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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Uma geração feminilizada

Sê forte e corajoso
(Dt.31.7,23; Js.1.6,7,9,18; 1Cr.22.13; 28.20)

O feminismo conseguiu feminilizar a mentalidade de nossa geração. Não digo isso por causa do homossexualismo somente, mas, também, pela hipersensibilidade e o sentimentalismo exacerbado das pessoas. Se alguém castiga o faltoso é chamado de rude; se não abdica de suas convicções é considerado intolerante; se usa palavras ríspidas para advertir os pecadores, dizem que não tem sabedoria. Essa geração não suportaria as palavras de Lutero ou Calvino que “soltaram o verbo” (leia as Institutas!) contra os adversários enquanto ensinavam a sã doutrina; nem escutaria os sermões de João Batista ou Jesus que pronunciaram palavras imprecatórias contra os hipócritas (Mt.3;23); tampouco, aguentaria ouvir as exortações dos profetas do Antigo Testamento que proferiram o juízo do Senhor contra um povo rebelde.

Alguns, então, dirão: “- Mas, o contexto histórico era diferente”. Será!? Estão vendendo a salvação da mesma forma que fizeram nos dias de Lutero; a politicagem eclesiástica está tão suja quanto a que João Batista presenciou; há mais falsos mestres ensinando falsas doutrinas no meio da igreja do que nos dias de Calvino; a hipocrisia religiosa do povo, apegado a tradições vazias, assemelha-se ao que ocorria nos dias de Jesus; e a libertinagem do evangelicalismo atual, idólatra de cantores e falsos apóstolos, não é diferente da idolatria de Israel e Judá. Portanto, o contexto sócio-religioso de nossos dias não deveria ser considerado tão diferente daquele presenciado pelos profetas e reformadores.

Todavia, numa geração feminilizada, toda palavra tem que ser temperada com açúcar, pois até o valente tornou-se frouxo para ouvir a Verdade pronunciada com espírito revolto de um profeta zeloso por Deus. Uma geração feminilizada não tem homens prontos para a guerra cultural contra o paganismo, mas tem mulher-macho que domina dentro e fora de casa; não tem homens capazes de conduzir com firmeza a igreja por meio da Escritura Sagrada, mas tem mulheres à frente do povo de Deus, assumindo uma liderança formal e informal sobre cristãos. Uma geração feminilizada não tem homens viris que lideram a família, a igreja e a sociedade, pois foram fragilizados demais, tornando-se “tímidos e medrosos” (Jz.7.3), incapazes de lutar valentemente pelo “Senhor dos exércitos”.


A feminilização da sociedade é uma estratégia de Satanás, a fim de tornar a igreja frágil demais para lutar contra suas investidas malignas. Precisamos, portanto, resgatar a masculinidade do homem, a fim de que este sirva ao “Senhor dos exércitos” como varão valoroso. Mas, onde encontrar o perfeito modelo varonil? Os cristãos devem olhar para Jesus, o mais corajoso de todos os homens, que foi capaz de entregar-se ao inimigo sem covardia nem medo algum, com o propósito de salvar seu povo. Jesus enfrentou os adversários, suportou a humilhação e dor e manteve-se íntegro e firme no propósito de glorificar a Deus. Cristo expulsou corruptos da casa de oração e confrontou com palavras duras os líderes religiosos que desviavam o povo da Verdade. Ele guiou seus discípulos na Escritura, com firme compostura sem aceitar qualquer desvio da Palavra de Deus. Jesus é nosso perfeito modelo varonil e somente olhando para Ele os homens dessa geração assumirão a correta postura viril que Deus designou para Adão e seus descentes homens.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Não há preceito cultural na Escritura!

me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus” (Cl.1.25)

Não há preceito cultural na Escritura! Tem sido comum o equivocado pronunciamento que a igreja não pratica certas ordenanças da Bíblia, porque eram culturais, não sendo, portanto, necessárias para os dias de hoje. O problema de tal afirmação é a falta de critérios dados pela própria Escritura, a fim de que alguém possa atribuir a qualquer texto o caráter cultural, dando margem para que pessoas mal-intencionadas transformem a Palavra de Deus numa colcha de retalhos.

O texto mais usado para dizer que há certos elementos culturais na Escritura é 1 Coríntios 11.2-16. No entanto, a razão da igreja não usar véu hoje é porque Paulo não está defendendo o uso do véu, mas, sim, o uso do cabelo longo por parte da mulher, conforme ele mesmo explica no final do texto: “Pois o cabelo foi dado em lugar do véu” (1Co.11.15); e se foi dado em lugar do véu, nenhum malabarismo com o texto pode dizer que Paulo não quis dizer o que disse. Uma vez que a Escritura não invalida, posteriormente, a palavra do apóstolo, o texto é direcionado para todas as gerações e a mulher deve, sim, usar cabelo longo como símbolo de submissão ao masculino, que é a temática principal desse texto.

Ao dizer que um texto é cultural, a hermenêutica bíblica torna-se subjetiva e vaga, pois se despe de critérios dados pela própria Escritura para que possamos interpretá-la corretamente. Dizer que um texto é cultural é o mesmo que afirmar: - Eu acho que tal ordenança não vale mais para nossos dias, porque foi dada para pessoas de outra geração com práticas culturais diferentes. Um grande problema disso é que toda a Escritura foi revelada para pessoas de outras gerações com culturas completamente diferentes da nossa no que diz respeito à boa parte de nossos hábitos. Deveríamos, então, invalidar toda a Escritura, por causa disso?

Somente a Escritura pode nos revelar o que tem ou não duração permanente. Quando algo ordenado pelo Antigo Testamento deixa de ser praticado pela igreja é porque o Novo Testamento revela o fim de tal preceito. Isso não acontece porque algo era cultural, mas porque determinados mandamentos tinham seu cumprimento nos dias do Novo Testamento, alcançando, portanto, seu fim, como ocorreu com a ordenação relacionada aos alimentos (cf. Lv.11; Dt.14.3-20 //At.10.9-16). Por causa disso, Paulo apresenta-se como “despenseiro dos mistérios de Deus” (1Co.4.1), escolhido “para dar pleno cumprimento à palavra de Deus: o mistério que estivera oculto dos séculos” (Cl.1.25-26).

Isso ocorre, porque a Escritura nos revela que determinadas ordenanças eram proféticas ou tipológicas e tinham, portanto, um fim planejado. É o caso da Páscoa judaica (Ex.12) que deixou de ser praticada pelos discípulos de Jesus, porque Cristo lhes revelara que tal festa tinha como propósito apontar para Sua morte substitutiva. O texto não era cultural, mas tipológico e, tendo cumprido seu papel, deixa de ter uso, pois aquele para quem ele apontava já chegou. Quem decide isso não é o intérprete de cada geração, mas a própria Escritura que no Novo Testamento nos revela o propósito e cumprimento das profecias e tipologias do Antigo Testamento.

Não podemos, ainda, confundir texto prescritivo com texto narrativo da Escritura, pois este último não pretende trazer ordenanças, mas contar fatos. Um exemplo disso é a conhecida “festa do amor” que ocorria em ocasião à Ceia do Senhor (1Co.11.17-22). Essa festa não é ordenada por Paulo, apenas parcialmente contada. Todavia, em seguida, o apóstolo lembra a ordenança de Jesus acerca da instituição da Ceia (1Co.11.23-30) e esta, sim, deve ser praticada. Nos Evangelhos e em Atos dos Apóstolos, também, encontraremos a realização de muitos milagres feitos por Jesus e pelos apóstolos. A igreja de hoje não deve sentir-se obrigada a presenciar aquelas mesmas manifestações sobrenaturais em seu meio como se fossem ordenanças. O texto sagrado nos conta o que aconteceu; não está ordenando que façamos igual. Em Atos dos Apóstolos, um dos lugares usados para a prática da oração era o Templo judaico; e as Sinagogas costumavam ser utilizadas para a pregação do Evangelho (At.2.46; At.13). Contudo, a igreja não está obrigada a fazer uso de tais lugares, porque eles não foram dados por ordenança, apenas revelados por narrativa. Portanto, mesmo que o Novo Testamento conte uma prática da igreja, não estará, necessariamente, ordenando que esta prática seja seguida. Devemos, então, diferenciar ordenanças de narrativas e deixar que a Escritura defina o que tem valor permanente e o que teve seu propósito cumprido.


É importante lembrar, ainda, que além de errada a afirmação de que algum texto da Escritura é cultural, tal postura diante dos textos sagrados abre portas para que qualquer pessoa afirme que a Bíblia é um livro ultrapassado inadequado para nossos dias. A Palavra de Deus, então, passa a ser julgada pelos homens com critérios completamente subjetivos sujeita a tornar-se totalmente obsoleta. A igreja foi posta por coluna e baluarte da Verdade (1Tm.3.15) e deve, portanto, zelar pela Escritura, tendo cuidado para interpretá-la corretamente, a partir dos critérios que a própria Escritura revela para a igreja.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Pastoreio bíblico: Vocação ou emoção?

Fiel é a palavra: se alguém aspira o episcopado, excelente obra almeja” (1Tm.3.1)
O ambiente eclesiástico do evangelicalismo brasileiro está bastante cercado de emoções. Claro que os sentimentos não são ruins em si mesmos, mas, quando dominam a vida do povo de Deus, podem torná-lo presa fácil de alguns enganos. Isso ocorre, também, com o tema “vocação pastoral”. Não são poucos os candidatos ao ministério pastoral e missionário que voltam do seminário ou mesmo do campo (quer seja uma igreja constituída ou plantação de uma igreja) por perda de convicção ou incapacidade de continuar realizando o trabalho. Convicções firmes e apaixonadas se desfazem diante da realidade pastoral e missionária, deixando dúvidas sobre a origem de tais convicções. Às vezes, a forma como a liderança induz os cristãos ao engajamento na obra do Senhor pode ser a causa de tais problemas. Outras vezes, a falta de análise objetiva para avaliar o subjetivismo da convicção de chamado de alguns tem deixados esses cristãos à mercê de seus próprios sentimentos. Em ambos os casos, a Escritura remedia com critérios objetivos que determinam quem pode ou não ser ordenado ao ministério pastoral. A avaliação objetiva e paciente daqueles que se dizem vocacionados é fundamental para evitar imposição de mãos precipitadas (1Tm.5.22), pois o subjetivismo do chamado pode ser facilmente confundido com emoções passageiras.
Não é incomum o seguinte cenário: A igreja planeja uma conferência missionária e, então, convida um preletor de boa retórica (nem sempre profundo conhecedor da Escritura). Durante a pregação, o preletor conduz os sentimentos do público induzindo-o a envolver-se mais com as missões transculturais, apontando estatísticas e histórias comoventes, como se a voz de Deus ecoasse apelativa para cada pessoa que deverá sentir-se culpada por não ser missionária em algum país distante. A igreja, então, verte-se em lágrimas de emoção. A música escolhida para aquela conferência possui uma melodia hipnotizante, chamando os cristãos para uma vida consagrada a missões. Diante de todos os apelos, alguns jovens decidem dedicar-se a missões, consagrando a vida à pregação do Evangelho a povos distantes, afirmando plena convicção de chamado divino. Após conversar com a liderança, eles são enviados para seminários e cursos preparatórios, mas, daqueles dez jovens que disseram ter plena convicção de vocação, apenas um permanece servindo ao Senhor como missionário entre povos estrangeiros. Os demais voltam para a igreja local onde irão servir a Deus como já o faziam antes, pois descobriram que a convicção era, na verdade, emoção induzida.
O presente capítulo pretende ajudar as igrejas a evitarem esse tipo de problema exemplificado acima. Outros diversos casos têm ocorrido anualmente envolvendo o ministério pastoral. Em alguns deles, a falta de vocação não é reconhecida pelo proponente, mas pela igreja que observa a incapacidade do candidato para exercer o ministério pastoral. O “suposto vocacionado” mantem firme suas convicções, apesar da falta de evidências objetivas que comprovem um chamado real da parte de Deus. Para evitar ambos os casos, Deus nos deu critérios objetivos que sobrepõe o subjetivismo da convicção de chamado, a fim de proteger a igreja de futuros problemas e guardar os cristãos de enveredarem por um caminho não confiado às mãos de todos.
Em Mateus 9.37-38 (Lc.10.2), o Senhor Jesus motivou os discípulos a orarem pedindo que Deus mandasse mais trabalhadores para a seara. Não há uma definição de trabalhadores, mas o contexto aponta para a evangelização, pois “percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino” (Mt.9.35), e, também, para o cuidado pastoral, pois as multidões “estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mt.9.36). A igreja precisava de pessoas qualificadas para realizar a vasta obra de Cristo, por isso os discípulos deveriam rogar a Deus, a fim de que Ele escolhesse e enviasse pessoas que estivessem munidas de tudo que era necessário para o bom desempenho da obra do Senhor. No capítulo seguinte (Mt.10), Jesus envia mais trabalhadores, seus discípulos, para a grande seara de seus dias.
Desde então, Deus tem mandado pastores para cuidar de suas ovelhas e capacitado seu povo para realizar a vasta obra de evangelização do mundo. Contudo, a necessidade de trabalhadores para a seara nunca substituiu o cuidado de Deus para com a qualificação de seus obreiros. Isso não significa que o Senhor chama somente pessoas de determinadas classes sociais, mas significa que Deus importa-se com a capacitação daqueles que Ele chama, independente de seu lugar de origem. Diversos dos discípulos eram homens simples, sem instrução avançada, mas foram qualificados para anunciar o Evangelho com fidelidade e excelência e de tal forma o fizeram que causaram admiração nas autoridades judaicas (At.4.13), pois haviam sido preparados pelo Senhor Jesus.
Isso acontece porque Deus trata sua obra e igreja com zelo. O Senhor não envia ninguém que não tenha sido capacitado por Ele. Deus atribui responsabilidades “a cada um segundo a sua própria capacidade” (Mt.25.15), para que todos possam realizar o trabalho do Senhor da melhor forma possível, a fim de que Deus seja glorificado na beleza de seu projeto redentor. Quando cristãos fazem o trabalho relaxadamente, sem qualidade, sem dedicação, sem excelência e fidelidade, então, em vez de glorificar a Deus, demonstram indiferença para com o Senhor da obra que é digno de receber o mais excelente de seu povo. Portanto, não basta ser ordenado pastor. É preciso ser designado por Deus para ser pastor, preparado pelo Senhor para ser pastor e tornar-se pastor para realizar o ofício com fidelidade e excelência.
A igreja também precisa estar pronta para identificar os demais dons de cada cristão, a fim de preparar os membros do corpo de Cristo para o bom exercício de cada respectivo papel. Bem identificados e preparados, todos os cristãos de uma igreja local poderão contribuir com fidelidade e excelência através daquilo que Deus chamou para fazer. Afinal, será que todo jovem dedicado na igreja tem que, necessariamente, ser identificado como futuro pastor? Será que toda pessoa que gosta de evangelizar deve ser uma missionária na China? Será que todo cristão interessado no estudo da Escritura deve ser ordenado ao ministério pastoral? Há outros papéis dentro do corpo de Cristo que precisam destas mesmas aptidões e dedicação. E se a igreja não consegue identificar, qualificar e administrar os demais dons, naturalmente ficará deficiente no uso dos membros do corpo de Cristo.
Ao limitar os papéis dos cristãos, resumindo diversos serviços ao ministério pastoral, a igreja corre o risco de ordenar homens que não foram vocacionados e, ainda, cometer o erro de constituir mulheres em pastoras, confrontando a própria vontade de Deus revelada na Sagrada Escritura. O ministério pastoral não é o único serviço dentro do corpo de Cristo! A igreja precisa dar mais valor aos demais dons concedidos pelo Senhor, procurando desenvolver melhor cada um desses papéis, a fim de que a igreja cresça com a “justa cooperação de cada parte” (Ef.4.16).

Nem todo desejo bom é caminho para o homem

Desejar ser pastor é algo bom, disse Paulo, afinal o ministério pastoral é uma “excelente obra” necessária no meio da igreja e importantíssima dentro do projeto redentor. Mas, será que basta querer ser pastor? É evidente que desejar algo não é suficiente para que a pessoa alcance o almejado. Há muito mais envolvido no processo de aquisição de alguma coisa do que o simples desejo. No caso do ministério pastoral, a convicção de vocação será o ponto de partida no processo que identifica, prepara e ordena um pastor, mas será sempre necessário colocar toda convicção de chamado à prova, a fim de que a igreja proceda com clareza e zelo ao ordenar cada pastor, pois nem toda convicção é necessariamente uma realidade. A Escritura atua como uma peneira de aço de pequeninos furos precisa em apurar aqueles que realmente foram vocacionados, por meio da qual a convicção é fortalecida e o engano é dissipado.
Portanto, não é suficiente desejar ser pastor; é preciso ser vocacionado pelo Senhor. A alimentação da fé na fé ajudou a aumentar o número de problemas relacionados ao ministério, pois o mundo diz: “- você pode ser o que quiser ser”. Os filmes dizem frequentemente que basta você desejar uma coisa que a terá. Ou seja, basta crer que você é capaz, ir atrás de seu sonho e, então, você o realizará. Por essa razão, qualquer oposição que apareça na frente dos sonhos humanos, incluindo as proibições divinas, passa a ser considerada adversária (desafio que deve ser transposto). O homem, então, desconhece o “não” e nem aceita que Deus lhe imponha limites. Não há restrições para os desejos humanos (Gn.11.6). Mas, será que o ser humano pode desejar qualquer coisa? Tudo realmente é possível? Nesse viés, o mundo tem afirmado que o homem pode ser mulher e a mulher pode ser homem, basta querer.
Enquanto o coração dá asas à imaginação do homem, a Escritura acorda o ser humano para a realidade, mostrando-lhe os limites de sua existência dentro do projeto divino onde o homem encontra sua razão e propósito de vida. Sair desses limites é caminhar fora da presença do Senhor por caminhos sombrios, como uma criatura rebelde que prefere as loucas aventuras de seu coração ao abrigo seguro e certo de um aconchego familiar. Em outras palavras, o Criador do mundo não apenas fez a matéria, mas, também, sustenta e governa toda sua criação. E como Senhor de tudo, estabeleceu leis e propósito para todas as coisas, a fim de que tudo exista em plena harmonia com Ele mesmo, glorificando Seu Santo Nome.
Desta forma, a teimosia do homem em querer ser ou fazer o que não lhe foi permitido suscita o desagrado do Senhor que disciplina seus filhos, a fim de trazê-los para o centro de sua vontade revelada na Escritura, e reserva juízo para aqueles que são bastardos de forma que, não sendo castigados no presente, continuam fazendo o mal, pensando ter a aprovação de Deus, acumulando assim seus pecados para o dia da ira do Senhor (Hb.12.4-13). Desta forma, a Escritura exorta a não se deixar enganar pela aparente inércia de Deus diante dos pecados do mundo (incluindo o feminismo dentro da igreja). O Senhor tem reservado juízo para os vasos de ira, “preparados para a perdição” (Rm.9.22).
Portanto, o cristão não deve brincar com os elementos pertencentes ao cristianismo. A vocação não pode servir a propósitos pessoais nem muito menos deve ser “pedra de tropeço” para a igreja de Jesus, pois qualquer “que fizer tropeçar a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar” (Mt.18.6). Por essa razão, é fundamental que o pastor tenha “cuidado de si mesmo e da doutrina” (1Tm.4.16), a fim de ser “achado fiel” (1Co.4.2) por Deus que concede a cada um a graça para servir, “segundo a proporção do dom de Cristo” (Ef.4.7).
Mas, é possível uma pessoa dizer para a outra que a vocação dela não é real? Mesmo que seja possível, raramente alguém tem coragem de fazer isso. E mesmo quando surgem incertezas sobre a vocação de alguém, tendo em vista não demonstrar aptidão para o ministério pastoral, as pessoas sentem-se obrigadas a aceitar, considerando a natureza subjetiva do assunto. Dificilmente alguém terá coragem de rejeitar o chamado de um irmão, principalmente conhecido, que diz ter convicção de sua vocação para o ministério pastoral. Em geral, as pessoas acreditam que a vocação é tão pessoal que ninguém pode desconsiderá-la. Por essa razão, infelizmente, qualquer pessoa que aparece dizendo ter sido chamada para o ministério pastoral tem sido aceita pelo povo. Os cristãos perderam a coragem de rejeitar a suposta vocação de alguém, pois consideram o chamado pastoral de ordem completamente subjetiva e pensam que a rejeição seria uma afronta ao próprio Deus. Mas, como saber se Deus realmente vocacionou alguém? Não seria possível um engano de ordem emocional? O misticismo em torno do chamado fez com que ele se tornasse intocável criando problemas monumentais para a igreja cristã repleta de líderes que nunca foram vocacionados por Deus.
O problema tornou-se tão nítido que as feministas tomaram proveito disso (veremos melhor o assunto no anexo do capítulo 1). Tendo em vista que os cristãos não têm coragem (nem a liderança) de rejeitar a suposta vocação de alguém, as mulheres tomaram proveito dessa brecha e anunciaram sua suposta vocação pastoral. Quando alguém rejeita a ideia de que uma mulher possa ser vocacionada (como eu rejeito por razões claramente bíblicas) então elas apelam para o subjetivismo da vocação como se ninguém pudesse se opor às convicções que dizem ter no coração. Na prática, o que ocorre é o seguinte: a Escritura nega a possibilidade de uma mulher ser ordenada ao ministério pastoral (demonstraremos isso mais adiante), rejeitando objetivamente qualquer suposta vocação, mas, por causa das crendices evangelicais, o cristão sente-se impedido de opor-se, pois considera que “não tem autoridade para negar que Deus falou ao coração daquela pessoa”. Qual o problema evidente? As feministas transformaram Deus num personagem confuso que não sabe o que quer, pois em um lugar Ele diz que mulheres não podem ser pastoras (Escritura); em outro, diz que elas podem assumir o ministério pastoral (chamado subjetivo).
Todavia, o problema não é exclusivo do suposto ministério pastoral feminino. Há homens que pensam ter sido vocacionados, mas não foram. A comprovação disso encontra-se dentro dos seminários. As turmas de seminários costumam começar com um número maior de alunos e terminam com poucos. A cada semestre alguns alunos desistem percebendo que não foram vocacionados, outros são impedidos por circunstâncias e terminam por acomodar-se à dificuldade para nunca mais voltar. Esses irmãos tinham plena certeza do chamado quando pediram à liderança da igreja para irem ao seminário. Será que Deus falhou em chamá-los? Nem mesmo Jonas, querendo fugir de sua vocação, conseguiu resistir à vontade de Deus (Jn.1.3; 3.1-3). Então, o que aconteceu com os desistentes? Como a paixão pode cegar os olhos de um homem! Esses irmãos foram enganados pelo próprio coração. Ambientes forjados dentro da igreja, cercados com muita emoção; insistência das pessoas na suposta identificação de uma vocação; e, o próprio desejo de servir a Deus associado à ideia de que a única forma de servir bem ao Senhor é por meio do ministério pastoral podem enganar o coração do homem, tão propenso a ser iludido.
É importante frisar, também, que cursar um seminário até o fim não é garantia de que a pessoa foi vocacionada. Seminário são cursos teológicos que preparam academicamente pessoas, oferecendo um conhecimento mais preciso, profundo e amplo da Escritura Sagrada. Qualquer pessoa pode cursar um seminário e todos os ingressantes poderiam ser capazes de concluí-lo, mesmo que nunca tenham sido chamados por Deus para exercer o ministério pastoral. A aptidão para ensinar é apenas um dos critérios para a ordenação de pastores e, por mais importante que seja, não é suficiente para qualificar alguém como apto para o ministério pastoral.
Precisamos, portanto, de critérios objetivos (veremos mais adiante) para analisar o candidato ao ministério pastoral, a fim de evitar erros na ordenação. Fazendo isso, estaremos protegendo a igreja de sofrimentos futuros enquanto fechamos brechas contra possíveis ameaças. E, além disso, estaremos resguardando aqueles que estavam sujeitos a começar uma jornada que não lhes pertencia. É importante salientar, todavia, que mesmo acertando na ordenação de ministros, é possível que alguém verdadeiramente vocacionado cometa erros, afinal a vocação pastoral não é uma garantia de perfeição, mas um chamado para o desenvolvimento de um trabalho no corpo de Cristo (Gl.2.11-14). Contudo, pecados jamais farão parte da vida de um pastor como se fossem algo natural para ele. Ou seja, acertar na ordenação de pastores não isenta a igreja de alguns possíveis problemas no decurso do exercício pastoral de alguém, pois a falta de cuidado consigo mesmo poderá levá-lo a momentos de deficiência no ministério. A escolha certa não está imune a problemas, mas reduzirá em grande medida a probabilidade deles aparecerem.

Indicativos da necessidade do pastoreio

O ministério pastoral possui dois papéis importantíssimos dentro da história da redenção: tornar o Evangelho de Cristo conhecido entre os povos por meio da pregação fiel e excelente da Escritura Sagrada; e, cuidar daqueles que creram em Jesus, a fim de que tanto perseverem num gráfico crescente de sua fé quanto sejam capacitados a desenvolver seus dons com o propósito de contribuir com a edificação da igreja (Ef.4.15-16) e evangelização do mundo. Sem o ministério pastoral, a igreja seria formada por pessoas despreparadas, “aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mt.9.36) em meio a um mundo que “jaz no maligno” (1Jo.5.19).
A importância do ministério pastoral pode ser percebida não somente nas páginas do Novo Testamento, mas, também, nas entrelinhas da vasta história narrada no Antigo Testamento. Nesse último caso, não encontraremos o ofício pastoral conforme os moldes do Novo Testamento, mas veremos as características do pastoreio em outros tipos de liderança. No período do Antigo Testamento, Deus proveu de pastores por meio de ofícios diferentes, suficientes para atender às necessidades do povo de Deus em cada etapa da história redentora. A ausência de personagens que ocupassem um desses ofícios sempre trouxe grandes prejuízos, deixando o povo de Deus à mercê de suas concepções e vontades, numa caminhada sem direção.
Essa necessidade é demonstrada já nas primeiras páginas da Escritura quando a linhagem dos filhos de Deus (Gn.5) se envolve com o restante do mundo (Gn.6.1-7) miscigenando-se a tal ponto de contaminar-se por completo (Gn.6.11). Os filhos de Deus precisavam de uma liderança que arrebanhasse o povo em torno do Senhor, mas não havia. Em meio à linhagem de Sete, existiam grandes homens de Deus, como Enoque (Gn.5.22-24), mas ninguém assumiu a liderança do povo. Nesse período os anciãos deveriam ser os pastores do clã, mas a Escritura não aponta nenhum líder que arrebanhasse o povo, a fim de conduzi-lo por caminho seguro. Desta forma, os filhos de Sete caminharam para a destruição (o dilúvio – Gênesis 6-9), assemelhando o período ao que diz o livro de juízes: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (Jz.21.25). Gerações sem pastores caminham perdidas rumo à própria perdição.
Nesse ponto, entendo que o texto propositadamente aponta ao leitor a necessidade do povo de Deus ter um líder. O não cumprimento do papel de Adão como pastor de Eva já havia trazido consequências catastróficas de dimensões cósmicas. Em Gênesis 4, Adão também não aparece ao lado dos filhos quando estes apresentavam ofertas ao Senhor (Gn.4.1-7) nem muito menos depois quando Caim mata Abel e é expulso da presença do Senhor (Gn.4.8-24). Com o estabelecimento do caos no mundo, a Escritura mostra a necessidade de o homem ser guiado por um pastor. Fora do paraíso, o homem se depara com inimigos internos e externos (Gn.3.15-19; Gn.4.7). Desta forma, entendo que, profeticamente, a Escritura já aponta para a necessidade de Cristo, o pastor da igreja. O decurso da história do povo de Deus, em todas suas etapas, confirma esse indicativo da necessidade do supremo pastor (Mq.5.2; Mt.2.6). Enquanto o povo estivesse sem seu pastor estaria sujeito a andar por caminhos tortuosos.
Importante observar, também, a necessidade da Palavra objetiva e absoluta de Deus. Por meio dela, Adão deveria ter pastoreado Eva (Gn.2.15-17; 3.11). Após a queda, o Senhor revelou sua promessa redentora, suficiente para que o povo de Deus vivesse pela esperança, mas, por causa da natureza pecadora, o homem necessitava de proibições e ensinos que o conduzisse pelo caminho em que deveria andar, guardando-o dos desejos enganosos do próprio coração pecador (Sl.19.7-14). E, dentre os mandamentos necessários, os filhos de Deus precisavam de ordens explícitas para não se misturar com os filhos de Caim (Dt.7.3-4; Js.23.12-13; Ed.9.1-2; Ne.13.23-27; Ml.2.11). A Palavra de Deus, então, revela-se necessária para a boa condução do povo de Deus, a fim de guardá-lo de pecar contra o Senhor (Sl.119.11).
Israel também sentiu a falta de pastor em dias posteriores ao dilúvio. Após o tempo do governo de José no Egito, tendo ficado sem um pastor para guardá-los, Israel foi submetido à escravidão (Ex.1-2) até o tempo em que Deus suscita um pastor para libertar e conduzir o povo (Ex.3). Algum tempo depois, após a morte de Josué e dos anciãos que foram escolhidos para liderarem a nação, o povo volta a caminhar sozinho, de forma que “fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o Senhor” (Jz.2.11; 17.6; 21.25). Nesse período, a falta de um pastor que lhes ensinasse com firmeza a Palavra de Deus, conduzindo o povo pelo caminho do Senhor, fez com que a nação chegasse ao “fundo do poço”, cometendo todo tipo de pecado: idolatria (Jz.2.11-13), casamento com pagãos (Jz.3.5-6); sacrifício humano (Jz.11.30-40? Cf. 2Rs.23.10; Jr.32.35), homossexualismo (Jz.19.22), prostituição (Jz.11.1; 16.1), abuso de uma mulher até a morte (Jz.19.25-30) etc. No período de 1 e 2 Reis, levantaram-se diversos homens maus para ocupar o trono em favor de si mesmos, abandonando o povo à idolatria do coração, fazendo assim “o que era mau perante o Senhor” (1Rs.14.22; 15.26,34; 16.19,25,30; 21.25; 22.53; 2Rs.3.2; 8.18,27; 13.2,11; 14.24; 15.9,18,24,28; 17.2,17; 21.2,6,15,16,20; 23.32,37; 24.9,19). Nesse tempo, os sacerdotes, que deveriam conduzir a nação na Palavra do Senhor, ensinando-lhe a lei enquanto intercediam pelo povo, também não cumpriram seu papel pastoral deixando que o Israel seguisse seus próprios passos entregando-se a todos os pecados, “e de tal modo os fez errar, que fizeram pior do que as nações que o Senhor tinha destruído de diante dos filhos de Israel” (2Rs.21.9). Sem pastor, a nação estava fadada à ruína completa.
Essa triste realidade esteve presente em diversos e longos períodos da história de Israel, mostrando para a nação a necessidade do supremo pastor, o Messias prometido, aquele que haveria de “apascentar” o povo de Deus (Mq.5.2; Mt.2.6; 1Pe.5.4). Todavia, Deus não deixou o povo sem refrigério. Diversos líderes foram levantados para pastorear Israel por meio do ofício profético, sacerdotal e real. Esses três ofícios serviram ao propósito de conduzir o povo na Palavra do Senhor, a fim de preservá-lo para o dia de Cristo.

O pastoreio no decurso da história redentora

Para suprir a necessidade iminente, Deus providenciou ofícios que atendiam às necessidades básicas do povo (2Sm.7.7; 1Cr.17.6) enquanto apontavam para o prometido pastor que exerceria todos os ofícios juntos: Cristo (Hb.1.1-2.17; Mq.5.2 // Mt.2.6; 1Pe.5.4). No Antigo Testamento, esses ofícios estiveram juntos em pessoas diferentes: “Disse o rei Davi: Chamai-me Zadoque, o sacerdote, e Natã, o profeta” (1Rs.1.32 grifo meu). Mas, também, apareceram tipologicamente juntos (nem sempre oficialmente) sendo exercidos pela mesma pessoa: “Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo; abençoou ele a Abrão e disse” (Gn.14.18).
Os três ofícios juntos são encontrados, também, nos patriarcas. Eles não foram designados como reis nem eram levitas, mas exerceram os três ofícios de forma que atendiam: à necessidade de um rei, governando seu clã (Gn.12.4-5; 26.1; 35.2-4); sacrificando ao Senhor como sacerdotes (Gn.22.13; 31.54); e, profetizando a bênção do Senhor como profetas (Gn.20.7; 27.27-29; 49.1-27). Desta forma, os patriarcas apascentaram as vidas que Deus lhes confiou, conduzindo-as conforme a Palavra de Deus, e, por todo o tempo em que os patriarcas estiveram vivos, o povo andou nos caminhos do Senhor.
Depois deles, os ofícios foram separados, surgindo no meio da nação de Israel a figura do profeta, do sacerdote (da tribo de Levi) e, posteriormente, do rei. Por meio desses três ofícios, Israel ouvia a Palavra de Deus, era alvo de intercessão tanto por meio de orações quanto pelos sacrifícios oferecidos em favor do povo e era conduzido a uma vida em acordo com a lei do Senhor (1Rs.15; 2Rs.18-20; 22-23). O ofício real foi o último a ser instituído na nação (1Sm.8) e desempenhou importante papel na condução do povo, sendo preenchido antes de seus dias pelos juízes de Israel (1Sm.12.1-25). Durante todo o período dos reis de Israel, os três ofícios estiveram separados, unindo-se, outra vez, somente em Cristo (Livro de Hebreus). Todavia, um parêntese tipológico aparece em Davi, rei de Israel, que “sendo profeta” (At.2.30) profetizou sobre Cristo em seus muitos Salmos (Sl.16; 89; 110; 132 etc) e ainda ofereceu sacrifícios ao Senhor pelo povo (2Sm.6.13-19).
Todas as vezes que esses ofícios eram exercidos com fidelidade o povo de Deus era bem pastoreado. Infelizmente, isso não ocorreu na maior parte do tempo, mas alguns períodos áureos apontaram para a necessidade de fiéis ministros em todos os três ofícios (1Rs.3.3-28; 1Rs.15; 2Rs.18-20; 22-23). Tendo em vista que os ofícios real e sacerdotal eram transmitidos por herança, nem sempre os sucessores foram servos fiéis no uso de suas atribuições. Conquanto, Deus manteve um ofício livre desse problema. Os profetas eram escolhidos por Deus (apesar de haver escolas de profetas – 1Sm.19.18; 2Rs,2.3,5,7) pelas formas as mais variadas, de origens as mais inusitadas com o propósito de anunciar com fidelidade a Revelação do Senhor a cada geração. Longe da contaminação político-administrativa da nação, os profetas preservaram íntegra a Palavra do Senhor, anunciando ao povo a vontade de Deus com fidelidade. E por meio do ministério profético, Deus pastoreou o povo em dias maus.
Portanto, a escolha correta de homens para pastorearem o povo de Deus sempre foi fundamental para o bom andamento da igreja de todos os tempos. Errar na ordenação de pastores não é um luxo ao qual a igreja deva se sujeitar, pois os danos podem trazer implicações catastróficas para o povo de Deus. O liberalismo assolou a Europa, os Estados Unidos e está assolando o Brasil travestido de evangelicalismo gospel, e os responsáveis por isso são pastores por meio dos quais entra na igreja todo tipo de heresia. Por um lado, falsos mestres ensinam doutrinas perniciosas, por outro lado pastores despreparados deixam que más doutrinas entrem na igreja, pois não estão firmes e aptos a impedirem que falsos ensinos sejam inseridos no meio do povo de Deus.
Com o propósito de qualificar a igreja a ordenar homens realmente vocacionados e proteger-se de possíveis ameaças, falaremos a seguir sobre os critérios objetivos para a ordenação de pastores aprovados pela Escritura Sagrada. Por fim, em anexo, demonstraremos que o ministério pastoral feminino é proibido pela Palavra de Deus, sendo, portanto, uma criação do coração do homem que desvirtua a igreja do centro da vontade do Senhor.

Critérios objetivos

Ter critérios objetivos para a escolha de um ofício não é algo restrito ao presbiterato e diaconato. A escolha daquele que substituiria Judas Iscariotes no ministério apostólico foi regida por critérios bastante objetivos: ter recebido a Palavra de Deus diretamente de Jesus (andado com Ele durante seu ministério) e ter visto Cristo após sua ressurreição (At.1.15-26). Qualquer discípulo que não se enquadrasse nesses dois critérios seria rejeitado como candidato. Por essa razão, Paulo foi vilipendiado pelos judaizantes e precisou se defender diversas vezes, comprovando que cumpria os requisitos necessários para ser apóstolo, pois havia visto o Cristo ressurreto o qual lhe revelara pessoalmente o Evangelho à semelhança do que ocorrera com os demais apóstolos (1Co.9.1; Gl.1.1,16-17; 2.6-9). A objetividade dos critérios era um importante recurso para evitar a entrada de falsos líderes no meio da igreja. Por isso, o próprio Paulo instruiu Timóteo com respeito a ordenação de ministros: “A ninguém imponhas precipitadamente as mãos. Não te tornes cúmplice de pecados de outrem. Conserva-te a ti mesmo puro” (1Tm.5.22).
Isso não era novidade para a igreja, pois Moisés já havia apresentado a necessidade de se avaliar profetas por meio de critérios objetivos (Dt.13.1-5). Nessa avaliação, os sinais e milagres são considerados inferiores à Palavra de Deus, de forma que a fidelidade no ensino da Escritura seria sempre o crivo final para julgar a procedência de todo profeta:

“Quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio de que te houver falado, e disser: vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador; porquanto o SENHOR, vosso Deus, vos prova, para saber se amais o SENHOR, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma” (Dt.13.1-3 -ARA).

A infidelidade à Escritura Sagrada descredenciava qualquer que dissesse ter sido chamado por Deus e, nos dias do Antigo Testamento, o povo deveria não apenas expulsar o falso profeta, mas mata-lo; tamanho era o pecado de tentar desviar a igreja do caminho do Senhor (Dt.13.5). No Novo Testamento, nem os apóstolos nem a igreja fazem mal a qualquer pessoa, mas deveriam expulsar qualquer que insistisse em não andar conforme a Palavra de Deus (Mt.18.17; 1Co.5.13).
Portanto, a seriedade do assunto também é vista nas páginas do Novo Testamento: Jesus anuncia o juízo de Deus para os falsos mestres (Mt.18.6; Mc.9.42); Paulo desejou a mutilação daqueles que estavam tentando desviar as igrejas da Galácia (Gl.5.12); Pedro reafirma a condenação que virá sobre os falsos profetas (2Pe.2.1) e Judas lança palavras imprecatórias sobre os pervertedores da sã doutrina (Jd.8-16). Desta forma, a Escritura sempre foi o crivo final por quem deveriam passar todas as coisas, a fim de definir a natureza boa ou má de cada elemento. Nada contrário à Palavra de Deus poderia ser aprovado por melhor que fosse sua aparente piedade, por mais engenhosa que fosse sua argumentação, por maior que fosse o sinal e milagre associado.
Paulo escreve três cartas sobre os cuidados com a vida pastoral: 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito. Nessas três cartas, encontramos critérios para a escolha de futuros pastores e ensinos sobre o procedimento daqueles que já são ministros. Nelas, Paulo demonstra seu cuidado com a vida daqueles jovens pastores e, também, com a ordenação de futuros ministros do Senhor. Essa preocupação aponta para seu zelo com o corpo de Cristo, afinal a igreja pertence a Deus “a qual Ele comprou com o seu próprio sangue” (At.20.28) e lobos vorazes espreitam os filhos de Deus “falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles” (At.20.30). O ministério de Paulo estava chegando ao fim e o apóstolo sabia que os inimigos não poupariam a igreja (At.20.29). A ordenação baseada em convicções subjetivas de um candidato não seria suficiente, pois nem sempre condiria com a vocação divina. Portanto, Paulo entrega para a igreja uma relação de marcas que a ajudariam a avaliar cada candidato de forma objetiva. Ou seja, mesmo que o candidato dissesse ter sido vocacionado ele poderia ser reprovado caso não estivesse em pleno acordo com os critérios objetivos revelados por Deus.
A partir dos textos de 1 Timóteo 3.2-7 e Tito 1.6-9, relacionamos abaixo vinte marcas que o candidato deve ter para que possa ser ordenado ao ministério pastoral. Essas marcas são o crivo da Escritura para que alguém possa ser fiel ministro do Senhor Jesus. Algumas das marcas encontram-se apenas em uma das cartas; outras são encontradas em ambas as cartas, com o uso do mesmo termo; e. há, ainda, as marcas que são correlatas, ou seja, termos diferentes de significado semelhante.

1. Irrepreensível  [anepilepton][1] (cf. Tito 1.7 – “irrepreensível como despenseiro de Deus”)

A primeira característica que o candidato ao ministério pastoral deve ter é “irrepreensível”. O termo [anepileptos] só aparece em 1 Timóteo (1Tm.3.2; 5.7; 6.14), mas pode ser considerado correlato do termo [anenkleton] usado pelo apóstolo no texto paralelo de Tito 1.7. Conforme, Thayer’s Greek Lexicon e Liddell-Scott Lexicon o termo é frequente em escritos gregos de Eurípedes e Tucidides significando aquele que não pode ser atacado, não pode ser censurado, não pode ser repreendido, ou seja, alguém sem culpa, irrepreensível. Além dessas fontes, podemos encontrar seu significado em traduções antigas do Novo Testamento, tais como a Vulgata Latina onde o termo é traduzido por “inreprehensibilem”.
Essa característica lembra-nos o momento em que Jesus estava diante do Sinédrio para ser julgado. Todos o acusavam, mas nenhuma das acusações era verdadeira. Não havia erro nEle, pois Ele era irrepreensível. De forma semelhante, o pastor deve ser irrepreensível em sua vida de tal forma que mesmo acusado não tenha de que se envergonhar. O mundo sempre tentará encontrar defeitos em nós, mentindo acusações contra o povo de Deus. É importante, então, que o candidato seja justo diante das falsas acusações do mundo.
Surge uma dúvida: Se o pastor deve ser irrepreensível, por que os apóstolos cometeram erros? Ser irrepreensível não isenta uma pessoa de alguns defeitos, mas os reduz ao mínimo na esperança de que em Cristo sejam completamente aniquilados. Mesmo uma pessoa que comete algum erro, pode ser conhecida perante a sociedade como irrepreensível, pois errar não faz parte de seu dia a dia. Isso é possível porque aquele que é irrepreensível está sempre pronto para pedir perdão pelos pecados que cometeu. O apóstolo João, fazendo uso de verbos na primeira pessoa do plural (nós), diz que não podemos andar nas trevas nem dizer que não temos pecado (1Jo.1.6,8). Ser irrepreensível é viver uma vida íntegra conforme a Escritura Sagrada, incluindo a humildade para confessar os pecados cometidos, pronto para mudar seu comportamento conformando-o à Palavra de Deus.
Homens que não se importam em ter uma vida repreensível, repleta de defeitos notórios diante de todos; candidatos orgulhosos, pois não reconhecem sua falibilidade nem estão prontos para se humilharem na presença do Senhor, confessando seus pecados; cristãos “sujos na praça”, que devem dinheiro, favores e trabalho ao comércio, empresa em que trabalha, entidades educacionais etc. não podem ser pastores, pois não são exemplos para o rebanho. A igreja precisa de ministros que estejam à frente do rebanho a fim de que sejam vistos pela igreja como modelo a ser seguido, apontando sempre para Cristo, o varão perfeito. Ser igual ao pastor não é o alvo final da igreja, mas ele deve ser capaz de dizer: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co.11.1; Fp.3.17).
Em Tito 1.7, o candidato deve ser irrepreensível, também, em seu serviço prestado à igreja, como um mordomo fiel no cuidado com os bens de seu Senhor. Como analogia, José serve de exemplo para aquele que deseja ser pastor, pois tudo que lhe vinha à mão para fazer, ele o fazia com dedicação e zelo, excelência e fidelidade de forma que Deus abençoava todo trabalho que José realizava (Gn.39.2-6, 21-23; 41.33-40 // Ef.6.5-8). O pastor deve ser dedicado e zeloso na obra que o Senhor o chamou a realizar, pregando e ensinando, cuidando das ovelhas e enfrentando lobos com excelência e fidelidade. Sem essa marca, o cristão não serve para o ministério, pois não cuidará da igreja de Jesus da forma como Deus deseja. Consequentemente, a igreja sofrerá os danos de estar nas mãos de uma líder medíocre que realiza a obra relaxadamente. A igreja não amadurecerá como deve; os lobos devorarão as ovelhas ao longo da jornada; e, Deus será envergonhado por causa da obra feita de forma repreensível (Ml.1.6-10; Jr.48.10; Ec.9.10; 1Co.15.58).
O pastor precisa ser irrepreensível em seu testemunho de vida, sua dedicação no trabalho do Senhor e, também, em seu zelo pela Palavra do Senhor. Sem o cuidado e amor para com a Palavra do Senhor, pastores tem permitido que qualquer ensino seja ministrado no meio da igreja, deixando que o povo de Deus seja desviado de Cristo. Com o foco fora de Jesus, a igreja tem idolatrado “pop stars evangélicos” (líderes e músicos), aceito qualquer ensino como verdadeiro, mostrado falta de conhecimento da Escritura Sagrada, praticado rituais cúlticos estranhos e antropocêntricos, convivido com muitos pecados em seu meio e sido enganada por diversos falsos profetas de nossos dias. Portanto, é fundamental que o candidato seja irrepreensível, também, como despenseiro da Palavra de Deus, pronto para propagar o evangelho e proteger a igreja dos enganos do mundo.

2. Marido de uma mulher [miâs gynaikós ándra] (1Tm.3.2; Tt.1.6)

Há algumas divergências sobre a compreensão dessa expressão. A tradução é simples, mas o significado tem sido discutido. Paulo queria dizer que o pastor não pode ter duas esposas ao mesmo tempo ou que o pastor não poderia ser divorciado ou, ainda, que o pastor só poderia casar uma vez na vida? Parece-nos que esta última opção é uma leitura extravagante já que a Escritura autoriza qualquer pessoa a casar outra vez em caso de perda do cônjuge por morte (Rm.7.2; 1Co.7.39). Todavia, a Palavra de Deus não aprova nem a poligamia nem o divórcio não justificado (Mt.19.9; 1Co.7.15-16), considerando ambos como pecados (Gn.2.23-24; Pv.5.15-20; Mt.5.31-32; 19.3-9; 1Co.6.9; Hb.13.4). Sendo assim, podemos considerar que o candidato ao ministério pastoral não pode ter mais de uma esposa nem ser divorciado.
O candidato ao ministério pastoral deve ser exemplo na relação familiar, como alguém que, apesar dos desafios da relação conjugal, persevera até que Deus mesmo decida separar o casal por meio da morte. O casamento do ministro nem sempre será perfeito, pois dependerá, também, do comportamento da esposa. Por essa razão, Deus não exige perfeição da relação conjugal, mas exige fidelidade. Talvez o pastor não tenha uma esposa amorosa ou agradável ou trabalhadora, mas deverá manter-se firme em conservar a família até o ultimo dia. Romantismo não faz parte do critério, mas a fidelidade em cumprir seu papel de esposo dentro do lar, cuidando da família com o amor de Deus, mesmo em contexto de sacrifício. O pastor precisa ter essa paciente e perseverante fidelidade, a fim de suportar as muitas falhas das ovelhas que o Senhor lhe entregará para o pastoreio. Nem sempre haverá glamour na relação pastor-ovelha, mas a necessidade de cuidar de cada uma delas e o propósito de fazer a vontade de Deus com satisfação motivarão o pastor a ser fiel no cuidado das ovelhas por meio do fiel ensino da Escritura Sagrada.
Essa marca aponta ainda para a necessidade de ser firme em honrar os compromissos mesmo quando estes não são favoráveis. Compromisso e perseverança são necessários em toda a jornada cristã. O cristão deve perseverar na fé em seu compromisso com a doutrina, com a igreja, com cada membro do corpo de Cristo, com o exercício de seu dom, com as responsabilidades assumidas. O pastor deve ser exemplo disso. Um candidato volúvel que muda de ideia o tempo todo ou não é capaz de ir até o fim de uma jornada. Alguém que não honra seus compromissos de qualquer ordem, sempre chega atrasado ou não aparece quando se compromete com algo e não persevera na palavra quando vê que terá dano próprio não pode ser pastor, pois o pastor será desafiado o tempo inteiro e deverá ser exemplo de compromisso para toda a igreja.
Lembre-se que o mundo costuma apresentar ofertas tentadoras não somente relacionadas à sexualidade, mas, também, à facilidade de encher igreja. O pastor será pressionado a fazer o que as pessoas querem sob a ameaça de perder membros. Fui pressionado diversas vezes por membros de igreja (incluindo presbítero) para realizar casamentos mistos. Minha rejeição firme do começo ao fim, sempre ensinando a proibição divina e advertência da Palavra de Deus quanto aos perigos desses casamentos, resultou na saída de pessoas da igreja, pois não se conformaram com o fato do pastor ser irredutível com respeito à sã doutrina. Esse não foi o único assunto com o qual me deparei com oposições, exigindo de mim firmeza para não aceitar a vontade do povo, contrária ao ensino da Palavra de Deus.
O pastor se casa com a Palavra de Deus, a fim de manter-se firme à sã doutrina. Portanto, compromisso e perseverança são fundamentais no ministério, a fim de que o ministro não se divorcie do ensino que nos foi legado pelo Senhor em Sua Santa Palavra. Os desafios para preservar a sã doutrina serão bem semelhantes às provocações do casamento e o pastor será tentado muitas vezes a “pular fora” tanto do casamento quanto de seu compromisso com a Palavra de Deus. Portanto, é necessário que o candidato seja firme em ser fiel apesar de possíveis frustrações com o casamento. Para isso, deverá buscar ao Senhor do qual vem toda força necessária para vencermos os desafios que se nos apresentam todos os dias.

3. Sóbrio [nefáleon] (1Tm.3.2)

Nefáleos (ou nefálios) é outro termo utilizado apenas três vezes na Escritura (1Tm.3.2, 11; Tt.2.2)[2]. A palavra significa literalmente “sem mistura com vinho”, derivado do verbo [néfo]: ser sóbrio (1Ts.5.6,8; 2Tm.4.5; 1Pe.1.13; 4.7; 5.8). Obviamente, somos inclinados, em primeira mão, a pensar que Paulo esteja se referindo a não ingestão de vinho. Todavia, o apóstolo apresentará essa marca um pouco mais adiante ([mé pároinon] - 1Tm.3.3). Parece-nos, então, que seu significado aqui é mais metafórico, apontando para um indivíduo que tem controle de si mesmo, assim como uma pessoa sóbria deve ter.
Esse significado desassociado do vinho é possível porque as emoções podem dominar um indivíduo. Desejos incontroláveis, emoções desmedidas, nervos à flor da pele podem conduzir o homem a maus comportamentos, a atitudes fora de controle. Diante de desafios, problemas e ameaças, uma pessoa sem controle toma atitudes precipitadas, abandona o barco, se desespera e enfraquece os demais levando outras pessoas à desistência. Por essa razão, Deus liberou as pessoas que estavam com medo de ir para a guerra, pois não somente eram presas fáceis do inimigo como também enfraqueceriam os demais contaminando todo o exército (Jz.7.3//Nm.13.25-33).
O pastor precisa ter controle de si mesmo. Mesmo sendo fraco precisa confiar no poder de Deus; mesmo sendo pequeno precisa descansar na grandeza do Senhor; mesmo sentindo-se incapaz precisa prosseguir conforme a vontade do Senhor, para que a Palavra de Deus não deixe de ser proclamada frente aos desafios nem o povo de Deus deixe de ser pastoreado diante das ameaças dos lobos vorazes. A melhor representação da realidade pastoral não é um homem bonito, bem vestido e alegre conduzindo ovelhas por pastos verdejantes. O quadro é mais escuro e nele há um servo sofredor percorrendo estradas sombrias e pedregosas com ovelhas doentes nos ombros enquanto conduz as demais por caminho seguro, mas cercado de lobos à espreita esperando o momento certo para atacar. Para resistir ao cenário será necessário controle de si mesmo e, por isso, Deus prepara aqueles que Ele vocaciona para esta obra.
Aquele que almeja o ministério pastoral deve ter firmeza em suas atitudes, agindo com sobriedade, sem cambalear em suas decisões e palavras. Vi um pastor tomar algumas decisões diante de um grupo de pessoas com o fim de agradá-las, mas ao ver que desagradou outro grupo de pessoas, precisou desfazer toda a palavra que havia dado anteriormente. Essa atitude demonstra falta de sobriedade nas decisões, como uma pessoa bêbada que não sabe o que diz. Não é bom que seja assim, pois a igreja precisa de pastor firme em sua palavra que sabe bem o que diz, a fim de conduzir as ovelhas por caminho reto, sem cambalear. O pastor deve pastorear com tamanha firmeza na Palavra de Deus que ninguém possa desfazer suas convicções, por estarem bem alicerçadas em Cristo.
Você está pronto para os desafios do ministério pastoral? Ninguém pode ir para a guerra estando bêbado, sem domínio de si, sem ter os sentidos completamente controlados e precisos. Aqueles que se dizem vocacionados devem estar prontos para desafiar gigantes com precisão, como Davi o fez (1Sm.17.34-50). Você está sóbrio para lutar contra os inimigos? Você está pronto para resolver problemas com autocontrole? A vida pastoral necessita de sobriedade para lidar com problemas externos enquanto encara problemas internos, também. Ajudar pessoas a resolverem seus problemas enquanto possui problemas próprios, também. E diante dos maiores desafios, manter-se firme e autocontrolado, pronto para pagar o preço da fé. Esse não é um convite solitário para a guerra. Isso não significa que Deus abandona o pastor em sua jornada, pois sem a presença do Senhor não conseguiríamos vencer os inimigos. Todavia, Deus prepara o vocacionado para andar firme ao seu lado atravessando cada pântano, deserto e campo de guerra que vier à frente. Diante do vale da sombra da morte, o pastor deverá ser firme, equilibrado, racional, temperante, controlado para percorrer a estrada sombria sem tomar atitudes precipitadas nem desmaiar nem desistir.

4. Perfeito juízo, moderado [sófrona] (1Tm.3.2; Tt.1.8)

Complementando a marca anterior (ter controle de si mesmo), Paulo diz ainda que o pastor deve ter perfeito juízo, agir com moderação. O verbo da mesma raiz [sofronéo] aparece mais vezes no Novo Testamento (Mc.5.15; Lc.8.35; At.26.25; Rm.12.3; etc) significando: ser equilibrado ou ter perfeito juízo, também como oposto daquele que delira [naínoma]. Quando Paulo pregava o Evangelho para Agripa e Festo, por ocasião de seu direito a defesa, foi acusado de estar louco [maíne], mas Paulo replicou afirmando dizer palavras de perfeito juízo [sofrosýnes].
Os candidatos devem demonstrar uma conduta de alguém em perfeito juízo. A linha tênue entre este significado do termo e a ideia de moderação nos inclina a pensar que mesmo sendo alguém sadio mentalmente, o pastor deve ter uma conduta condizente com esta sanidade mental. Lembro-me de ouvir, certa vez, que um jovem candidato ao ministério pastoral levou outros jovens para assistir um filme sobre Maria no cinema e diante de algumas cenas começaram a gritar e fazer baderna em protesto contra o filme. Talvez a pessoa seja considerada mentalmente sã, mas o comportamento foi insano, trazendo vergonha para todos os que carregam o nome de evangélico. Paulo diz que estas coisas não são cabíveis ao pastor que deve pensar com moderação antes de agir, a fim de não desonrar o nome do Senhor com suas atitudes.
A moderação inclui também a forma sadia de pensar sobre si mesmo. O pastor deve ser firme em seu papel e ter plena convicção de seu chamado, mas não deve ser esnobe por causa do saber ou diante de sua posição social. É preciso pensar com moderação sobre si mesmo, afinal tudo vem do Senhor. Se o pastor possui sabedoria, é porque Deus a deu; se o pastor possui conhecimento, é porque o Senhor o possibilitou; se o pastor possui alguma coisa a mais que outros, deve dar graças a Deus, pois “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes” (Tg.1.17).

5. Modesto, decoroso [kósmion] (1Tm.3.2)

O termo é usado apenas duas vezes no novo Testamento (1Tm.2.9; 3.2). Em 1 Timóteo 2.9, Paulo refere-se ao vestir descente, decoroso, modesto da mulher, a fim de não chamar demasiada atenção para si mesma, mas para Cristo por meio de um comportamento agradável a Deus. Semelhante ao vestir-se com decência, a vida do candidato ao ministério pastoral deve ser decorosa, não extravagante, mas modesta, pois seu propósito de vida não é chamar a atenção para si mesmo, mas para o Senhor Jesus.
Deus não chamou o pastor para ser “pop star” transformando púlpito em palco e igreja em plateia. Esse fenômeno artístico tornou líderes e músicos em ídolos de “cristãos”. As pessoas estão deixando o compromisso com uma igreja local por uma vida peregrina sempre em busca de preletores e músicos famosos. Fui, certa vez, a contragosto para uma reunião interdenominacional de pastores. Em certo ponto do encontro, foi falado sobre a “marcha para Jesus”. Então, alguém indagou a razão de terem dado uma oferta no valor de trinta mil reais (R$ 30.000,00) para um pastor de fora que apesar de falar mal a Palavra de Deus e ainda se envolver, de vez em quando, com escândalos envolvendo dinheiro é conhecido do povo evangélico em geral. Tudo isso para que ele pregasse alguns poucos minutos no decorrer da marcha. Diversos pastores da região poderiam ter pregado de graça (inclusive com mais fidelidade ao texto bíblico), mas optaram por chamar o referido pastor, sob a justificativa que ele conseguiria atrair mais pessoas. Ou seja, ele é um pastor “pop star” e as pessoas gostam disso. Elas não se importam se ele é profundo conhecedor da Escritura, pois a fama prevalece.
Ter uma vida modesta e decorosa é um grande desafio no mundo ocidental, tendo em vista o luxo e conforto que as grandes metrópoles oferecem. O ocidente vive de aparência e luxo: roupas de marca que, sem razão justificável, custam três vezes (ou mais) o valor de outras; edifícios luxuosos que exigem um alto padrão de vida; celulares lançados a cada seis meses atraem a atenção do público para gastos desnecessários; propagandas sobre moda atraem para o consumismo, a fim de que se adquiram sapatos, bolsas e roupas além do que é necessário para uma pessoa. Desta forma, os cidadãos ocidentais são incentivados a uma vida consumista simplesmente para “mover a máquina”, a fim de que o capital tenha constante giro dentro da nação. Mas, onde se encontra a modéstia em tudo isso? O pastor deve cultivar uma vida simples, satisfazendo-se com tudo, quer muito quer pouco, ensinando para a igreja um viver modesto diante de uma sociedade consumista.
Todavia, ser modesto não significa ser relaxado. O pastor deve buscar o melhor para a igreja; fazer o melhor para o Senhor; dedicar o melhor à obra de Deus. A simplicidade da vida não deve ser confundida com negligência. Bom seria que todos os pastores fossem doutores no conhecimento da Palavra de Deus, a fim de que a igreja tivesse sempre um bom ensino que a conduzisse à maturidade na fé e firmeza diante dos ataques nefastos do mundo pagão. Candidatos ao ministério pastoral que não gostam de estudar a Escritura Sagrada, não demonstram interesse em se desenvolver no conhecimento da Palavra de Deus e tiram notas baixas no seminário por falta de dedicação não devem ser aprovados até que revejam suas prioridades. Ordenar alguém com este perfil não irá mudar seu comportamento. Isso só alimentará a ideia, dentro da igreja, de que qualquer pessoa pode ser pastor, desprezando, assim, a obra do Senhor.

6. Hospitaleiro [filóksenon] (1Tm.3.2; Tt.1.8)

Essa palavra é composta de dois termos: amor [fílos] mais estrangeiro [ksénos] e aparece apenas três vezes no Novo Testamento (1Tm.3.2; Tt.1.8; 1Pe.4.9). Ou seja, Paulo diz que o pastor deve ser alguém que ama o peregrino, disposto a acolher pessoas que vindo de longe precisam de abrigo. Isso era muito comum nos tempos bíblicos, pois as viagens eram longas, feitas a cavalo, jumento, camelo ou à pé. As cidades intermediárias ao destino de cada viajante serviam para repouso, mas nem sempre o peregrino encontrava abrigo em pousadas, ou por falta de condição financeira ou por falta de vagas. Devemos lembrar que Jesus não encontrou acolhida em Belém e teve que repousar numa manjedoura.
Além disso, o ministério itinerante de alguns cristãos, como Paulo, tornava necessário que os cristãos de cada cidade estivessem sempre prontos para acolhê-lo. O pastor deveria ser exemplo na acolhida, disposto a receber em sua casa, com alegria, aqueles que estavam de passagem. O apóstolo João reclama que “Diótrefes, que gosta de exercer a primazia entre eles, não nos dá acolhida”(3Jo.1.9). Entre os diversos preceitos ensinados pelo apóstolo Pedro encontra-se ser “mutuamente hospitaleiros, sem murmuração” (1Pe.4.9). O autor de Hebreus exorta a igreja a que “não negligencieis a hospitalidade, pois alguns, praticando-a, sem o saber acolheram anjos” (Hb.13.2). E o próprio Paulo diz ainda à igreja de Roma: “compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade” (Rm.12.13). A hospitalidade, portanto, era estimada como importante serviço dentro da igreja de Cristo.
Mas, ao contrário do que se possa pensar, receber pessoas não se limitava a deixa-las dormir em casa. A hospitalidade envolvia disposição para ajudar, e “servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe.4.10). A partir do termo, podemos dizer que o samaritano da parábola contada por Jesus (Lc.10.30-35) foi hospitaleiro ao acolher o judeu que havia sido assaltado e abandonado na estrada quase morto. O samaritano amou aquele peregrino servindo-o em suas necessidades, dando-lhe um lugar seguro para repousar e ser restaurado. Sua atitude, portanto, foi hospitaleira. Conforme Paulo, aquele que deseja ser pastor deve ser semelhante a esse samaritano e estar disposto a acolher pessoas quer em casa ou não.

7. Apto para ensinar [didaktikón] (cf. Tito 1.9 – “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes”.)

Paulo tem duas preocupações básicas com os destinatários das cartas pastorais: a vida deles e o ensino deles. Aqueles jovens pastores (Timóteo e Tito) deveriam ter uma vida exemplar e um ensino fiel, a fim de que pudessem salvar “tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (1Tm.4.16). A capacidade de ensinar, portanto, tinha papel crucial dentro do ministério pastoral. Por isso, uma das marcas daquele que deseja ser pastor é ser “apto para ensinar” (1Tm.3.2).
Você já percebeu que Deus não exige do pastor o dom musical? Não é uma marca exigida do futuro pastor o saber tocar algum instrumento musical ou mesmo saber cantar bem. Deus também não exige que o pastor seja um bom administrador ou político nem atleta ou psicólogo. Todavia, Deus exige de todo aquele que deseja ser pastor o saber ensinar a Escritura Sagrada com excelência e fidelidade, “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes” (Tt.1.9).
Isso significa que, independente de quantos talentos extras você possua, se não for apto para ensinar a Palavra de Deus com excelência e fidelidade você não está pronto para ser ordenado pastor. Deus não constitui pastores para tocarem no grupo de cânticos de adoração; Deus não investe pastores para administrarem uma empresa eclesiástica. Deus vocaciona homens para ensinarem a Escritura Sagrada à igreja, a fim de que ela amadureça no conhecimento de Deus. Conheci seminaristas e pastores que não possuíam aptidão para ensinar, ou não estavam prontos para serem ordenados, mas tentaram substituir essa marca fundamental com outros talentos que possuíam. Desta forma, em vez da igreja ter um “pastor-mestre” (Ef.4.11) tinha um “pastor-músico” ou um “pastor-administrador” ou um “pastor-pedreiro” ou um “pastor-psicólogo”. Uma igreja com essa deficiência está fadada ao enfraquecimento. Não será por isso que temos tantas igrejas místicas, supersticiosas, fracas e longe da Verdade?
Na Igreja Presbiteriana, o processo até a ordenação pastoral, constitucionalmente, deveria ser longo (Entre 8 a 10 anos). Digo que “deveria”, porque às vezes o processo é acelerado sob a justificativa de uma necessidade iminente, entre outros fatores. Um processo muito curto (que termine numa ordenação equivocada ou imposição de mãos sobre um candidato despreparado) pode causar danos que perdurem por muito mais tempo do que o processo levaria. Ao querer antecipar o processo para a ordenação de um candidato, a liderança da igreja dá a impressão que Deus está sempre com pressa e, por isso, não pode esperar até a conclusão do preparo completo de um aspirante ao ministério pastoral.
Todavia, Deus não tem pressa! É fundamental preparar o vocacionado antes de enviá-lo para realizar a obra do Senhor. Antes de começar o ministério pastoral no meio do povo de Deus, Moisés foi preparado por oitenta anos, o dobro do tempo que durou o exercício de seu ministério: quarenta anos pastoreando o povo de Israel (Dt.29.5; 31.2; 34.7). Poderíamos considerar tardia a vocação de Moisés, mas ele foi chamado no tempo certo para desenvolver o trabalho certo. Deus não teve pressa. Tudo ocorreu perfeitamente, mesmo que Moises não tivesse percebido isso durante os anos de sua vida. E da mesma forma como Deus preparou Moisés para conduzir um grande povo na Verdade, todo candidato ao ministério pastoral precisa ser qualificado para ensinar a Verdade à igreja de Jesus.
Em Tito, Paulo enfatiza e detalha melhor a aptidão pastoral para ensinar (Tt.1.9). Conforme o apóstolo, o pastor deve preservar a sã doutrina. Obviamente, será necessário conhecer bem a sã doutrina para que ela seja guardada e propagada com zelo e dedicação. Púlpito não é palco para apresentações pirotécnicas e elucubrações psicológicas de velhas caducas (1Tm.4.7). O púlpito deve ser lugar de preservação e proclamação do Evangelho de Cristo, poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm.1.16). Por meio do profundo conhecimento da Palavra de Deus, o ministro será poderoso “tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes” (Tt.1.9).
O pastor deve ser apto para combater com excelência as falsas doutrinas que os lobos vorazes tentam inserir na igreja; o pastor deve ser apto para contrapor os enganos do mundo que insistem em negar a existência de Deus por meio de teorias infundadas, meras criações de mentes fantasiosas. O mundo acadêmico de nossos dias é bastante agressivo e contradizente. E por pior que possa ser, será o ambiente para os jovens cristãos tendo em vista a necessidade de obter um diploma universitário. O pastor, portanto, deve ser apto para capacitar a juventude cristã a contrapor as “crenças acadêmicas”, travestidas de ciência, ensinadas nas universidades.
Desta forma, tanto a igreja deve ser pastoreada por meio do ensino da Palavra de Deus, poderosa para admoestar os faltosos, quanto o mundo deve ser evangelizado por meio do fiel ensino da Escritura Sagrada, poderosa para confrontar os pecadores, a fim de convencê-los “do pecado, da justiça e do juízo” (Jo.16.8). Sem a capacidade para ensinar a Palavra de Deus, o pastor não tem com que pastorear a igreja nem evangelizar o mundo. Psicologias, entretenimentos, programações eclesiásticas entre outros subterfúgios não foram postos como “poder de Deus para a salvação” (Rm.1.16). Na verdade, diversos males da presente geração foram trazidos dos púlpitos por preletores despreparados ou equivocados que em vez de ensinarem a Escritura Sagrada com excelência e fidelidade, enredaram a igreja com “sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, segundo rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Cl.2.8).
Nenhum candidato ao ministério pastoral deve ser ordenado caso não demonstre aptidão para ensinar a Escritura Sagrada. Isso deve incluir o zelo para com a Palavra de Deus e o esmero no estudo da Escritura com o fim de oferecer à igreja o legítimo conhecimento do Senhor, conduzindo a igreja a Cristo e em Cristo. Ter “pena” de um candidato, aprovando-o com tal deficiência representa falta de amor à igreja, pois será ela quem receberá tal candidato como pastor, tendo que sofrer sua deficiência no conhecimento da Palavra de Deus e incapacidade de ensinar com fidelidade e excelência. Portanto, a liderança eclesiástica não pode alimentar um sistema medíocre de avaliação de candidatos nem tratar o ministério pastoral como uma porta de emprego eclesiástico para candidatos ao ministério pastoral.

8. Não dado ao vinho [mé pároinon] (1Tm.3.3; Tt.1.7)

Além da negativa [mé], o termo [pároinos] é formado por duas palavras: a preposição “ao lado de” [pará] mais o substantivo “vinho” [oinos], significando: ao lado do vinho. Portanto, o pastor não deve estar sempre ao lado do vinho, ou seja, não deve estar preso ao vinho. Paulo adverte que, apesar de livre, o cristão não deve usar da “liberdade para dar ocasião à carne” (Gl.5.13) e isto precisa ser aplicado a todo comportamento dentro e fora do Corpo de Cristo. Um pouco mais adiante, na seção destinada às atribuições dos diáconos, o apóstolo usa outra expressão para referir-se ao domínio sobre a bebida: “aquele que não toma muito vinho” (1Tm.3.8). O vinho bebido além do moderado conduz o homem à falta de bom senso; e a incapacidade de moderar a bebida demonstra escravidão. Por isso, aquele que deseja ser pastor nem deve proceder sem siso nem demonstrar-se escravo de qualquer comida ou bebida.
Glutonarias e bebedices não são apropriadas a nenhum cristão, muito menos ao pastor. Portanto, aquele que deseja o ministério pastoral deve aprender a ser comedido tanto na comida quanto na bebida desenvolvendo completo controle sobre os apetites. Isso também será importante para que o pastor saiba “viver contente em toda e qualquer situação” (Fp.4.11). O apóstolo Paulo diz que tanto sabia “estar humilhado como também ser honrado” (Fp.4.12). De forma semelhante, o pastor deve estar pronto para as intempéries da vida ministerial que nem sempre é acompanhada de abundância. É importante, portanto, que o ministro saiba viver “tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez” (Fp.4.11-12). Assim, nem a obra do Senhor cessará quando chegarem os dias nem escândalos relacionados à bebida serão pedra de tropeço para a igreja de Jesus.

9. Não violento [mé plékten] (1Tm.3.3; Tt.1.7)

Pastorear não é tarefa fácil, afinal o pastor precisará confrontar pecadores que nem sempre estarão dispostos a mudar, joio no meio do trigo que odiará o pastor por anunciar a Verdade confrontadora. Essas dificuldades podem ser encontradas da criança ao mais idoso; do visitante ao presbítero emérito. Discussões calorosas dentro do Conselho não são tão incomuns em alguns lugares. Membros maledicentes que não gostam do pastor costumam difamá-lo por onde passam; presbíteros que não se agradam do pastor costumam tornar-se inimigos, sempre dispostos a contrariar todas as ideias do pastor. E se eu continuasse dando exemplos sobre problemas que um pastor pode encontrar em igrejas locais, a lista seria bem ampla e assustadora. Infelizmente, tudo isso é verdade e, também, imprevisível, pois tais problemas costumam aparecer quando o pastor menos espera.
Diante de todos esses desafios, o pastor não pode ser uma pessoa que gosta de brigar, violenta, disposta a resolver as diferenças por meio da força. Alguém assim promoverá escândalos por onde passa. Conheci irmãos coléricos que contrariados perdiam completamente o controle das palavras e ações, avançando sobre a pessoa considerada, no momento, como adversária. Presenciei discussões tão grosseiras em presbitérios que receava que resultassem em briga. Esse tipo de comportamento não é aceitável em nenhuma liderança (na verdade, em nenhum cristão), pois o líder (presbítero docente e regente) deve estar pronto para ser contrariado e saber lidar com as adversidades, agindo com mansidão e temperança, com o propósito de solucionar problemas para a glória do Senhor; não criar mais problemas.
Não é difícil detectar uma pessoa colérica. Basta fazer algumas brincadeiras que ela não goste ou contrariá-la ou discordar dela. Em geral, o colérico demonstra perda fácil da paciência, pois não tem controle de suas emoções. Os candidatos ao ministério pastoral deveriam ser testados em tudo para que a aprovação fosse dada com plena consciência de que ele está apto a desenvolver o pastoreio. O cristão violento precisa desenvolver uma vida cheia do Espírito Santo já que o amor, a paciência, a mansidão e o domínio próprio são fruto do Espírito (Gl.5.22-23). O líder deve ser alguém cheio do Espírito Santo, a fim de ser modelo para o povo de Deus (At.6.3). É preciso, então, combater o desejo violento com a piedade, cultivando a leitura da Palavra de Deus e a oração constante. O fruto do Espírito é a arma certa contra o violento, concedendo-lhe capacidade para resistir às adversidades.
Quando houve a necessidade de se escolher diáconos para servirem às necessidades físicas da igreja (At.6.1-2), os apóstolos disseram que os cristãos deveriam escolher homens “de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” (At.6.3). Podemos deduzir logicamente que se esses critérios foram postos para a escolha de diáconos, também devem estar presentes na escolha de pastores tendo em vista a natureza do ofício pastoral. Portanto, o pastor deve ser homem cheio do Espírito Santo e, consequentemente, ter em sua vida o fruto do Espírito, a fim de lidar com os desafios do ministério pastoral com: “amor, paciência, benignidade, bondade, mansidão, domínio próprio” (Gl.5.22-23), virtudes que são opostas a um comportamento violento.

10. Não avarento 1Tm.3.3  [afilárgyron] (Não cobiçoso de torpe ganância [mé aischrokerdê] Tt.1.7)

O pastor não deve visar o lucro nem deve ser avarento, ou seja, não deve amar o dinheiro. Em 1 Timóteo 6.10, Paulo diz que “o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores”. A ganância conduz à perdição, pois o “espírito de ganância tira a vida de quem o possui” (Pv.1.19 – aqui o termo é cobiça), de sorte que “o que aumenta os seus bens com juros e ganância ajunta-os para o que se compadece do pobre” (Pv.28.8 – aqui o termo é usura). Por causa da ganância, Balaão (2Pe.2.15; Jd.11) preferiu conduzir Israel ao pecado (Nm.31.16; Ap.2.14) do que tornar-se parte do povo de Deus. De forma semelhante, muitos líderes religiosos de todos os séculos desviaram os olhos do Senhor Jesus por causa da avareza, levando a igreja à perdição.
Por causa da ganância, pastores podem deixar de pregar a Escritura com fidelidade, temerosos de perder os membros e, consequentemente, o dízimo deles. A ganância pode levar o pastor a aceitar pecados com receio de confrontar irmãos que possuam dízimos altos, deixando de conduzir a igreja na santidade do Senhor. A torpe ganância tem contribuído com a profissionalização do ministério pastoral e a desigualdade na distribuição dos ministros por região. E, observando que o dinheiro manipula alguns pastores, membros são seduzidos a usar a influência financeira para dominar sobre igrejas locais, exigindo que sua vontade seja feita acima dos demais. A expressão “dono da igreja” advém desse vil pensamento, pois a ganancia de alguns contribuiu com o surgimento de uma classe de cristãos mimados e autoritários que nem estão dispostos a ouvir um “não” nem abrem mão de suas vontades.
A teologia da prosperidade é fruto da torpe ganância de alguns homens e tem contaminado multidões, fazendo-as amar as coisas do presente século (Mt.6.19-24; 1Jo.2.15), enveredando-as pelo caminho da idolatria. Multidões passaram a procurar essas “igrejas” a fim de adquirir cura, milagres e soluções de problemas, comprando-os por dinheiro. As bênçãos são medidas pelo valor e as promessas de prosperidade alimentam a ambição do povo. O povo de Deus deve olhar para esses líderes com nojo, sabendo que são filhos do diabo e que estão reservados para a condenação, razão porque não são impedidos de continuar pecando. Deus reservou juízo severo para eles, e quanto mais enganam o povo, conduzindo multidões à perdição, acrescentando angústias nas pessoas, decorrente do amor ao dinheiro, mais culpados tornam-se a cada dia.
O pastor precisa de seu sustento e Deus sempre proverá (1Co.9.1-15; 1Tm.5.17-18; Sl.37). Mesmo que tenha que passar por privações, como Paulo (2Co.6.4; 11.9; 1Ts.3.7), o pastor não é esquecido por Deus. Não tenha medo de ser abandonado em suas necessidades, pois Jesus disse que Deus sabe de todas elas “antes que lho peçais” (Mt.6.8; 6.25-34). Assim como o pastor deve ensinar a igreja a confiar no Senhor, deve, também, mostrar confiança em Deus. Portanto, dedique-se ao ministério pastoral com o coração no Senhor, não no dinheiro. Se Deus quiser aumentar sua renda, ele o fará, mas seja fiel com pouco ou com muito; pregue toda a Palavra de Deus tanto recebendo pouco quanto muito; exorte com fidelidade tanto o rico quanto o pobre, pois assim você estará glorificando ao Senhor perante o mundo ambicioso e avarento que nunca se contenta com o que tem.

11. Não arrogante [mé autháde] (Tt.1.7)

Seja firme e zeloso no ensino da Escritura Sagrada, mas não seja arrogante, pois o “soberbo e presumido, zombador é seu nome; procede com indignação e arrogância” (Pv.21.24). O termo encontrado cinco vezes na Escritura (Gn.49.3,7; Pv.21.24; Tt.1.7; 2Pe.2.10), conforme Thayer’s Greek Lexicon e Liddell-Scott Lexicon é formado de duas palavras: o pronome reflexivo “a si mesmo” [autós] mais o verbo “regozijar-se” [hédomai], encontrado somente em textos apócrifos (4 Macabeus 8.4; Sabedoria 6.21; Eclesiástico 37.4). Portanto, o arrogante é aquele que se orgulha de si mesmo e, por isso, considera-se melhor que os demais. Consequentemente, o arrogante costuma tratar as outras pessoas como inferiores e, dificilmente, considera-se errado em algum assunto, mesmo quando seu erro é provado.
Normalmente, o pastor é uma das pessoas mais instruídas de uma igreja, quando ele é dedicado ao estudo. Portanto, deve ter cuidado para não tratar as pessoas com arrogância, considerando-se melhor que os demais. A humildade será necessária para ensinar da criancinha ao mais velho, do analfabeto ao PhD. Mesmo sendo o principal conhecedor da Escritura dentro da igreja local, o pastor deve estar pronto para ouvir, pois algumas ponderações de irmãos (até dos mais simples à vista) podem ser pertinentes e até ajudar o pastor a refletir melhor o significado dos textos. Será comum, também, que algumas pessoas tenham entendimentos diferentes sobre textos da Palavra de Deus e venham a contrapor o pastor. Nesses momentos, com muita paciência e humildade, o pastor deve dar resposta a tudo que for necessário, mostrando a Verdade para cada cristão por meio do fiel ensino, não por meio da posição que o pastor ocupa dentro da igreja.
No entanto, não confunda humildade com insegurança ou falta de zelo pela sã doutrina. O pastor deve crescer no conhecimento tanto quanto lhe for possível. O pastor deve pregar com excelência, liderar com firmeza segundo a Escritura Sagrada, conduzir o rebanho com firmeza conforme a sã doutrina, rejeitar qualquer má doutrina, negar-se a aceitar qualquer pecado. Pastores medíocres que não buscam o desenvolvimento do ministério pastoral não são humildes, mas irresponsáveis. Excelência e fidelidade são palavras imprescindíveis ao ministério pastoral. Portanto, desenvolva aquilo que o Senhor lhe deu, servindo com tudo que você aprendeu, mas o faça sempre com humildade e piedade, pois “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg.4.6).
Faz algum tempo que observo um mal dentro dos seminários: arrogância nos seminaristas. Já que o seminário deve ensinar a Escritura Sagrada, deve, também, cultivar a piedade. Quando a piedade é desassociada do estudo da Palavra de Deus, o seminarista fica propenso à arrogância. É comum que alguns seminaristas saibam mais que outros. É possível até mesmo que alguns seminaristas conheçam algumas matérias mais que alguns professores, todavia a soberba mostrará que não está estudando com piedade. Os seminários devem estar atentos a este problema, pois seminaristas orgulhosos que não sabem ouvir nem aprender, que se orgulham de si mesmos serão pastores arrogantes de difícil convívio dentro da igreja, pois pregarão e liderarão sem piedade. Esses seminaristas, portanto, não estão aptos para o ministério pastoral, pois o pastor não pode ser arrogante. Vale salientar que a arrogância não está associada, necessariamente, à superioridade. Existem pobres mais arrogantes que ricos e pessoas sem conhecimentos mais arrogantes do que pós-graduados. A arrogância deve ser combatida com a piedade não com a pobreza ou ignorância.

12. Gentil, cordato [epieikê] (1Tm.3.3)

No Salmo 85.5, a Septuaginta traduz [salâh] (pronto para perdoar, compassivo), pelo termo acima. Esta é a única referência em que a palavra aparece no Antigo Testamento. Outras ocorrências aparecerão em acréscimos feitos a Ester (Et.3.13[2]; 8.12[9]), no livro de Salmos de Salomão (5.12) e no Novo Testamento (Fp.4.5; 1Tm.3.3; Tt.3.2; Tg.3.17; 1Pe.2.18). Observe-se que no contexto bíblico, ser gentio deve ser uma atitude acima da aparência (provavelmente, esse é o significado do termo) de forma que o tratamento com o próximo seja resultado de uma disposição sincera pronta para acolher o outro com graça. Conforme o Salmo 85.5, Deus nos trata com gentileza, pronto para receber todos os que o buscam, pois, diz o salmista: “tu, Senhor, és bom e compassivo; abundante em benignidade para com todos os que te invocam” (Sl.85.5).
O pastor é um profundo imitador de Jesus, de forma que, sendo o Senhor gentio para conosco, o pastor também deve ser gentio para com o próximo, apontando a bondade de Deus para as pessoas. Isso exigirá paciência e disposição para servir. Deverá, também, ter cuidado para não transformar a gentileza em subserviência inapropriada. Há pessoas que não tem bom senso em seus pedidos. Se o pastor não der limites para a igreja, irmãos atrapalharão o trabalho do pastor querendo a presença dele o tempo todo e fazendo pedidos desmedidos, pois alguns acham que o pastor deve varrer a igreja, pintar as paredes, lavar os banheiros etc. Portanto, seja gentio com as pessoas, pronto para recebê-las, mas não alimente maus hábitos dentro da igreja.
Observei que os desgastes próprios do ministério costumam enrijecer o pastor. Com o tempo, então, o pastor não tolerará certas atitudes que no início estava disposto a aguentar. Esse fenômeno pode ser bom se bem administrado. O problema aparecerá se o pastor tornar-se impaciente e rude com as pessoas, tratando-as com aspereza mesmo quando não for necessário. A solução para isso não deve ser a fuga desses desgastes, abandonando as ovelhas aos seus próprios desejos. Desta forma, o pastor evita o cansaço, mas atrai para si a ira do Senhor por abandonar a igreja de Cristo. O caminho para o amadurecimento da firmeza sem a perda da gentileza é olhar constantemente para Jesus que se manteve firme diante dos ataques de seus adversários sem perder sua compaixão para com todos os que o buscavam (Mt.9.11-13; 35-37).

13. Não contencioso [ámachon] (mé orguílon Tt.1.7)

Já tratamos outro termo de significado parecido: Não violento [mé plékten] (1Tm.3.3; Tt.1.7). Semelhante à maioria dos termos usados por Paulo nessa perícope, [ámachon] também só aparece duas vezes na Escritura (1Tm.3.3; T.3.2). A palavra é composta, sendo uma negação de [máche] (luta, batalha, combate, conflito, discórdia). Portanto, o pastor não deve ser contencioso, inclinado a envolver-se em discórdias. A paixão por dialogar sobre temas bíblicos e o desejo de fazer defesa à sã doutrina deve ser ponderado, a fim de que não alimente o hábito de se envolver em discussões infrutíferas nem muito menos em debates calorosos que promovem o mau testemunho (1Tm.1.4; Tt.3.9).
O pastor deve ter cuidado com sua paixão por debates teológicos, pois encontrará irmãos irredutíveis e dispostos a comprar briga por causa de algum determinado assunto. Já me envolvi em alguns diálogos teológicos pelo Facebook fazendo, sempre, apologia à minha interpretação do assunto com mansidão e paciência. Todavia, já fui agredido verbalmente (junto a todos os pais da igreja, reformadores e outros teólogos que pensavam de forma semelhante ao que defendi) diversas vezes por cristãos que apaixonados por algo queriam vencer o debate por meio da força da voz e coerção verbal, pensando que o uso de termos agressivos me faria mudar de ideia. Em determinado momento, vi que não seria proveitoso continuar o diálogo, pois se tornou improdutivo, tendo em vista que o pecado estava à flor da pele daqueles que não tendo argumentos para refutar usavam de vilipêndios para ganhar na voz. Paulo exorta Timóteo a ter cuidado com esse tipo de discussão acalorada, pois

é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente, disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade (2Tm.2.24-26).

Algumas divergências doutrinárias devem ser debatidas com firmeza, mas, também, mansidão com o propósito de solidificar a igreja na Verdade. A carta de Paulo aos Gálatas é uma exposição firme e apaixonante do Evangelho, combatendo os falsos ensinos dos falsos irmãos que estavam tentando desviar as igrejas da Galácia do puro e genuíno Evangelho que Paulo lhes havia pregado (Gl.1.6-9). Todavia, outras diferenças na leitura de alguns textos bíblicos devem ser dialogadas com menor paixão, considerando o grau de dificuldade do texto em discussão, a fim de que irmãos em Cristo, igualmente dedicados e sinceros não se tornem inimigos por causa de divergências na leitura de textos considerados secundários.
Outro termo utilizado por Paulo para descrever o comportamento contencioso é [orgílon] (Tt.1.7). Em Provérbios, “melhor é morar numa terra deserta do que com a mulher rixosa e contenciosa” (Pv.21.19). O autor também exorta o leitor a fugir das pessoas contenciosas, pois multiplicam seus pecados por meio de contendas (Pv.22.24; 29.22). Portanto, o contencioso não é agradável a Deus e, consequentemente, não é boa companhia para o cristão. Desta forma, o pastor deve ser manso, não contencioso, e ensinar às ovelhas a buscarem em Deus a mansidão, fugindo daqueles que são contenciosos.

14. Que governe bem a própria casa, tendo filhos em sujeição com todo respeito [tû idíu óiku kalôs proistámenon, tékna échonta en hypotagê metá páses semnótetos] -1Tm.3.4 (Tendo filhos crentes, não acusados de dissolução nem insubordinados - Tt.1.6)

Educar uma igreja inteira na Palavra do Senhor, fazendo com que os cristãos sejam obedientes à Escritura Sagrada e vivam de forma digna do Evangelho de Cristo (Ef.4.1; Fp.1,27; Cl.1.10) não é tarefa fácil. Esse exercício deve começar em casa por meio do bom governo da família, sobretudo dos filhos. Conforme o apóstolo, os filhos do pastor devem ser ensinados na obediência e respeito, mesmos termos que devem ser aplicados à igreja. A argumentação lógica de Paulo é clara e justa: se o pastor não é capaz de educar seus poucos filhos debaixo da disciplina bíblica, ensinando-lhes a obedecer à Palavra de Deus, como poderá conduzir a igreja, educando-a na Palavra do Senhor, a fim de que os cristãos sejam obedientes a Deus? Da mesma forma, se o pastor não consegue ensinar seus próprios filhos a serem respeitosos com Deus e com os homens, muito menos conseguirá fazer com que a igreja de Jesus aprenda a ter respeito.
Nossa geração vive uma grande crise na educação de filhos. De um lado, os pagãos responsáveis pelos “direitos humanos” tentam nos obrigar a adotar uma postura libertina na educação dos filhos, por outro lado os pais abandonam seus filhos aos cuidados de outros, a fim de não ter o trabalho de educá-los. Desta forma, uma geração sem freios e abandonada; cresce sem educação, sem direção, sem amor, sem correção. O pastor precisa lutar contra isso a partir de seu próprio lar, educando seus filhos debaixo da disciplina do Senhor, oferecendo exemplo para as demais famílias da igreja que também deverão educar seus filhos na Palavra de Deus.
Por mais dedicado que o pastor seja na obra do Senhor, ele não pode abrir mão da educação de seus filhos. Creche, babás, escola em tempo integral, avós etc. não substituem a educação dos pais. Deus ordena aos pais que eduquem seus filhos (Dt.6.7-9) e não os abandonem, trazendo-lhes ira ao coração (Ef.6.4). O pastor que é um bom pai cumpre um importante requisito para que seja um bom pastor para as ovelhas e um exemplo de pai para as famílias. Por onde passo procuro tirar os maus costumes das famílias, aderidos ao longo dos tempos. Dentre esses maus costumes, o comodismo de querer que alguém da igreja tome conta dos filhos enquanto os pais estão no culto. A educação começa em casa e os pais precisam saber ensinar seus filhos a se comportarem no culto, momento em que toda a igreja desfruta da presença real de Deus a quem adoramos. Além disso, isso exigirá que os pais aprendam o conteúdo da Palavra de Deus exposta na pregação para que repassem a seus filhos em diálogo familiar quando chegarem a casa. A beleza de todo esse cenário familiar saudável começa com o pastor que educa seus filhos no temor do Senhor e conduz a igreja a seguir o ensino bíblico sobre a educação familiar.
A cena comum de uma criança chorando por alguma coisa que deseja, forçando o pai a comprar aquilo que não é bom ou não pode comprar jamais deve ser vivenciada por um pastor. A firmeza para dizer não e ensinar o que é certo começa em casa. Pais frouxos que não conseguem liderar seus próprios filhos serão pastores fracos que não conseguem conduzir a igreja com firmeza na Palavra do Senhor. Muitas vezes será necessário dizer não para cristãos e guiar o povo a contragosto, por meio do ensino bíblico. Para isso, o pastor deverá ser firme e corajoso, disposto a ensinar a Verdade a qualquer preço como um pai que sabe o que é melhor para seus filhos e insiste em conduzi-los pelo bom caminho.

15. Não neófito [mé neófyton] (1Tm.3.6)

Ser inexperiente não é bom para nenhuma liderança quer no comércio, na indústria ou em uma entidade educacional. As pessoas precisam de líderes que tenham firmeza em suas decisões e que saibam o que estão fazendo, mas que não se ensoberbeçam diante da grande responsabilidade de conduzir um povo. Para dizer isso, Paulo usa uma expressão interessante: “não neófito”. Neófito é uma planta nova, recém-plantada. Nos Salmos 127.3 e 144.12, os filhos são “como rebentos novos”; em Jó, a árvore tem esperança de ser renovada, pois “ao cheiro das águas brotará e dará ramos como a planta nova” (Jó.14.9); em Isaías 5.7, “a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta nova querida do SENHOR”.
O candidato ao ministério pastoral não pode ser alguém que começou a jornada cristã há pouco tempo, como uma plantinha que acabou de nascer. É preciso que o líder seja experimentado, maduro na Palavra de Deus, firme como planta de caule forte, pronta para resistir aos vendavais. A pressa em ordenar candidatos ao ministério pastoral pode ser um empurrão para o abismo. Paulo afirma que um líder neófito está sujeito a ensoberbecer-se, caindo na condenação do diabo (1Tm.3.6), pois o coração do homem é naturalmente propenso para o orgulho e arrogância. Durante a preparação do candidato, o coração precisa ser fortalecido na fé e tornado humilde por meio do ensino da piedade.
Davi foi ungido ainda bem jovem por Samuel para ser rei sobre Israel. Sendo o filho caçula dentre oito irmãos, dos quais apenas três puderam alistar-se (pois somente jovens de vinte anos acima poderiam ir à guerra – Nm.1.3; 1Sm.17.13). Portanto, Davi deveria ter menos de quinze anos de idade quando foi ungido pelo Senhor (1Sm.16.13). A partir daquele momento, Davi iniciou uma longa e difícil jornada preparatória, pois Saul o perseguirá por longos anos até a morte. Davi começou a reinar sobre o povo de Deus aos trinta anos de idade (2Sm.5.4). Desta forma, Deus não teve pressa em iniciar jornada real daquele que Ele vocacionou para cuidar de seu povo. Pacientemente, Deus esperou mais de quinze anos nos quais, Davi pode ser experimentado em muitas tribulações, a fim de que estivesse pronto para governar o grande povo do Senhor.
Mesmo diante da necessidade de trabalhadores para a seara do Senhor, a igreja deve ter paciência, aguardando o momento em que os trabalhadores estarão prontos para trabalhar na seara. Um trabalhador inexperiente não saberá tratar a semente do trigo, plantar o trigo nem colhê-lo corretamente, podendo, assim, danificar a lavoura e misturar o trigo com o joio. Melhor é esperar o tempo certo para que o trabalhador esteja pronto para desenvolver seu trabalho com fidelidade e excelência, pois não basta fazer o trabalho é necessário que o trabalho seja bem-feito para que Deus seja glorificado nele.

16. Ter bom testemunho dos de fora [martyrían kalén échein apó tôn éksothen] (1Tm.3.7)

Paulo é bastante cuidadoso na avaliação de um candidato ao ministério pastoral. Dentro do ambiente eclesiástico, o cristão naturalmente esforça-se para ter um comportamento semelhante aos demais, adequando-se ao meio em que está. Todavia, quando nos relacionamos com pessoas de ideologias e comportamentos diferentes, somos desafiados a apresentar nossa identidade com convicção. Quando o cristão está bem arraigado na fé, em um compromisso real e profundo, sua identidade é demonstrada por meio de seu falar, agir e reagir, disposto a contrapor a ideologia do mundo e rejeitar suas propostas de vida. Mas, um cristão não bem solidificado na fé, está propenso a deixar-se levar pela correnteza e “dançar conforme a música”.
Pessoas volúveis, instáveis em sua fé não são aptas para o ministério pastoral. O pastor terá que confrontar pessoas dentro e fora do ambiente eclesiástico e conviverá com pessoas de todo tipo de ideologia e comportamento. É necessário, portanto, que o candidato seja exemplar em sua fé na Palavra de Deus e em sua vida piedosa diante de qualquer pessoa, quer dentro ou fora da igreja. Caso isso não aconteça, a vida entre os fiéis será apenas uma fachada, pois tal pessoa estará sempre querendo adequar-se ao ambiente em que se encontra. Se estiver entre beberrões, beberá com eles também; se estiver entre comilões, se entregará à gula também; se estiver entre libertinos, rirá de suas piadas indecentes também; se estiver entre liberais, concordará com suas ideias espúrias também; se estiver entre maldizentes, se fará maledicente também; se estiver entre corruptos, aceitará suborno também. Tal pessoa, portanto, não é digna de tornar-se pastor do rebanho de Deus, pois o Senhor não se agrada do “homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos” (Tg.1.8).

17. Aquele que ama o que é bom [filágathon] (Tt.1.8)

Em Tito 1.8, Paulo acrescenta quatro marcas não presentes em 1 Timóteo: 1) Aquele que ama o que é bom; 2) justo; 3) piedoso; 4) disciplinado. Essas marcas não são exclusivas do pastor (assim como a maioria das marcas listadas em 1 Timóteo 3.2-7 e Tito 1.6-9) e, portanto, são características elementares a serem encontradas no candidato ao ministério pastoral. É interessante que, em quase toda a perícope de 1 Timóteo 3.2-7 e Tito 1.6-9, Paulo tenha escolhido palavras não comuns ao Antigo e Novo Testamento (exceto o termo “justo” – Tt.1.8, muito utilizado pela Escritura) para elencar as marcas que um pastor deve ter. Uma das razões é a singularidade do conteúdo dentre as cartas de Paulo. Outra razão pode ser encontrada no tipo de destinatário: não uma igreja, mas pastores. Esse uso de palavras peculiares, também, pode ser justificado pela especificidade do assunto escrito para os jovens pastores. Tais singularidades exigem do leitor dobrada atenção e cuidado na leitura do texto, a fim de que o compreenda e aplique-o adequadamente à vida cristã, sobretudo pastoral.
A próximo marca que o candidato ao ministério deve ter é: “amor ao que é bom”. Assim como  [filóksenon] (1Tm.3.2; Tt.1.8) é formado de dois termos, também [filágathon] é a união entre “amor” [fílos] e o adjetivo “bom” [agathós] Para ser pastor, é preciso primeiro que o candidato demonstre uma vida plena com Deus, amando o que é bom enquanto despreza o que é mau. Conforme o Salmo 15, habitará no tabernáculo do Senhor aquele que vive o que é bom: integridade, justiça e verdade (Sl.15.2). Este amor ao que é bom expressa-se, também, em desprezo pelo que é mau: difamação, maldade com o próximo e injúria (Sl.15.3). Desta forma, aquele que ama o que é bom “tem por desprezível ao réprobo, mas honra aos que temem ao SENHOR” (Sl.15.4). Em Cristo, que amou as ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt.9.36) e desprezou aqueles que eram desprezíveis diante de Deus (Mt.23.1-39), o Salmo encontra seu cumprimento, exortando-nos a seguir os passos de Jesus.
O pastor deve ser o primeiro a ter completo deleite no Senhor de forma que Jesus seja a razão de sua felicidade e seu propósito de vida. Desta forma, o pastor amará o que é bom, tendo em vista que isso provém do Senhor e agrada ao Senhor. Essa marca não é acrescentada após o homem tornar-se pastor, mas deve estar presente naquele que almeja o ministério pastoral, de forma que tenha o testemunho da igreja a seu favor. Amar o que é bom é uma importante marca do candidato, pois deverá ser exemplo no cultivo apenas do que é bom: boas conversas, boas músicas, bons filmes, bons relacionamentos, bom modo de falar, boa conduta etc. A igreja deve amar o que é bom e o pastor precisa conduzi-la a isso, pois tudo o que é bom é, também, agradável a Deus.
Devemos lembrar que o mundo assedia a igreja continuamente, apresentando ofertas indecentes, convidando para conversas inadequadas, atraindo para o que é mau. Os jovens cristãos deparam-se, diariamente, com rodas de amigos que foram abandonados pelos pais a uma vida vulgar cercada de mentiras, palavrões, imoralidades, sensualidade e vaidades banais. Torna-se, então, um constante desafio para o pastor atrair esses jovens para o que agrada a Deus, ensinando-os a amarem o que é bom e rejeitarem o que é mau. Ao aprenderem a amar o que é bom, também terão deleite na igreja como disse Davi: “Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer” (Sl.16.3).
Parece bastante óbvio que o pastor deva “amar o que é bom”. Todavia, mesmo sendo tão claro, nem sempre é ponderado na prática. Piadas indecentes, brincadeiras com o sagrado, vulgarização do nome do Senhor, filmes inapropriados, conversas torpes etc. não são tão incomuns dentro de seminários e em reuniões de presbitério. O título tantas vezes sobrepõe a piedade e parece revestir o pastor de “imunidade parlamentar”, trazendo certo comodismo em questões básicas e práticas. Portanto, a igreja deve estar atenta a esta marca antes de um candidato ser conduzido ao ministério pastoral e todo pastor deve estar atento a esta marca durante o exercício pastoral, pois disse Paulo: “Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices, coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graças.”. (Ef.5.3-4).

18. Justo [díkaion] (Tt.1.8)

O salmista Davi declara que “o SENHOR é justo, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face” (Sl.11.7). Ser justo é um atributo comunicável de Deus e deve, portanto, estar presente na vida de todo cristão. Ao tornar-nos justos diante de Deus, por meio da justificação (Rm.5.1), Cristo abriu-nos também o caminho para vivermos uma vida justa diante de Deus, por meio da restauração da imagem divina em nós, como disse Paulo: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co.3.18). Não sendo uma marca exclusiva do pastor, Paulo espera que o candidato esteja entre os cristãos que são fiéis a Deus em sua imitação de Cristo (1Co.11.1). O candidato ao ministério não pode ser inferior ao que se espera de qualquer cristão piedoso.
O termo tanto grego quanto hebraico é rico em possibilidades semânticas. Ser justo é mais que julgar uma causa com justiça, sendo imparcial em seu julgamento. Ser justo é ter uma vida íntegra, reta, temente a Deus e piedosa diante do Senhor. Portanto, o cristão deve ser justo não apenas em determinados momentos da vida, quando for necessário julgar causas entre irmãos, disciplinar faltosos, honrar quem mereça, dar a cada um aquilo que for justo (quer bom ou ruim). É necessário assumir, também, um estilo de vida íntegro diante de Deus. E o candidato ao ministério pastoral deve ser exemplo, confirmado e testemunhado dentro do corpo de Cristo.
Alguns personagens da Escritura são qualificados como “homens justos” diante de Deus (Gn.6.9; Jó.1.1; Ez.14.14; Mt.1.19; Lc.2.25; Lc.23.50 etc). Conforme Paulo, aquele que almeja o ministério pastoral deve cultivar uma vida justa, a exemplo daqueles que tiveram uma vida íntegra diante do Senhor, alcançando o inteiro agrado de Deus em uma geração má e corrompida. São estes que preferem conservar a justiça que procede de Deus a viverem de acordo com este mundo. De forma semelhante, o pastor sofrerá pressão proveniente de dentro e fora da igreja, com o propósito de fazê-lo abrir mão da Palavra de Deus para agradar a homens. A integridade será posta à prova constantemente e somente com os olhos fitos em Cristo, o pastor poderá resistir a todas as tentações e adversidades, conservando sua vida justa diante do Senhor e dos homens.

19. Piedoso [hósion] (Tt.1.8)

O povo de Deus é constituído de pessoas chamadas para viver uma vida piedosa. Diferente do adjetivo [hágios], bastante usado na Escritura (868 vezes), [hósion] não costuma ser atribuído a Deus, mas ao povo de Deus. Poucas vezes esse adjetivo qualifica Deus, como em Deuteronômio 32.4: “Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e piedoso” (grifo nosso). Em 2 Samuel 22.26 (cf. Sl.18), Davi ora ao Senhor dizendo: “Para com o piedoso, piedoso te mostras”. No Salmo 16.10 (Na LXX, Sl.15.10), as palavras proféticas de Davi, alusivas à ressurreição de Cristo dizem: “Pois não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Piedoso veja corrupção”. No Salmo 145, Davi diz, duas vezes, que todas as obras do Senhor são piedosas (Sl.145.13,17). E apesar de poucas ocorrências do termo, dirigido a Deus, Apocalipse coroa a lista de usos dessa palavra, atribuindo ao Senhor a origem e plenitude da piedade: “Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és piedoso; por isso, todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos” e “Tu és justo; és aquele que é e que era; tu és o Piedoso” (Ap.15.4; 16.5). As demais ocorrências (43 das 50 vezes em que o termo aparece em toda a Escritura) referem-se ao povo de Deus que deve ser piedoso em seu viver, tornando-se indispensável para aquele que almeja o ministério pastoral.
Conforme citado acima, o Salmo 16 chama Cristo de “o Piedoso” (Sl.16.10) e os Evangelhos o apresentam como modelo na prática da piedade, sendo temente a Deus e dedicado ao Senhor tanto perante os sacerdotes quanto nos momentos em que esteve assentado à mesa entre “publicanos e pecadores” (Mt.9.10). Jesus não foi conhecido como carismático ou engraçado; não foi qualificado com legal e agradável; não foi elogiado como divertido ou dinâmico. Cristo foi chamado pela Escritura de piedoso. De forma semelhante, o pastor não deve estar preocupado com adjetivos que agradam apenas a homens, mas com qualidades que glorificam a Deus. Portanto, tenha cuidado com a constante tentação de agradar os membros da igreja com o fim de ser bem visto pelas pessoas. Devemos agir “não para que agrademos a homens, e sim a Deus, que prova o nosso coração” (1Ts.2.4). Candidato que em vez de cultivar a piedade molda-se a cada contexto vigente para agradar pessoas (pastores, presbíteros, presbitério etc) não está apto para ser ordenado, pois será volúvel na jornada pastoral, capaz de abrir mão de uma vida piedosa para alcançar o favor dos homens.

20. Disciplinado [enkratê] (Tt.1.8)

A última marca, que analisaremos, exigida daqueles que almejam o ministério pastoral é: disciplinado [enkratê] (Tt.1.8). Dessa vez, o apóstolo utiliza um hápax legómenon, ou seja, uma palavra grega que aparece apenas uma vez em toda a Escritura (Tt.1.8). Mas, o substantivo de mesma raíz, [enkráteia], é usado em At.24.25, Gl.5.23 e 2Pe.1.6. Além disso, o termo aparece, também, em onze referências nos livros apócrifos (Tobias 6.3; 2 Macabeus 8.30; 10.15,17; 13,13; Sabedoria 8.21; Eclesiástico 6.27; 15.1; 26.15; 27.30; Susana 1.39 [acréscimo em Daniel]). Alguns possíveis significados são: controlado, disciplinado, que tem domínio de si mesmo, forte, que tem poder sobre algo.
Dentre todos os domínios que uma pessoa possa ter, domínio próprio (autodisciplina) é o mais importante. A natureza pecadora do homem precisa ser dominada, controlada, disciplinada, pois caso isso não aconteça ela irá dominar o homem. O pastor deve buscar no Senhor essa autodisciplina, a fim de subjugar o próprio corpo e vontade à Palavra de Deus. Conforme Paulo, portanto, o candidato ao ministério pastoral não pode demonstrar falta de controle sobre a vida em geral, como se estivesse perdido pelo caminho, sem ter em suas mãos as rédeas do próprio ser (isso não significa controle da vida, mas, sim, da própria natureza). Antes de dominar uma igreja por meio da Palavra de Deus, o pastor deverá dominar a si mesmo como resultado de uma vida cheia do Espírito Santo (Gl.5.23).

Por meio desses critérios apresentados acima, a igreja pode peneirar os aspirantes ao ministério pastoral, reencaminhando aqueles que não passaram pelo crivo da Escritura Sagrada. Parece severo, mas na verdade é uma atitude que beneficiará tanto a igreja quanto aquele que não foi aprovado pelos critérios objetivos. A igreja será poupada de submeter a alguém não vocacionado, não qualificado para o exercício do ministério pastoral. E aquele que não passou pelo crivo da Escritura poderá ser redirecionado para outros papéis dentro do corpo de Cristo, a fim de que desenvolva o verdadeiro dom recebido do Senhor. Além disso, a igreja estará se protegendo de possíveis joios querendo assumir a liderança, uma perigosa arma nas mãos do diabo para fazer mal ao povo de Deus.
É importante observar novamente que uma das razões que tem contribuído com o problema da ordenação de pessoas não vocacionadas por Deus é o fato de que a igreja resumiu os ministérios dentro do corpo de Cristo aos ofícios (presbítero e diácono), aos professores de escola dominical e aos membros do grupo que conduz os cultos em cânticos de adoração. Desta forma, quando uma pessoa demonstra dedicação na obra, quase sempre é direcionada ao ministério pastoral como se não houvesse outro modo de servir a Deus dentro e fora das quatro paredes de um ambiente eclesiástico. As igrejas, portanto, precisam investir no desenvolvimento de outros papéis, ajudando as pessoas a identificarem seu lugar no corpo de Cristo.

Necessidade de convicções pessoais

Como observamos acima, a igreja deve julgar a vocação de alguém por meio de critérios objetivos. Desta forma, a subjetividade da vocação pastoral só poderá ser aceita caso aquele que almeja o ministério seja aprovado após passar pelos crivos objetivos. Isso normalmente é feito no dia a dia a partir do olhar sobre a vida do candidato junto à igreja: gostar de estudar a Bíblia, participar de todas as programações da igreja, demonstrar boa liderança de grupos, ter uma vida exemplar dentro e fora do ambiente eclesiástico etc. Todavia, mesmo que tudo isso esteja certo, afinal o candidato ao ministério pastoral deve apresentar todas essas marcas, elas também deveriam estar presentes em todos os homens da igreja. Será que só o pastor deve estudar a Palavra de Deus? Ou só o pastor deveria ser assíduo nas atividades eclesiásticas? Já que todo homem nasce para liderar, a partir da família, não seria uma característica a ser desenvolvida em todos os homens? Ou somente o pastor deve ter uma vida exemplar dentro e fora da igreja? Por essa razão, a vocação ministerial também possui um caráter pessoal, subjetivo.
Portanto, falaremos, sucintamente, sobre dois elementos pessoais que o candidato também deve presenciar em si mesmo, a fim de que, além das marcas objetivas, também tenha dentro de si a certeza de que o Senhor o chamou especificamente para o ministério pastoral: Convicção de chamado e Zelo interno pela Escritura Sagrada.

Convicção de chamado

Nem sempre o começo da jornada começa com uma convicção pessoal. Moisés foi chamado por Deus, mas resistiu à ideia de que pudesse pastorear Israel (Ex.3-4). Algo semelhante aconteceu comigo, afinal nunca me senti capacitado para realizar a grandiosa obra do Senhor. Todavia, mesmo rejeitando a ideia, aquele que Deus vocacionou sabe que o chamado é certo. É muito importante, no processo de reconhecimento de uma vocação pastoral, que a igreja testemunhe a vocação pastoral de alguém, mas, também, é fundamental que o vocacionado tenha plena convicção do chamado divino direcionado para Ele. Essa convicção só não terá valor caso venha a ferir os critérios objetivos, pois Deus jamais se contradiz. Caso isso aconteça, o cristão deve submeter-se humildemente à Palavra de Deus e recuar frente à vontade de ser pastor.
Paulo é um perfeito exemplo bíblico de aprovação nos critérios objetivos unida à convicção de chamado. Quando os judaizantes tentavam invalidar o chamado apostólico de Paulo perante as igrejas, a primeira resposta de Paulo era demonstrar que ele preenchia a todos os requisitos objetivos prescritos pelos apóstolos. Em meio à carta aos Coríntios, Paulo defende seu chamado apostólico fazendo alusão aos critérios objetivos estabelecidos para o reconhecimento do ministério apostólico (1Co.9.1). A história de seu chamado e ministério, contada em Gálatas (Gl.1.11-2.10), tem como propósito provar que Paulo enquadra-se perfeitamente nos critérios objetivos e tinha importantes testemunhas que presenciaram os sinais de sua vocação, demonstrando, também, plena convicção de seu chamado. Portanto, o apóstolo Paulo tinha plena certeza de que o Senhor Jesus o havia chamado para o exercício do ministério apostólico.

Zelo interno pela Escritura Sagrada

Além da convicção interna de vocação, o candidato deve observar se o coração possui zelo pela Palavra do Senhor, pois a grande missão do pastor é propagar fielmente a Escritura Sagrada. Considerando a origem do chamado: Deus, não poderíamos esperar algo diferente do zelo por sua Palavra, afinal o Espírito do Senhor nos conduz sempre para a Verdade (Jo.16.13). Assim ocorreu com todos os profetas do Antigo Testamento e com todos os apóstolos e presbíteros (pastores) do Novo Testamento. Todos os servos chamados por Deus tinham no coração um zelo proveniente do Senhor, praticado com sabedoria e amor. Quando não havia zelo pela Escritura, então se colocava dúvida na origem do chamado. O apóstolo João advertiu a igreja a provar os pregadores que passavam por lá, pois qualquer pregador que não tivesse zelo pela Palavra de Deus, confessando a sã doutrina, deveria ser considerado falso profeta (1Jo.2.18-26; 4.1-6). Portanto, não é admissível que alguém diga ter´sido chamado para o ministério pastoral e, ao mesmo tempo, demonstre indiferença e negligência com respeito à Palavra de Deus.

Conclusão

A igreja precisa ser cuidadosa na escolha de homens para o exercício do ministério pastoral. Para que a escolha seja feita com objetividade, Deus nos deu critérios objetivos que julgam os candidatos ao pastorado, a fim de que a convicção de chamado seja posta à prova. A igreja não deve ter pressa nessa avaliação assim como não deve ter pressa no preparo de um candidato, pois as implicações de uma ordenação ao ministério pastoral podem ser longas e profundas.

Em seguida, abordaremos a exclusividade do ministério pastoral masculino conforme o ensino bíblico, demonstrando, assim, que não existe vocação pastoral feminina, ou seja, que Deus não chama mulheres para exercerem o ministério pastoral. O assunto será tratado em anexo a este capítulo.






[1] Para publicar o livro no blog Vox Scripturae, substituímos a escrita das palavras gregas por transliterações, tendo em vista que a fonte grega não costuma ser aceita pelo site. A versão do livro que será disponibilizada em formato PDF, após a conclusão do livro, conterá as palavras em escrita grega.
[2] A maioria dos termos usados por Paulo em 1Timóteo 3.2-7 e Tito 1.6-9 são encontrados apenas nas cartas pastorais aparecendo poucas vezes. Portanto, faz-se necessário recorrer aos textos extrabíblicos e às traduções antigas (adotamos a Vulgata Latina para comparação) para alcançar seu significado mais preciso e coerente com o propósito de seu autor. É importante considerar o amplo campo semântico de cada termo, a fim de avaliar qual tradução melhor se encaixa no contexto acima, o que procuramos fazer.