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sábado, 20 de janeiro de 2018

A influência da retórica veterotestamentária sobre a carta de Paulo aos gálatas


RESUMO

Desde que Betz analisou a carta de Paulo aos gálatas a partir das categorias da retórica aristotélica clássica, considerando a epístola uma “carta de gênero apologético”, diversos outros estudos seguiram o mesmo rumo e submeteram as cartas paulinas aos mesmos crivos. O sitz im leben judaico do apóstolo foi substituído por diversas teorias sobre a influência do mundo greco-romano, procurando encontrar nas literaturas e religiões pagãs do primeiro século as fontes que influenciaram não somente a teologia, mas também a retórica das cartas de Paulo.


Contudo, toda a biografia disponível sobre o apóstolo Paulo, tanto em Atos dos Apóstolos quanto nas cartas paulinas, descreve-o como legítimo judeu de origem tradicional, ex-membro da seita judaica mais rigorosa (seita dos fariseus), de origem, estudo e conhecimento judaico. Em Gálatas, Paulo escreve sobre uma controvérsia judaico-cristã, a fim de resgatar os destinatários da apostasia enquanto acusava os judaizantes de enganar os cristãos ao obrigarem-nos a guardar a Lei mosaica. Dessa forma, o ambiente da carta gira em torno do judaísmo, principalmente do Antigo Testamento, para o qual Paulo recorrerá tanto com respeito à teologia quanto fazendo uso de sua retórica.


Tendo em vista que o problema gira em torno do entendimento do Antigo Testamento, o apóstolo demonstra sua habilidade no manuseio da literatura Sagrada e do conhecimento adquirido na escola de Gamaliel. Essa habilidade é demonstrada também no uso de estilos retóricos judaicos comuns ao Antigo Testamento, fonte primária utilizada pelo apóstolo para combater seus adversários e ensinar aos cristãos a relação de continuidade entre a antiga e nova aliança. Tendo a carta aos gálatas numa mão e o Antigo Testamento na outra, sugere-se que Paulo foi influenciado pelo estilo retórico do Antigo Testamento, tão presente na mente do apóstolo que as estruturas surgem naturalmente, moldando a construção de suas ideias em todas as três divisões da carta (Gl.1-2; Gl.3-4 e Gl.5-6).

  

Palavras-chave: Retórica. Antigo Testamento. Gálatas. Paulo.

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The influence of Old Testament rhetoric on Paul's letter to the Galatians



ABSTRACT

Since Betz analysed Paul’s letter to the Galatians from the classical Aristotelian rhetoric, considering the epistle an “apologetic letter”, several other studies have followed the same way and have submitted the letters of Paul under the same understanding. The apostle’s Jewish “sitz im leben” has been replaced by several theories about the influence of the Greek-Roman world, trying to find in the pagan literature and religions of the first century the sources which had influenced not only the theology, but also the rhetoric of Paul’s letters.

However, all the available biography about the apostle Paul, either in the Acts of the Apostles or in Paul’s letters, describes him as an authentic Jew with an orthodox origin, former member of the most rigorous Jewish sect (the Pharisees sect), with Jewish origin, study and knowledge. In the letter to the Galatians, Paul writes about a Jewish-Christian controversy willing to rescue the addressees of apostasy, while accusing the Judaizers of misleading thechristians making them keep Moses' law. In this way, the subject of the letter is the Judaism, mainly based in the Old Testament, which Paul will use regarding both theology and rhetoric.

Once the problem was concerned with the correct understanding of the Old Testament, the apostle shows his ability to handle with the sacred literature and the knowledge acquired in the school of Gamaliel. Such ability is also presented using the Jewish rhetoric genre, common to the Old Testament, which was the primary source used by the apostle against his opponents and to teach the christians the relation between the old and the new covenant.

Combining the letter to the Galatians with the Old Testament, we suggest that Paul was influenced by the rhetoric style of the Old Testament, which was firmly fixed in the apostle’s mind such that the same structures arise naturally, influencing the construction of his ideas in all three divisions of the letter (Gal 1: 2; Gal.3: 4 and Gal.5: 6).


Keywords: Rhetoric. Old Testament. Galatians. Paul.


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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Como Jesus tratou as pessoas?

Então, perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós outros retirar-vos?” (Jo.6.67)

Você já observou como Jesus tratou diversas pessoas com quem tinha algum contato? Ao contrário do que muitos pensam Jesus não era agradável às pessoas o tempo todo. Ele contrariou as lideranças da época e confrontou as multidões secularizadas; seu tom de voz nem sempre foi manso e suave, pois diversas vezes proferiu palavras duras para os discípulos e os adversários (Mt.16.22-23; Mt.23; Jo.6.66-67); suas palavras nem sempre foram fáceis de serem compreendidas, pois muitas vezes pregou por parábolas para que as multidões não entendessem (Mt.13.10-15). Portanto, a imagem de um Cristo sempre agradável, manso e pronto para aceitar tudo sem contrariar ninguém não condiz com o testemunho dos Evangelhos acerca do Filho de Deus.

Desejamos mostrar que nosso “bom pastor” (Jo.10.14) não tinha a caricatura de um líder carismático que sempre agradava as pessoas. Para comprovarmos isso, veremos diversos eventos narrados nos Evangelhos onde Jesus se relaciona com as pessoas em alguma medida e procuraremos explicar diversas atitudes de Jesus, a fim de elucidar que o bom pastor não veio para satisfazer as vontades dos homens, nem mesmo de suas ovelhas. Por essa razão, os Evangelhos não escondem as diversas vezes em que Jesus se aborreceu com as pessoas a seu redor ou mesmo disse palavras duras para seus discípulos. Os relacionamentos de Jesus eram perfeitos, ou seja, Cristo não fingia sentimentos nem era hipócrita com o povo. Ele sempre se relacionava com as pessoas por meio da Verdade de forma que tratava cada uma de acordo com essa Verdade, quer suave e manso quer áspero e duro.

Cristo começou seu ministério com as seguintes palavras: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt.4.17). Ele não chamou pessoas para participarem de seu grupo de discípulos, apenas, nem propôs encontros interessantes e agradáveis para atrair famílias. Jesus foi no âmago do problema daquela geração, chamando-a para um verdadeiro relacionamento com Deus, Criador e Senhor de tudo. E considerando que as pessoas “estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mt.9.36), alguns poderiam esperar palavras mais consoladoras e doces, tais como:

- Vai dar tudo certo! Apenas confiem em Deus.
- Deus ama vocês do jeito que vocês são.
- Orem que Deus dará vitória para vocês.
- Vamos fazer alguma programação interessante para motivar a igreja.

Todavia, o que o povo precisava não era de autoajuda nem de massagem no ego nem de promessas de vitória e prosperidade nem de subterfúgios. O problema dos judeus chamava-se pecado (Jo.8.32) e somente por meio do verdadeiro arrependimento o povo de Deus desfrutaria da alegria da salvação que Jesus lhe daria por meio da justificação. Por isso, as palavras de Jesus, que o acompanharão por todo o ministério, são palavras de confronto ao pecador, a fim de que a relação com Deus, com o próximo e com o irmão na fé estivesse fundamentada na verdadeira fé:

- “se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mt.18.3).
- “se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lc.13.5).
- “se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados” (Jo.8.24).

Jesus estava diante de pecadores que precisavam ouvir a Verdade libertadora. O problema deles não se encontrava na falta de dinheiro ou em alguma doença ou em algo que os incomodava. Subterfúgios apenas esconderiam o real problema, como alguém que varre a sujeira da casa para debaixo do tapete. O problema do homem chama-se pecado, e somente a Verdade pode mostrar-lhe isso, pois “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jr.17.9). Jesus, então, bate de frente com aquela geração, sabendo que o orgulho os faria rejeitar o chamado divino ao arrependimento; a arrogância os faria achar que sabiam a resposta para todos os seus problemas; a dureza de coração os faria senhores de si mesmos. Por isso, Jesus lhes era desagradável, pois a Palavra DELE sempre confrontava as multidões revelando seus mais profundos sentimentos, pensamentos e desejos pecaminosos.

O Evangelho de João nos conta que Cristo deu “princípio a seus sinais em Caná da Galiléia” (Jo.2.11) transformando a água em vinho. Mas, primeiro Jesus dirigiu-se para sua mãe com as seguintes palavras: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora” (Jo.2.4). Aquela foi a única ocasião em que Maria interferiu no ministério de Cristo, porque, mesmo tendo feito o que ela pediu, Jesus deixou claro que não permitiria que Maria se intrometesse em sua missão, pois Ele veio para fazer a vontade do Pai, não a vontade dos homens. Suas palavras, mesmo não sendo hostis, são firmes e pontuais, suficientes para deixar claro qual seu pensamento sobre o assunto. Depois disso, nunca mais Maria tentará interferir outra vez em seu ministério.

Logo em seguida, o apóstolo João narra o momento em que Jesus faz um grande tumulto em pleno período de festa, a festa da Páscoa (Jo.2.13-22). Cristo fez um chicote para expulsar as pessoas do Templo, tendo em vista que estavam banalizando o culto ao Senhor, transformando o Templo em “casa de negócio”. Cristo poderia ter esperado a festa acabar para não ser desagradável com as pessoas que viajaram para sacrificarem a Deus; ou mesmo poderia ter conversado mansamente com as pessoas, a fim de persuadi-las a não mais venderem dentro do pátio do Templo. Todavia, o zelo pelo Senhor encheu o coração de Cristo que não se conteve diante do que viu. Ele estava diante de falsos crentes que tinham no coração apenas a avareza e se aproveitavam da religião para ter lucro. Algo bem semelhante ao que tem ocorrido em diversas seitas e denominações, pois, além de venderem o Evangelho, inseriram dança, filme, show pirotécnico e até aniversário de pastor no culto que pertence exclusivamente a Deus. Mas, o que diriam se um pastor pegasse um chicote e começasse a expulsar as pessoas da igreja?

Até o momento, então, Jesus não se parece nada com uma pessoa que está sempre sorrindo para todo mundo, contando piadas em suas pregações, procurando agradar a todas as pessoas. Jesus realizou a obra do Senhor com seriedade, sem brincadeiras nem bajulações. Cristo chamou as pessoas ao arrependimento sem receio de ofendê-las por meio da pregação da Verdade, pois não tinha qualquer interesse na política eclesiástica nem nos favores dos homens. Jesus não estava interessado em ter muitos discípulos, mas apenas em salvar as ovelhas que o Pai lhe havia dado (Jo.6.39,44). Sua missão era fazer a vontade do Pai com fidelidade, conduzindo os homens para a salvação por meio do fiel ensino da Escritura Sagrada. Por essa razão, Jesus chamou a si mesmo de “bom pastor” (Jo.10.11).

Voltando para o Evangelho de Mateus, encontramos um longo sermão de Jesus (Mt.5-7). Nesse sermão, Jesus corrige a interpretação da Escritura feita pelos escribas e fariseus, contrapondo, assim, a liderança daqueles dias. Devemos observar que Jesus torna claro a todos que não adiantaria viverem uma religiosidade aparente, pois Deus conhece plenamente o coração do homem. Nisso, Cristo começou a desagradar àquelas pessoas que cumpriam regras aparentes, mas não viviam a lei do Senhor de todo o coração. Já no final do sermão, após ter revelado os pecados mais íntimos de seus ouvintes (Mt.5.21-48), Cristo lhes dirige as seguintes palavras: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt.7.21). Em outras palavras, Jesus diz ao povo:

- Não pensem que vocês me enganarão no último dia. Não adianta fingir que servem a Deus, pois Deus conhece o coração de vocês. Não adianta dizer que conhecem a Deus se não fizerem a vontade do Senhor. Se vocês não viverem uma vida piedosa a partir do coração serão lançados no inferno junto com todos os demais pecadores.

Com essas palavras, Jesus estava conduzindo as verdadeiras ovelhas ao arrependimento enquanto sabia que os demais pecadores resmungariam por causa de suas duras palavras. Dessa forma, as Palavras de Cristo sempre encontravam duas reações diferentes: aceitação ou rejeição; humildade ou orgulho; confissão ou dureza de coração; amor ou ódio. Suas palavras soavam doces aos ouvidos daqueles que eram tocados pelo Espírito de Deus, pois eram suas ovelhas (Mt.7.28-29). Todavia, zuniam amargas e desagradáveis para aqueles que queriam viver em pecado, pois não pertenciam a Cristo, como joios no meio do trigo (Mt.13.24-30; Jo.10.26.27).

Algo semelhante ocorre em João 6 onde é narrada a ocasião na qual Jesus confrontou as multidões interessadas apenas no pão de cada dia. Jesus havia realizado um grande sinal como testemunho sobre quem Ele era. No entanto, as multidões voltaram no outro dia apenas para receber mais pão, esperando que Jesus as alimentasse outra vez. Em vez de Jesus fazer o que aquelas pessoas queriam, Ele frustra os anseios do povo e começa a pregar sobre a necessidade de crerem nEle para que tivessem a vida eterna, pois para isso Ele havia vindo (Jo.6.40). À vista disso, muitas pessoas foram embora aborrecidas, pois Jesus não fez a vontade delas (Jo.6.60-65). O bom pastor tornou-se chato e desagradável para aqueles que não queriam nada com Deus, pelo simples fato de lhes falar a Verdade, pois não queriam mais do que o pão de cada dia.

Então, o bom pastor começou a perder muitos seguidores, como se uma igreja visível começasse a perder membros. Todavia, em vez de Jesus ficar preocupado com isso, ou mesmo tentar fazer as pessoas voltarem a segui-lo, Cristo se dirige para os discípulos mais chegados e os experimenta dizendo: “Porventura, quereis também vós outros retirar-vos?” (Jo.6.67 cf. Mt.16.21-23). Mesmo com a dureza de suas palavras, Pedro lhe responde com humildade e singeleza: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (Jo.6.68). Dessa forma, o narrador mostra aos leitores a grande diferença entre as verdadeiras ovelhas e as demais pessoas. Enquanto Jesus era desagradável para aqueles que não o conheciam nem o reconheciam como Senhor e Salvador, era a fonte de vida eterna para as verdadeiras ovelhas do rebanho celestial.

Em outra ocasião, Jesus mostrou-se desagradável por não respeitar as tradições dos homens nem se preocupar em contrariar a cultura de seus dias (Mt.15.1-9). Bem que Jesus podia ter estimulado os discípulos a não desprezarem as tradições dos anciãos. Todavia, quando questionado por não guardar as tradições, Jesus rebate a acusação dos fariseus e escribas por meio da Escritura e ainda os ofende diante de toda a multidão, chamando-os de hipócritas (Mt.15.7). Não foi nada agradável o que Jesus fez! Ele poderia ter satisfeito a vontade daqueles homens, afinal não há nada demais em lavar as mãos. Contudo, Jesus não poderia concordar com a hipocrisia daqueles líderes tão preocupados com tradições enquanto transgrediam a Palavra de Deus, pervertendo, assim, o caminho daqueles que deveriam estar andando com Deus.

Inúmeras vezes, Jesus proferiu palavras duras e ofensivas para aquela geração (Mt.11.16; 12.39; 16.4; 17.17; 23.36). Ao contrário dos líderes de nossos dias sempre preocupados em agradar às pessoas, Jesus não se importou em chatear seu público. Políticos se esforçam para alcançar votos e o favor dos homens (2Sm.15.1-6), mas aqueles que são chamados por Deus se dedicam, a fim de serem fiéis no cumprimento da missão que lhes fora confiada pelo Senhor (2Tm.4.5). Por isso, não parece que Cristo estivesse interessado em agradar às multidões, afinal quem gosta de ouvir desaforo dos outros? Não é de se estranhar que muitas pessoas tivessem deixado de segui-lo após terem ouvido seus sermões. Jesus não poupava nem mesmo seus discípulos mais próximos, pois os corrigia na medida de seus pecados. Quando Pedro, preocupado com o bem-estar de Cristo, tentou persuadi-lo a não ir para a cruz, Jesus lhe dirigiu as seguintes palavras: “Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus e sim da dos homens” (Mt.16.23). Pedro não percebeu, mas havia cometido um grave erro servindo de tentação para Cristo, pois não ir para a cruz seria desobediência ao Pai. Muitos pastores, presbíteros e diáconos deveriam ouvir repreensões semelhantes por tentarem atrapalhar a obra do Senhor, pois são mundanos em seus pensamentos, desejos e intensões. Mas, quem suportaria tais palavras?

Nem sempre Jesus atendeu às pessoas como elas queriam (Lc.12.13-14); nem sempre Ele foi agradável no tratamento aos que o procuravam (Mt.15.22-23). Muitas de suas palavras não foram doces, pois o verdadeiro discípulo deveria negar a si mesmo, tomar a cruz e segui-lo (Mt.16.24). Dessa forma, em vez de satisfazer os desejos do coração daqueles que o seguiam, Cristo lhes transmitiu a Santa, Perfeita e Pura Verdade: “quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á” (Mt.16.25). Suas palavras, portanto, não foram nada convidativas para uma geração que estava apenas preocupada com o pão de cada dia. E quando lhe pediram um sinal para que cressem nEle, Jesus lhes dirigiu as seguintes palavras: “Uma geração má e adúltera pede um sinal; mas nenhum sinal lhe será dado” (Mt.12.39).

O procedimento de Jesus em todo seu ministério seguiu o padrão que apontamos acima. Ora palavras duras ora palavras suaves, mas todas ditas conforme a Verdade, de forma que somente as verdadeiras ovelhas viessem para Ele (Jo.10.27). Não importava muito a forma como Jesus lhes dizia a Verdade, pois o que desagradava às multidões não era o tom de sua voz, mas o conteúdo de suas Palavras. Jesus era desagradável às multidões, pois lhes dizia a Verdade sobre quem elas eram e sobre o único caminho para alcançarem a justiça, perdão e salvação (Jo.14.6). A Verdade sempre incomodará os filhos da mentira, pois eles amam o que é mau e não querem que lhes digam que estão errados. Por essa razão, o joio sempre perseguirá aqueles que propagam a Verdade, assim com os escribas e fariseus tentavam matar Jesus por causa de suas pregações (Jo.8.40-45).

Por fim, apresentamos o discurso mais duro de Jesus: Mateus 23. Em João 2.13-22, Cristo derrubou mesas enquanto usava um chicote para expulsar as pessoas do Templo, mas poucas palavras foram ditas às multidões. Contudo, em Mateus 23, Jesus pronuncia um sermão imprecatório para a liderança de Jerusalém. Sem medir as palavras, Cristo acusa os líderes de diversos pecados: ambição, tirania, hipocrisia, orgulho, egocentrismo, vaidade, mentira, avareza, cegueira espiritual, imundície de coração, cumplicidade em homicídios (Mt.23.1-36). E antes de preanunciar o juízo sobre Jerusalém, Jesus lhes dirige as seguintes palavras: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?” (Mt.23.33).

Dificilmente alguém será tão desagradável às pessoas em nossos dias quanto foi Jesus para aquela geração, afinal vivemos dias politicamente corretos. Poucos pastores estão mais preocupados em pregar a Verdade para cumprir o chamado divino do que contar piadas de púlpito para agradar à plateia. Outros fazem teatro ao se mostrarem duros em suas pregações, mas desprezam a verdadeira piedade e o fiel ensino da Escritura Sagrada. E nisso tudo, ninguém quer ser chato para as pessoas, pois pouquíssimas pessoas amam um pastor chato por ser fiel a Deus. Por essa razão, o ministério pastoral transformou-se em profissão e o chamado divino foi rebaixado a título eclesiástico.

Mas, o fato de Jesus não ser o que as pessoas gostariam que fosse seria algo ruim? NÃO!!! Pois, Cristo veio ao mundo para fazer as obras do Pai (Jo.5.36), não para satisfazer a vontade dos homens. Ele não “poderia” ter aberto mão da Verdade por um só momento, a fim de agradar aos discípulos? NÃO!!! Jesus não poderia viver a mentira dos homens para satisfazer aos anseios de uma geração de pecadores desobedientes a Deus. A salvação do homem não se encontra na satisfação de seu querer, mas na satisfação da justiça divina por meio da morte do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. A conversão do homem não ocorre por meio de sua participação em uma denominação, mas por meio de um legítimo arrependimento e fé em Jesus, que dão início ao processo de santificação da vida. A nova vida que Cristo tem para nós não consiste em Deus (o pastor ou a igreja) fazer tudo o que os “cristãos” querem, mas em cada discípulo de Jesus ter em seu coração uma nova disposição pronta para ouvir e atender humildemente toda a vontade revelada por Deus por meio de Sua Palavra.

Jesus era desagradável para aquela geração (e também seria para esta geração) porque lhe pregava a Verdade. Suas palavras não agradaram nem às multidões nem à liderança de seus dias e também não agradariam aos cristãos e líderes das denominações de nosso tempo, pois não atendiam aos desejos pecaminosos de quem queria viver uma religiosidade aparente, repleta de tradições de homens, mas vazia da verdadeira piedade que provém da Palavra e do Espírito de Deus. Sua imagem não era semelhante a um pastor carismático e brincalhão nem a um palestrante sorridente e dinâmico. Jesus não esteve entre os que amavam o poder e a fama nem se deixou levar pelo povo que só queria o pão de cada dia. E por não se enquadrar em nenhum grupo nem favorecer nenhuma pessoa, Jesus foi crucificado por seus contemporâneos.

Com certeza, muitos ao terminarem de ler esse artigo dirão: duro é esse discurso (Jo.6.60)! E da mesma forma como as multidões rejeitaram as palavras de Cristo naqueles dias, diversos ouvintes rejeitarão a fiel pregação do Evangelho de Jesus, hoje. O que fazer diante disso? O pastor deve se consolar nas palavras de Jesus dirigidas aos discípulos antes que começassem o ministério da pregação (Jo.15.20-21), sabendo que a fidelidade a Deus sempre encontrará muitos obstáculos, pois a Verdade sempre será desagradável ao mundo que jaz no maligno:

Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. Tudo isto, porém, vos farão por causa do meu nome, porquanto não conhecem aquele que me enviou. (Jo.15.20-21)

domingo, 7 de janeiro de 2018

Faroeste gospel

Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (Sl.11.3)

No dia 1 de dezembro de 1903, estrelou o filme: “The great train robbery”, o primeiro faroeste da história do cinema. O curta-metragem de doze minutos empolgou as plateias com um pouco de ação, motivando diversos outros filmes sobre a vida no Velho Oeste dos Estados Unidos, chamando assim, a atenção da população para os perigos de uma sociedade “sem lei”, onde cada família precisava defender seus direitos por meio da força.

Mesmo havendo um considerável número de filmes sobre o faroeste, há algo comum entre eles: todos possuem mocinhos, bandidos, dominadores “legais” da cidade e cidadãos comuns. Portanto, mesmo que o enredo possa mudar, o coração das estórias faroestes gira em torno da luta pelo direito, a propriedade privada e a liberdade. E para atender a essas necessidades, surge a figura do mocinho que liberta famílias e cidades das garras malignas tanto dos bandidos quanto dos tiranos que dominavam por meio da força política.

A presente conjuntura evangélica tem apresentado diversas características similares ao faroeste norte-americano. A primeira semelhança é o cenário. Não me refiro aos tumbleweed, plantas secas que rolam pela cidade, mas ao ambiente pesado e agressivo no qual tem se desenrolado os mais diversos enredos da igreja evangélica nacional, com personagens semelhantes. Deixamos, então, de lutar contra o mundo lá fora para lutar contra dominadores e falsos profetas dentro, pois a igreja está dividida, vivendo um cansativo período de guerra civil nos quatro cantos do país.

Mas, o que levou a igreja a tal sofrimento? Por que a guerra interna tornou-se mais forte que a luta contra o paganismo? Porque o mundo conseguiu entrar na igreja visível! Os bandidos que outrora blasfemavam contra Deus lá fora, estão ensinando heresias dentre o povo de Deus; os governantes tiranos que dominavam o povo lá fora, agora estão manipulando a política eclesiástica; o relativismo que predominava lá fora, agora está dissociando a ortodoxia da ortopraxia, enganando o coração de líderes e liderados que se gabam de suas tradições, mas negligenciam “os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé” (Mt.23.23).

Por esta razão, a igreja evangélica brasileira tornou-se um faroeste gospel cheio de cenas de bang bang em que sempre sai alguém ferido, quer pastor, presbítero ou ovelha. E parece que estamos longe de ver o fim dessa guerra, pois pouquíssimos estão, realmente, interessados na preservação da Verdade. Boa parte dos militantes luta pelo estabelecimento da própria vontade disposta a um acordo de paz, apenas, por meio de sua vitória. Infelizmente, na maioria das vezes, Deus tem sido desonrado, pois “o Nome de Deus é blasfemado entre os gentios” (Rm.2.24) que assistem de camarote à guerra civil da igreja, torcendo para que não sobre um só cristão para contar a história, no final.

Com isso, não me refiro à luta contra diversos ensinos heréticos que ressurgiram em nossos dias: a teologia da prosperidade, gnosticismo, idolatria de pessoas importantes, liberalismo teológico, misticismos e sincretismos evangélicos, apostolado hoje, ministério pastoral feminino e coisas semelhantes. Há muitas seitas e heresias contra as quais devemos lutar bravamente, como heróis que defendem a “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd.3). Mas, ao contrário disso, deixamos de lutar contra ameaças externas para impedir que roubem nossa liberdade cristã (Gl.2.4), pois transformaram a igreja de Jesus em fonte de status e lucro.

O salmista havia advertido quanto ao perigo em destruir os fundamentos (Sl.11.3). A Escritura é a expressão do governo do Senhor Jesus, razão porque deve ser obedecida “à risca” (Sl.119.4). Por meio da Palavra de Deus, a igreja é dirigida a “somente um corpo e um Espírito”, “um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” (Ef.4.4-6). Desta forma, todas as divergências deveriam ser tratadas à luz da Escritura, não de opinião pessoais, com toda piedade e temor, com o fim de manter a unidade da igreja de Cristo, diligentemente (Ef.4.3); não “como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe.5.3).

Portanto, ao criarem tradições de homens, invalidando a Palavra de Deus, rejeitaram o governo do Senhor Jesus e abriram portas para todas as mais variadas expressões da crendice humana, quer com aparência de rigor ou mesmo com essência liberal. Além disso, ao tentarem dominar sobre a igreja, estabelecendo regras que beneficiam a si mesmos, os pastores e presbíteros desprezam o fato de que Deus “não faz acepção de pessoas” (1Pe.1.17), sendo Senhor tanto de líderes quanto de liderados, e haverá de julgar aqueles que fazem mal aos pequeninos de Jesus (Mt.18.6; Lc.20.10; Ef.6.9).

Urge, portanto, a necessidade de humilhação. Sim, humilhação! Diferente do que o mundo pensa, a vitória e glória do homem não se encontram no domínio, poder, status ou riqueza. A humilhação do homem perante o senhorio de Cristo Jesus é ponto de partida para a transformação que o Espírito e a Palavra de Deus podem operar, “pois todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado” (Lc.14.11). Pastores, presbíteros, diáconos e todos os demais irmãos precisam se humilhar perante o Senhor, confessando o pecado da soberba, pois quiseram conduzir a igreja segundo o próprio coração, abandonando a Palavra de Deus para cuidar de seus próprios interesses.

O faroeste gospel só chegará ao fim quando Jesus, o mocinho da história, for o único protagonista da igreja do Senhor, o Xerife do povo de Deus, para que todos recorram a sua Palavra, a fim de conhecer a perfeita vontade de Deus. Nesse Reino, não há lugar para bandidos nem dominadores, pois um só é Senhor de tudo e todos (Ap.21.1-7). Também, não há lugar para tradições de homens, pois uma única lei regerá a vida da igreja: a Palavra de Deus. Portanto, aqueles “que têm fome e sede de justiça” (Mt.5.6) devem clamar intensamente a nosso herói: Jesus, sabendo que Ele é nossa única esperança para dias melhores.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Conselho aos jovens teólogos

Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento.” (Pv.3.5)

Vivemos um período considerado posterior ao racionalismo, mas não o fim deste, pois o homem ainda confia demasiadamente na própria razão, considerando-se capaz de conhecer a Verdade por meio de pesquisas e deduções, como Sherlock Holmes, ignorando, assim, que tanto a sabedoria quanto o conhecimento provêm daquele que é a origem e fonte de todas as coisas: Cristo.

Infelizmente, o racionalismo está presente não apenas nas academias regidas por ateus e anticristãos, mas, ainda, em seminários, igrejas e ruas da sociedade. Ou seja, o modo de pensar do homem pós-moderno não é apenas sincretista e supersticioso como, também, racionalista, pois sua fé mais profunda está arraigada na própria razão, a qual superestima, demasiadamente.

Mas, qual o problema em confiar na própria razão? Deus nos fez para pensar, então por que não podemos dar asas aos pensamentos? Já que somos racionais, não deveríamos buscar todo conhecimento por meio da razão? Por mais lógicas que pareçam ser tais perguntas, todas ignoram as implicações da presença do pecado na criação e o fato de que não conhecemos todas as proposições sobre o conhecimento.

O que quero dizer com esses dois fatores: presença do pecado na criação e desconhecimento de todas as proposições? Primeiro, devemos considerar que o pecado entrou no mundo atingindo, também, a mente humana, razão para termos pessoas muito estudiosas e inteligentes (para muitas questões) que acreditam, piamente, que o ser humano provém de uma série de evoluções fortuitas da linhagem dos macacos. Essa crença por si só, demonstra o quanto o pecado atingiu a mente do homem, pervertendo-a. Portanto, não podemos confiar inteiramente nas deduções de mentes caídas, pois até o mais bem estudado assunto pode ser fruto de uma mera utopia, quando não tem sua origem na revelação de Deus.

Em segundo lugar, não devemos ignorar (inclusive os teólogos) que não conhecemos todas as proposições sobre todos os assuntos. Ou seja, sabemos apenas aquilo que nos foi revelado por Deus na medida em que Deus quis revelar para nós. Nem mesmo Adão e Eva antes de pecarem tinham todo conhecimento, pois não conheciam “o bem e o mal” (Gn.3.5), por exemplo. A implicação disso é que a falta de proposições para a construção das mais variadas estruturas lógicas pode nos levar aos mais absurdos erros, com aparência de verdade, pois até a mais bem construída estrutura lógica pode estar completamente errada caso lhe falte alguma proposição essencial que desconheçamos. Por essa razão, todo assunto deve ser tratado com muita cautela, piedade e temor, a fim de não cairmos no pecado dos amigos de Jó, que, não conhecendo a Verdade, construíram falsas deduções e não disseram sobre Deus o que é reto (Jó.42.7).

Ou seja, Deus não quis revelar ao homem todas as coisas (2Co.12.4; Ap.10.4), exigindo-lhe, assim, uma completa confiança em sua Palavra e uma plena satisfação no conhecimento que lhe fora revelado. Diante disso, a curiosidade humana será sempre uma tentação (1Ts.5.1-2), como foi para Eva que quis conhecer além daquilo que lhe havia sido revelado (Gn.3.6). O teólogo, portanto, deve conhecer os limites de seus estudos, mostrando pleno contentamento com aquilo que Deus lhe revelou, sabendo que o conhecimento que nos foi legado é plenamente suficiente para uma vida abundante com Cristo; tanto na esfera individual quanto social, até a volta de Jesus.

Por essa razão, gostaria de lembrar aos jovens teólogos de nossos dias que o caminho da teologia deve ser trilhado em Cristo e para Cristo. O propósito da teologia não é satisfazer a curiosidade de quem almeja filosofar possibilidades, se achando o maior teólogo de todos os tempos. Deus nos revelou sua Palavra para conhecermos Cristo e vivermos nEle plenamente, desfrutando, assim, de uma vida completa nEle (1Co.2.2; Gl.2.20). Por isso, todo estudo teológico deve ser realizado com piedade e oração, com humildade e temor, visando à edificação da igreja e o pleno deleite do cristão, em Jesus. A curiosidade vã, mesmo nos assuntos teológicos, revela desprezo à seriedade e sublimidade da revelação divina e constitui-se em pecado contra aquele que chama a própria Palavra de Santa, Perfeita, Fiel, Verdadeira, Justa etc (Sl.19.7-10).

Temos muitos jovens teólogos espalhados pelas redes sociais. E tendo em vista o amplo alcance dessas redes, os jovens teólogos conseguem muitos adeptos a suas ideias, rapidamente. Diante disso, mais um problema deve ser antecipado: a alimentação do orgulho próprio. Tenham cuidado com vossos “ídolos”, pois o coração do homem está sempre a procura de alguém para “adorar”. Por isso, os jovens teólogos devem ter cuidado para que, mesmo dizendo verdades, não sejam encontrados usurpando a glória de Deus.

Para não caírem na tentação de se tornarem ídolos para si mesmos e para os outros, estudem a Escritura com humildade, conscientes de suas limitações, rejeitando toda admiração excessiva de terceiros (e de si mesmo). Temam ensinar coisas erradas para as pessoas (Mt.5.19; 1Co.3.11-17), para que sejam mais cuidadosos em postarem suas convicções sem todo estudo adequado. Tenho encontrado diversas postagens com erros exegéticos e teológico-bíblicos que não são identificados por aqueles que curtem as publicações, pois lhes falta conhecimento suficiente das ferramentas e da própria Escritura. Lembrem-se que a leitura de alguns teólogos não os tornam “doutores” em todos os assuntos teológicos, mas apenas conhecedores de algumas vertentes sobre alguns pouquíssimos assuntos que foram tratados por esses estudiosos.


Por fim, não queiram ser mestres sem que tenham sido chamados e preparados para isso. Tiago adverte quanto ao perigo de almejar o caminho do ensino sem uma adequada reflexão: “Irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo.” (Tg.3.1) Lembrem-se que a teologia não visa o envaidecimento pessoal, por meio de fama e status. Todo estudo teológico deveria, realmente, glorificar Cristo, conduzindo as pessoas à Verdade, não apenas a opiniões teológicas pessoais de um grupo de teólogos. Portanto, ore não somente por você, para que compreenda corretamente a Escritura e estude com piedade, mas, também, pela igreja para que todos entendam a Verdade (Cl.1.9) e cheguem “à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef.4.13).

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Qual o propósito de suas férias?

O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso” (Sl.23.1-2)

FÉRIAS!!!!!!!
Após um ano trabalhando, todo descanso é bem-vindo. Dormir mais, passear com a família, ocupar-se com atividades diferentes. As férias podem ser renovadoras para as forças do trabalhador e agregadoras para a família que tem a oportunidade de passar mais tempo junta. Se bem aproveitadas, as férias podem ser bênção para todos: indivíduo, família, empresas, sociedade. Mas, qual o lugar de Deus, o Criador de tudo, em nossas férias? Como deveríamos usufruir as férias na presença do Senhor? Qual o propósito de suas férias?

Por mais obvio que pareça ser, precisamos definir o termo e seus limites, pois muitos cristãos aplicam o benefício das férias a todos os assuntos, incluindo Deus, igreja e família, transformando uma bênção em maldição. Férias é um tempo de repouso do trabalho e estudo regulares, concedido aos trabalhadores e estudantes. Ou seja, para que haja desfrute das férias é necessário, primeiramente, o trabalho e/ou estudo. As férias estão relacionadas com as atividades de subsistência, obrigatórias e necessárias. Portanto, não se tira férias de pessoas, crença ou virtudes. Creio que todos sabem disso, todavia a atual conjuntura evangélica nos exige que lembremos Verdades elementares. Portanto, devemos lembrar-vos que não se tira férias de culto, leitura da Escritura nem oração! Não se tira férias de Deus! Ao contrário disso, devemos tirar férias para Cristo, nosso Senhor e Salvador.

Apesar do padrão de férias ocidental não ser oriundo da Palavra de Deus, a base para o desfrute de um período de descanso provém da Escritura, pois Deus determinou que o homem descansasse semanalmente após seis dias de trabalho (Ex.20.8-11), deixasse a terra descansar após seis anos de cultivo (Lv.25.1-7) e desse descanso para todos os escravos e devedores após quarenta e nove anos de servidão e dívida (Lv.25.8-55). O descanso, então, dignifica o ser humano, lembrando-lhe que seu valor não está apenas em sua utilidade (trabalhar), mas, principalmente, em ter sido feito à imagem e semelhança do Criador. Além disso, mostra o quanto Deus ama sua criação e quer proporcionar-lhe bem-estar em sua presença, por isso concede-lhe descanso, a fim de que possa encontrar-se com o Senhor, seu Deus. Portanto, o descanso é benção proveniente do Criador tanto para o trabalhador quanto para a terra e para o sofredor.

Qual o propósito da ordenança do descanso? Seria apenas para não fazermos nada? Não! Os descansos ordenados pelo Senhor apontam para Cristo e a vida eterna oriunda dEle, alimentando em nós a esperança de um futuro descanso eterno (Mt.11.29; Hb.4.8-10). Deus nos deu o descanso propositadamente para que lembremos sempre “que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt.8.3). Quando descansamos do trabalho árduo, difícil, marcado por lutas e problemas consequentes de um mundo ainda preso ao pecado somos lembrados, por meio da Escritura, que resta-nos um repouso, pois Cristo, o restaurador de todas as coisas, prometeu vida eterna e abundante para todos os que nEle creem. Portanto, todo descanso visa possibilitar maior tempo de comunhão entre a criatura e o Criador, o adorador e o Adorado, a ovelha e o Pastor, o servo e o Senhor, o filho e o Pai, a fim de que repousemos o coração “em pastos verdejantes” e “águas de descanso”, pois só Cristo tem “as palavras da vida eterna” (Jo.6.68).

Desta forma, precisamos planejar corretamente as férias, a fim de que nossos planos não sejam egocêntricos e ateus, negando na prática a existência de Deus. Quais são seus planos para suas férias? Ir para a praia ou campo, visitar parentes, descansar bastante, brincar ou jogar, passear etc. Será que você não está se esquecendo de algo mais importante? Que tempo você reservou para adorar, ouvir e falar com o Criador, já que Deus nos deu o descanso para revigorar nossa esperança a respeito da vida eterna em Cristo Jesus? As férias deveriam ser planejadas com a seguinte ordem de desejos e prioridades:

1)      Ler mais capítulos da Bíblia por dia, procurando estuda-la;
2)      Orar mais ao Senhor, passando longos tempos de conversa com Deus;
3)      Ensinar mais a Escritura para a família, aproveitando todos os dias livres;
4)      Não deixar de adorar ao Senhor junto com a igreja de Jesus;
5)      Ir para a praia ou campo, visitar parentes, descansar bastante, brincar ou jogar, passear etc.

“Igrejas vazias em períodos de férias” podem ser indicativo de que os cristãos não entenderam o propósito do descanso concedido por Deus ao homem. Além disso, pode apontar, também, para uma religiosidade em caráter obrigatório e tradicionalista, ou seja, que o cristão sente-se obrigado a ler a Bíblia, orar e adorar, praticando tais coisas como tradição não refletida. Se você não tem prazer em ler a Palavra de Deus, orar ao Senhor e adorar ao Criador de tudo, então você não tem prazer em Deus. Esse é um problema sério, pois como uma pessoa que não ama a Deus de todo seu coração poderá entrar na vida eterna? Não alegrar-se em Cristo é um indicativo de que há um sério problema acontecendo contigo, já que a conversão nos liberta de uma vida egocêntrica, conduzindo-nos à plena satisfação em Jesus.

Suas férias, então, podem ser grande instrumento para reconduzi-lo(a) a uma vida abundante com Cristo. Aproveite a disponibilidade de tempo para orar ao Senhor pedindo ajuda, clamando por um coração cheio da alegria da salvação, por uma mente plena da certeza da salvação e uma vida completamente consagrada a Cristo. Então, busque intensamente ao Senhor, afinal, disse Jesus: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt.16.24). Férias são bênçãos quando viabilizam uma vida mais intensa na leitura da Palavra do Senhor, na oração constante e na adoração espontânea e prazerosa. Caso contrário, as férias refletirão descaso com Deus, amor próprio maior do que aquele que é devido ao Senhor e um ateísmo prático.

Portanto, planeje as férias em família para a glória de Deus. Se não irá viajar, então sua vida cúltica junto à igreja deve continuar, afinal esse deveria ser o momento para intensificar seu relacionamento com Cristo. Mas, se você pretende viajar, deverá planejar cuidadosamente para que a leitura da Escritura, a oração e a adoração não sejam negligenciadas por sua família. Procure, no lugar para onde vai, uma verdadeira igreja fiel à Palavra de Deus para cultuar ao Senhor no domingo. Programe momentos familiares de oração e leitura da Escritura todos os dias. Separe tempo para ler a Bíblia, sozinho, e passar algum tempo conversando com Deus, a sós. Desta forma, suas férias estarão dentro do propósito divino para o descanso, pois você e sua família encontrarão descanso para a alma nas Palavras de Cristo e alento para o coração na presença do Espírito Santo.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Porque não sou dispensacionalista

Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe.2.9)

Não há melhor interpretação da Escritura do que aquela oferecida por ela mesma. Portanto, não há melhor forma de compreender as profecias dirigidas para Israel nas páginas do Antigo Testamento do que ouvindo a interpretação pela boca dos autores do Novo Testamento. Além disso, há grandes implicações decorrentes de nossa forma de ler a Escritura Sagrada, pois aqueles que contemplam a glória de Cristo no Antigo e Novo Testamento encontram, já no presente, todo conforto e esperança que alcançarão sua plenitude por ocasião da volta de Jesus. Mas, aqueles que leem a escritura pelo olhar de um judeu nacionalista, transferem a glória para a nação de Israel, deixando de apreciar a tipologia messiânica presente no Antigo Testamento, enquanto aguardam cumprimentos que apenas tangem a igreja de Jesus. Por essa razão, desejamos, também, demonstrar como o apóstolo Pedro, em sua primeira carta aos judeus da dispersão (1Pe.1.1), interpreta as profecias acerca de Israel através de Cristo. Consequentemente, mostraremos como a interpretação dispensacionalista possui profundos equívocos ao substituir Cristo por Israel como alvo de diversas profecias veterotestamentárias e, assim, apontar o problema de uma leitura histórico-gramatical realizada pelo olhar de um cristão, ainda, judaizado.

Gostaria de ir mais a fundo na problemática, afirmando que “é pecado não interpretar o Antigo Testamento à luz do Novo Testamento”, pois ao fazer isso o intérprete tanto despreza a revelação divina, concedida graciosamente para nosso pleno conhecimento sobre Deus e sua história redentora, quanto arroga para si a prerrogativa de ser autossuficiente, procurando respostas interpretativas sem o auxílio do Senhor. Tendo em vista nossa incapacidade de compreender a Escritura sozinhos, Jesus revelou o Novo Testamento à igreja (Hb.1.1-2), a fim de “dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl.2.27), sabendo que “não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Gl.3.28-29). Sem Cristo, não compreenderíamos que Oséias 11.1 era mais que uma referência à saída de Israel do Egito, pois tipologicamente apontava para a saída do Filho de Deus do meio daquela nação escravizadora (Mt.2.15). Todavia, os textos não eram simbólicos nem alegóricos, mas encontravam seu cumprimento por meio do papel da nação escolhida para dar à luz ao Filho de Deus, constituída em tipo messiânico do redentor.

Este esclarecimento primeiramente foi concedido aos discípulos, após a morte e ressureição de Jesus, a fim de que compreendessem que a esperança de Israel não havia falhado, como pensaram os discípulos de Emaús, pois a esperança de Israel encontrava-se na redenção consumada por meio da morte e ressurreição de Cristo: “Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam” (Lc.24.21). Por quarenta dias, Jesus lhes ensinou a interpretar o Antigo Testamento corretamente, lendo-o pelos olhos de sua chegada e obra (At.1.3) e esta correta interpretação pode ser encontrada nas pregações registradas em Atos dos apóstolos e em todas as cartas dirigidas para as igrejas. Portanto, após terem compreendido a correta interpretação e propósito do Antigo Testamento, os discípulos a transmitiram para a igreja, mostrando que Israel não era o alvo da Escritura, e, sim, o Filho de Deus, tipificado no povo escolhido, pois “as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao teu descendente, que é Cristo” (Gl.3.16).

Para demonstrarmos, então, que a leitura literalista judaizante desvirtua o propósito do texto veterotestamentário, apontaremos alguns problemas do dispensacionalismo e analisaremos alguns termos e textos utilizados por Pedro em sua primeira carta, tendo em vista que o apóstolo escreve para cristãos-judeus que estavam dispersos pelo mundo e que, nesse uso, ele não aponta para qualquer futuro cumprimento profética direcionado à nação de Israel, pois, em Cristo, as profecias dirigidas a Israel já haviam encontrado seu cumprimento e os cristãos-judeus já estavam desfrutando dos benefícios da concretização das profecias escatológicas pronunciadas pelos profetas.


ALGUNS PROBLEMAS DO DISPENSACIONALISMO

Precisamos esclarecer alguns pontos importantes sobre o assunto: Primeiramente, o problema do dispensacionalismo não é o reconhecimento de que a nação de Israel ainda tem papel na história redentora, pois esta verdade é ensinada pelo Novo Testamento (Mt.23.39; Rm.11), afinal a grande tribulação mencionada por Jesus (Mt.24.21) se cumpriu no período da queda de Jerusalém 70 d.C., quando os judeus foram espalhados pelo mundo, e teve seu fim na reorganização da nação em 1948. Todavia, conforme Jesus e, também, Paulo, a restauração de Israel não aponta para a reestruturação do judaísmo veterotestamentário, mas para o reconhecimento de que o cristianismo é o verdadeiro cumprimento da Palavra de Deus proferida pelos profetas, segundo aconteceu com os apóstolos (Mt.16.13-17; Rm.11.1,26), pois qualquer retorno de Israel ao culto e sacrifício judaico se constitui em completa negação da obra redentora de Cristo, como reconstrução daquilo que fora derribado (Gl.2.18), de forma que não podemos chamar de cumprimento profético restaurador a rebeldia dos judeus que negam o Messias prometido. Esse assunto foi amplamente trabalhado por Paulo em Gálatas e pelo autor de Hebreus que revelaram a forma como ler o Antigo Testamento por meio de Cristo.

Além disso, Jesus fez referência à queda do Templo de Jerusalém, mas não fez igual menção a sua restauração física (Mt.24.1-51). Também o apóstolo João esclarece o assunto ao revelar que a reconstrução do Templo ocorreria por meio da ressurreição de Cristo (Jo.2.18-22), em quem, diz Paulo, “habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Cl.2.9), chamado, também, de “Pedra angular”, pelo apóstolo Pedro (1Pe.2.5-10). Interessante observarmos as palavras de Jesus no texto de João, a fim de que apliquemos uma exegese histórico-gramatical:

18 Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas?
19 Jesus lhes respondeu: Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei.
20 Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás?
21 Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo.
22 Quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os mortos, lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto; e creram na Escritura e na palavra de Jesus. (Jo.2.18-22)

Os judeus estavam aborrecidos com Jesus por este ter expulsado os vendedores do Templo. Então, eles o questionam, tentando-o, pois queriam pegá-lo em alguma palavra para o acusarem. Diante da pergunta dos judeus, Jesus responde:


“Derribai este Templo e em três dias o levantarei” (Jo.2.19)

Não há qualquer dificuldade para se traduzir a resposta de Jesus, pois ela é simples, apesar de ter criado mais confusão do que esclarecimento para os judeus. Jesus diz: derribai este Templo (verbo na segunda pessoa do imperativo aoristo), pedindo-lhes que colocassem o Templo abaixo. Com o pronome “este”, Ele dá a entender que se referia ao Templo de Israel que estava diante dos olhos de todos, pois eles estavam no Templo na ocasião do diálogo (Jo.2.14-16), afinal a palavra Templo não era usada para se referir ao corpo humano. Os judeus devem ter olhado para o imenso tamanho do Templo e considerado estranho o que Jesus pediu.

Todavia, o mais estranho vem em seguida, com a segunda metade da fala de Jesus: “em três dias o levantarei”. A estrutura da oração é bastante simples composta de uma locução adverbial de tempo: “em três dias”; um sujeito oculto identificado pelo verbo que está em primeira pessoa (eu); um verbo transitivo direto no futuro do indicativo; e, por fim, seu objeto, o pronome que aparece no final. O pronome ["auton"] concorda com o substantivo para o qual se refere ["naon"], sendo ambos masculinos e singulares. Portanto, não há dificuldade em se entender o que Jesus disse: “Derrubem este Templo e em três dias eu o levantarei”. Foi exatamente isso que os judeus entenderam e, por essa razão, ficaram atônitos com a resposta de Jesus, a ponto de o questionarem outra vez: “Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás?” (Jo.2.20).

O mais interessante de toda a análise exegética feita das palavras de Jesus é que ela não quer dizer o que estava dizendo, conforme o autor do evangelho revelará para nós em seguida: “Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo” (Jo.2.21). Ou seja, a análise literalista dos judeus não os conduziu ao correto entendimento do que Jesus queria dizer, sendo, portanto, inadequada para o sinal profético anunciado por Cristo. Nesse momento, então, devemos perguntar: Somente Jesus fez uso de profecias que aparentemente diziam uma coisa, mas que, na verdade, tinham um propósito profético tipológico? Será que devemos limitar o uso da tipologia a este texto? Os autores do Novo Testamento não fizeram uso da mesma leitura em diversas outras citações do Antigo Testamento?

É interessante se observar que os textos mencionados por John MacArthur para defender a reconstrução do templo (Ez.37.26-27; Jr.23.6; Am.9.14-15) são usados pelos apóstolos para se referir à igreja composta de gentios e judeus, chamada de santuário, templo do Espírito Santo, Israel de Deus (At.15.16-18; 2Co.6.16-18; Hb.9.11-12; Ef.2.11-22; Gl.6.16). Torna-se mais visível o problema na interpretação dispensacionalista ao colocarmos o texto em paralelo com a interpretação dos apóstolos:

Amós 9.11-15: “Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi, repararei as suas brechas; e, levantando-o das suas ruínas, restaurá-lo-ei como fora nos dias da antiguidade;  12 para que possuam o restante de Edom e todas as nações que são chamadas pelo meu nome, diz o SENHOR, que faz estas coisas13 Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que o que lavra segue logo ao que ceifa, e o que pisa as uvas, ao que lança a semente; os montes destilarão mosto, e todos os outeiros se derreterão”. 
Atos 15.13-18: “Depois que eles terminaram, falou Tiago, dizendo: Irmãos, atentai nas minhas palavras:  14 expôs Simão como Deus, primeiramente, visitou os gentios, a fim de constituir dentre eles um povo para o seu nome.  15 Conferem com isto as palavras dos profetas, como está escrito:  16 Cumpridas estas coisas, voltarei e reedificarei o tabernáculo caído de Davi; e, levantando-o de suas ruínas, restaurá-lo-ei.  17 Para que os demais homens busquem o Senhor, e também todos os gentios sobre os quais tem sido invocado o meu nome,  18 diz o Senhor, que faz estas coisas conhecidas desde séculos.
14 Mudarei a sorte do meu povo de Israel; reedificarão as cidades assoladas e nelas habitarão, plantarão vinhas e beberão o seu vinho, farão pomares e lhes comerão o fruto.  15 Plantá-los-ei na sua terra, e, dessa terra que lhes dei, já não serão arrancados, diz o SENHOR, teu Deus.


Conforme a leitura histórico-gramatical, um texto deve ser lido por inteiro dentro dos mesmos parâmetros hermenêuticos. Por que, então, o dispensacionalismo divide o texto de Amos 9.11-15 em duas porções, a fim de possibilitar duas regras hermenêuticas distintas? Os apóstolos aplicaram a primeira porção na igreja do Novo Testamento, entendendo que o tabernáculo caído de Davi não era um templo físico que seria erguido, mas uma referência à obra redentora de Cristo pela qual os gentios seriam atraídos para Israel. A leitura, portanto não é literalista, mas histórico-gramatical tipológica em que tanto Davi quanto o Tabernáculo cumprem papel tipológico messiânico, apontando para Cristo como herdeiro das promessas, pois Ele é o restaurador do Templo erguido em seu próprio corpo (Jo.2.18-22).

Jeremias 23.6: “Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa.”
Mateus 13.31-32:  “O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes, e, crescida, é maior do que as hortaliças, e se faz árvore, de modo que as aves do céu vêm habitar nos seus ramos”
Romanos 3.26: “tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus”
Romanos 10.13: “Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.”
2 Pedro 1.1: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo”
Hebreus 8.8: “E, de fato, repreendendo-os, diz: Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá

Conforme alguns exemplos dados acima, chamamos atenção para o fato de que o Novo Testamento faz uso de mesmos termos, apontando para Cristo por meio do qual Israel e Judá receberam nova aliança, morada, justiça e salvação. Todos os termos apontam para o advento de Cristo e seu Reino, sem deixar qualquer indicação de profecia em aberto.

Ezequiel 37.26-28: “Farei com eles aliança de paz; será aliança perpétua. Estabelecê-los-ei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles, para sempre.  27 A minha morada estará com eles; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo28 As nações saberão que eu sou o SENHOR que santifico a Israel, quando o meu santuário estiver para sempre no meio deles.”
2 Corinthians 6.16-18 “Que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos? Porque nós somos santuário do Deus vivente, como ele próprio disse: Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo17 Por isso, retirai-vos do meio deles, separai-vos, diz o Senhor; não toqueis em coisas impuras; e eu vos receberei,  18 serei vosso Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso.” (cf. Lv.26.12; Is.52.11; Ez.37.27; 2Sm.7.14; Jr..31.31-34//Hb.8.7-13)

Paulo aplica à vida da igreja diversos textos direcionados para Israel, incluindo Ezequiel 37.27, como se o propósito de Deus desde o início fosse que o povo de Israel se constituísse de judeus e gentios: “Se um estrangeiro habitar entre vós e também celebrar a Páscoa ao SENHOR, segundo o estatuto da Páscoa e segundo o seu rito, assim a celebrará; um só estatuto haverá para vós outros, tanto para o estrangeiro como para o natural da terra” (Nm.9.14). Em Ezequiel 37.26-28, a nova aliança feita em Cristo (Hb.8.8) manifestou a plena presença do Senhor no meio de seu povo, em poder e santificação (At.2.38-47), pois Jesus derramou a plenitude do Espírito sobre Israel (Jl.2.28-32). Finalmente, as nações souberam que Deus estava no meio de seu povo, pois os judeus foram os pioneiros na evangelização do mundo (2Co.6.16; At.8.4-8). Devemos lembrar, ainda, que o cumprimento da promessa nos dias de Pentecostes se deu somente sobre judeus que estavam em Jerusalém, atraindo Israel para uma nova vida fundamentada numa nova aliança feita em Cristo para desfrute da presença abundante do Senhor, pelo Espírito Santo (At.2.42-47). Então surge a necessidade de uma pergunta: Mas, se o novo testamento é o cumprimento de profecias sobre Israel, por que a nação negou a Cristo? A resposta é dupla e já fora dada por Paulo, pois a mesma dúvida surgiu naqueles dias:

Pergunto, pois: terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo? De modo nenhum! Porque eu também sou israelita da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim.  2 Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura refere a respeito de Elias, como insta perante Deus contra Israel, dizendo:  3 Senhor, mataram os teus profetas, arrasaram os teus altares, e só eu fiquei, e procuram tirar-me a vida.  4 Que lhe disse, porém, a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos diante de Baal.  5 Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. (Rm.11.1-5)
Pergunto, pois: porventura, tropeçaram para que caíssem? De modo nenhum! Mas, pela sua transgressão, veio a salvação aos gentios, para pô-los em ciúmes.  12 Ora, se a transgressão deles redundou em riqueza para o mundo, e o seu abatimento, em riqueza para os gentios, quanto mais a sua plenitude! (Rm.11.11-12)

Conforme Paulo, o endurecimento de Israel nem foi total nem foi sem propósito. Primeiramente, Paulo demonstra que Deus continua tendo judeus convertidos, cumprindo neles as promessas feitas acerca da nova aliança que seria estabelecida com seu povo, aliança esta que fora feita por meio de Cristo Jesus. Posteriormente, o apóstolo revela que o endurecimento parcial cumpre o propósito de que a Palavra do Senhor seja direcionada para as nações, até que chegue o tempo em que a dureza do coração da nação israelita seja encerrada e, então, todo o Israel será salvo (Rm.11.26), por meio da conversão a Cristo, único redentor. Portanto, Paulo esperava que algo se cumprisse com respeito a nação de Israel, mas esse cumprimento não era contrário à nova aliança feita por meio de Cristo. A esperança de Paulo com respeito a seu povo era a conversão da nação, sabendo que sua conversão marcaria o tempo da volta de Jesus: “Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor!” (Mt.23.39).

Em segundo lugar, o problema do dispensacionalismo é não perceber que desde o Antigo Testamento o verdadeiro Israel que haveria de ser salvo era composto de judeus e gentios que creram verdadeiramente no Senhor, razão para que a genealogia de Jesus tenha algumas mulheres gentias: Tamar, Raabe e Rute (Mt.1.3,5). Além delas, muitas outras pessoas fizeram parte de Israel por meio da fé, à semelhança dos gibeonitas (Js.9.1-27), confirmados pela guerra cósmica em que Deus lutou por eles através de Israel (Js.10.1-15). Desta forma, nem mesmo o Antigo Testamento limitava o povo de Israel àqueles que eram descendentes legítimos de Abraão e Sara, pois a promessa era destinada aos que cressem, “Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa” (Rm.9.8 // Gl.4.28). Portanto, o plano redentor de Deus sempre foi destinado a pessoas de todas as nações, a fim de, por meio delas, formar um povo seu, propriedade exclusiva (1Pe.2.9). E para alcançar o ápice do projeto redentor, o Senhor escolheu uma nação para dar à luz ao Messias, o Filho de Deus, por meio de quem tudo se cumpriria (Gl.4.1-7).

Esse propósito redentor cósmico, não apenas local, está presente em Gênesis 3.15, quando Deus prometeu o salvador para Adão e Eva; está persente na aliança feita com Noé e a criação, ao prometer que não exterminaria mais os seres vivos por meio de águas (Gn.9), a fim de que a criação pudesse ser redimida (Rm.8.21); e, também, está presente no chamado feito a Abrão, a fim de que nele fossem “benditas todas as famílias da terra” (Gn.12.3). E, ao contrário do que muitos pensam, a chegada da Lei mosaica não pôs fim ao gracioso projeto redentor, antes o confirmou santificando um povo para ser instrumento de salvação para os povos ao redor (livro de Jonas). Assim, o período pós-patriarcal deu sequencia ao projeto redentor, razão pela qual Deus acrescentou outra aliança por meio de Davi, renovando sua promessa de envio do Messias prometido para redenção do mundo (2Sm.7.1-17). Por isso, disse, também, o salmista:

1 Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o rosto; 
2 para que se conheça na terra o teu caminho e, em todas as nações, a tua salvação. 
3 Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. 
4 Alegrem-se e exultem as gentes, pois julgas os povos com equidade e guias na terra as nações. 
5 Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. 
6 A terra deu o seu fruto, e Deus, o nosso Deus, nos abençoa. 
7 Abençoe-nos Deus, e todos os confins da terra o temerão (Sl.67.1-7)

Em terceiro lugar, os diversos períodos da história humana, revelados pela Escritura, não representam formas diferentes de Deus salvar as pessoas, mas identificam níveis diferentes sobre o conhecimento redentor, de forma que Deus aceitava a fé adequada aos limites desse conhecimento. Todos esses períodos foram regidos por alianças que alimentavam a esperança no coração daqueles que criam no Senhor e todas as alianças eram graciosas, pois foram estabelecidas por meio de promessas divinas:

1 – Aliança com Adão e Eva
No período entre a queda do homem e o dilúvio (Gn.3-8), os descendentes de Sete viveram pela esperança da chegada do filho prometido, o consolador (Gn.5.29)
2 – Aliança com Noé e a criação
O tempo entre Noé e Abrão é bastante obscuro (Gn.9-11) e parece ter sido alvo de ampla idolatria (Js.24.2). A esperança do envio do redentor parece ter desaparecido, mantendo-se apenas a luta pela vida (Gn.11.1-9), razão para Deus ir em direção a um homem e retirá-lo de entre os demais (Gn.12.1-7). Aqueles que andaram com Deus, pela fé, à semelhança de Noé, foram salvos.
3 – Aliança com Abraão
Entre Abrão e Moisés (Gn.12 a Ex.2) a esperança da redenção foi restaurada e Deus justificou aqueles que crerem em suas promessas (Gn.15.6).
4 – Aliança com Israel (Davi)
O último período do Antigo Testamento se desenrola com a nação de Israel, entre os profetas Moisés e Malaquias (Ex.3 a Ml.4). Nesse período, o povo deveria crer na Palavra de Deus, aguardando que as promessas do Senhor se cumprissem por meio da nação escolhida para dar à luz ao Filho de Deus (Is.9; Is.11 etc). Aqueles que creram, viveram em acordo com a Escritura, pois aguardavam a salvação do Senhor (Mq.6.8).
5 – Aliança com Cristo
Chegado o Messias prometido, todas as pessoas são conclamadas a crer nEle, como cumprimento das promessas redentoras feitas pelos profetas (Jo.3.16). Uma nova aliança é feita em seu Nome dando início a ultima etapa da história redentora, o Novo Testamento (Mt.26.28). A revelação chega a sua etapa final e o Reino de Deus é chegado. Todos, então, devem crer e viver para Cristo, aguardando o fim de todos os tempos (Gl.2.20).

Em quarto lugar, a leitura histórico-gramatical não é sinônimo de literalização de tudo, mas significa ler a Escritura respeitando cada gênero literário e os limites que lhes são próprios, tudo à luz do Novo Testamento. Por exemplo: em João 7.38-39 Jesus diz: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado”. Jesus faz referência a descida do Espírito Santo como cumprimento de profecias do Antigo Testamento. Todavia, nenhuma leitura literalista possibilita tal compreensão a partir dos textos que fazem uso da expressão “águas vivas”: ["hydatos zontos"] (Gn.21.19; 26.19; Ct.4.15). Antes desse texto, Jesus faz semelhante alusão às águas vivas em sua conversa com a mulher samaritana: “Replicou-lhe Jesus: Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” (Jo.4.10). Não há como negar que a referência de ambos os textos é à descida do Espírito Santo sobre a igreja; e, neste último texto, ocorre uma correlação textual mais interessante com a expressão “águas vivas”, pois o profeta Zacarias profetizou esse dia: ["ydor zon"] (Nm.19.17; Zc.14.8). Seria o texto de João 4.10  e 7.38-39 o anúncio do significado de Zacarias 14.8? No mínimo, não se deve rejeitar as correlações, já que Jesus está cumprindo a Escritura como Ele mesmo disse em João 7.38.

Outro texto simples, mas útil como exemplo aqui é Isaías 40.1-6. Nele, Deus está consolando Israel por meio de uma promessa. Mas, esta promessa envolve figuras geológicas: “Todo vale será aterrado, e nivelados, todos os montes e outeiros; o que é tortuoso será retificado, e os lugares escabrosos, aplanados” (Is.40.3). Será que o profeta está dizendo que a terra de Israel se tornaria uma grande planície? Seria esse o papel do grande profeta? Sabemos que não, pois o cumprimento do texto se deu com a chegada de João Batista, a “voz do que clama no deserto”: ["fone boontos en te eremo"] (Is.40.3//Mt.3.3; Mc.1.3; Lc.3.4; Jo.1.23). Portanto, o verdadeiro sentido da figura geológica deve ser dado a partir da leitura do que ocorreu nos dias de João Batista (aplainamento dos corações para a passagem do Messias) por meio de seu ministério anterior ao de Cristo. Semelhantes a estes exemplos, encontraremos centenas de textos proféticos que devem ser lidos com cuidado, não literalizando tudo, pois caso não tenhamos a devida atenção, seremos inclinados a considerar que João Batista tinha a missão de tornar a terra de Israel numa planície.


ALGUNS TERMOS E TEXTOS UTILIZADOS NA PRIMEIRA CARTA DE PEDRO

Como já dissemos, a primeira carta de Pedro possui características importantes para nosso estudo:

1) seu autor foi um judeu que andou com Jesus;
2) há grande probabilidade que os destinatários tenham sido judeus dispersos pelo mundo (Tg.1.1), pois Pedro faz distinção entre seu público e os gentios (1Pe.2.12; 4.3//At.21.21), identifica as mulheres como filhas de Sara (1Pe.3.6), chama seus leitores de ovelhas que estavam desgarradas (provável citação das palavras de Jesus - Mt.9.36//1Pe.2.25), chama seus leitores de “irmandade” (termo que aparece apenas na carta de Pedro e nos apócrifos de 1 e 4 Macabeus - ["adelfotes"]), e usa uma linguagem bastante peculiar aos judeus, fazendo referência a ritos, objetos, mandamentos e lugares próprios de Israel;
3) o apóstolo escreve sobre a esperança cristã para aqueles cristãos-judeus, aplicando textos veterotestamentários à chegada do Reino de Deus;
4) e, há diversas citações do Antigo Testamento que nos possibilitam ver qual o olhar hermenêutico desse apóstolo sobre o texto Sagrado.

Alguns desses elementos característicos da carta são apresentados, parcialmente, nos primeiros versículos. Não ignoramos o fato de que Pedro não se identifica como judeu, mas encontramos essa informação nos evangelho e em Gálatas 2.14. Também, seus leitores não são identificados pelo termo “judeus”, mas alguns indicativos mencionados anteriormente nos levam a crer que Pedro está se dirigindo para judeus da dispersão, assim como escreveu Tiago (Tg.1.1). Considerando que sejam esses os leitores primários, observaremos a hermenêutica desse importante apóstolo que aprendera a ler o Antigo Testamento a partir da obra redentora de Cristo, relacionando as profecias com o advento do Messias e seu Reino.

Já na introdução surge um termo próprio do Antigo Testamento, relacionado a um rito judaico. Os cristãos-judeus haviam sido destinados à “aspersão” ["rantismos"] “do sangue de Jesus Cristo”. O termo foi usado pela Septuaginta para se referir ao rito de jogar água na cabeça daquele que estava impuro, a fim de que fosse considerado puro (Nm.19.9,13,20,21). Em 1 Pedro e Hebreus, no entanto, a palavra “aspersão” é usada para se referir à justificação dispensada àqueles que creem em Cristo como se o sangue de Jesus tivesse sido, literalmente, derramado sobre a cabeça do cristão (1Pe.1.2; Hb.12.24). Portanto, todos os que criam em Jesus, e nEle perseveravam, estavam completamente e permanentemente limpos de toda impureza por meio do sangue que foi derramado na cruz. Não havia, então, a necessidade de qualquer rito judaico para complementar a obra redentora de Cristo.

Um pouco mais adiante, em 1 Pedro 1.4, o apóstolo faz referência à “herança” ["kleronomia"] guardada nos céus para seus leitores. O termo é bastante comum ao Antigo Testamento tendo em vista a promessa da conquista da terra de Canaã (Js.1.15). Conforme, o apóstolo, no entanto, a esperança dos cristãos-judeus encontrava-se numa herança superior e eterna (Hb.9.15) prometida por Cristo e alcançada por meio da fé no Salvador. Desta forma, a terra prometida do Antigo Testamento serviu de tipo da herança celestial conquistada por Cristo Jesus (Ef.1.3; 1Pe.1.3-4), afinal resta-nos, ainda, um descanso (Hb.4.8-11). Alimentar uma esperança terrena inferior (a restauração do judaísmo, por exemplo) à glória de Cristo, concedida à igreja (judeus e gentios) por meio do Espírito Santo, é o mesmo que considerar a obra redentora insuficiente para dar plena satisfação àquele que crê; e, ainda, trocar algo sublime por expectativas passageiras, corruptíveis e terrenas.

Observe-se que toda a esperança anunciada por Pedro, para os cristãos-judeus, aponta para a salvação eterna, não somente na introdução, mas, também, em toda a carta, pois ainda que o apóstolo esteja falando para judeus convertidos, nenhuma menção é feita sobre um reinado ou restauração física de Israel. O olhar de Pedro está fito na eternidade e os cristãos-judeus deveriam, também, aguardar a salvação a ser revelada no “último tempo”. Portanto, os cristãos-judeus não precisavam voltar para Jerusalém, pois a esperança deles encontrava-se tão somente em Cristo. Afinal, a fé deles em Cristo era “muito mais preciosa do que o ouro perecível” (1Pe.1.7), ou seja, aquilo que Jesus alcançou para os cristãos-judeus era superior a qualquer benefício que Israel poderia alcançar fisicamente na presente era em que o pecado ainda encontra-se entre os homens. Por isso, Pedro não alimenta qualquer esperança física e temporária citando textos como Amós 9.14-15, já que a esperança que lhes foi legada era muito superior a isto.

Mas, de onde procedia a promessa redentora dos judeus? Pedro diz que os profetas haviam profetizado sobre a graça que os cristãos-judeus estavam vivenciando. De acordo com o apóstolo, as profecias veterotestamentárias alcançaram seu cumprimento naquela geração dos dias de Pedro, pois aos profetas “foi revelado que, não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas que, agora, vos foram anunciadas” (1Pe.1.12). Portanto, a esperança de Israel havia alcançado seu cumprimento por meio da redenção operada por Cristo: não mais do Egito, mas do pecado; não mais de povos inimigos, mas do procedimento pecaminoso herdado pelos pais que transgrediram a lei do Senhor em todas as gerações de Israel (1Pe.1.18).

Israel nunca conseguiu cumprir a lei do Senhor, conforme determinado desde o princípio (Ex.20.1-17), porque, apesar de ser o povo de Deus, o coração estava endurecido, incapaz de viver a santidade do Senhor (Dt.31.27). O profeta Ezequiel, então, profetizou o dia em que Israel seria, finalmente, capaz de viver uma vida santa à semelhança da santidade de Deus (1Pe.1.16) quando o Espírito do Senhor lhes fosse dado: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez.36.26-27). Esse dia chegou por meio de Cristo, razão para o apóstolo Pedro relembrar o mandamento do Senhor: “sede santos, porque Eu Sou Santo” (1Pe.1.16). Adiante, Pedro aplica o texto de Isaías 8.13 à relação dos cristãos com Jesus dizendo: “santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração” (1Pe.3.15).

Essa nova vida guiada pelo Espírito do Senhor deveria ser vivida “durante o tempo de vossa peregrinação” (1Pe.1.17). Aqueles cristãos-judeus estavam dispersos pelo mundo e ansiavam pelo “dia da visitação” (1Pe.2.12) do Senhor, quando finalmente eles receberiam “a imarcescível coroa da glória” (1Pe.5.4). Esta visitação não pode ser uma referência à queda de Jerusalém, pois os destinatários estavam espalhados por outras nações, não residiam na Judeia (1Pe.1.1). Também, no pode ser uma referência a qualquer restauração da nação de Israel, pois a esperança anunciada por Pedro é “mais preciosa do que o ouro perecível” (1Pe.1.7). A questão é: Que dia é esse, já que a Cristo “pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos” (1Pe.4.11)? Observe-se que Pedro não oferece duas esperanças nem duas visitações, mas uma só apontada do início ao final da carta, a fim de que os cristãos-judeus não desistissem de perseverar, mesmo diante das muitas lutas que enfrentavam (1Pe.1.6).

Mesmo estando dispersos, o apóstolo não os conforta com promessas de um Israel físico glorioso, mas, sim, de uma vida eterna gloriosa, “reservada nos céus” (1Pe.1.4). Há apenas uma esperança lembrada por Pedro, assim como, também, há apenas um inimigo, “o diabo, vosso adversário” (1Pe.5.8). O apóstolo ordena que os cristãos-judeus procedam com piedade e santidade, sendo exemplo em todo comportamento diante dos gentios (1Pe.2.12), “não pagando mal por mal ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo” (1Pe.3.9), “dando razão da esperança que há em vós” (1Pe.3.15), durante o “tempo que vos resta na carne” (1Pe.4.2), sabendo que Cristo já reina “à destra de Deus, ficando-lhe subordinados anjos, e potestades, e poderes” (1Pe.3.22).

Em 1 Pedro 2, o apóstolo traz à luz a imagem veterotestamentária de Israel e seu Templo, nos dias de glória da nação, quando Deus era adorado por meio dos contínuos sacrifícios. No entanto, Pedro substitui o Templo físico pela nova morada erguida por Deus, através da obra de Cristo operada naqueles que criam. Nesse momento, é importante que lembremos texto de Ezequiel 37.26-27, a fim de mostrar que os autores do Novo Testamento haviam compreendido seu cumprimento por meio da obra redentora de Jesus:

Farei com eles aliança de paz; será aliança perpétua. Estabelecê-los-ei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles, para sempre. A minha morada estará com eles; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. As nações saberão que eu sou o SENHOR que santifico a Israel, quando o meu santuário estiver para sempre no meio deles.”

Todos os elementos mencionados pelo profeta Ezequiel são encontrados no Novo Testamento em clara alusão à obra redentora de Jesus (Cl.1.20; Hb.12.24; Ef.2.21-22; Jo.14.23; 17.17; Rm.15.16; Hb.10.10; 1Pe.3.15). A nova aliança feita por meio do “precioso sangue” (1Pe.1.19) de Cristo trouxe “graça e paz” para seu povo (1Pe.1.2; 5.14), pois o santuário (Ef.5.27) do Senhor foi erguido no meio dele, sendo Cristo a pedra angular:

Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. (1Pe.2.4-5)

Pedro cria a imagem de um Templo formado de Pedras vivas, os cristãos. A expressão “casa de oração” nos remete à expressão “casa de oração”, usada pelo profeta Isaías (Is.56.7) e por Jesus (Mt.21.13), referência ao Templo de Israel. Portanto, segundo Pedro, os cristãos formam um Templo no qual Deus manifesta sua presença e glória, recebendo “sacrifícios espirituais” por meio de Jesus Cristo. Desta forma, Deus habita no meio de seu povo (não “em templos feitos por mãos de homens” - At.17.24), conforme Jesus já havia prometido aos discípulos que o faria: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo.14.23).

Por meio de Jesus, então, Deus cumpriu sua promessa de erguer no meio de seu povo seu santuário para habitar para sempre nele. Desde então, o Espírito do Senhor habita na igreja formada tanto de judeus quanto de gentios e estará para sempre com ela. Portanto, por qual razão Deus negaria sua obra redentora, retrocedendo para que Israel tivesse um templo feito por mãos de homens no meio da nação? Jesus havia dito que aquele templo seria destruído (Mt.24.2) sem qualquer promessa de reconstrução, pois o verdadeiro Templo de Deus é o corpo de Cristo (Jo.2.21), por meio do qual todo o que crê o adora em “ESPÍRITO e em VERDADE” (Jo.4.23-24). Por qual razão o Senhor se agradaria em ver Israel negá-lo, praticando ritos inúteis, já que “é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados” (Hb.10.4)? O novo Templo de Deus havia sido erguido e era composto de pedras que vivem, não pedras sem vida (1Pe.2.5).

A explicação de Pedro sobre a igreja ser “casa espiritual” foi bem entendida pelos cristãos-judeus, acostumados a adorar a Deus no Templo de Jerusalém. Agora, porém, eles adorariam ao Senhor em qualquer lugar por meio de Cristo, oferecendo “sacrifícios espirituais agradáveis a Deus” (1Pe.2.5), portanto eles eram “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (1Pe.2.9). O apóstolo, então, aplica o texto de Êxodo 19.5-6, Deuteronômio 7.6 e 14.2 aos cristãos-judeus. Ou seja, eles que criam em Cristo eram o verdadeiro Israel de Deus, não aqueles que negavam Jesus (1Pe.2.6-8). Mas, alguém poderia pensar que Pedro estava apenas repetindo a Palavra do Senhor, destinada a Israel, afinal aqueles cristãos eram judeus. Por isso, Pedro continua dizendo: “vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia” (1Pe.2.10). Ou seja, sem Cristo os judeus não poderiam ser considerados legítimo povo de Deus (Mt.23.15; Jo.8.44), pois a eterna salvação do Senhor, prometida pelos profetas, está destinada apenas aos que creem no Filho de Deus.

Toda esperança e glória dos cristãos-judeus, para os quais Pedro escreve, apontam para a salvação eterna. Ainda que eles estivessem passando por provações promovidas pelos gentios que criavam problemas pessoais e políticos, não deveriam lutar com armas humanas, mas guerrear contra as próprias paixões (1Pe.2.11). Por essa razão, o apóstolo os exorta a se comportarem com piedade em todo tempo, tanto diante de todos os homens comuns quanto diante das autoridades (1Pe.2.13-14). Esse procedimento deveria ser coerente com a esperança que tinham em Cristo, pois aguardavam a recompensa de Deus à semelhança de Cristo que sofreu por nós, mas depois foi glorificado (1Pe.3.13-22). Essa era a verdadeira esperança de Israel, a mesma que deveria ser aguardada ainda hoje.

Jerusalém, então, não é o foco do Novo Testamento no qual o nome da cidade só aparece 14 vezes, considerando as cartas paulinas, cartas gerais e Apocalipse. O apóstolo Pedro não faz menção desta cidade nenhuma vez (ainda que faça menção da Babilônia) nem do Templo físico de Jerusalém nem de qualquer esperança de reinado terreno com Jesus, todavia anima os cristãos-judeus lhes falando sobre o cumprimento da obra redentora que os havia alcançado, “porque estáveis desgarrados como ovelhas, agora, porém, vos convertestes ao Pastor e Bispo da vossa alma” (1Pe.2.25).


Portanto, falando de judeu para judeus, Pedro aplica os textos do Antigo Testamento à vida com Cristo sem qualquer alusão a esperanças físicas e terrenas, passageiras e políticas para o povo de Israel. Deveríamos, em nossos dias, proceder de igual forma, anunciando a Cristo como única esperança para Israel e todas as demais nações. Conforme Pedro a única glória a ser aguardada pelos judeus é a vida eterna em Cristo; e, segundo Jesus e Paulo, o povo de Israel ainda reconhecerá que o Messias já veio, para quem toda a Escritura Sagrada do Antigo Testamento aponta, tendo cumprido os ritos judaicos, confirmado os mandamentos da lei e concretizado as promessas proferidas pelos profetas.