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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O apostolado conforme a Escritura Sagrada

Mas o que faço e farei é para cortar ocasião àqueles que a buscam com o intuito de serem considerados iguais a nós, naquilo em que se gloriam. Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras.” (2Co.11.12-15)

A igreja do Senhor Jesus é chamada de apostólica. Este adjetivo aponta tanto para o fundamento doutrinário colocado pelos apóstolos escolhidos pelo Senhor Jesus quanto para o caráter missionário da igreja, pois foi enviada pelo Senhor para pregar o evangelho ao mundo. Portanto, o termo “apostólico” assume duas conotações: a primeira relacionada ao ofício instituído por Jesus e a segunda relacionada ao sentido mais amplo do termo que primariamente significa “enviado”, para se referir à pessoa que recebia a incumbência de levar uma mensagem oficial em nome de uma autoridade. É neste ultimo sentido que “apóstolo” foi usado para se referir a outras pessoas que não os Doze e Paulo.
Há alguns termos no Novo Testamento que tanto são usados em seu sentido mais comum quanto em referência ao ofício o qual denominam. É o caso do termo “diácono” usado para se referir ao grupo de oficiais escolhidos para servir a igreja (At.6.1-3; Fp.1.1; 1Tm.3.8), mas também para se referir ao serviço (ministério) em geral (At.1.17; Rm.11.13). Neste sentido mais abrangente, Paulo se refere a si mesmo e ao seu trabalho com o termo “diácono/diaconia” (1Co.3.5; 2Co.5.18). O mesmo ocorre com o termo “presbítero”, que tanto se refere à pessoa idosa quanto ao oficial que pastoreia a igreja (At.2.17; At.15.4). É evidente que há alguma relação entre os usos (diácono-servo; ancião/sábio-presbítero), mas enquanto um deles somente pode ser direcionado aos oficiais legalmente escolhidos conforme as Escrituras instruem, o outro sentido dos termos pode ser aplicados a muitas outras pessoas. Somente o contexto demostrará em qual sentido o termo está sendo usado pelo autor numa oração específica.
Apóstolo é um desses termos usados tanto em seu sentido comum quanto para designar um ofício específico (At.1.2; At.4.14; 2Co.8.23). Na grande maioria das vezes em que “apóstolo” aparece no Novo Testamento refere-se: aos Doze homens escolhidos por Jesus, ao substituto de Judas, Matias, e a Paulo, o último dos apóstolos. Mas, “apóstolo” também é usado para se referir a outras pessoas a partir de seu significado comum, presente, da mesma forma, no Antigo Testamento: “mensageiro”, “enviado” (Sl.77.49; Jo.13.16). Em Lucas 10.1, Jesus envia setenta discípulos para pregar a chegada do Reino de Deus. Esses setenta são “enviados”, verbo “apostoléo”, como mensageiros das boas novas. Nesse sentido, o termo “apóstolo” pode ser usado para qualquer pessoa que seja enviada pela igreja como a missão de pregar o evangelho. Contudo, ainda assim, as pessoas que receberam a designação (Barnabé, por exemplo) foram destinadas oficialmente, não como os Doze e Paulo, mas como missionários da igreja de Jesus, levando as boas novas.
Timóteo, Tito, Silas, Barnabé, Epafrodito, Lucas, Onésimo e muitos outros irmãos fizeram parte do ministério do apóstolo Paulo. Alguns deles eram pastores, outros não sabemos se realmente exerciam esse ministério. Timóteo era o mais próximo dos amigos e cooperadores de Paulo. Seu nome aparece em dez das treze cartas do apóstolo e, na ausência de Paulo, Timóteo organizava e ensinava as igrejas, preparando homens para serem presbíteros, corrigindo problemas presentes entre estes e exortando a igreja (1Tm.5.22). Contudo, em vez de Timóteo substituir Paulo como um supervisor, ele ajudava o apóstolo, tanto estando presente em sua jornada quanto cuidando da igreja em sua ausência, de forma que, quando Paulo chegava à igreja onde Timóteo estava, logo o apóstolo assumia tudo. Timóteo era um presbítero/pastor, mas, por sua íntima relação com Paulo, cumpria seu ministério auxiliando o apóstolo.
Ainda que Paulo tenha participado da ordenação de Timóteo, este foi ordenado sob a imposição de mãos do presbitério, da mesma forma como ele impunha a mão para ordenar outros presbíteros/pastores (1Tm.4.14). Não há indicação de alguma diferença entre sua ordenação e a ordenação dos demais presbíteros. Em 1 Timóteo 3.1-7, Paulo lista as qualificações dos bispos sobre os quais Timóteo poderia impor as mãos para que fossem ordenados. Junto aos critérios para a escolha de bispos, Paulo elencou o que era necessário para a escolha de diáconos. Se bispo e presbítero não são o mesmo ofício, por que, então, Paulo omitiu os critérios para a escolha dos presbíteros/pastores? É obvio que não houve omissão, pois o episcopado é uma referência à única liderança pastoral da igreja local: o presbiterato. Um pouco mais à frente, quando Paulo trata do salário desses líderes, ele os chama de presbíteros (1Tm.5.17). Na relação de ofícios escrita por Paulo à igreja de Éfeso, não aparece o suposto ofício intermediário, o “bispo”: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” (Ef.4.11). Desta forma, não há qualquer indicação nas cartas de Paulo, da existência de um ofício entre o presbiterato e o apostolado. Além disso, Timóteo e Tito não eram os únicos que auxiliavam Paulo. Epafrodito também era “companheiro de lutas” de Paulo (Fp.2.25) e realizava tarefas semelhantes às dos outros jovens pastores, Timóteo e Tito, na igreja de Filipos.
Conforme Calvino, a carta de Paulo a Timóteo não tinha como propósito apenas instruir Timóteo, mas ensinar outros também como uma carta pública. Além disso, uma vez que Timóteo deve ter encontrado alguns obstáculos na igreja, Paulo queria credenciar Timóteo embasando sua autoridade para realizar tudo o que Paulo o havia designado a fazer. A carta de Paulo a Tito cumpre semelhante propósito. Provavelmente, somente Tito e Timóteo receberam cartas, porque elas deveriam ser lidas por todos os líderes, não somente os que ajudavam Paulo, mas também pelos demais. Além disso, nem todas as igrejas apresentaram os mesmos problemas, tornando desnecessárias tais palavras de Paulo em outras regiões e ocasiões. Timóteo (nem outro personagem do Novo Testamento), portanto não recebeu sucessão do ministério de Paulo nem possuía outro ministério além do presbiterato.
Conforme Herron, apostolado, antes da morte e ressurreição de Jesus, vem da noção judaica de representatividade dos oficiais enviados em uma missão específica. Segundo Robert Duncan Culver, “embora a palavra seja antiga, e haja uma palavra hebraica equivalente-próximo usada no Antigo Testamento e na literatura Rabínica, o uso do Novo Testamento é sem precedente” (CULVER, 1977, p.131) O substantivo “apóstolos” não aparece na Septuaginta, mas o verbo “apostoléo” é usado 521 vezes, geralmente no contexto de uma missão importante: O corvo que deveria mostrar para Noé se as águas já haviam secado (Gn.8.7); os anjos do Senhor enviados para destruir Sodoma e Gomorra (Gn.19.13); o anjo enviado por Deus para guiar Abraão (Gn.24.7); o envio de Moisés para libertar Israel (Ex.3.14); o envio dos moços de Davi para falar com Nabal (1Sm.25.5) etc.
No Novo Testamento, o substantivo “apóstolos” é usado 80 vezes das quais 99% dessas ocorrências são indicações diretas e claras aos Doze homens escolhidos por Jesus, incluindo Matias no lugar de Judas, e Paulo, o último dos apóstolos. O verbo “apostoléo” aparece 132 vezes no Novo Testamento e também se refere ao envio para uma missão importante. Em Mateus 10, Jesus usa o verbo para se referir à missão dos apóstolos como representantes legais do Senhor Jesus: “Quem vos recebe a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou.” (Mt.10.40). Desta forma, o termo está envolta de um caráter legal, oficial, que Cristo usa para denominar suas oficiais testemunhas, responsáveis pela mensagem oficial do evangelho de Jesus para sua igreja.
O apostolado foi algo extraordinário, à semelhança dos profetas do Antigo Testamento que desapareceram após os últimos profetas Ageu, Zacarias e Malaquias. Sua existência cumpriu propósito determinado e temporário. Kuyper adjetiva o apostolado como Santo, por causa do caráter exclusivo deste ofício. Os apóstolos foram testemunhas de Jesus que viveram com Jesus e receberam o ensino direto de Jesus. Uma vez que um dos critérios para o apostolado era ter visto Jesus, a fim de ser testemunha de sua ressurreição, o ofício fica restrito àqueles que foram chamados pessoalmente por Jesus, ou que viram a ressureição de Jesus. Uma série de figuras no livro de Apocalipse apontam para os Doze apóstolos somente. A nova Jerusalém é edificada sobre 12 colunas, há 12 portas, 12 fundamentos (Ap.12.1; 21.12,14,21). Por essa razão, Paulo gastou muito tempo defendendo seu ministério apostólico, comprovando que se enquadrava nos critérios exigidos.
A escolha de Matias para ocupar a ultima vaga mostra que o circulo era fechado, não houve mais vaga. A nova Jerusalém está fundamentada sobre os 12 apóstolos, um número fechado. Por ser um grupo fechado até Paulo teve dificuldade de ter seu apostolado reconhecido por algumas igrejas. Eles haviam sido escolhidos pelo Senhor Jesus pessoalmente, receberam autoridade do Senhor para lançar o fundamento da igreja e eram testemunhas da ressurreição de Jesus. Além de Paulo e dos doze, incluindo Matias que foi escolhido pela direção do Espírito de Deus, nenhuma outra pessoa foi escolhida por Jesus para exercer o ministério apostólico. A autoridade deles estava no chamado pessoal recebido de Cristo e isto não era compartilhado com mais ninguém.
Pouco a pouco os apóstolos foram morrendo, ou sendo mortos, contudo a igreja não os substituiu, pois a igreja sempre compreendeu o caráter extraordinário do ministério apostólico. Caso houvesse qualquer necessidade de se manter os doze apóstolos permanentemente na igreja, após a morte de qualquer um deles haveria a substituição imediata, o que não aconteceu. Os “pais da igreja” não se viam como sucessores dos apóstolos, mas como ministros de Deus que deveriam propagar a Palavra deixada pelos apóstolos, À semelhança do que os pastores da presente geração devem fazer. Não há, na história da igreja dos primeiros séculos, a presença de apóstolos. Somente movimentos heréticos reivindicavam tal autoridade para propagarem suas heresias no meio da igreja. Somente na idade média aparecem as primeiras reivindicações de sucessão apostólicas, influenciados por doutrinas estranhas que ficaram à margem da igreja sem serem completamente destruídas.
Os movimentos apostólicos sempre estão intimamente relacionados com falsas doutrinas, como a teologia da prosperidade, além de criarem divisões no meio da igreja como aconteceu com Edward Irving criador da Igreja Católica Apostólica. Apesar de darem bastante ênfase ao número doze, contraditoriamente possuem centenas de apóstolos espalhados pelo mundo. Ao estarem em desacordo com a Palavra de Deus, muitas vezes discordando dela abertamente, o movimento demonstra que não procede de Deus que jamais poderia se contradizer. Tal movimento se assemelha muito aos movimentos gnósticos do segundo século que além de se considerarem portadores de revelações especiais também reivindicavam autoridade superior.
Em 1Co 12.28 e Ef 4.11, o apóstolo Paulo faz referência aos ofícios existentes na igreja naqueles dias, pois todos os cinco ministério ainda eram vigentes, necessários para edificar a igreja que ainda estava amadurecendo, pois as Escrituras do Novo Testamento ainda não lhes tinha sido dada.
No texto de Efésios 4.11, a lista se restringe aos ofícios e o apostolado aparece primeiro, pois foram postos por responsáveis pela colocação do fundamento da igreja (Ef.2.20). A liderança máxima da igreja era formada pelos apóstolos escolhidos pelo Senhor Jesus, inclusive Paulo, o ultimo a ser chamado por Jesus. As quatro vezes em que Paulo usa o termo “apóstolos” na sua carta aos Éfesos, ele está se dirigindo ao colegiado fechado de apóstolos (Ef.1.1; 2.20; 3.5; 4.11). A primeira menção (Ef.1.1) se refere a Paulo que estava, por meio da carta, dando Palavra de Deus para a igreja. A segunda e terceira aparição do termo (Ef.2.20 e 3.5), apontam para o papel fundamentador revelador dos apóstolos que seriam os instrumentos legais para revelar e administrar a revelação da Escritura da Nova Aliança. Por isso, a ultima vez em que aparece o termo apóstolo (Ef.4.11), ele vem em primeiro lugar, tendo em vista todo seu singular ofício dentro da igreja, mostrado por Paulo nas ocorrências anteriores. Uma vez que Paulo está se referindo aos apóstolos escolhidos por Jesus, administradores da revelação divina da Nova Aliança, não poderia estar se referindo à permanência do apostolado na história da igreja.
O fato de o termo aparecer junto a outros termos que permaneceram, “pastores e mestres”, não significa em hipótese alguma que o apostolado também devesse permanecer. Os apóstolos edificaram a igreja durante o primeiro século, colocando o fundamento e administrando a revelação. Após a morte de todos os apóstolos, os pastores e mestres, junto aos irmãos da igreja, edificam o corpo de Cristo, alicerçados no fundamento posto pelos apóstolos. Desta forma, pode-se dizer que os apóstolos sempre estão presentes na edificação da igreja, por meio das Escrituras sagradas.
Em 1 Coríntios 12.28, o apostolado aparece junto à lista de alguns dons, pois os irmãos da igreja estavam dando mais ênfase nos dons do que ao ministério dos apóstolos e consequentemente à Escritura dada por eles à igreja. Paulo não está dizendo que o apostolado é um dom simplesmente, mas que tem primazia dentre os ministérios, profetas e mestres, e mais ainda sobre os dons que aparecem por ultimo. Os cristãos deveriam não só honrar os apóstolos, mas principalmente ouvi-los obedientemente, pois deles viria a Palavra de Deus que estava pouco a pouco sendo revelada para a igreja. Dentre o conjunto de revelações, os livros do Novo Testamento, estavam as cartas dirigidas à igreja de Coríntios que deveria ser recebida como Palavra de Deus, a fim de ser obedecida. Vale salientar que a igreja tinha um sério problema com respeito à submissão. Irmãos se achavam muito espirituais, homens e até mulheres, e por causa dos dons que possuíam, rejeitavam a liderança oficial da igreja.
Desta forma, em nenhum dos textos, Paulo está defendendo a permanência do ministério apostólico, mas sua primazia que, no primeiro século, deveria ser dada aos apóstolos escolhidos pelo Senhor, a fim de que todos recebessem o fundamento posto por eles: Jesus Cristo. Após a morte dos apóstolos a igreja é submissa ao ensino apostólico por meio da humilde obediência à Palavra de Deus entregue por eles.

Um dos perigos da Nova Reforma Apostólica é sua aparência de piedade. Uma pessoa menos esclarecida no conhecimento das Escrituras Sagradas pode ser facilmente envolvida a aderir ao movimento. Os adeptos desse movimento citam as Escrituras, fazem referencia à necessidade de se buscar uma vida piedosa, utilizam-se da história da igreja e até fazem menção da reforma protestante e a volta de Jesus, inserindo, assim, o movimento dentro do curso histórico da igreja. Alguns dos erros teológicos da Nova Reforma Apostólica são:

Sucessão do ofício apostólico
Conforme a Nova Reforma Apostólica, o ministério apostólico é permanente e deve durar até a chegada de Jesus. A ausência desse ministério durante centenas de anos é atribuído a um erro da igreja e seus problemas históricos estariam relacionados a ausência dos cinco ministério: apóstolo, profeta, evangelista, pastor e mestre.
Como já foi demonstrado acima, As Escrituras não ensinam a sucessão do ministério apostólico, erro cometido, também, pelo Catolicismo Romano. Os próprios apóstolos não escolheram novas pessoas para substituírem os que estavam morrendo nem muito menos acrescentaram outros ao grupo. Matias foi escolhido para fechar o número, pois se houvesse a possibilidade de haver outros apóstolos, não apenas Matias, mas outras pessoas poderiam ter sido inseridas uma vez que muitos irmãos, aproximadamente 500, foram testemunhas da ressurreição de Jesus (1Co.15.6). O apóstolo João, último dos apóstolos a morrer, não teve qualquer preocupação em manter uma sucessão apostólica. Não há qualquer ensino no Novo Testamento para que a igreja esteja escolhendo apóstolos, ou mesmo para que não deixe que esse ministério desapareça. Mas, há um cuidado com a escolha de presbíteros (pastores) que deveriam cuidar da igreja de Jesus, segundo o legado dos apóstolos, ou seja, segundo as Escrituras do Novo Testamento.

Autoridade acima das Escrituras
Os apóstolos do movimento atual reivindicam autoridade Escriturística, inclusive superior às Escrituras Sagradas. Eles discordam da Palavra de Deus e acrescentam seus próprios ensinos como se estes fossem sagrados.
Uma vez que as Escrituras são a Palavra de Deus, inspirada pelo Espírito de Deus, não se pode esperar que o Espírito de Deus entrasse em contradição, ensinando algo por uma pessoa e depois desfazendo o que disse. Deus não mente e sua Palavra permanece para sempre. Uma das características das Escrituras é a unidade, a plena harmonia que há entre todos os Escritos de forma que não há contradição nem contraposição. Este fenômeno é atribuído à inspiração do Espírito de Deus que conduziu tudo de tal forma que as diferenças de tempo, personalidade e cultura não prevaleceram na Escrituração, e a inerrante Palavra de Deus foi transmitida e preservada fielmente.
Paulo disse que todo aquele que não ensina o evangelho fielmente deve ser “anátema”, pois “ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema.” (Gl.1.8-9). Ao desfazerem as Escrituras, os novos apóstolos deixam claro que não procedem de Deus, pois rejeitam a revelação do Espírito de Deus. Eles se mostram malditos, ensinando contra a Escritura, a fim de desviar o olhar dos pecadores da Palavra de Deus.
Além disso, as Escrituras ensinam que o ofício apostólico, ou os homens escolhidos para serem apóstolos de Jesus, não eram sagrados ou inerrantes, mas os Escritos deles, provenientes da inspiração do Espírito de Deus. O apóstolo Pedro foi exortado por Paulo por causa de sua dissimulação (Gl.2.11) e o próprio apóstolo Paulo recebeu um espinho na carne para não se ensoberbecer (2Co.12.7). Os homens não eram sagrados e sim seus Escritos. Contudo, os apóstolos atuais se consideram inerrantes e portadores de autoridade acima da Escritura Sagrada, blasfemando, assim, contra o Espírito de Deus.

Profecias sobre o fim do mundo
Não é nova a tentativa de acertar o dia da volta de Jesus. Em dois mil anos de história da igreja diversas pessoas dataram “profeticamente” a volta de Jesus e, obviamente, todas erraram. A Nova Reforma Apostólica, à semelhança de outros movimentos heréticos, também tem feito tentativas de datar a volta de Jesus, e se considera a ultima etapa da história da igreja. Conforme os adeptos, o movimento veio como precursor da segunda vinda de Jesus, e, portanto, estaríamos vivendo os anos finais do mundo antes do dia do juízo final. Não poderíamos esperar outro resultado senão mais uma frustração das expectativas proféticas da volta de Jesus. Desta forma, todas as datas profetizadas vão se passando e os líderes “profetas” vão arranjando desculpas para justificar o não cumprimento da falsa profecia.
As Escrituras não autorizam ninguém, nem os apóstolos que haviam sido escolhidos por Jesus, a marcar data para a volta de Cristo: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade” (At.1.7). Ao contrário, aqueles que diziam que Cristo já havia chegado eram considerados hereges (Mt.24.23-26). A igreja apenas deveria esperar fiel e pacientemente (2Pe.3.9-10). O livro de Apocalipse é uma exortação à igreja, a fim de que esta aguarde com perseverança a volta de seu Senhor.

Teologia da Prosperidade
Normalmente os líderes da Nova Reforma Apostólica ensinam a teologia da prosperidade, também relacionada à ideia de que a igreja está vivendo dias que antecedem a volta iminente de Jesus.
No entanto, a Palavra de Deus aponta uma direção contrária. Uma análise teológico-bíblica dos juízos divinos nos conduz à clara conclusão que os dias que antecedem a visitação do Senhor são sempre marcados por caos e paganismo, como ocorreu nos dias do dilúvio, Sodoma e Gomorra, queda de impérios, cativeiro babilônico etc. A igreja deveria ser perseverante, pois seus dias seriam difíceis, pois o mundo que odeia Deus, também a odiaria e a perseguiria por causa de Cristo, o Senhor da igreja (Jo.15.20). Essa Palavra de Jesus não deve ser compreendida como exclusiva para os apóstolos ou para aqueles dias. Isto fica claro no livro de Apocalipse que é escrito para uma igreja vivendo no final do primeiro século, e em sua mensagem a igreja de Jesus é perseguida em muitas gerações e mesmo passando por um período de glória, logo seria alvo de perseguições outra vez (Ap.20). Esta é a razão pela qual o grande propósito do livro é exortar a igreja a ser fiel e perseverante em todas as circunstâncias, esperando sempre no Senhor que voltará para busca-la.
Os cristãos de nossos dias, portanto, deve analisar todos os movimentos à luz da Escritura Sagrada, sabendo que muitos dos líderes, aparentemente “piedosos”, são, na verdade, falsos obreiros que pretendem atrair para si discípulos (um intento claramente diabólico – Mt.4.9). Isto serve de alerta para os cristãos exigindo que estudem a Palavra de Deus e estejam bem preparados para refutar todo engano, dando clara “razão da esperança” que há em nós (1Pe.3.15).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALVINO, João. Pastorais. São José dos Campos-SP: Fiel, 2009.
CULVER, R. D. Apostles and the apostolate in the New Testament. Bibliotheca sacra. 134, 534, 131-143, Apr. 1, 1977.
HERRON, R. W. The origin of the New Testament apostolate. Westminster Theological Journal. 45, 1, 101-131, Mar. 1, 1983.
HINCKS, E. Y. The limit of the apostolate. Journal of Biblical Literature. 14, 37-47, Jan. 1, 1895.
KUYPER, Abraham. A obra do Espírito Santo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2011.
MATOS, Alderi Souza. Edward Irving: Precursor do Movimento Carismático na Igreja Reformada. Fides Reformata 1/2, 1996.
NICODEMUS, Augustus. Apóstolos: A verdade bíblica sobre o apostolado. São José dos Campos: Editora Fiel, 2014.
NORRIS, F. B. The apostolate: a scriptural basis. Worship. 36, 2, 95-100, Jan. 1, 1962.
VOGELSTEIN, H. The development of the apostolate in Judaism and its transformation in Christianity. Hebrew Union College Annual. 2, 99-123, Jan. 1, 1925.



quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Guerra cultural

Diz o insensato no seu coração: Não há Deus. Corrompem-se e praticam abominação; já não há quem faça o bem. Do céu olha o SENHOR para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.” (Sl.14.1-3)

As contradições do mundo pagão são tão vastas que podem deixar qualquer cristão perplexo com o tamanho da ignorância de seus indivíduos praticantes. Primeiramente, proibiram aquilo que chamaram de “bullying”, pois pessoas sensíveis demais poderiam ter traumas psicológicos (feminismo doentio). Agora, querem o direito de denegrir absurdamente os valores e crenças do outro, ofendendo por meio de palavras e imagens, esperando que as pessoas achem “interessante” a miséria dos pensamentos mundanos daqueles que borraram telas com suas mentes sujas, a fim de induzirem a imoralidade à sociedade, a partir das mais tenras crianças. Ou seja, ninguém pode falar nada contra as pessoas imorais, mas os levianos podem fazer o que quiserem para denegrir aqueles que não partilham de suas doenças morais.

É evidente que os envolvidos em tais escândalos não são doidos nem muito menos ingênuos. Eles são perversos e querem perverter todos os valores cristãos, a fim de que consigam dominar sobre este mundo, sabendo que lhes resta pouco tempo até que o dia do juízo divino sobrevenha a eles (Ap.12.12; 20.3). Eles provocam guerra, mas se fazem de inocentes enquanto estupram as mentes tolas das massas. Eles querem prevalecer e ficam furiosos quando ganhamos batalhas quer políticas, como ocorreu com a eleição de Donald Trump, quer mentais, como ocorre todas as vezes que um cristão esclarecido conversa com um pagão. Sendo-lhes impossível lutar contra Deus, eles se voltam contra a igreja (Ap.12.13), e sendo incapazes de vencer por meio do argumento, pois não possuem qualquer fundamento verídico, eles apelam para a brutalidade verbal e física, pois a “tudo o que não entendem, difamam; e, quanto a tudo o que compreendem por instinto natural, como brutos sem razão, até nessas coisas se corrompem” (Jd.10).

Infelizmente, isso já era previsto desde que confiaram à mídia uma “liberdade” ilegítima, dando-lhe o direito de falar mal de tudo e todos, desrespeitando “governos” e “autoridades superiores” (Jd.8), motivando, assim, a população para uma vida libertina. As redes de comunicações agridem a mente das pessoas entorpecendo-as com mentiras, defendendo todo engano e maldade enquanto ocultam a Verdade da população. As gerações passaram muito tempo “em coma” assistindo as futilidades inúteis e enganosas transmitidas pela TV, vendo jornalistas encenar notícias e mudar valores, distorcendo o certo e o errado. Brincaram com as emoções do povo, induzindo sentimentos diversos e adversos por meio da manipulação indevida, mostrando, assim, que a corrupção do planalto é apenas uma vertente de uma ampla cultura pagã. Patrocinaram todo tipo de promiscuidade e aberração, esvaziaram as mentes já carentes de conhecimento e destruíram muitas famílias por meio da propagação do feminismo, difundindo uma vida vulgar e banal, fazendo com que mulheres pensassem ser alguma coisa a mais e os homens alguma coisa a menos.

Estamos vivendo dias de profunda e intensa guerra cultural e os cristãos precisam abrir os olhos para enxergar os acontecimentos por meio de uma cosmovisão bíblico-cristã. Mas, não podemos ficar parados apenas assistindo a estupidez praticada pelo paganismo quer na política ou na educação (escolas e universidades) quer na arte ou em qualquer outra área da sociedade. Não pode haver tolerância para com as ideologias pagãs transmitidas pelos mais diversos meios de comunicação. Enquanto eles pintam a cara e elas se autodenominam vadias, nós forjamos textos elaborados e exigimos nossos direitos constitucionais, desligamos a TV repudiando, completamente, tudo que veicula o pecado e demonstramos que a Verdade sobrepuja a todo argumento falacioso desse mundo.

O cristão precisa abrir sua boca e continuar propagando o Evangelho, poder de Deus para a salvação (Rm.1.16), enquanto resiste firme às ameaças do mundo pagão. Precisamos lutar por meio da firme e fiel pregação da Palavra de Deus, confrontando o mundo por meio da Verdade, a fim de envergonhar os inimigos de Deus, expondo a ignorância dos levianos enquanto não aceitamos seus ensinos imorais, “porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Co.10.4-5).

Por meio do conhecimento da Verdade, todo cristão pode contrapor o paganismo. O mundo odeia quem pensa, pois a mentira, na qual estão enraizados, não serve de fundamento para a razão. Apesar de se afirmarem pensadores e racionalistas, não somente mostram-se ignorantes como, também, fazem de tudo para manter as pessoas na ignorância. Os “doutores” pagãos obrigam os alunos a ingerirem suas particulares filosofias, que aderiram sem qualquer reflexão adequada, com o propósito de criar uma geração de ignorantes facilmente conduzidos para todo mal. Por essa razão, não se ensina, nem nas universidades nem em qualquer outra instituição educacional, as ideias cristãs elaboradas sobre a vida, a sociedade, o ser humano, a criação, a arte, a política, a economia etc. Quando alunos confrontam professores com perguntas inteligentes que demonstram a fragilidade dos sistemas ideológicos marxistas, naturalistas, humanistas, feministas, racionalistas etc., eles os perseguem e prejudicam, pois não suportam a luz da Verdade nem podem refutá-la por ser a Verdade. De forma semelhante, fazem com todos os que se levantam para combater o mal: a uns matam e fingem ter sido acidente a outros difamam usando ilegitimamente a mídia para fins particulares.

O que este mundo chama de “arte” não passa de indução imoral com o propósito de levar cativas as mentes medíocres daqueles que não foram ensinados a pensar. Querem perverter as crianças, já inclinadas a todo pecado desde seu nascimento, com o propósito de transformar o mundo numa Sodoma, mesmo sabendo que virá sobre eles o juízo divino. Não há beleza em suas inspirações putrefatas nem elevam as sensações humanas, causando, apenas, náusea decorrente de seu fétido odor mental, fruto de mentes cativas de todo mal. Desde quando corrupção, injustiça, mentira, promiscuidade e difamação deixaram de ser práticas vergonhosas, a fim de serem apreciadas como expressões artísticas? Nem por um só momento temem ao Criador e, por isso, serão exterminados como foram muitos outros antes deles.


A cada novo escândalo promovido pelo mundo, ergue-se, também, o chamado para que o cristão pague o preço de servir a Jesus, reagindo ao mundo leviano. Surge a necessidade de homens cristãos firmes e valentes que levantem “mãos santas, sem ira e sem animosidade” (1Tm.2.8), erguendo suas vozes contra todo pecado, prontos para combater “o bom combate da fé” (1Tm.6.12). Precisamos clamar a Deus para que glorifique seu Santo NOME, repreendendo aqueles que se levantam contra Cristo, certos de que “ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá” (Sl.2.4-5). É hora de deixar todo comodismo, covardia, politicagem, status e interesse particular, a fim de lutar por Cristo contra esse mundo que “jaz no maligno” (1Jo.5.19), pois a guerra contra a igreja foi começada e “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt.16.18).

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Há salvação para o suicida?

Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap.12.11)

Vida demasiadamente agitada, corrida pelo ouro, busca incansável pela satisfação e abandono de uma vida em Deus tem trazido, para as gerações, diversas doenças psicossomáticas e psiquiátricas. Algumas dessas doenças terminam por desembocar no trágico suicídio. O crescente aumento no número de suicídios tem despertado o interesse de muitos com respeito a suas implicações eternas. Infelizmente, algumas pessoas que viveram no ambiente cristão também vieram a suicidar-se por diversas circunstâncias, atraindo o grande interesse de muitos cristãos para a pergunta: O suicídio conduz ao inferno?

O assunto não pode ser tratado empiricamente nem por motivos emocionais. Ou seja, experiências não devem servir de base para as conclusões acerca do suicídio. É comum que o assunto seja tratado movido por experiências tais como o suicídio de cristãos conhecidos. Isso ocorre porque os sentimentos criam certa crise naqueles que tinham, em seu coração, a certeza de que tais pessoas eram verdadeiramente cristãs. Então, os envolvidos emocionalmente procuram encontrar alguma brecha para confortar o coração com a certeza de que o suicida tenha recebido o perdão de seu último pecado cometido contra a fé e a esperança (não apenas contra a vida) que deveriam estar completamente depositadas (fé e esperança) em Jesus Cristo.

Também, deve-se ter muito cuidado com deduções lógicas. A lógica só é proveitosa quando os fundamentos são corretos. A seguinte estrutura lógica é comum na defesa de que o suicídio não é um pecado imperdoável:

Premissa A: Cristo morreu pelos pecados daqueles que professam seu nome
Premissa B: Suicídio é um pecado
Conclusão: Logo, o suicídio é um pecado perdoado por Cristo

Se esta estrutura fosse suficiente, então todos os que um dia professaram crer em Cristo estariam perdoados de todos os pecados, incluindo os hereges que, apesar de não concordarem com a sã doutrina, também creem em Cristo como Senhor e Salvador. Todavia, o Novo Testamento afirma que a legítima fé se expressa em obras e perseverança de forma que não basta começar a caminhada cristã nem muito menos apenas professar o nome de Jesus. É necessário andar em Cristo e com Cristo até o ultimo dia, pois “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt.7.20) e “o que foi semeado em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende; este frutifica e produz a cem, a sessenta e a trinta por um” (Mt.13.23), sabendo que “bem-aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam” (Tg.1.12), afinal “até os demônios creem e tremem” (Tg.2.19); e, como disse Jesus em Mateus 7.21-27:

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade. Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína.

O suicídio pode não ter sido tão comum nos dias do Novo Testamento quanto em nossos dias, mas, também, ocorria (At.16.27). Quando Jesus disse que iria retirar-se para um lugar em que a multidão não poderia segui-lo, as pessoas conversaram entre si: “terá ele, acaso, a intenção de suicidar-se? Porque diz: Para onde eu vou, vós não podeis ir” (Jo.8.22). É interessante observar, ainda, que há poucos relatos sobre suicídios na Escritura e todos eles estão relacionados a pessoas indesejadas por Deus: Saul, o escudeiro de Saul, Aitofel e Judas (1Sm.31; 2Sm.17; Mt.27.5). O escudeiro de Saul é a única pessoa sem qualquer informação a seu respeito de forma que não sabemos se temia ou não a Deus; apenas sabemos que teve medo de obedecer a Saul. Portanto, não há uma só pessoa temente a Deus que tenha se suicidado, em toda a Escritura, impossibilitando qualquer referência direta à defesa da possibilidade de suicídio entre cristãos. Veremos mais adiante que a morte de Sansão não pode ser considerada um suicídio.

Todas as pessoas se amam e o suicida não está fora desse padrão universal. Por amar a si mesmo, e não encontrando mais esperança em seu coração, o suicida tenta solucionar seu problema com suas próprias forças. Ele não encontra força em Deus para vencer suas lutas, a fim de perseverar dizendo “tudo posso naquele que me fortalece” (Fl.4.13). A fé e esperança em Cristo parecem não lhe bastarem (1Co.12.7-10) e não suportando mais esperar em Deus, ele antecipa o fim de suas angústias. A perseverança se esvai num ato de desistência, faltando-lhe a “operosidade da vossa fé” e a “firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts.1.3), por meio dos quais o apóstolo Paulo diz que podemos reconhecer a eleição daqueles que se dizem cristãos (1Ts.1.4).

Torna-se necessário nesse momento que todos compreendam melhor o “amor próprio” do ser humano. Pessoas comem ou deixam de comer por se amarem; casam ou deixam de casar por amor próprio; curtem a vida ou se isolam por gostarem demasiadamente de si mesmas e, por isso, fazem o que consideram ser o melhor para elas. As razões podem ser diferentes e os gostos os mais variados, mas a causa é a mesma: “amor ao próprio ser”. Não devemos, então, pensar que o amor próprio seja direcionado para o corpo, simplesmente. Esse amor é dedicado à essência humana, ao “ser”. Quando uma pessoa diz: “- Não gosto de algo em mim”, na verdade, ela está querendo dizer: “- Eu queria ser melhor, pois desejo o melhor para mim, e por não ter o melhor, me aborreço com o que tenho”. Mulheres que dizem não gostar do próprio corpo, querem dizer que gostariam de ter um corpo mais bonito, pois se amam e querem o melhor para si. Pessoas infelizes com a vida, estão dizendo que queriam algo melhor para si e por não alcançarem o que desejam, ficam insatisfeitas. O orgulho, fruto do amor próprio, produz insatisfação e angústia, pois a realidade não basta. Esses exemplos podem ser aplicados em diversos outros casos, dentre estes, de pessoas que se suicidaram por insatisfação com a vida. Nesses casos, o amor próprio foi tão forte que não conseguindo conviver com a realidade, prefere não viver do que ter que suportar um estado de vida diferente daquele que almejava para si mesmo.

O amor próprio está presente em todos os pecados: Adão e Eva usurparam a glória de Deus por amor a si mesmo, pois queriam ser iguais a Deus (Gn.3.5-6); diversos outros pecados, relatados pela Escritura, foram cometidos por amor a si mesmo, visando a satisfação da própria vontade a todo custo (prostituição, avareza, gula, bebedice etc.); e, boa parte das atitudes daqueles que se acham feios, inferiores e dizem não gostar de si mesmos, na verdade são movidas pelo amor próprio demasiado, pois não “tendo” o que desejavam ter nem “sendo” aquilo que gostariam de ser, sentem-se infelizes. O orgulho humano mostra-se, então, muito forte, trazendo malefícios físicos e mentais para as pessoas. Esses malefícios estão presentes no indivíduo e em toda a sociedade. As muitas mazelas presentes nas cidades, as muitas guerras ocorridas no mundo e as mais diversas expressões de rebeldia contra Deus são causadas por causa do amor próprio demasiado. O amor a si mesmo, portanto, revela-se raiz dos mais diversos males causados pelo homem tanto ao outro quanto a si mesmo.


Mas, há solução para os problemas causados pelo amor próprio demasiado. Deus nos chama a amá-lo de todo nosso coração, de toda nossa alma e de toda nossa força (Dt.6.5). Esse mandamento não somente volta nossos olhos para Deus, o único ser imutável e perfeito, mas, ainda, retiro nosso olhar de nós mesmos. A conversão promovida pelo Espírito do Senhor (Ez.36.26-27) direciona nosso amor para Deus, a fim de dedicarmos toda nossa vida para o único alvo seguro e estável para todo nosso amor. Somente Deus não muda nem erra nem tem defeito algum, de forma que o homem jamais é frustrado em Deus nem desanimado nEle, pois suas promessas são fiéis e verdadeiras. Em Deus, até mesmo os piores problemas encontram um proposito benéfico, pois “todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus” (Rm.8.28). Quando o coração compreende firmemente que todas as coisas foram criadas para a glória do Senhor e que os cristãos hão de ser recompensados por todo amor dedicado ao Criador, brota-lhe a verdadeira paz, pois ancorou em um porto realmente seguro.

Deve ficar claro, portanto, que o suicídio não é apenas uma vertente do sexto mandamento: “Não matarás!” (Ex.20.13), ainda que seja, também, um atentado contra a vida. O problema do suicídio deve ser tratado dentro do contexto da fé e esperança necessárias para a salvação em Cristo (soteriologia). Mesmo que uma vida tenha sido tirada, o grande problema não está na morte, mas na falta de persistência em confiar que a graça de Deus basta, a fim de perseverar como disse o salmista: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu” (Sl.42.11). Em Hebreus 11, a honra dos heróis da fé encontra-se em perseverarem até o fim, pois esperavam em Deus, confiando no poder do Senhor de modo que “escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros” (Hb.11.34). Fé e esperança não se encontram no suicídio, pois é exatamente a falta deles que leva o homem a cometer tal erro. Por efeito de analogia, apenas, poderíamos compará-lo a alguém que, tendo sido pressionado a negar Jesus, não suporta a pressão e nega a Cristo diante dos homens. Porém, Jesus disse que “aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt.10.33). O suicida não suporta a angústia e, então, tira de si mesmo não somente a vida, mas, ainda, a chance de pedir perdão e rogar a misericórdia de Deus, tendo em vista que o próprio suicida pôs fim a isto.

A vida é o tempo determinado por Deus para que as pessoas demonstrem fé e esperança, perseverando até o fim. Jesus então disse: “aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo” (Mt.10.22). O suicídio é o resultado da incapacidade de aguentar a pressão do mundo maligno e atribulado (Mt.13.20-21). Parece semelhante a diversos erros cometidos na vida, todavia o suicídio põe fim à possibilidade da pessoa se arrepender e buscar auxílio em Deus. Não há mais oportunidade para confessar o erro e buscar socorro no Senhor por não ter esperado em Deus e crido que Ele é poderoso para sustentar o desvalido e exausto. O suicídio visa solucionar problemas da alma quando a fé e a esperança parecem, para o suicida, ineficazes.

Há uns poucos personagens que se suicidaram na Bíblia (como já mencionamos), a saber: Saul, o escudeiro, Aitofel e Judas (1Sm.31; 2Sm.17; Mt.27.1-10). Esses personagens não podem ser considerados homens de Deus, pois o caminho que escolheram era mal perante o Senhor. O suicídio deles deve ser tratado separadamente, pois tiveram motivos diferentes, mas todos foram considerados por Deus como homens ímpios. Saul já havia sido desprezado por Deus por todos os seus pecados de rebeldia, mas seu suicídio está relacionado ao código de honra da guerra. Saul não queria morrer nas mãos dos inimigos e, não confiando que Deus poderia livrá-lo da morte, ele se suicidou. Portanto, seu código de honra também está relacionado a falta de fé e esperança no Senhor, razão para desistir de tudo e tirar a própria vida.

Aitofel fazia parte de grupo de conselheiros de Davi. Todavia, após a revolta de Absalão, tendo Davi fugido de Jerusalém, Aitofel se aliou ao filho rebelde de Davi para conspirar contra seu antigo rei (2Sm.15.12,31). Ao saber da traição de Aitofel, Davi ora a Deus dizendo: “Ó SENHOR, peço-te que transtornes em loucura o conselho de Aitofel” (2Sm.15.31). Aitofel foi perverso diante de Deus, traindo aquele que o Senhor havia escolhido para ser rei em Israel. Ele aliou-se com o perverso e concordou com toda a maldade praticada por Absalão. Aitofel estimulou o filho do rei a coabitar com as concubinas de Davi, humilhando-as “à vista de todo o Israel” (2Sm.16.22). Suas obras, portanto, foram todas más e seu propósito final era destruir aquele que Deus havia escolhido para conduzir o povo de Deus nos caminhos do Senhor. Quando se viu substituído por Husai, fiel servo de Davi, Aitofel foi suicidar-se.

Como sabemos que Judas foi para o inferno? Seria por causa de sua traição? Mas, Pedro também negou a Cristo e todos os discípulos abandonaram a Jesus por ocasião de sua prisão. Seria, então, a traição um pecado imperdoável? Ou seria possível que Judas confessasse seu pecado e obtivesse perdão do Senhor? O problema é que, diferente de todos os demais discípulos, Judas tirou de si mesmo a oportunidade de se arrepender e confessar seu pecado. Ele não creu que o Senhor poderia perdoá-lo de seu terrível pecado nem teve esperança que em Cristo ele poderia receber a vida eterna. Seu suicídio pôs fim a qualquer chance dele buscar no Senhor o perdão de seus pecados. Desta forma, Judas consumou sua inimizade contra Deus, confirmando a dureza de seu coração por meio de seu suicídio.

Outro personagem citado dentro deste assunto é Sansão. Todavia, precisamos deixar claro que Sansão não cometeu suicídio, pois seu pedido a Deus para que lhe fosse dada força outra vez tinha em vista a morte de seus inimigos, não sua própria morte. Devemos entender isso no contexto da guerra. Mesmo sabendo que a morte numa guerra seja muitas vezes inevitável, os soldados não podem desistir por questão de honra e perseverança, sabendo que podem vencer a guerra por meio de intervenção divina. Morrer numa guerra, tentando matar o inimigo não é suicídio, mas brava tentativa de derrotar o adversário. O soldado demonstra, corajosamente, que está disposto a não poupar nem mesmo a própria vida para vencer os adversários por amor a seu povo. Sansão queria derrotar os inimigos do povo de Deus e foi bem-sucedido, mesmo que tenha morrido por isso.

Devemos lembrar que se considerarmos a morte de Sansão como um suicídio, também deveríamos considerar a morte de Jesus como um suicídio, pois, mesmo tendo sido preso e morto por mãos de terceiros, a Escritura diz que “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef.5.25); “Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós” (Ef.5.2); o “Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl.2.20); Jesus Cristo, o qual se entregou a si mesmo” (Gl.1.3-4). Jesus foi para a cruz voluntariamente sabendo que iria morrer, e de tal forma sua morte foi voluntária que a Escritura diz que Ele entregou-se a si mesmo. Sua morte foi a forma de vencer o pecado, não um suicídio voluntário, semelhante ao que aconteceu com Sansão, pois ambos venceram o inimigo entregando a própria vida (Jz.16.28). Jesus não se encravou na cruz, mas se entregou com este propósito assim como Sansão derrubou as colunas para matar os inimigos, não para matar a si mesmo. Sansão matou mais inimigos com sua morte do que em sua vida semelhante ao que Cristo fez (talvez um tipo da vitória de Cristo na cruz – Jz.16.30).


A ideia de que todo pecado é igual diante de Deus não encontra base na Escritura (1Jo.5.16-17) nem muito menos a ideia de que tornar-se cristão é suficiente para que quaisquer pecados futuros sejam considerados perdoados (Mt.7.21-23). Além disso, o assunto traz à tona a doutrina da “perseverança dos santos”. Crer que o suicida pode ser salvo é semelhante a negar a doutrina da “perseverança dos santos”. Perseverar em Cristo significa crer e confiar em seu poder redentor e manter-se (até que Deus tire nossa vida) firme na esperança de que, em Jesus, os sofrimentos da vida não serão suficientes para fazer o cristão desistir de viver em Cristo (Rm.8.18). Por isso, mesmo angustiados profundamente, os salmistas esperavam em Deus e buscavam no Senhor a força necessária para perseverar até o fim (Sl.25.17; 31.7; 71.20; 107.26-28; 116.3). Suicidar-se não é desistir apenas da vida, mas, primeiramente, da fé e esperança em Jesus Cristo como sustento firme e eficaz para toda a vida, mesmo diante de um mundo que “jaz no maligno” (1Jo.5.19). Diante de tudo isso, o que você conclui: há salvação para o suicida?

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O querer de Deus e Seu projeto redentor (1Tm.2.4)

o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm.2.4)

A carta de Paulo a Timóteo é composta por diversas instruções acerca do procedimento de um pastor na condução da igreja, a fim de torná-la agradável a Deus em todo seu modo de vida (1Tm.3.14-16), preparando-a para o futuro quando Cristo se manifestará ao mundo (1Tm.6.11-16). Conforme o apóstolo, Deus deseja que a igreja viva de modo santo e justo no tempo presente, sabendo que o Senhor reservou perfeita vida futura para seu povo (1Tm.6.17-19). Esses ensinos deveriam ser transmitidos à igreja (1Tm.5.3-16) e aos futuros pastores (1Tm.3.1-13) para que tanto um quanto o outro exercitassem a justiça segundo a sã doutrina, fugindo dos maus ensinamentos e conduta (1Tm.4.6-16), a fim de que a Verdade fosse manifesta pela igreja, “coluna e baluarte da Verdade” (1Tm.3.15).

A primeira instrução do apóstolo (1Tm.2.1-8) diz respeito à prática constante da oração em favor de todas as pessoas, a fim de que os cristãos vivessem“vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito” (1Tm.2.2). A ausência de justiça na sociedade não é algo bom e a igreja sofre com isso. Mas, os cristãos não deveriam seguir o modelo hostil do mundo, participando ou estimulando o envolvimento em confusões sociais. Paulo ensina que a forma bíblica para melhorar o ambiente social é orando ao Senhor enquanto prega o Evangelho e vive de acordo com a sã doutrina, na certeza de que Deus almeja que a igreja viva uma vida agradável, sendo poderoso para intervir na sociedade, pois “como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR; este, segundo o seu querer, o inclina” (Pv.21.1).

O texto de 1 Timóteo 2.1-8 está emoldurado pela exortação à oração (A e A’). Paulo quer que os homens orem a Deus em vez de tentarem resolver problemas sociais por meio da força e violência. Ou seja, não existe outra forma de trazer paz e tranquilidade para o mundo a não ser por meio de Cristo. Então, Paulo diz que Deus quer que chegue o dia em que haverá paz e tranquilidade no mundo e, por isso, enviou os apóstolos (dentre eles Paulo) para pregarem o Evangelho, por meio do qual as pessoas serão transformadas. Para uma melhor visualização da estrutura do texto, dispomos, graficamente, 1 Timóteo 2.1-8 em forma quiástica:

A Paulo exorta a pratica de orações em favor de todas as pessoas
B Isso é agradável a Deus que deseja que chegue a salvação a todos
C Há um só salvador de todos os homens
C’ Há um só sacrifício oferecido pelos homens
B’ O apóstolo foi designado pregador do Evangelho para todos
A’ Paulo exorta a pratica da oração em favor de todas as pessoas

Mesmo que a oração da igreja seja em favor de todas as pessoas, sua finalidade é proporcionar vida “tranquila e mansa” para os cristãos por meio da expansão do Reino de Deus. Mas, quando isso ocorreria, realmente? A esperança cristã de uma vida “tranquila e mansa” é depositada, em toda a Escritura, na eternidade, por ocasião da “manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Tm.6.14). Paulo, então, afirma que Deus se agrada deste bem-estar, querendo que haja salvação em toda a Terra, ou seja, que seu Reino seja estabelecido plenamente (1Tm.6.15).

Tendo em vista o propósito das orações: uma “vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito” (1Tm.2.2), é possível se dizer que Paulo faz referência, também, ao objetivo final do projeto redentor: a chegada do novo céu e nova terra onde habitará apenas a justiça e retidão, pois nela viverão somente aqueles que foram justificados e santificados (1Ts.4.3). O Senhor deseja que a Terra seja habitada por homens cheios do pleno conhecimento da Verdade. Ou seja, Deus não se agrada da forma como o mundo está nem do modo como os cristãos vivem, sofrivelmente, nesse mundo que “jaz no maligno” (1Jo.5.19).

Por meio da estrutura quiástica, torna-se mais claro que o desejo de “que todos os homens sejam salvos” (1Tm.2.4) está relacionado à pregação do Evangelho. Em outras palavras, a igreja deve pregar a salvação em Cristo para todas as pessoas, pois essa é a vontade de Deus, meio pelo qual o Reino de Cristo se expandirá, proporcionando uma vida “tranquila e mansa” para todos. Desta forma, Paulo está estimulando a igreja a pregar a Escritura como solução para o bem-estar social de todos, algo que Deus realmente deseja, razão pela qual enviou seu Filho para pagar nosso pecado.

O texto parece ser uma referência a Ezequiel 18.23,32, onde Deus fala: “Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? -- diz o SENHOR Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva? [...] Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o SENHOR Deus. Portanto, convertei-vos e vivei”. Nesse texto, o profeta mostra que apesar dos castigos advindos da parte de Deus, o Senhor não tem prazer em destruir pessoas, mas o faz para que sua justiça seja manifesta. Ou seja, mesmo que Deus não deseje a morte de alguém, para manifestar sua justiça Ele a tira, assim como escolheu Judas com a finalidade de ser o traidor de Cristo. O plano redentor não possui brechas resultantes de uma história aberta. Ou seja, Judas não poderia decidir não ser o traidor. No momento certo, “Satanás entrou em Judas” (Lc.22.3), um vaso de ira preparado para a perdição (Rm.9.22), a fim de que se cumprisse tudo o que fora proferido pelos profetas acerca de Jesus (Lc.22.37).

Desta forma, Deus não tem prazer na condenação daqueles que Ele criou a sua imagem e semelhança (Gn.1.26), todavia precisa condenar a muitos para que sua glória seja manifesta plenamente, tanto no amor redentor quanto na justiça condenatória. O Senhor não tem satisfação no sofrimento das pessoas, mas projetou a história redentora de tal forma que a igreja não foi poupada do sofrimento por muitos séculos, mesmo sabendo que o Senhor era poderoso para socorrê-la. O Senhor não gosta de ver seu povo sofrendo, mas disse para Paulo, quando este suplicou o auxílio de Deus, que não o livraria de sua angústia, a fim de que dependesse somente da graça divina (2Co.12.7-9). Deus não anseia pela condenação dos homens, mas estabeleceu critérios impossíveis de serem cumpridos naturalmente por todos (ouvintes ou não do Evangelho), a fim de mostrar sua graça por meio do agir do Espírito naqueles que haverão de crer em Jesus. Portanto, mesmo que Deus não queira o mal das pessoas, às vezes Ele traz males sobre elas, quer temporário ou mesmo eterno, para que o propósito de todas as coisas seja alcançado: que seu NOME seja glorificado em tudo: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão” (Rm.9.22-23).

Mais adiante no texto de 1 Timóteo 2, Paulo diz que Jesus é o único Mediador e Redentor de todos os homens, “o qual a si mesmo se deu em resgate por todos: testemunho que se deve prestar em tempos oportunos” (1Tm.2.6). Para compreendê-lo melhor, o colocaremos em paralelo com Romanos 5.12-21 onde Paulo fala sobre o sacrifício de Cristo como segundo Adão, visando satisfazer a justiça de Deus no lugar daquele que transgrediu a Lei ainda no paraíso (Gn.3.6-15). De acordo com Paulo, Cristo é o legítimo sacrifício oferecido pelo pecado original, que resultou em muitas outras transgressões (Rm.5.18). Jesus, portanto, é o Redentor de todos os homens, pois seu sacrifício eficazmente substituiu a transgressão do homem, razão para o apóstolo João dizer que “Ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro” (1Jo.2.2). Ou seja, Jesus satisfez completamente a justiça de Deus e tem em suas mãos o poder para dar a qualquer pessoa o perdão dos pecados.

Observe-se que a leitura isolada de Romanos 5.18 poderá conduzir o leitor à ideia de uma espécie de salvação universal independente da fé em Jesus, pois se “veio a graça sobre todos os homens, para a justificação que dá vida” (Rm.5.18) logo todos os homens deveriam estar justificados independentemente da fé em Cristo. Todavia, Paulo não ensinou esta doutrina. Mais adiante o apóstolo ensina a necessidade de se crer em Jesus para a salvação de qualquer pessoa, razão pela qual a igreja deve investir na pregação do Evangelho: “Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm.10.13-14).

Segundo Paulo, Cristo é salvador de todo homem, entregue por todos os homens, porque seu sacrifício é representativo, ou seja, representava a raça humana, estando disponível, portanto, para todos os homens, mesmo que não alcance todas as pessoas, tais como Judas, o traidor, entre outros (Jo.17.12; Mt.13.39; At.13.10). Uma cláusula condicional foi estabelecida para a obtenção da justiça de Cristo: a fé nEle. Somente aquele que crê em Jesus herdará a vida eterna (Jo.3.15-16) de forma que “quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18). Desta forma, o desejo divino de salvar o homem não é o coração de seu projeto redentor e deve submeter-se ao seu propósito principal: glorificar a Deus. Por essa razão, o Senhor não concedeu salvação gratuita a todos os homens indistintamente, antes Ele estabeleceu um critério para que a salvação glorifique Seu NOME.

Em Timóteo, o ponto central não é a eleição daqueles que haveriam de crer em Cristo, obtendo o “pleno conhecimento da verdade” (1Tm.2.4). O propósito de Paulo é mostrar que a bondade de Deus é o único caminho para a aquisição de uma vida “tranquila e mansa, com toda piedade e respeito” (1Tm.2.2). Este querer bondoso do Senhor deve conduzir a igreja a investir na pregação do Evangelho, poder de Deus para a salvação (Rm.1.16), pois é o único meio de transformar vidas. Portanto, o foco de Paulo não é a doutrina da eleição, como ocorrerá em outros textos: Romanos 9; Efésios 1 etc., nem o assunto é contraditório com os demais ensinamentos do apóstolo, pois seu foco é o estabelecimento da paz sobre a terra, algo que é alvo do desejo de Deus.

Resta-nos colocar o texto de 1 Timóteo 2.4 diante de outras referências que falam sobre certa restrição no projeto redentor:

Ezequiel 36:26-27  Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.
Marcos 4:11-12  Ele lhes respondeu: A vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas, para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles.
Romanos 9:22  Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição,
1 João 2:19  Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos.

Estas são, apenas, algumas das referências que nos remetem ao fato de que a salvação é administrada por Deus de tal forma que o homem depende dEle não somente para obter a justiça, mas, também, para ser capacitado a crer. Nosso propósito aqui é fazer uma breve análise comparativa com o texto de 1Tm.2.4, a fim de os cristãos entendam não haver contradição entre os textos.

O profeta Ezequiel (Ez.36.26-27) é fundamental para o entendimento da razão pela qual Israel, mesmo vendo as maravilhas de Deus, sendo guiado por Deus e tendo a lei de Deus, não fez a vontade do Senhor no decurso de sua história. O profeta responde: porque não tinha o Espírito do Senhor. Então, Deus promete que dias viriam em que o Espírito do Senhor lhe seria dado e o coração de pedra seria trocado, a fim de que pudesse viver em pleno acordo com a lei, fazendo, assim, a vontade de Deus.

O paralelo desse texto com 1 Timóteo 2.4 leva-nos à seguinte pergunta: Já que Deus “deseja que todos os homens sejam salvos” e é poderoso para trocar o coração de pedra por um coração de carne, dando-lhes o Espírito Santo para que obedeçam a seus mandamentos, por que não o fez com todos, mas apenas com alguns? A resposta encontra-se no propósito máximo do plano de Salvação: a glória de Deus. Para que Seu NOME seja completamente glorificado em tudo, aprove ao Senhor que apenas alguns fossem abençoados com um novo coração e um novo Espírito instrumento para que cressem na Palavra e vissem o Reino de Deus (Jo.3.3,5). A boa vontade do Senhor não entra em contradição com suas ações, mas subordina-se a seu perfeito e eterno plano redentor que visa Sua glória e a glória de Seu Filho Unigênito.

Em Marcos 4.11-12, Jesus responde a indagação dos discípulos acerca de seu método de ensino, o uso das parábolas. Então, Jesus diz aos discípulos que as parábolas eram enigmas que dificultavam o entendimento das pessoas sobre o ensino referente ao Reino de Deus, a fim de que elas não cressem. Jesus afirma claramente que falava por parábolas “para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles” (Mc.4.12). Portanto, mesmo que Jesus tenha enviado seus discípulos a pregar o Evangelho, Ele dificultou o entendimento dos ouvintes para que não alcançassem a salvação. Isso pode levar à seguinte dedução, também: então, significa que aquelas pessoas poderiam ter sido salvas caso compreendessem. Todavia, Jesus não disse que elas tinham a capacidade para entender, mas que lhes estava sendo privada a clareza para que não entendessem. Em outros momentos, Jesus falou com muita clareza, contudo as multidões preferiram se afastar dEle (Jo.6).

Em Romanos 9.22, Paulo fala sobre os “vasos de ira” que Deus suportou durante muito tempo. Isso exigiu a muita paciência de Deus, afinal o Senhor não se agrada na destruição do pecador. Mas, para que Seu perfeito projeto eterno fosse satisfeito, foi preciso suportar pacientemente os “vasos de ira, preparados para a perdição”. Eles foram feitos da mesma massa, ou seja, são igualmente descendentes de Adão e Eva, todavia foram feitos para cumprir outro destino que implicaria na glorificação de Deus, eternamente. A ideia de que o texto esteja falando apenas no aspecto terreno e físico não se coaduna bem com o versículo 24 no qual Paulo faz referência aos cristãos judeus e gentios como vasos de misericórdia. A perdição para o qual os “vasos de ira” foram preparados diz respeito à condenação deles. Mais uma vez, Deus não deseja o mal dos homens, mas submete sua vontade ao projeto redentor que tem como propósito manifestar sua glória por meio dos homens.

Por fim, em 1 João 2.19, o apóstolo diz que a saída de certas pessoas do meio cristão ocorreu para que ficasse evidente que, mesmo tendo passado um período entre os cristãos, tais pessoas nunca pertenceram ao povo de Deus. A saída deles apenas evidenciava que havia joio no meio do trigo. Deus quer que o homem seja salvo, mas nem todos, mesmo estando no meio da igreja visível de Jesus, recebem a graça de crer em Cristo (Fp.1.29). Algo semelhante aconteceu com os apóstatas mencionados pelo livro de Hebreus. Aquelas pessoas desfrutaram de todo o ambiente da graça, mas não tiveram raízes profundas na Palavra de Deus e, por isso, desviaram-se de Cristo, negando-o completamente (Hb.6.1-8). Mesmo sem querer condenar o pecador, Deus concretiza seu projeto, a fim de manifestar sua justiça naqueles que são condenados, da mesma forma como manifesta sua graça e misericórdia naqueles que são alcançados pela Palavra e Espírito de Deus.

Concluímos, então, que a vontade de Deus está submissa a Seu eterno propósito redentor com o fim de glorificar Seu Santo NOME. Deus pode todas as coisas, mas é firme e paciente em suportar os “vasos de ira” instrumentos para a manifestação de sua justiça. Vimos, ainda, que o foco de Paulo em 1 Timóteo 2.1-8, não é a salvação dos homens, mas o estabelecimento da paz sobre a terra por meio da transformação que o Evangelho opera nos corações agraciados por Deus. A igreja, portanto, deve pregar o Evangelho “quer seja oportuno quer não” (2Tm.4.2), pois é o único caminho para uma vida “tranquila e mansa, com toda piedade e respeito”.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Onde está sua esperança?

porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mt.6.21)

“- Não precisamos desejar que Jesus volte logo. A vida é bonita e boa; é uma benção de Deus para nós”.

Lembro-me bem destas palavras ditas antes de começar uma reunião do conselho há, aproximadamente, 11 anos atrás. A vida deles estava boa, em todos os aspectos (saúde, família, trabalho etc) e, sem perceber, se deixaram levar pelo conforto de uma vida bem sucedida e feliz. Algum tempo depois, Deus os abençoou com diversos problemas que possibilitariam, por meio de uma reflexão na Palavra de Deus, uma autoanálise, a fim de que voltassem os olhos para Cristo, aquele que deve ser alvo de todo o anseio da igreja.

A reforma protestante resgatou algo importante em seus dias: a dignidade da vida humana, tendo em vista a imagem de Deus no homem. Naqueles dias, o cristianismo estava com seus olhos focados apenas na vida pós-morte e, por isso, negligenciava o tempo presente, ignorando a necessidade de uma vida santa e agradável a Deus. Sua teologia estava mais platônica e aristotélica do que bíblica e o pecado tomou conta desde o cristão mais simples, de vida campestre, ao luxuoso clero, liderança absoluta da cristandade nos dias da reforma protestante.

Mas, o propósito da reforma não era substituir o olhar direcionado à vida futura, esperança do novo céu e nova terra (Ap.21.1-7), por um olhar focado na vida presente. O objetivo dos grandes homens do passado foi reavivar um olhar, há algum tempo perdido, para a necessidade de se viver de modo digno do Reino de Deus, já presente no mundo (Mt.12.28; Lc.17.21). Desta forma, os reformadores e puritanos trouxeram à tona a vida cristã holística ensinada desde Gênesis até Apocalipse, vida que glorifica a Deus com “todo coração, toda alma, toda força e todo entendimento” (Mc.12.30), por ansiar profundamente a volta de Cristo. E quanto maior era o desejo pela volta de Jesus maior a dedicação na busca por uma vida de santificação e dedicação na obra missionária, reflexo da obra redentora operada por Cristo através do Espírito e Palavra de Deus.

Nossos dias testemunham outro desvio do olhar da cristandade: um olhar para o mundo presente, somente. Igrejas cheias não tem sido sinônimo de conversões movidas pela Escritura e Espírito de Deus. A felicidade familiar, financeira, trabalhista etc. tornou-se sinônimo de vida abençoada por Deus e o sofrimento foi relegado ao status de consequência do pecado ou investida do diabo. Parece que estamos revivendo o livro de Jó, motivados pelos amigos dele a entender que Deus está presente na boa vida. Por essa razão, muitas pessoas enchem igrejas de todas as denominações esperando que, em ser cristão, alcancem uma vida boa e agradável enquanto aquelas que sofrem, sentem-se não amadas por Jesus e entram em crise.

Ao alimentarem essa busca, os líderes presentes estão atraindo angústias ao coração do povo, fazendo com que os cristãos esperem sempre algo da parte de Deus para a vida presente. Estão levando pessoas para uma denominação, mas não estão conduzindo pecadores para a vida eterna. Ao tirar o foco da vida eterna, prometida pelo Senhor, alimenta-se falsas esperanças não prometidas por Deus, fazendo com que cristãos se acomodem a uma vida boa ou sofram demasiadamente diante de tribulações, na expectativa de verem a vida melhorar. Sofrer por Cristo, então, deixa de ser uma graça divina e torna-se uma maldição.

Portanto, estão alimentando uma esperança passageira e incerta: a esperança em dias melhores. As pessoas esperam, ansiosamente, que Deus lhes abençoe a família, a saúde, o trabalho, os estudos, os sonhos etc. Quando vem o sofrimento, elas ouvem de seus pastores: “- Você pode não entender seu sofrimento hoje, mas vai entendê-lo amanhã”. Ou afirmam, com certeza: “- Todo sofrimento vai passar e você vai dar a volta por cima”. Então, os cristãos passam a aguardar mudanças na vida, providenciadas pelo Senhor, para tirá-los das tribulações, sem que Deus tenha prometido tais coisas. Desta forma, a esperança dos cristãos é posta sobre a vida presente, tantas vezes frustrada por circunstâncias irreversíveis.

Ao confortar cristãos com tais palavras, estão se esquecendo daqueles que sofreram e morreram por Cristo. Muitos cristãos (profetas, apóstolos e diversos homens e mulheres de Deus) não alcançaram livramentos presentes, pois foram abençoados com algo maior: “porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele” (Fp.1.29). Os maiores homens que o mundo já viu receberam uma jornada sofrida, mas tinham em seu coração a alegria da salvação, vivendo seus dias pela esperança da vida eterna. Deus não mudou a vida deles, não lhes deu bonança presente, contudo agraciou cada um deles com a incomparável vida eterna. Eles foram recebidos por Cristo, não com frustração, mas com plena alegria, pois a esperança deles não se encontrava sobre cura, família, trabalho, dinheiro ou outra coisa qualquer, mas em Cristo que vive e reina para sempre.

Por essa razão, esses cristãos puderam dizer: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2Co.12.10). Eles sentiam plena alegria “por serem considerados dignos de sofrer afrontas” por amor ao nome de Jesus (At.5.41). Quando presos, louvavam a Deus, alimentando no coração a esperança da vida eterna prometida por Cristo (At.16.25). E quando o Senhor lhes corrigia, exortava ou negava-lhes alguma coisa, agradeciam a Deus por tratar-lhes como filhos amados, recebendo a resposta divina de boa vontade (2Co.12.9; Hb.12.4-13).

Se a esperança dos cristãos dos primeiros séculos estivesse nesta vida, eles teriam sido frustrados, pois, por pior que fosse a vida, a perseguição e o sofrimento, as coisas não melhoraram. Ao contrário, Deus se agradou de dar-lhes a graça de sofrer por Cristo e morrer por Ele. Os apóstolos, e, posteriormente, os pastores não alimentaram a fé dos cristãos com promessas de bonanças e bem-estar, mas com a certeza da vida eterna (1Ts.4.13-18). Por essa razão, mesmo vendo os filhos serem mortos de formas as mais cruéis, pais e mães não abandonavam a fé, antes, morriam, também, dizendo: Glórias a Deus por ter-nos dado filhos dignos de morrerem por Cristo.

O verdadeiro conforto proveniente da Palavra de Deus é a esperança da vida eterna, concedida por meio de Cristo Jesus. Foi esse o consolo que o Senhor deu aos que clamavam por justiça em meio à grande tribulação. Com a abertura do quinto selo, João teve uma visão em que cristãos, nas regiões celestiais, clamavam por justiça (Ap.6.9-11). Mas, em vez de promessas de livramentos ou mesmo vingança, “a cada um deles foi dada uma vestidura branca, e lhes disseram que repousassem ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos como igualmente eles foram” (Ap.6.11). A igreja foi conclamada a repousar em Cristo, esperando a volta de seu amado noivo, Jesus.

Infelizmente, mesmo sem perceberem, deixaram que o “espírito da teologia da prosperidade” pairasse sobre os corações dos cristãos em ambientes pentecostais, evangelicais e, também, “reformados”. Diversas marcas presentes nas igrejas apontam para a presença da ideologia do “aqui e agora”: as pregações são engraçadas para atrair o público, pois a fidelidade à Escritura parece não ser suficiente; a santificação é associada às bênçãos presentes, não à esperança da glória futura; as pessoas são confortadas com promessas de melhoria de vida, pois ninguém suporta a ideai de sofrer por Cristo; a história redentora que aponta para a vida eterna em Jesus foi substituída pelo moralismo cristão relacionado apenas a uma bonita vida social. A alegria do cristão, então, tornou-se diretamente proporcional ao bem-estar da vida e a esperança foi reduzida ao sonho de uma vida próspera, sem problemas.

Querido cristão, não se deixe levar pela tentativa de proporcionar uma vida confortável para você. Lembre-se que mais bem-aventurados são os que padecem por serem cristãos do que aqueles que desfrutam de uma vida abundante. Isso não significa que a salvação vem pelo sofrer, pois somente Cristo pode salvar, graciosamente, o pecador por meio de seu sangue. Mas, o sofrer, por Jesus, guarda, também, recompensas prenunciadas por Cristo:

Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós (Mt.5.10-12).

Além disso, as angústias fortalecem a esperança do coração, como diz Paulo: “também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança” (Rm.5.3-4). Então, caso o Senhor abençoe sua vida com o sofrimento, alegre-se olhando para Cristo que, também, sofreu por nós e, assim, fortaleça, pela Palavra e Espírito, sua esperança da vida eterna, pois é para lá que Jesus está nos levando.

Por fim, lembramos aos cristãos de nossos dias, o grande testemunho que homens e mulheres de Deus, do passado, deixaram para nós, porque tinham os olhos fitos na eternidade. Os reformadores estavam atentos a Cristo e, por isso, não tinham medo de confrontar a liderança da época, por meio do fiel ensino da Escritura Sagrada. Eles não tinham medo de sofrer nem se frustraram quando foram atribulados, pois a esperança deles estava totalmente depositada em Cristo. E, diante da perseguição levantada contra eles, cantavam à semelhança de Lutero:

De Deus o Verbo ficará,
Sabemos com certeza,
E nada nos assustará
Com Cristo por defesa!
Se temos de perder
Família, bens, prazer,
Se tudo se acabar
E a morte enfim chegar,
Com ele reinaremos!
(Hino 155: Castelo Forte – M. Lutero – J. E. Von Hafe)


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A fonte do amor

Se amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa? Porque até os pecadores amam aos que os amam.” (Lc.6.32)

Você já observou como o amor humano é estranho, confuso e problemático? Pessoas que prometeram se amar por toda a vida, no dia seguinte estão brigando. Irmãos que deveriam cuidar um do outro deixam de se falar por causa de dinheiro, herança e coisas semelhantes. Amigos que diziam querer o bem recíproco ficam enciumados ao verem o sucesso do outro ou o surgimento de novos amigos. Pais deixam de dar aos filhos o melhor da educação, tomados por cuidados consigo mesmos. Por que o amor dos homens é tão estranho? Por causa da natureza pecadora.

O que fazer para mudar o comportamento do homem? Como é possível amar verdadeiramente? Para ambas as perguntas, a resposta é: Cristo. Jesus foi exemplo de vida em todas as coisas, inclusive com respeito ao amor. Todavia, não é ao exemplo de Cristo que precisamos recorrer, mas ao que Jesus fez e pode fazer na vida do ser humano. Tentar imitar Cristo sem crer na obra do Cordeiro de Deus nem desfrutar da nova vida em Jesus será uma tentativa inútil, pois nem pode satisfazer a justiça de Deus nem muito menos será suficiente para vencer a natureza pecaminosa que habita na carne. O homem precisa de ajuda para amar como Cristo nos amou. E essa ajuda precisa ocorrer diretamente no coração.

Mas, qual a diferença entre o amor comum, presente nos seres humanos, em geral, e o amor que emana de Jesus? Mesmo um perigoso criminoso pode amar um filho ou uma esposa. Ou seja, mesmo sem conhecer Jesus, o homem pode viver fragmentos do amor, pois Deus criou o homem a sua “imagem e semelhança” (Gn.1.26). Todavia, por causa do pecado, esse amor sempre estará marcado por deficiências visíveis e invisíveis aos olhos, ou seja, por imperfeições que ora podem ser vistas pelos homens ora só podem ser sentidas pelo coração. O amor dos homens é egoísta, pois funciona como moeda de troca quer desejando elogios das pessoas e/ou seus benefícios quer esperando merecer algo do Criador, diante do qual pretende mostrar que é digno de alguma coisa.

O amor de Cristo, todavia, é perfeito e sempre glorifica a Deus. Seu amor é todo santo e virtuoso, plenamente em acordo com a Verdade. Por amor, Jesus esvaziou-se de si mesmo, entregando-se numa cruz sem esperar receber nada em troca. Seu amor trouxe benefícios eternos para os homens e glória eterna para o Pai. O amor de Jesus estava fundamentado na Verdade da qual nunca abriu mão para agradar homens nem muito menos para alcançar benefícios. Seu amor não lhe trouxe status, poder, honras, elogios ou riquezas, mas humilhação, sofrimento e morte.

Contudo, ser cristão não é suficiente para viver o abundante amor de Deus, pois mesmo o cristão ainda precisa buscar em Jesus o auxílio necessário para vencer a natureza pecaminosa que insiste em coabitar com a nova vida concedida pelo Espírito Santo. Somente, a volta de Jesus trará ao cristão a completa vitória sobre a natureza pecaminosa. Portanto, enquanto esperamos Cristo voltar, precisamos lutar contra o pecado. Por isso, Paulo conclama a igreja a buscar uma vida cheia do Espírito Santo, a fim de vencer toda má inclinação da carne (Gl.5.16,22-23). Isso significa que você precisará buscar ao Senhor por meio da meditação na Palavra de Deus e constante oração.

Mas, como perceber que ainda precisamos buscar auxílio no Senhor para amar como Ele nos amou? Você precisa conhecer a si mesmo. Para isso, precisará ser confrontado pela Escritura que revelará seus pecados mais profundos e íntimos, os pensamentos e sentimentos mais ocultos e pecaminosos. Talvez, você consiga fingir para as pessoas e para si mesmo, mas diante de Deus estamos despidos de qualquer máscara. O verdadeiro cristão deve buscar a verdade sobre si mesmo, a fim de que o Senhor trabalhe sua vida por meio da Palavra e do Espírito. Não deixe seu coração enganá-lo, conheça-o por meio da Verdade e você poderá dominá-lo através do poder do Espírito.

Alguns testes simples podem mostrar que você precisa da ajuda de Jesus para amar como Ele nos amou: Você sente ciúmes de seus amigos mesmo sabendo que estão felizes com novas amizades? Seu coração espera reconhecimento quando você faz algo bom para as pessoas? Você só dá aquilo que tem em abundância? Você trata bem as pessoas, mas não se importa com a Verdade? Você dá prioridade a si mesmo nas filas de banco, supermercados, almoços etc? Seu coração sente inveja do sucesso de outras pessoas? Você faz seu melhor querendo ser visto e elogiado? Você gosta de ter a primazia? Você sente o coração triste quando não o notam ou não o elogiam por algo que fez? Você trata bem todas as pessoas ou somente aquelas que você escolhe? Você nega a si mesmo para que outros sejam abençoados?

Não faça uma avaliação simplória de si mesmo. Seja sincero, a fim de reconhecer seus próprios pecados, pois somente aquele que conhece a si mesmo pode confessar suas faltas e, arrependido, buscar no Senhor perdão e capacidade para viver uma nova vida em pleno acordo com o amor e santidade do Senhor. Será necessário, então, lutar contra si mesmo por meio do poder de Deus que provém da Escritura Sagrada e do Espírito Santo. Por meio deles, você se tornará mais parecido com Cristo a cada dia, crescendo no amor de Deus, dando testemunho da beleza da nova vida que encontramos em Cristo Jesus.

Portanto, se esforce para viver o amor de Deus. Muitos se acomodaram a uma vida comum, de sorrisos aparentes, relacionamentos superficiais e trocas de favores como expressões de um amor qualquer. Não deixe que isso aconteça com você, também. A igreja deve manifestar o Reino de Deus, o ambiente da graça, onde as pessoas deverão encontrar a Verdade, a Justiça e o Amor. Nela, os pecadores que se achegam a Cristo poderão ser motivados a buscar uma vida cheia do amor de Deus e, no aconchego dos irmãos, um refúgio do mundo hostil, injusto, mentiroso e mau. Aqueles que andam com Cristo há mais tempo tornam-se exemplos a serem seguidos ajudando os recém-convertidos a amarem uns aos outros como Cristo nos amou. E, desta forma, o amor de Deus é posto em prática no dia a dia da igreja de Jesus.


Portanto, mesmo que o amor possa ser praticado, parcialmente, por qualquer pessoa, você não deve se acomodar a isto. Ao perceber que seu coração precisa do trabalhar gracioso do Senhor, comece a sondá-lo à luz da Escritura, orando em busca de uma vida cheia de amor. Por meio do agir do Espírito e da Palavra de Deus você poderá viver o amor de Deus, seguindo os passos de Cristo. Mas, lembre-se que esse amor não o levará a honras, status e benefícios. O amor de Deus se manifesta no deserto, nos vales “da sombra da morte”, na cruz. A única glória desse amor está em agradar a Deus, colocando sempre a vontade do Senhor acima de sua própria vontade. Pois o amor que vem de Deus também volta para Ele, pois o “amamos porque Ele nos amou primeiro” (1Jo.4.19).