características das Escrituras é a unidade, a plena harmonia que há entre todos os Escritos de forma que não há contradição nem contraposição. Este fenômeno é atribuído à inspiração do Espírito de Deus que conduziu tudo de tal forma que as diferenças de tempo, personalidade e cultura não prevaleceram na Escrituração, e a inerrante Palavra de Deus foi transmitida e preservada fielmente.
Paulo disse que todo aquele que não ensina o evangelho fielmente deve ser “anátema”, pois “ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema.” (Gl.1.8-9). Ao desfazerem as Escrituras, os novos apóstolos deixam claro que não procedem de Deus, pois rejeitam a revelação do Espírito de Deus. Eles se mostram malditos, ensinando contra a Escritura, a fim de desviar o olhar dos pecadores da Palavra de Deus.
Além disso, as Escrituras ensinam que o ofício apostólico, ou os homens escolhidos para serem apóstolos de Jesus, não eram sagrados ou inerrantes, mas os Escritos deles, provenientes da inspiração do Espírito de Deus. O apóstolo Pedro foi exortado por Paulo por causa de sua dissimulação (Gl.2.11) e o próprio apóstolo Paulo recebeu um espinho na carne para não se ensoberbecer (2Co.12.7). Os homens não eram sagrados e sim seus Escritos. Contudo, os apóstolos atuais se consideram inerrantes e portadores de autoridade acima da Escritura Sagrada, blasfemando, assim, contra o Espírito de Deus.

Profecias sobre o fim do mundo
Não é nova a tentativa de acertar o dia da volta de Jesus. Em dois mil anos de história da igreja diversas pessoas dataram “profeticamente” a volta de Jesus e, obviamente, todas erraram. A Nova Reforma Apostólica, à semelhança de outros movimentos heréticos, também tem feito tentativas de datar a volta de Jesus, e se considera a ultima etapa da história da igreja. Conforme os adeptos, o movimento veio como precursor da segunda vinda de Jesus, e, portanto, estaríamos vivendo os anos finais do mundo antes do dia do juízo final. Não poderíamos esperar outro resultado senão mais uma frustração das expectativas proféticas da volta de Jesus. Desta forma, todas as datas profetizadas vão se passando e os líderes “profetas” vão arranjando desculpas para justificar o não cumprimento da falsa profecia.
As Escrituras não autorizam ninguém, nem os apóstolos que haviam sido escolhidos por Jesus, a marcar data para a volta de Cristo: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade” (At.1.7). Ao contrário, aqueles que diziam que Cristo já havia chegado eram considerados hereges (Mt.24.23-26). A igreja apenas deveria esperar fiel e pacientemente (2Pe.3.9-10). O livro de Apocalipse é uma exortação à igreja, a fim de que esta aguarde com perseverança a volta de seu Senhor.

Teologia da Prosperidade
Normalmente os líderes da Nova Reforma Apostólica ensinam a teologia da prosperidade, também relacionada à ideia de que a igreja está vivendo dias que antecedem a volta iminente de Jesus.
No entanto, a Palavra de Deus aponta uma direção contrária. Uma análise teológico-bíblica dos juízos divinos nos conduz à clara conclusão que os dias que antecedem a visitação do Senhor são sempre marcados por caos e paganismo, como ocorreu nos dias do dilúvio, Sodoma e Gomorra, queda de impérios, cativeiro babilônico etc. A igreja deveria ser perseverante, pois seus dias seriam difíceis, pois o mundo que odeia Deus, também a odiaria e a perseguiria por causa de Cristo, o Senhor da igreja (Jo.15.20). Essa Palavra de Jesus não deve ser compreendida como exclusiva para os apóstolos ou para aqueles dias. Isto fica claro no livro de Apocalipse que é escrito para uma igreja vivendo no final do primeiro século, e em sua mensagem a igreja de Jesus é perseguida em muitas gerações e mesmo passando por um período de glória, logo seria alvo de perseguições outra vez (Ap.20). Esta é a razão pela qual o grande propósito do livro é exortar a igreja a ser fiel e perseverante em todas as circunstâncias, esperando sempre no Senhor que voltará para busca-la.
Os cristãos de nossos dias, portanto, deve analisar todos os movimentos à luz da Escritura Sagrada, sabendo que muitos dos líderes, aparentemente “piedosos”, são, na verdade, falsos obreiros que pretendem atrair para si discípulos (um intento claramente diabólico – Mt.4.9). Isto serve de alerta para os cristãos exigindo que estudem a Palavra de Deus e estejam bem preparados para refutar todo engano, dando clara “razão da esperança” que há em nós (1Pe.3.15).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALVINO, João. Pastorais. São José dos Campos-SP: Fiel, 2009.
CULVER, R. D. Apostles and the apostolate in the New Testament. Bibliotheca sacra. 134, 534, 131-143, Apr. 1, 1977.
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KUYPER, Abraham. A obra do Espírito Santo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2011.
MATOS, Alderi Souza. Edward Irving: Precursor do Movimento Carismático na Igreja Reformada. Fides Reformata 1/2, 1996.
NICODEMUS, Augustus. Apóstolos: A verdade bíblica sobre o apostolado. São José dos Campos: Editora Fiel, 2014.
NORRIS, F. B. The apostolate: a scriptural basis. Worship. 36, 2, 95-100, Jan. 1, 1962.
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