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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Porque não sou dispensacionalista

Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe.2.9)

Não há melhor interpretação da Escritura do que aquela oferecida por ela mesma. Portanto, não há melhor forma de compreender as profecias dirigidas para Israel nas páginas do Antigo Testamento do que ouvindo a interpretação pela boca dos autores do Novo Testamento. Além disso, há grandes implicações decorrentes de nossa forma de ler a Escritura Sagrada, pois aqueles que contemplam a glória de Cristo no Antigo e Novo Testamento encontram, já no presente, todo conforto e esperança que alcançarão sua plenitude por ocasião da volta de Jesus. Mas, aqueles que leem a escritura pelo olhar de um judeu nacionalista, transferem a glória para a nação de Israel, deixando de apreciar a tipologia messiânica presente no Antigo Testamento, enquanto aguardam cumprimentos que apenas tangem a igreja de Jesus. Por essa razão, desejamos, também, demonstrar como o apóstolo Pedro, em sua primeira carta aos judeus da dispersão (1Pe.1.1), interpreta as profecias acerca de Israel através de Cristo. Consequentemente, mostraremos como a interpretação dispensacionalista possui profundos equívocos ao substituir Cristo por Israel como alvo de diversas profecias veterotestamentárias e, assim, apontar o problema de uma leitura histórico-gramatical realizada pelo olhar de um cristão, ainda, judaizado.

Gostaria de ir mais a fundo na problemática, afirmando que “é pecado não interpretar o Antigo Testamento à luz do Novo Testamento”, pois ao fazer isso o intérprete tanto despreza a revelação divina, concedida graciosamente para nosso pleno conhecimento sobre Deus e sua história redentora, quanto arroga para si a prerrogativa de ser autossuficiente, procurando respostas interpretativas sem o auxílio do Senhor. Tendo em vista nossa incapacidade de compreender a Escritura sozinhos, Jesus revelou o Novo Testamento à igreja (Hb.1.1-2), a fim de “dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl.2.27), sabendo que “não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Gl.3.28-29). Sem Cristo, não compreenderíamos que Oséias 11.1 era mais que uma referência à saída de Israel do Egito, pois tipologicamente apontava para a saída do Filho de Deus do meio daquela nação escravizadora (Mt.2.15). Todavia, os textos não eram simbólicos nem alegóricos, mas encontravam seu cumprimento por meio do papel da nação escolhida para dar à luz ao Filho de Deus, constituída em tipo messiânico do redentor.

Este esclarecimento primeiramente foi concedido aos discípulos, após a morte e ressureição de Jesus, a fim de que compreendessem que a esperança de Israel não havia falhado, como pensaram os discípulos de Emaús, pois a esperança de Israel encontrava-se na redenção consumada por meio da morte e ressurreição de Cristo: “Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam” (Lc.24.21). Por quarenta dias, Jesus lhes ensinou a interpretar o Antigo Testamento corretamente, lendo-o pelos olhos de sua chegada e obra (At.1.3) e esta correta interpretação pode ser encontrada nas pregações registradas em Atos dos apóstolos e em todas as cartas dirigidas para as igrejas. Portanto, após terem compreendido a correta interpretação e propósito do Antigo Testamento, os discípulos a transmitiram para a igreja, mostrando que Israel não era o alvo da Escritura, e, sim, o Filho de Deus, tipificado no povo escolhido, pois “as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao teu descendente, que é Cristo” (Gl.3.16).

Portanto, é necessário que outra vez, em nossos dias, tenhamos que dar a mesma resposta dada por Jesus aos discípulos da estrada de Emaús, explicando que toda a Escritura visa apontar para a vida, obra, morte, ressurreição e reinado de Cristo, e que os textos literais também alcançaram seu cumprimento por meio da chegada do salvador, como disse Jesus: “Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras.” (Lc.24.25-27).

Para demonstrarmos, então, que a leitura literalista judaizante desvirtua o propósito do texto veterotestamentário, analisaremos alguns termos e textos utilizados por Pedro em sua primeira, tendo em vista que o apóstolo escreve para cristãos-judeus que estavam dispersos pelo mundo e que, nesse uso, ele não aponta para qualquer futuro cumprimento profética direcionado à nação de Israel, pois, em Cristo, as profecias dirigidas a Israel já haviam encontrado seu cumprimento e os cristãos-judeus já estavam desfrutando dos benefícios da concretização das profecias escatológicas pronunciadas pelos profetas.


ALGUNS PROBLEMAS DO DISPENSACIONALISMO

Todavia, precisamos esclarecer alguns pontos importantes: Primeiramente, o problema do dispensacionalismo não é o reconhecimento de que a nação de Israel ainda tem papel na história redentora, pois esta verdade é ensinada pelo Novo Testamento (Mt.23.39; Rm.11), afinal a grande tribulação mencionada por Jesus (Mt.24.21) se cumpriu no período da queda de Jerusalém 70 d.C., quando os judeus foram espalhados pelo mundo, e teve seu fim na reorganização da nação em 1948. Todavia, conforme Jesus e, também, Paulo, a restauração de Israel não aponta para a reestruturação do judaísmo veterotestamentário, mas para o reconhecimento de que o cristianismo é o verdadeiro cumprimento da Palavra de Deus proferida pelos profetas, segundo aconteceu com os apóstolos (Mt.16.13-17; Rm.11.1,26), pois qualquer retorno de Israel ao culto e sacrifício judaico se constitui em completa negação da obra redentora de Cristo, como reconstrução daquilo que fora derribado (Gl.2.18), de forma que não podemos chamar de cumprimento profético restaurador a rebeldia dos judeus que negam o Messias prometido. Esse assunto foi amplamente trabalhado por Paulo em Gálatas e pelo autor de Hebreus que revelaram a forma como ler o Antigo Testamento por meio de Cristo.

Além disso, Jesus fez referência à queda do Templo de Jerusalém, mas não fez igual menção a sua restauração física (Mt.24.1-51). Também o apóstolo João esclarece o assunto ao revelar que a reconstrução do Templo ocorreria por meio da ressurreição de Cristo (Jo.2.18-22), em quem, diz Paulo, “habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Cl.2.9), chamado, também, de “Pedra angular”, pelo apóstolo Pedro (1Pe.2.5-10). Interessante observarmos as palavras de Jesus no texto de João, a fim de que apliquemos uma exegese histórico-gramatical:

18 Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas?
19 Jesus lhes respondeu: Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei.
20 Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás?
21 Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo.
22 Quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os mortos, lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto; e creram na Escritura e na palavra de Jesus. (Jo.2.18-22)

Os judeus estavam aborrecidos com Jesus por este ter expulsado os vendedores do Templo. Então, eles o questionam, tentando-o, pois queriam pegá-lo em alguma palavra para o acusarem. Diante da pergunta dos judeus, Jesus responde:


“Derribai este Templo e em três dias o levantarei” (Jo.2.19)

Não há qualquer dificuldade para se traduzir a resposta de Jesus, pois ela é simples, apesar de ter criado mais confusão do que esclarecimento para os judeus. Jesus diz: derribai este templo (verbo na segunda pessoa do imperativo aoristo), pedindo-lhes que colocassem o Templo abaixo. Com o pronome “este”, Ele dá a entender que se referia ao Templo de Israel que estava diante dos olhos de todos, pois eles estavam no Templo na ocasião do diálogo (Jo.2.14-16), afinal a palavra Templo não era usada para se referir ao corpo humano. Os judeus devem ter olhado para o imenso tamanho do Templo e considerado estranho o que Jesus pediu.

Todavia, o mais estranho vem em seguida, com a segunda metade da fala de Jesus: “em três dias o levantarei”. A estrutura da oração é bastante simples composta de uma locução adverbial de tempo: “em três dias”; um sujeito oculto identificado pelo verbo que está em primeira pessoa (eu); um verbo transitivo direto no futuro do indicativo; e, por fim, seu objeto, o pronome que aparece no final. O pronome ["auton"] concorda com o substantivo para o qual se refere ["naon"], sendo ambos masculinos e singulares. Portanto, não há dificuldade em se entender o que Jesus disse: “Derrubem este Templo e em três dias eu o levantarei”. Foi exatamente isso que os judeus entenderam e, por essa razão, ficaram atônitos com a resposta de Jesus, a ponto de o questionarem outra vez: “Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás?” (Jo.2.20).

O mais interessante de toda a análise exegética feita das palavras de Jesus é que ela não quer dizer o que estava dizendo, conforme o autor do evangelho revelará para nós em seguida: “Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo” (Jo.2.21). Ou seja, a análise literalista dos judeus não os conduziu ao correto entendimento do que Jesus queria dizer, sendo, portanto, inadequada para o sinal profético anunciado por Cristo. Nesse momento, então, devemos perguntar: Somente Jesus fez uso de profecias que aparentemente diziam uma coisa, mas que, na verdade, tinham um propósito profético tipológico? Será que devemos limitar o uso da tipologia a este texto? Os autores do Novo Testamento não fizeram uso da mesma leitura em diversas outras citações do Antigo Testamento?

É interessante se observar que os textos mencionados por John MacArthur para defender a reconstrução do templo (Ez.37.26-27; Jr.23.6; Am.9.14-15) são usados pelos apóstolos para se referir à igreja composta de gentios e judeus, chamada de santuário, templo do Espírito Santo, Israel de Deus (At.15.16-18; 2Co.6.16-18; Hb.9.11-12; Ef.2.11-22; Gl.6.16). Torna-se mais visível o problema na interpretação dispensacionalista ao colocarmos o texto em paralelo com a interpretação dos apóstolos:

Amós 9.11-15: “Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi, repararei as suas brechas; e, levantando-o das suas ruínas, restaurá-lo-ei como fora nos dias da antiguidade;  12 para que possuam o restante de Edom e todas as nações que são chamadas pelo meu nome, diz o SENHOR, que faz estas coisas13 Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que o que lavra segue logo ao que ceifa, e o que pisa as uvas, ao que lança a semente; os montes destilarão mosto, e todos os outeiros se derreterão”. 
Atos 15.13-18: “Depois que eles terminaram, falou Tiago, dizendo: Irmãos, atentai nas minhas palavras:  14 expôs Simão como Deus, primeiramente, visitou os gentios, a fim de constituir dentre eles um povo para o seu nome.  15 Conferem com isto as palavras dos profetas, como está escrito:  16 Cumpridas estas coisas, voltarei e reedificarei o tabernáculo caído de Davi; e, levantando-o de suas ruínas, restaurá-lo-ei.  17 Para que os demais homens busquem o Senhor, e também todos os gentios sobre os quais tem sido invocado o meu nome,  18 diz o Senhor, que faz estas coisas conhecidas desde séculos.
14 Mudarei a sorte do meu povo de Israel; reedificarão as cidades assoladas e nelas habitarão, plantarão vinhas e beberão o seu vinho, farão pomares e lhes comerão o fruto.  15 Plantá-los-ei na sua terra, e, dessa terra que lhes dei, já não serão arrancados, diz o SENHOR, teu Deus.


Conforme a leitura histórico-gramatical, um texto deve ser lido por inteiro dentro dos mesmos parâmetros hermenêuticos. Por que, então, o dispensacionalismo divide o texto de Amos 9.11-15 em duas porções, a fim de possibilitar duas regras hermenêuticas distintas? Os apóstolos aplicaram a primeira porção na igreja do Novo Testamento, entendendo que o tabernáculo caído de Davi não era um templo físico que seria erguido, mas uma referência à obra redentora de Cristo pela qual os gentios seriam atraídos para Israel. A leitura, portanto não é literalista, mas histórico-gramatical tipológica em que tanto Davi quanto o Tabernáculo cumprem papel tipológico messiânico, apontando para Cristo como herdeiro das promessas, pois Ele é o restaurador do Templo erguido em seu próprio corpo (Jo.2.18-22).

Jeremias 23.6: “Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa.”
Mateus 13.31-32:  “O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes, e, crescida, é maior do que as hortaliças, e se faz árvore, de modo que as aves do céu vêm habitar nos seus ramos”
Romanos 3.26: “tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus”
Romanos 10.13: “Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.”
2 Pedro 1.1: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo”
Hebreus 8.8: “E, de fato, repreendendo-os, diz: Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá

Conforme alguns exemplos dados acima, chamamos atenção para o fato de que o Novo Testamento faz uso de mesmos termos em contextos semânticos semelhantes, apontando para Cristo por meio do qual Israel e Judá receberam nova aliança, morada, justiça e salvação. Todos os termos apontam para o advento de Cristo e seu Reino, sem deixar qualquer indicação de profecia em aberto.

Ezequiel 37.26-28: “Farei com eles aliança de paz; será aliança perpétua. Estabelecê-los-ei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles, para sempre.  27 A minha morada estará com eles; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo28 As nações saberão que eu sou o SENHOR que santifico a Israel, quando o meu santuário estiver para sempre no meio deles.”
2 Corinthians 6.16-18 “Que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos? Porque nós somos santuário do Deus vivente, como ele próprio disse: Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo17 Por isso, retirai-vos do meio deles, separai-vos, diz o Senhor; não toqueis em coisas impuras; e eu vos receberei,  18 serei vosso Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso.” (cf. Lv.26.12; Is.52.11; Ez.37.27; 2Sm.7.14; Jr..31.31-34//Hb.8.7-13)

Paulo aplica à vida da igreja, diversos textos direcionados para Israel, incluindo Ezequiel 37.27, como se o propósito de Deus desde o início fosse que o povo de Israel se constituísse de judeus e gentios: “Se um estrangeiro habitar entre vós e também celebrar a Páscoa ao SENHOR, segundo o estatuto da Páscoa e segundo o seu rito, assim a celebrará; um só estatuto haverá para vós outros, tanto para o estrangeiro como para o natural da terra” (Nm.9.14). Então surge a necessidade de uma pergunta: Mas, se o novo testamento é o cumprimento de profecias sobre Israel, por que a nação negou a Cristo? A resposta é dupla e já fora dada por Paulo, pois a mesma dúvida surgiu naqueles dias:

Pergunto, pois: terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo? De modo nenhum! Porque eu também sou israelita da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim.  2 Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura refere a respeito de Elias, como insta perante Deus contra Israel, dizendo:  3 Senhor, mataram os teus profetas, arrasaram os teus altares, e só eu fiquei, e procuram tirar-me a vida.  4 Que lhe disse, porém, a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos diante de Baal.  5 Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. (Rm.11.1-5)
Pergunto, pois: porventura, tropeçaram para que caíssem? De modo nenhum! Mas, pela sua transgressão, veio a salvação aos gentios, para pô-los em ciúmes.  12 Ora, se a transgressão deles redundou em riqueza para o mundo, e o seu abatimento, em riqueza para os gentios, quanto mais a sua plenitude! (Rm.11.11-12)

Conforme Paulo, o endurecimento de Israel nem foi total nem foi sem propósito. Primeiramente, Paulo demonstra que Deus continua tendo judeus convertidos, cumprindo neles as promessas feitas acerca da nova aliança que seria estabelecida com seu povo, aliança esta que fora feita por meio de Cristo Jesus. Posteriormente, o apóstolo revela que o endurecimento parcial cumpre o propósito de que a Palavra do Senhor seja direcionada para as nações, até que chegue o tempo em que a dureza do coração da nação israelita seja encerrada e, então, todo o Israel será salvo (Rm.11.26), por meio da conversão a Cristo, único redentor. Portanto, Paulo esperava que algo se cumprisse com respeito a nação de Israel, mas esse cumprimento não era contrário à nova aliança feita por meio de Cristo. A esperança de Paulo com respeito a seu povo era a conversão da nação, sabendo que sua conversão marcaria o tempo da volta de Jesus: “Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor!” (Mt.23.39).

Em segundo lugar, o problema do dispensacionalismo é não perceber que desde o Antigo Testamento o verdadeiro Israel que haveria de ser salvo era composto de judeus e gentios que creram verdadeiramente no Senhor, razão para que a genealogia de Jesus tenha algumas mulheres gentias: Tamar, Raabe e Rute (Mt.1.3,5). Além delas, muitas outras pessoas fizeram parte de Israel por meio da fé, à semelhança dos gibeonitas (Js.9.1-27), confirmados pela guerra cósmica em que Deus lutou por eles através de Israel (Js.10.1-15). Desta forma, nem mesmo o Antigo Testamento limitava o povo de Israel àqueles que eram descendentes legítimos de Abraão e Sara, pois a promessa era destinada aos que cressem, “Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa” (Rm.9.8 // Gl.4.28). Portanto, o plano redentor de Deus sempre foi destinado a pessoas de todas as nações, a fim de, por meio delas, formar um povo seu, propriedade exclusiva (1Pe.2.9). E para alcançar o ápice do projeto redentor, o Senhor escolheu uma nação para dar à luz ao Messias, o Filho de Deus, por meio de quem tudo se cumpriria (Gl.4.1-7).

Esse propósito redentor cósmico, não apenas local, está presente em Gênesis 3.15, quando Deus prometeu o salvador para Adão e Eva; está persente na aliança feita com Noé e a criação, ao prometer que não exterminaria mais os seres vivos por meio de águas (Gn.9), a fim de que a criação pudesse ser redimida (Rm.8.21); e, também, está presente no chamado feito a Abrão, a fim de que nele fossem “benditas todas as famílias da terra” (Gn.12.3). E, ao contrário do que muitos pensam, a chegada da Lei mosaica não pôs fim ao gracioso projeto redentor, antes o confirmou santificando um povo para ser instrumento de salvação para os povos ao redor (livro de Jonas). Assim, o período pós-patriarcal deu sequencia ao projeto redentor, razão pela qual Deus acrescentou outra aliança por meio de Davi, renovando sua promessa de envio do Messias prometido para redenção do mundo (2Sm.7.1-17). Por isso, disse, também, o salmista:

1 Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o rosto; 
2 para que se conheça na terra o teu caminho e, em todas as nações, a tua salvação. 
3 Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. 
4 Alegrem-se e exultem as gentes, pois julgas os povos com equidade e guias na terra as nações. 
5 Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. 
6 A terra deu o seu fruto, e Deus, o nosso Deus, nos abençoa. 
7 Abençoe-nos Deus, e todos os confins da terra o temerão (Sl.67.1-7)

Em terceiro lugar, os diversos períodos da história humana, revelados pela Escritura, não representam formas diferentes de Deus salvar as pessoas, mas identificam níveis diferentes de conhecimento redentor, de forma que Deus aceitava a fé adequada aos limites desse conhecimento. Todos esses períodos foram regidos por alianças que alimentavam a esperança no coração daqueles que criam no Senhor e todas as alianças eram graciosas, pois foram estabelecidas por meio de promessas divinas:

1 – Aliança com Adão e Eva
No período entre a queda do homem e o dilúvio (Gn.3-8), os descendentes de Sete viveram pela esperança da chegada do filho prometido, o consolador (Gn.5.29)
2 – Aliança com Noé e a criação
O tempo entre Noé e Abrão é bastante obscuro (Gn.9-11) e parece ter sido alvo de ampla idolatria (Js.24.2). A esperança do envio do redentor parece ter desaparecido, mantendo-se apenas a luta pela vida (Gn.11.1-9), razão para Deus ir em direção a um homem e retirá-lo de entre os demais (Gn.12.1-7). Aqueles que andaram com Deus, pela fé, à semelhança de Noé foram salvos.
3 – Aliança com Abraão
Entre Abrão e Moisés (Gn.12 a Ex.2) a esperança da redenção foi restaurada e Deus justificou aqueles que crerem em suas promessas (Gn.15.6).
4 – Aliança com Israel (Davi)
O último período do Antigo Testamento se desenrola com a nação de Israel, entre os profetas Moisés e Malaquias (Ex.3 a Ml.4). Nesse período, o povo deveria crer na Palavra de Deus, aguardando que as promessas do Senhor se cumprissem por meio da nação escolhida para dar à luz ao Filho de Deus (Is.9; Is.11 etc). Aqueles que creram, viveram em acordo com a Escritura, pois aguardavam a salvação do Senhor (Mq.6.8).
5 – Aliança com Cristo
Chegado o Messias prometido, todas as pessoas são conclamadas a crer nEle, como cumprimento das promessas redentoras feitas pelos profetas (Jo.3.16). Uma nova aliança é feita em seu Nome dando início a ultima etapa da história redentora, o Novo Testamento (Mt.26.28). A revelação chega a sua etapa final e o Reino de Deus é chegado. Todos, então, devem crer e viver para Cristo, aguardando o fim de todos os tempos (Gl.2.20).

Em quarto lugar, a leitura histórico-gramatical não é sinônimo de literalização de tudo, mas significa ler a Escritura respeitando cada gênero literário e os limites que lhes são próprios, tudo à luz do Novo Testamento. Por exemplo: em João 7.38-39 Jesus diz: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado”. Jesus faz referência a descida do Espírito Santo como cumprimento de profecias do Antigo Testamento. Todavia, nenhuma leitura literalista possibilita tal compreensão a partir dos textos que fazem uso da expressão “águas vivas”: ["hydatos zontos"] (Gn.21.19; 26.19; Ct.4.15). Antes desse texto, Jesus faz semelhante alusão às águas vivas em sua conversa com a mulher samaritana: “Replicou-lhe Jesus: Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” (Jo.4.10). Não há como negar que a referência de ambos os textos é à descida do Espírito Santo sobre a igreja; e, neste último texto, ocorre uma correlação textual mais interessante com a expressão “águas vivas”, pois o profeta Zacarias profetizou esse dia: ["ydor zon"] (Nm.19.17; Zc.14.8). Seria o texto de João 4.10  e 7.38-39 o anúncio do significado de Zacarias 14.8? No mínimo, não se deve rejeitar as correlações, já que Jesus está cumprindo a Escritura como Ele mesmo disse em João 7.38.

Outro texto simples, mas útil como exemplo aqui é Isaías 40.1-6. Nele, Deus está consolando Israel por meio de uma promessa. Mas, esta promessa envolve figuras geológicas: “Todo vale será aterrado, e nivelados, todos os montes e outeiros; o que é tortuoso será retificado, e os lugares escabrosos, aplanados” (Is.40.3). Será que o profeta está dizendo que a terra de Israel se tornaria uma grande planície? Seria esse o papel do grande profeta? Sabemos que não, pois o cumprimento do texto se deu com a chegada de João Batista, a “voz do que clama no deserto”: ["fone boontos en te eremo"] (Is.40.3//Mt.3.3; Mc.1.3; Lc.3.4; Jo.1.23). Portanto, o verdadeiro sentido da figura geológica deve ser dado a partir da leitura do que ocorreu nos dias de João Batista (aplainamento dos corações para a passagem do Messias) por meio de seu ministério anterior ao de Cristo. Semelhantes a estes exemplos, encontraremos centenas de textos proféticos que devem ser lidos com cuidado, não literalizando tudo, pois caso não tenhamos a devida atenção, seremos inclinados a considerar que João Batista tinha a missão de tornar a terra de Israel numa planície.


ALGUNS TERMOS E TEXTOS UTILIZADOS NA PRIMEIRA CARTA DE PEDRO

Como já dissemos, a primeira carta de Pedro possui características importantes para nosso estudo:

1) seu autor foi um judeu que andou com Jesus;
2) há grande probabilidade que os destinatários tenham sido judeus dispersos pelo mundo (Tg.1.1), pois Pedro faz distinção entre seu público e os gentios (1Pe.2.12; 4.3//At.21.21), identifica as mulheres como filhas de Sara (1Pe.3.6), chama seus leitores de ovelhas que estavam desgarradas (provável citação das palavras de Jesus - Mt.9.36//1Pe.2.25), chama seus leitores de “irmandade” (termo que aparece apenas na carta de Pedro e nos apócrifos de 1 e 4 Macabeus - ["adelfotes"]), e usa uma linguagem bastante peculiar aos judeus, fazendo referência a ritos, objetos, mandamentos e lugares próprios de Israel;
3) o apóstolo escreve sobre a esperança cristã para aqueles cristãos-judeus, aplicando textos veterotestamentários à chegada do Reino de Deus;
4) e, há diversas citações do Antigo Testamento que nos possibilitam ver qual o olhar hermenêutico desse apóstolo para o texto Sagrado.

Alguns desses elementos característicos da carta são apresentados, parcialmente, nos primeiros versículos. Não ignoramos o fato de que Pedro não se identifica como judeu, mas encontramos essa informação nos evangelho e em Gálatas 2.14. Também, seus leitores não são identificados pelo termo “judeus”, mas alguns indicativos mencionados anteriormente nos levam a crer que Pedro está se dirigindo para judeus da dispersão, assim como escreveu Tiago (Tg.1.1). Considerando que sejam esses os leitores primários, observaremos a hermenêutica desse importante apóstolo que aprendera a ler o Antigo Testamento a partir da obra redentora de Cristo, relacionando as profecias com o advento do Messias e seu Reino.

Já na introdução surge um termo próprio do Antigo Testamento, relacionado a um rito judaico. Os cristãos-judeus haviam sido destinados à “aspersão” ["rantismos"] “do sangue de Jesus Cristo”. O termo foi usado pela Septuaginta para se referir ao rito de jogar água na cabeça daquele que estava impuro, a fim de que fosse considerado puro (Nm.19.9,13,20,21). Em 1 Pedro e Hebreus, no entanto, a palavra “aspersão” é usada para se referir à justificação dispensada àqueles que creem em Cristo como se o sangue de Jesus tivesse sido, literalmente, derramado sobre a cabeça do cristão (1Pe.1.2; Hb.12.24). Portanto, todos os que criam em Jesus, e nEle perseveravam, estavam completamente e permanentemente limpos de toda impureza por meio do sangue que foi derramado na cruz. Não havia, então, a necessidade de qualquer rito judaico para complementar a obra redentora de Cristo.

Um pouco mais adiante, em 1 Pedro 1.4, o apóstolo faz referência à “herança” ["kleronomia"] guardada nos céus para seus leitores. O termo é bastante comum ao Antigo Testamento tendo em vista a promessa da conquista da terra de Canaã (Js.1.15). Conforme, o apóstolo, no entanto, a esperança dos cristãos-judeus encontrava-se numa herança superior e eterna (Hb.9.15) prometida por Cristo e alcançada por meio da fé no Salvador. Desta forma, a terra prometida do Antigo Testamento serviu de tipo da herança celestial conquistada por Cristo Jesus (Ef.1.3; 1Pe.1.3-4), afinal resta-nos, ainda, um descanso (Hb.4.8-11). Alimentar uma esperança terrena inferior (a restauração do judaísmo, por exemplo) à glória de Cristo, concedida à igreja (judeus e gentios) por meio do Espírito Santo, é o mesmo que considerar a obra redentora insuficiente para dar plena satisfação àquele que crê; e, ainda, trocar algo sublime por expectativas passageiras, corruptíveis e terrenas.

Observe-se que toda a esperança anunciada por Pedro, para os cristãos-judeus, aponta para a salvação eterna, não somente na introdução, mas, também, em toda a carta, pois ainda que o apóstolo esteja falando para judeus convertidos, nenhuma menção é feita sobre um reinado ou restauração física de Israel. O olhar de Pedro está fito na eternidade e os cristãos-judeus deveriam, também, aguardar a salvação a ser revelada no “último tempo”. Portanto, os cristãos-judeus não precisavam voltar para Jerusalém, pois a esperança deles encontrava-se tão somente em Cristo. Afinal, a fé deles em Cristo era “muito mais preciosa do que o ouro perecível” (1Pe.1.7), ou seja, aquilo que Jesus alcançou para os cristãos-judeus era superior a qualquer benefício que Israel poderia alcançar fisicamente na presente era em que o pecado ainda encontra-se entre os homens. Por isso, Pedro não alimenta qualquer esperança física e temporária citando textos como Amós 9.14-15, já que a esperança que lhes foi legada era muito superior a isto.

Mas, de onde procedia a promessa redentora dos judeus? Pedro diz que os profetas haviam profetizado sobre a graça que os cristãos-judeus estavam vivenciando. De acordo com o apóstolo, as profecias veterotestamentárias alcançaram seu cumprimento naquela geração dos dias de Pedro, pois aos profetas “foi revelado que, não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas que, agora, vos foram anunciadas” (1Pe.1.12). Portanto, a esperança de Israel havia alcançado seu cumprimento por meio da redenção operada por Cristo: não mais do Egito, mas do pecado; não mais de povos inimigos, mas do procedimento pecaminoso herdado pelos pais que transgrediram a lei do Senhor em todas as gerações de Israel (1Pe.1.18).

Israel nunca conseguiu cumprir a lei do Senhor, conforme determinado desde o princípio (Ex.20.1-17), porque, apesar de ser o povo de Deus, o coração estava endurecido, incapaz de viver a santidade do Senhor (Dt.31.27). O profeta Ezequiel, então, profetizou o dia em que Israel seria, finalmente, capaz de viver uma vida santa à semelhança da santidade de Deus (1Pe.1.16) quando o Espírito do Senhor lhes fosse dado: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez.36.26-27). Esse dia chegou por meio de Cristo, razão para o apóstolo Pedro relembrar o mandamento do Senhor: “sede santos, porque Eu Sou Santo” (1Pe.1.16). Adiante, Pedro aplica o texto de Isaías 8.13 à relação dos cristãos com Jesus dizendo: “santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração” (1Pe.3.15).

Essa nova vida guiada pelo Espírito do Senhor deveria ser vivida “durante o tempo de vossa peregrinação” (1Pe.1.17). Aqueles cristãos-judeus estavam dispersos pelo mundo e ansiavam pelo “dia da visitação” (1Pe.2.12) do Senhor, quando finalmente eles receberiam “a imarcescível coroa da glória” (1Pe.5.4). Esta visitação não pode ser uma referência à queda de Jerusalém, pois os destinatários estavam espalhados por outras nações, não residiam na Judeia (1Pe.1.1). Também, no pode ser uma referência a qualquer restauração da nação de Israel, pois a esperança anunciada por Pedro é “mais preciosa do que o ouro perecível” (1Pe.1.7). A questão é: Que dia é esse, já que a Cristo “pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos” (1Pe.4.11)? Observe-se que Pedro não oferece duas esperanças nem duas visitações, mas uma só apontada do início ao final da carta, a fim de que os cristãos-judeus não desistissem de perseverar, mesmo diante das muitas lutas que enfrentavam (1Pe.1.6).

Mesmo estando dispersos, o apóstolo não os conforta com promessas de um Israel físico glorioso, mas, sim, de uma vida eterna gloriosa, “reservada nos céus” (1Pe.1.4). Há apenas uma esperança lembrada por Pedro, assim como, também, há apenas um inimigo, “o diabo, vosso adversário” (1Pe.5.8). O apóstolo ordena que os cristãos-judeus procedam com piedade e santidade, sendo exemplo em todo comportamento diante dos gentios (1Pe.2.12), “não pagando mal por mal ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo” (1Pe.3.9), “dando razão da esperança que há em vós” (1Pe.3.15), durante o “tempo que vos resta na carne” (1Pe.4.2), sabendo que Cristo já reina “à destra de Deus, ficando-lhe subordinados anjos, e potestades, e poderes” (1Pe.3.22).

Em 1 Pedro 2, o apóstolo traz à luz a imagem veterotestamentária de Israel e seu Templo, nos dias de glória da nação, quando Deus era adorado por meio dos contínuos sacrifícios. No entanto, Pedro substitui o Templo físico pela nova morada erguida por Deus, através da obra de Cristo operada naqueles que criam. Nesse momento, é importante que lembremos texto de Ezequiel 37.26-27, a fim de mostrar que os autores do Novo Testamento haviam compreendido seu cumprimento por meio da obra redentora de Jesus:

Farei com eles aliança de paz; será aliança perpétua. Estabelecê-los-ei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles, para sempre. A minha morada estará com eles; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. As nações saberão que eu sou o SENHOR que santifico a Israel, quando o meu santuário estiver para sempre no meio deles.”

Todos os elementos mencionados pelo profeta Ezequiel são encontrados no Novo Testamento em clara alusão à obra redentora de Jesus (Cl.1.20; Hb.12.24; Ef.2.21-22; Jo.14.23; 17.17; Rm.15.16; Hb.10.10; 1Pe.3.15). A nova aliança feita por meio do “precioso sangue” (1Pe.1.19) de Cristo trouxe “graça e paz” para seu povo (1Pe.1.2; 5.14), pois o santuário (Ef.5.27) do Senhor foi erguido no meio dele, sendo Cristo a pedra angular:

Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. (1Pe.2.4-5)

Pedro cria a imagem de um Templo formado de Pedras vivas, os cristãos. A expressão “casa de oração” nos remete à expressão “casa de oração”, usada pelo profeta Isaías (Is.56.7) e por Jesus (Mt.21.13), referência ao Templo de Israel. Portanto, segundo Pedro, os cristãos formam um Templo no qual Deus manifesta sua presença e glória, recebendo “sacrifícios espirituais” por meio de Jesus Cristo. Desta forma, Deus habita no meio de seu povo (não “em templos feitos por mãos de homens” - At.17.24), conforme Jesus já havia prometido aos discípulos que o faria: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo.14.23).

Por meio de Jesus, então, Deus cumpriu sua promessa de erguer no meio de seu povo seu santuário para habitar para sempre nele. Desde então, o Espírito do Senhor habita na igreja formada tanto de judeus quanto de gentios e estará para sempre com ela. Portanto, por qual razão Deus negaria sua obra redentora, retrocedendo para que Israel tivesse um templo feito por mãos de homens no meio da nação? Jesus havia dito que aquele templo seria destruído (Mt.24.2) sem qualquer promessa de reconstrução, pois o verdadeiro Templo de Deus é o corpo de Cristo (Jo.2.21), por meio do qual todo o que crê o adora em “ESPÍRITO e em VERDADE” (Jo.4.23-24). Por qual razão o Senhor se agradaria em ver Israel negá-lo, praticando ritos inúteis, já que “é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados” (Hb.10.4)? O novo Templo de Deus havia sido erguido e era composto de pedras que vivem, não pedras sem vida (1Pe.2.5).

A explicação de Pedro sobre a igreja ser “casa espiritual” foi bem entendida pelos cristãos-judeus, acostumados a adorar a Deus no Templo de Jerusalém. Agora, porém, eles adorariam ao Senhor em qualquer lugar por meio de Cristo, oferecendo “sacrifícios espirituais agradáveis a Deus” (1Pe.2.5), portanto eles eram “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (1Pe.2.9). O apóstolo, então, aplica o texto de Êxodo 19.5-6, Deuteronômio 7.6 e 14.2 aos cristãos-judeus. Ou seja, eles que criam em Cristo eram o verdadeiro Israel de Deus, não aqueles que negavam Jesus (1Pe.2.6-8). Mas, alguém poderia pensar que Pedro estava apenas repetindo a Palavra do Senhor, destinada a Israel, afinal aqueles cristãos eram judeus. Por isso, Pedro continua dizendo: “vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia” (1Pe.2.10). Ou seja, sem Cristo os judeus não poderiam ser considerados legítimo povo de Deus (Mt.23.15; Jo.8.44), pois a eterna salvação do Senhor, prometida pelos profetas, está destinada apenas aos que creem no Filho de Deus.

Toda esperança e glória dos cristãos-judeus, para os quais Pedro escreve, apontam para a salvação eterna. Ainda que eles estivessem passando por provações promovidas pelos gentios que criavam problemas pessoais e políticos, não deveriam lutar com armas humanas, mas guerrear contra as próprias paixões (1Pe.2.11). Por essa razão, o apóstolo os exorta a se comportarem com piedade em todo tempo, tanto diante de todos os homens comuns quanto diante das autoridades (1Pe.2.13-14). Esse procedimento deveria ser coerente com a esperança que tinham em Cristo, pois aguardavam a recompensa de Deus à semelhança de Cristo que sofreu por nós, mas depois foi glorificado (1Pe.3.13-22). Essa era a verdadeira esperança de Israel, a mesma que deveria ser aguardada ainda hoje.

Jerusalém, então, não é o foco do Novo Testamento no qual o nome da cidade só aparece 14 vezes, considerando as cartas paulinas, cartas gerais e Apocalipse. O apóstolo Pedro não faz menção desta cidade nenhuma vez (ainda que faça menção da Babilônia) nem do Templo físico de Jerusalém nem de qualquer esperança de reinado terreno com Jesus, todavia anima os cristãos-judeus lhes falando sobre o cumprimento da obra redentora que os havia alcançado, “porque estáveis desgarrados como ovelhas, agora, porém, vos convertestes ao Pastor e Bispo da vossa alma” (1Pe.2.25).


Portanto, falando de judeu para judeus, Pedro aplica os textos do Antigo Testamento à vida com Cristo sem qualquer alusão a esperanças físicas e terrenas, passageiras e políticas para o povo de Israel. Deveríamos, em nossos dias, proceder de igual forma, anunciando a Cristo como única esperança para Israel e todas as demais nações. Conforme Pedro a única glória a ser aguardada pelos judeus é a vida eterna em Cristo; e, segundo Jesus e Paulo, o povo de Israel ainda reconhecerá que o Messias já veio, para quem toda a Escritura Sagrada do Antigo Testamento aponta, tendo cumprido os ritos judaicos, confirmado os mandamentos da lei e concretizado as promessas proferidas pelos profetas. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O cliente tem sempre razão?

Mas a quem hei de comparar esta geração? É semelhante a meninos que, sentados nas praças, gritam aos companheiros: Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não pranteastes.” (Mt.11.16-17)

– O cliente tem sempre razão! Dizem os “especialistas” em relações de negócios.

Essa frase tornou-se estigma do universo comercial das grandes cidades e alcançou as mais diversas esferas da sociedade. O cliente tornou-se poderoso e inquestionável, alvo dos mais variados mimos, pois sua satisfação representa a garantia de investimento para os estabelecimentos. Cada novo dia, então, dá início à “corrida do ouro” em busca da satisfação da clientela cada vez mais exigente, já que o menor desagrado dos investidores em potencial pode levar um império econômico à ruína, pois, como bárbaros, eles não perdoam ninguém. Mas, será que o cliente tem sempre razão? Seria, realmente, bom que as pessoas fossem sempre agradadas? Além disso, quais as implicações de dar sempre razão para os pecadores?

O problema começa na falta de conhecimento sobre a natureza humana. A antropologia ensinada nas universidades é bastante deficiente e utópica, pois não é capaz de retratar a realidade do ser humano, tendo em vista sua cosmovisão naturalista. Sem o reconhecimento da natureza caída de todo pecador, o homem é tratado como um ser neutro, sem inclinação para nada: nem bem nem mal. Por causa desta visão equivocada, a sociedade avança a tecnologia e amplie seu universo acadêmico, porém caminha para o abismo social com a mesma velocidade. A verdade é que não há ser humano que não peque; não há criança inocente; não há coração que não esteja propenso para o mal. Todos pecaram e precisam ser tratados como pecadores (Rm.3.10-18) que, em boa parte da vida, precisarão ser confrontados, pois cometerão muitos erros no pensar, falar e fazer.

Portanto, como poderíamos dar razão para aqueles que vivem cometendo erros? Como poderíamos dizer que o errado está certo e que o certo está errado (Is.5.20)? Tal atitude, no mínimo, deveria ser considerada incoerente e insensata, pois, ao desconstruir os valores, o homem destrói a si mesmo, rejeitando tanto o Criador quanto os limites estabelecidos por Deus para a boa manutenção da vida social. Sendo assim, cada palavra e atitude dos homens precisam ser medidas e julgadas à luz da Verdade, a fim de que recebam aquilo que é justo: louvor pelo que é bom e reprovação por todos os erros cometidos (Ef.6.8; Cl.3.25). Mas, ao colocar o homem no centro do universo, tornando-o a medida de todas as coisas, os valores receberam status secundário e a satisfação do ser humano alcançou primazia, criando uma geração ensimesmada e autodestrutiva.

A cultura pagã do “cliente tem sempre razão” alcançou diversas esferas da sociedade, indo muito além das relações comerciais. Podemos encontra-la na relação pais-filhos; na relação cristão-igreja; na relação mestre-aprendiz; e, na relação povo-governo. Em todas essas relações se repete o mesmo problema: a ideia de que o líder tem obrigação de fazer, sempre, a vontade do liderado. Portanto, a visão de mundo em que as pessoas devem sempre ser agradadas, independentemente de terem ou não razão, vai muito além do propósito de alcançar clientes para o estabelecimento e tem suscitado sérios problemas para as famílias, a igreja, as escolas e a política, em geral. Criou-se uma geração cheia de razão e mimada, pois é incapaz de ser contrariada, corrigida e liderada, já que satanás conseguiu inculcar-lhe a ideia da autossuficiência (não precisar de ninguém), dizendo-lhe, constantemente, que essa geração tem sempre razão. Dentro dessa cultura pagã, as pessoas estão sempre insatisfeitas, murmurando contra tudo e todos, ofendendo do menor ao maior líder que as contrariar.

Recentemente, uma discussão entre uma mãe e uma universitária, por meio de rede social, tornou-se notícia em jornais, de tão absurdo que foi o assunto (g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/boneco-gera-crise-entre-mulheres-e-historia-viraliza-te-jogo-pela-janela.ghtml). O menino havia chegado a casa chorando por não ter brincado com um boneco caríssimo da coleção da universitária. A criança foi contrariada e ficou insatisfeita, razão para ter feito sua queixa à mãe que logo exigiu “os direitos” de seu filho, querendo obrigar a universitária a permitir que o filho brinque com o tal boneco. Pais adoecidos pela psicologia da cultura do trauma são incapazes de educar seus filhos, pois não conseguem confrontá-los nem contrariá-los, produzindo uma geração demasiadamente mimada. Quantas vezes pais compram coisas para seus filhos pelo simples fato deles terem pegado na loja e não quererem mais soltar? Os pais tem medo de se opor aos filhos, alimentando no coração dos pequeninos pecadores a ideia de que eles têm sempre razão e as pessoas devem fazer tudo da forma como eles querem. São essas mesmas crianças mimadas que se tornam adultos igualmente mimados que querem ser satisfeitos em tudo, obrigando as pessoas a fazerem tudo conforme a vontade deles.

Decorrente da má educação que receberam, as pessoas estão levando a cultura pagã do “cliente tem sempre razão” para a esfera eclesiástica. Os “cristãos” gostam do pastor e da igreja até o dia em que são contrariados (quando querem algo, mas não são atendidos) ou confrontados (por causa de seus pecados). A igreja, então, tornou-se um supermercado obrigado a fazer constantes promoções (eventos) para atrair clientes, pronto para satisfazer aos desejos da clientela e se adequar ao sinal da menor insatisfação de seus clientes exigentes. Infelizmente, muitos pastores estão aceitando essa cultura pagã com medo que o rol de membros da igreja diminua, contribuindo, assim, para o crescimento dessa cultura maligna, esquecendo-se (ou ignorando) que uma pessoa não convertida a Cristo no meio da igreja visível não está menos sujeita ao inferno do que se estivesse fora dela.

Para constatar o problema, basta verificar o número de pessoas que entram e saem das igrejas. A rotatividade cresceu bastante, pois as pessoas querem um lugar onde se sintam bem e sejam bem tratadas e, de preferência, não sejam incomodadas nem contrariadas. Portanto, os cristãos não querem ser pastoreados, mas sentem a necessidade de um “clube cristão” para preencherem o tempo vazio da semana. Tem crescido, também, o número de pessoas desigrejadas que não querem ter qualquer compromisso com uma igreja local. Assim, elas podem ir e vir sem que se sintam obrigadas a cumprir responsabilidades como: dizimar, ser assíduo nos cultos, obedecer a uma liderança, assumir funções dentro da igreja e ser corrigido quando cometer alguma falta. A relação cristão-igreja tornou-se superficial e contraditória, pois as mesmas pessoas que desejam os benefícios, como cantar (pois gostam) junto com o grupo de cânticos, não aceitam o benefício da disciplina, e quando cometem algum pecado que exige correção, saem da igreja, pois não querem ser exigidas nem corrigidas.

Achar que tem sempre razão trouxe diversas implicações negativas para os indivíduos e a sociedade. Pessoas que não sabem ser contrariadas são imaturas, pois não sabem lidar com as adversidades e, também, orgulhosas, pois se consideram superiores às demais, tornando a convivência difícil, já que esperam sempre ser agradadas e servidas pelos outros. O aprendizado, então, torna-se mais difícil, pois as pessoas não estão prontas para reconhecer que não sabem ou assumir que estão erradas. Além disso, a “geração cliente” vive em desarmonia social, pois a criança não respeita os mais velhos nem as autoridades; o povo não se submete às lideranças, desejando que estas façam sempre sua vontade; as mulheres não são submissas aos maridos, criando constante atrito dentro dos lares, aumentando bastante o número de divórcios; os professores não conseguem ensinar nas escolas, principalmente, públicas, pois nem o governo permite a reprovação nem o conselho tutelar deixa que o aluno seja castigado nem os pais autorizam que seus filhos sejam contrariados. A sociedade, então, está em “pé de guerra”, vivendo em constante tensão, pois todos querem ser satisfeitos e ninguém está pronto para ser confrontado.

Portanto, precisamos dizer que você muitas vezes não tem razão e precisa ser confrontado diversas vezes em sua vida. Você não pode cultivar o desejo de ser sempre agradado, pois somos todos pecadores e necessitamos que Deus nos confronte muitas vezes, corrigindo-nos quando errarmos. Porém, se você não for capaz de ser corrigido por Deus (Hb.12.4-13), transformado pela Escritura (2Tm.3.16-17) e santificado pelo Espírito do Senhor (Hb.12.14), então não será digno de entrar no Reino de Deus (1Jo.1.5-10), pois o Senhor exige tais coisas dos que se aproximam DELE. Lembre-se que você precisa de Jesus, mas Jesus não precisa de você e, por isso, é você quem deve chorar e implorar por misericórdia a Deus, sabendo que sem a graça do Senhor seu destino será horrendo, terrível: o inferno (Mc.9.43-48; Tg.4.8-10). Assim, quando alguém chamar sua atenção por causa de seus pecados, você deverá baixar a cabeça, envergonhado, e pedir perdão a Cristo por ter agido de forma vergonhosa diante de Deus e, então, dispor de um coração pronto para ser corrigido e aperfeiçoado.

Precisamos dizer para você que somente Jesus é a medida de todas as coisas para quem tudo foi criado; e que unicamente Cristo é o centro do universo para quem todos devem viver (Rm.11.33-36; Cl.1.13-23). Sendo assim, ninguém tem obrigação de viver em função de você quer seja criança, adolescente, jovem ou adulto. Se algo não estiver como você gosta, sua obrigação é contentar-se e aprender a lidar com a situação adversa. Se não fizerem o que você queria, seu dever é agradecer a Deus pelo que tem e glorificar a Jesus pelo fato de que tudo foi criado por Ele e para Ele. É seu dever aprender a lidar com a contrariedade e insatisfação, e buscar viver sempre contente e agradecido a Deus em toda e qualquer situação (Fp.4.11). Portanto, é você quem deve se esforçar para que sua vida gire em função de Cristo todo dia, o dia todo, em vez de querer que as pessoas façam a sua vontade. Você deve se esforçar para que suas palavras louvem Cristo; suas ações deem testemunho do operar santificador da Escritura e Espírito do Senhor em sua vida; e, seu coração tenha plena satisfação no Filho de Deus, de tal forma que a graça do Senhor lhe baste e lhe seja melhor que a vida (2Co.12.9; Sl.63.3).

Então, agradeça a Deus as muitas vezes em que você é contrariado e corrigido, pois por essas coisas Deus manifesta graciosa oportunidade para você se arrepender, mudar e crescer, a fim de que reconheça seus pecados, aceite que não é o centro do mundo e aprenda a viver uma vida para o inteiro agrado do Senhor. As adversidades apontarão, também, suas falhas e fraquezas, exigindo-lhe paciência, contentamento e humildade, pois terá que aceitar, tantas vezes, aquilo que não gostaria e fazer o que não queria, mantendo a compostura de um cristão que ama e teme ao Senhor. Somente desta forma, poderemos ter uma geração madura, pronta para as lutas do dia a dia. E, enquanto isso, a Verdade será juíza sobre todas as coisas para que só tenha razão aquele que realmente tem razão.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Cristo, Salmos e Você - SALMO 10

O SENHOR é rei eterno: da sua terra somem-se as nações. Tens ouvido, SENHOR, o desejo dos humildes; tu lhes fortalecerás o coração e lhes acudirás, para fazeres justiça ao órfão e ao oprimido, a fim de que o homem, que é da terra, já não infunda terror.” (Sl.10.16-18)

Há dias em que temos a sensação de que tudo está perdido, não há mais solução. Você olha para um lado e vê a política nacional submersa em corrupção; olha para o outro e se depara com a cultura da ignorância, tão imoral e vazia. Então, tenta desviar o olhar de ambas e se depara com a ciência caminhando qual cego diante de uma linda paisagem, pois “o perverso, na sua soberba, não investiga; que não há Deus são todas as suas cogitações” (Sl.10.4).

Contudo, não é o fim para quem conhece a Cristo. Mesmo diante de períodos tão caóticos, o cristão deve ter esperança como o autor do Salmo 10. Tudo estava muito ruim e a maior parte do Salmo é dedicada a descrever os problemas daqueles dias. Durante a leitura do Salmo, temos a impressão que o autor está sem esperança e que o mal havia dominado sobre tudo, sem haver mais quem pudesse livrar os justos das mãos dos ímpios. Todavia, mesmo diante de tamanho problema, o Salmista clama a Deus por auxílio e justiça, então seu coração encontra, nEle, consolo, relembrando o Reinado sempre eterno do Senhor dos senhores e Rei dos reis.

Cristo também sofreu a sua geração. Por onde Ele andou encontrou incredulidade, dureza de coração e maldade. Por ser justo, muitos o perseguiram até a morte; por amar a Deus, pessoas o humilharam e maltrataram; por ser o Filho de Deus, sua geração o desprezou e não fez caso de seu ensino. Então, “Jesus exclamou: Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei?” (Mt.17.17). A perplexidade do salmista diante da perversidade de sua geração assemelha-se ao espanto de Jesus por causa da dureza de coração encontrada em seus dias.

Todavia, Jesus não apenas veio contemplar a maldade do homem, mas trazer a justificação de Deus para seu povo. Ele é o “Rei eterno” (Sl.10.16), que socorre os humildes (Mt.11.28) e fortalece o coração dos que esperam em Deus (Jo.14-17). Ele é a justiça de seu povo (Rm.5.1) e o vingador que há de julgar o mundo com retidão e defender os mansos (Ap.12.5; 19.15). Ele, portanto, é a viva esperança que o salmista aguardava ver; a resposta a todas as orações dos aflitos vilipendiados pelos ímpios; a perfeita intervenção divina em favor de seu povo que dia a noite clama por socorro diante de um mundo que jaz no maligno (Ap.6.9-11).

Portanto, devemos lembrar, no dia a dia, que antes de Jesus ser nosso amado amigo e Senhor, Ele foi, e sempre será, nosso auxílio, socorro e libertador (Rm.5.8; Cl.1.13; Hb.4.16). Assim como o salmista, também temos a impressão que o mundo está tomado pela maldade de tal forma que não parece mais haver solução. Mas, se por um momento olharmos para o Senhor da glória, o Deus da criação, o redentor do pecador, então contemplaremos seus atos redentores operados no decurso dos séculos, a fim de conduzir o homem ao único e perfeito salvador, o restaurador de toda a criação: Jesus (Rm.8).


Foi exatamente isso que Jesus fez, já próximo de sua crucificação (Mt.26.39). Ele contemplou a glória do Pai e descansou diante de sua perfeita vontade, certo de que assim como Ele havia glorificado a Deus por meio de suas obras, também o Pai o glorificaria por meio da vitória na cruz (Jo.17). De forma semelhante, tenha seus olhos sempre fitos em Cristo, a fim de que, nEle, seu coração encontre esperança e forças para continuar a jornada proposta por Deus, pois, mesmo que pareça demorado (Lc.18.7), Ele jamais nos deixará, e “vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, consoante a sua fidelidade” (Sl.96.13).

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Ameaça sutil

Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem.” (Rm.1.32)

A sutileza vil é mais perigosa do que qualquer ataque explícito à fé, pois enquanto este nos desperta a reação defensiva imediata aquela nos domina lentamente, sem percebermos, até que seu veneno letal tenha consumido cada parte de nosso ser. E isso vem acontecendo desde que a mídia ganhou a atenção das famílias, tornando-se a maior responsável pelo entretenimento da sociedade, principalmente no mundo ocidental.

Você já percebeu que o cristão tornou-se insensível a muitos pecados que são abominados pelo Senhor (1Co.5.11; Ef.5.5-6; Ap.21.8) e que no passado foram repudiados pelos cristãos? Um claro e constatável exemplo disso é a origem do biquíni que chocou até mesmo as modelos da época. Todavia, após uma longa insistência persuasiva do mundo pagão, tornou-se algo tão natural que nem mesmo o “fio dental” escandaliza mais os cristãos. É provável que você, que está lendo, também esteja passando por esse problema. Por isso, faremos dez perguntas e depois mostraremos os problemas por trás de tais questões:

– Você assiste filmes em que há beijos na boca?
– Você assiste filmes em que há cenas picantes, sensualidade e coisas semelhantes?
– Você assiste filmes em que há traição ou divórcio e não se escandaliza?
– Você não vê problema no modismo sensual (roupas etc) propagado pela mídia?
– Você aprecia obras que envolvam algum tipo de sensualidade ou nudez?
– Você ri de piadas indecentes, imorais ou que envolvem o NOME de Deus?
– Você aprecia obras “de arte” relacionadas a temas pagãos idólatras, como templos pagãos?
– Você se diverte com filmes que abordam temas que confrontam a Verdade?
– Você curte filmes que fazem apologias a uma visão distorcida de Deus?
– Você patrocina o entretenimento pecaminoso, participando das coisas que o mundo oferece, se divertindo à custa das blasfêmias do mundo contra Deus?

Talvez parece exagerado para você. Por isso, gostaria, agora, de criar uma situação imaginária para ajuda-lo a entender o problema. Se alguém fizesse uma pintura ou escultura de sua mãe, esposa ou filha nua, qual seria sua reação? Imagine, ainda, que alguém falasse mentiras maldosas sobre as pessoas que você ama. Como você trataria o assunto? Como você reagiria diante das pessoas que estivessem se divertindo à custa de imagens imorais contendo as pessoas que você ama ou passando adiante as informações maledicentes sobre você, ou outra pessoa querida? Você deixaria sua esposa (ou esposo) beijar vários homens (ou mulheres)? Essas e outras perguntas mais pretendem despertar você para o absurdo de tais pecados; os mesmos que estão sendo cometidos em muitos filmes que você assistiu, mas não se apercebeu.

Qualquer cristão ficaria revoltado se fizessem coisas imorais com sua família ou se falassem mal das pessoas que ama ou, ainda, se visse a esposa (ou esposo) beijar várias pessoas. Por que, então, o mesmo cristão que repudia pecados cometidos contra sua família, também não repudia esses mesmos pecados cometidos contra outras pessoas e, principalmente contra Deus? O Criador de tudo é difamado, desprezado e afrontado por meio dos muitos pecados presentes em muitos dos filmes, mas você não fica revoltado com isso. Será que o cristão não deve lutar pelo Senhor (Jd.3)? Será que Deus não se importa quando trocam a Verdade por mentiras (Rm.1.28)? Você percebeu a contradição nas atitudes? A incongruência no modo de agir também é pecado contra Deus, como diz Paulo: “Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova” (Rm.14.22).

As perguntas que fizemos podem ser tratadas em apenas três categorias: 1) sobre a sensualidade; 2) sobre a idolatria; 3) sobre a mentira:

1) O prazer físico que começa com um beijo na boca e pode se expressar de várias outras formas somente é permitido por Deus para o casal (Gn.2.24). Fora do casamento tais relações físicas são chamadas de adultério (Ez.16.32) ou prostituição (Gl.5.19). Portanto, as relações físicas entre os atores e atrizes são adultérios (para aqueles que são casados) ou prostituições (para os solteiros), pecados repudiados por Deus tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, pois a Escritura diz: “o SENHOR, Deus de Israel, diz que odeia o repúdio e também aquele que cobre de violência as suas vestes, diz o SENHOR dos Exércitos; portanto, cuidai de vós mesmos e não sejais infiéis”; e: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros” (Ml.2.16; Hb.13.4 // Rm.2.22; 1Ts.4.3-8).

Ao se divertir com aquilo que Deus abomina, você afronta a Deus, favorecendo os inimigos dEle. Sobre isso, Tiago diz: “Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg.4.4). Portanto, para que um filme seja considerado saudável com respeito à pureza, não deve conter prostituições nem adultérios, ou seja, nenhum ator ou atriz pode ter relações (desde o beijo na boca) com outro. Tenho certeza que você não deixaria sua esposa ou esposo fazer um filme em que tivesse que beijar outro homem ou mulher. Então, por que favorecer aqueles que fazem isso? A participação no pecado alheio torna o homem cúmplice diante de Deus (Ef.5.11).

2) Outro problema é a apreciação de obras e práticas idólatras, um tema completamente abominado pelo Senhor. Por todo o Antigo Testamento Deus mostrou o quanto odeia a idolatria. Israel deveria destruir tudo que fosse associado à idolatria, sem qualquer receio. O povo de Deus nunca foi motivado a apreciar as expressões idólatras como “arte”, pois a idolatria é aborrecida por Deus. Como, então, poderíamos apreciar templos pagãos idólatras e obras pagãs que retratam a idolatria de um povo que afronta a Deus ao trocar o Deus vivo por vãs imaginações de seu coração? Paulo diz que Deus entregou os idólatras à deploração para se destruírem por mudarem a glória de Deus, “servindo a criatura em lugar do Criador” (Rm.1.25).

Ao apreciar tais expressões da ignorância e maldade do homem, o cristão está concordando com a idolatria dos povos, pois aquilo que Deus abomina está sendo elogiado. Não há beleza no pecado; não há encanto naquilo que confronta a santidade de Deus. Somente o que glorifica a Deus pode ser apreciado; apenas aquilo que reluz perante a luz da glória do Senhor deve ser considerado belo. Se todo cristão odiasse o pecado, como a Escritura ordena, então repudiaria completamente toda expressão idólatra do homem, quer imagens pagãs, templos pagãos ou mesmo a avareza, glutonaria, bebedice, apreciação demasiada de pessoas (mesmo que sejam pregadores) etc (Cl.3.5-11). Toda idolatria é pecado contra Deus; é uma tentativa de substituir o Deus vivo e verdadeiro; uma expressão de rebeldia de quem não deseja servir ao Senhor.

3) O mundo ama a mentira, porque ele jaz no maligno (1Jo.5.19) que é mentiroso e pai da mentira (Jo.8.44). Portanto, toda mentira procede do maligno, nunca de Deus, porque “mentira alguma jamais procede da Verdade” (1Jo.2.21). Desta forma, toda expressão “artística” que propague mentiras, vãs filosofias, enganos de qualquer ordem, fazendo apologia a ideias contrárias à Verdade deve ser considerada afrontosa e blasfema, pois se levanta contra Cristo que é a Verdade (Cl.2.8; 1Tm.4.1-5). As mentiras desse mundo não são obras de inocência humana, pois não há homem inocente após a queda de Adão e Eva (Rm.3.9-18). Os enganos são obras malignas do diabo, do mundo e do pecado que propositadamente se voltam contra Deus (Ef.2.1-3), pois são seus inimigos, como diz o Salmo 2: “Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o SENHOR e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas” (Sl.2.2-3).

Você deve conhecer a Verdade e lutar por ela (1Tm.3.15), a fim de não ser apanhado concordando com toda sorte de mentiras. Israel tornou-se deplorável por causa da falta de conhecimento da Verdade e Deus castigou a nação por viver conforme a mentira: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos” (Os.4.6). Não devemos pensar que o mesmo não possa sobrevir àqueles que desprezam o conhecimento de Deus em nossos dias. Mas, a luta pela Verdade não se expressa apenas em debates teológicos quando temos a oportunidade de combater as heresias. O bom combate do Senhor (1Tm.1.18-19; 6.12) ocorre no dia a dia quando agimos de acordo com a Verdade, confrontando todas as mentiras desse mundo, quer expressas em filmes, no ambiente de trabalho ou nas escolas e universidades cheias de professores inimigos de Deus.

Mas, como o cristão chegou ao absurdo de admirar, aplaudir e até concordar com pecados tão combatidos pela Escritura? Como o cristão tornou-se amigo do mundo favorecendo os inimigos de Deus? Não foi de uma hora para a outra! O mundo conseguiu injetar seu veneno no cristianismo e esperou que ele se espalhasse lentamente pelo corpo de Cristo que é a igreja. A insistência do mundo fez com que o cristão fosse cedendo pouco a pouco até que não mais conseguisse distinguir entre o certo e o errado. Ao tornar-se insensível, o cristão passou a favorecer toda forma de mal. Foi assim, também, que os filósofos que fornecem as bases para todo partido de esquerda maquinaram a inversão de valores da cultura, transformando as imagens negativas em imagens agradáveis e aceitas pela sociedade (Leia sobre as ideias do filósofo marxista Antonio Gramsci para entender os planos malignos dos líderes esquerdistas). A mesma técnica tem sido utilizada pela mídia para disseminar todo tipo de pecado na sociedade.

Para ilustrar isso, podemos relembrar o processo de aceitação do homossexualismo. Esse pecado sempre foi odiado pelo povo de Deus e tratado como abominação perante os olhos do Senhor. Mas, o mundo começou a fazer piadas sobre homossexualismo para que as pessoas começassem a rir, quebrando o rigor, tornando o assunto um pouco mais simpático aos olhos da sociedade. Aos poucos foram inserindo homossexuais “bonzinhos” em filmes, seriados e novelas para que as pessoas olhassem para eles como pessoas “boas”, a fim de que as aceitassem naturalmente. Então, a sociedade deixou de ver o homessexualismo da mesma forma como Deus o vê: uma abominação (Gn.19.1-25; Rm.1.26-27).

No final desse artigo, é possível que você esteja pensando: “- Se retiramos dos filmes tudo isso que foi dito acima, não sobrará nada para assistir”. Caso não sobre mais nada, então seu desafio é mostrar que ama mais a Deus do que a si mesmo. Quem disse para você que ser cristão seria fácil? Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” (Mt.16.24-27). A vida cristã é uma constante renuncia, pois vivemos em um mundo que jaz no maligno (1Jo.5.19). Foi assim que viveram os grandes homens de Deus do passado e é desse modo que o Senhor deseja que vivamos ainda hoje.


Esse é o momento em que os verdadeiros cristãos são revelados, pois “venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap.12.11). Para isso, você deverá amar a Deus “de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt.22.37), pois a única forma de vencer o mundo, a carne e o diabo é por meio do poder de Deus que vem do Espírito e da Palavra, em Cristo Jesus. A busca pelo que é bom envolve guerra contra si mesmo, negação de si mesmo, pois a natureza caída não dará trégua, tentando seduzi-lo a se satisfazer por meio do pecado. E para vencer, você precisará viver uma vida em Cristo. Então, procure em Jesus a capacidade para buscar aquilo que é bom e agradável a Deus, a fim de que tudo que você faça seja realmente para a glória do Senhor (1Co.10.31). Então, busque um lazer aprovado por Deus!