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domingo, 18 de dezembro de 2016

Uma leitura Pós-Milenista Historicista de Apocalipse

Quando, porém, se completarem os mil anos, Satanás será solto da sua prisão e sairá a seduzir as nações que há nos quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, a fim de reuni-las para a peleja. O número dessas é como a areia do mar.” (Ap.20.7-8)

Desde a morte e ressurreição de Jesus, a igreja vem esperando o cumprimento das promessas neotestamentárias, principalmente, com respeito à volta triunfal de Cristo, por meio da qual a criação será plenamente restaurada para uma nova e eterna vida sobre a terra (At.1.11; Rm.8.18-25; Co.15.50-58; 1Ts.4.13-18). Com o passar do tempo suas promessas foram se cumprindo: Jesus morreu e ressuscitou, conforme havia predito aos discípulos (Mt.16.21//Lc.24.44-46); o Espírito Santo foi derramado sobre a igreja por ocasião de Pentecostes (Jl.2.28-32; At.1.4-5//At.2); perseguições sobrevieram à igreja por causa do nome de Jesus (Mt.10.22//At.8.1); o evangelho chegou aos confins da terra por meio do empenho missionário dos apóstolos (At.1.11//At.19.21); os cristãos testemunharam o cumprimento da profecia sobre a queda de Jerusalém (Mt.24.2), e aqueles que se lembraram das palavras de Jesus livraram-se da morte que sobreveio à cidade rebelde.
Todavia, o tempo continuou passando e em vez de glória os cristãos se viram perseguidos, maltratados e mortos por causa do ódio pagão contra a fé deles. O anseio pela volta de Jesus se transformou em dúvidas: Quando Jesus voltaria? Será que Ele realmente viria ou já teria vindo espiritualmente? O que a igreja deveria aguardar com respeito a seu futuro? O importuno judaico contra os cristãos (At.8.1) logo foi sobreposto pela brutal perseguição provinda do Império Romano que considerou o cristianismo uma religião indesejada. A volta de Jesus tornou-se mais desejada do que fora no início de Atos dos Apóstolos e o clamor da igreja chegou aos ouvidos do Senhor (Ap.6.9-11). E, estando o apóstolo João preso na ilha de Patmos (Ap.1.9), o Senhor Jesus revelou-lhe o livro de Apocalipse, sob o propósito de consolar a igreja em dias difíceis e exortá-la diante das tentações, para que perseverasse fielmente até sua volta (Ap.2.7,11,17,26; 33.5,12, 21).
O propósito deste artigo é apresentar uma leitura panorâmica de nossa visão pós-milenista historicista do livro de Apocalipse. Identificamos, em Apocalipse, quatro grandes momentos correlacionados à história, além de seus capítulos iniciais (Ap.1-5): 1) A tribulação da igreja (Ap.6-16 - séc. I-V); 2) Queda do inimigo da igreja (Ap.17-18 – Sec. V); 3) O reinado da igreja (Ap.19-20.6 - séc. V-XV); 4) O final da história – soltura de Satanás, juízo final e advento da nova Jerusalém (séc. XV até sua conclusão). O livro, portanto, revelará alguns eventos históricos fundamentais que marcam etapas na trajetória da igreja, consolando-a com a promessa de vitória sobre seus inimigos tanto físicos (Ap.17-18) quanto espirituais (Ap.20.10). Contudo, nem todos os momentos históricos recebem igual ênfase em Apocalipse. Seu foco principal recai sobre o período de tribulação da igreja, (já presente nos dias do apóstolo João) e a queda do arqui-inimigo do cristianismo (o terrível e assolador Império Romano). Por essa razão, pouco é dito sobre o período da soltura de Satanás e sobre o juízo final (Ap.20.7-15).  Denominei a presente interpretação de Pós-Milenismo historicista, porque a vinda de Jesus é posterior ao milênio identificado com o período histórico denominado de Idade Média Cristã.

DATAÇÃO
A partir de algumas evidências externas e internas, adotamos a data de, aproximadamente, 95 d.C. para a escrita do livro de Apocalipse. Enumeramos abaixo algumas evidências que consideramos relevantes:

1) As mais intensas perseguições sobre a igreja ocorreram sob o governo de Domiciano e Trajano (90-115). Não há nenhuma evidência que Nero tenha perseguido os cristãos fora dos limites de Roma ou Jerusalém. Contudo, há evidências que Domiciano tenha perseguido os cristãos em todo o Império Romano, conforme Plinio afirma em cartas ao imperador Trajano.
2) Clemente de Roma escreve em 96 d.C. e começa sua carta se referindo à tribulação de seus dias: “Por causa das desgraças e calamidades que repentina e continuamente se abateram sobre nós” (1Clemente 1.1) e ainda afirma que “já que nos encontramos no mesmo campo de batalha, nos esperando a mesma luta” (1Clemente 7.1) se referindo aos mártires da época dos apóstolos. Clemente revela as lutas dos cristãos no período de Domiciano.
3) Os cristãos não foram perseguidos por Nero por desprezo ao culto imperial. Seu problema estava mais intimamente relacionado ao judaísmo com o qual o cristianismo, em parte, estava relacionado. Contudo, Domiciano os acusou por não prestarem culto imperial (conforme Apocalipse 13). O contexto imperial de Apocalipse se coaduna bem com o contexto do império de Domiciano, tanto no que diz respeito ao relacionamento entre cristãos e Roma, quanto no que diz respeito ao comércio e culto imperial. Nero não erigiu estátuas suas exigindo a adoração, mas Domiciano o fez (há uma estátua sua em Éfeso), à semelhança de Nabucodonosor (Dn.3.12,18). Este fato explica Apocalipse 13.7-8, 14-15. Contudo, não há evento semelhante antes de 70 d.C. enquanto que as inscrições antigas nas cidades romanas mostram que o culto imperial cresceu a partir do final do primeiro século. Vale, portanto, salientar que esta é uma das principais preocupações de Apocalipse: o culto imperial.
4) A citação de Clemente de Alexandria com respeito ao “Tirano” é passível de mais de uma interpretação de forma que tanto Nero quanto Domiciano podem ser considerados como Tiranos no olhar de um cristão. Desta forma, tal citação não pode ser utilizada para defender a datação de Apocalipse antes de 70 d.C. Além disso, Eusébio interpreta as palavras de Clemente de Alexandria como uma referência a Domiciano (H.E. 3.23.6-19). Tacitus, Suetonius, Plinio, Dio Chrisostomo e Dio Cassius atribuíram a Domiciano a desordem civil e o forte culto imperial.
5) O cristianismo foi mais bem distinguindo do judaísmo a partir da queda de Jerusalém e, por isso, as perseguições aos cristãos tomaram formas peculiares. Plinio em 113 d.C. faz uma citação muito parecida com Apocalipse: “Outros nomeados pelo informante declararam que eram cristãos, mas depois negaram, afirmando que eles tinham sido, mas tinha deixado de ser, cerca de três anos antes, outros muitos anos, alguns tanto quanto 25 anos. Todos eles adoraram a sua imagem e a estátuas dos deuses e amaldiçoaram a Cristo” (Cartas 10.6-97)
6) Tertuliano em Apologia 5 destaca a perseguição de Domiciano dentre as demais levantadas.
7) É muito improvável que o mito do Nero redivivo possa ter se desenvolvido entre o povo de forma tão rápida, afinal Nero morreu em 68 d.C. e a queda de Jerusalém se deu em 70 d.C. Além disso, a ideia de que um imperador ressurgiria com as características de Nero se encaixa perfeitamente com Domiciano. Afinal, entre Nero e Domiciano a perseguição aos cristãos não foi tão grande. Domiciano conseguiu se destacar por sua perseguição à igreja como nenhum outro imperador antes dele e como poucos depois dele.
8) Irineu atribuiu a Apocalipse o período do imperador Domiciano (Contra Heresias 5.30.3)
9) Victorinus de Pettau (304 d.C.) em seu comentário de Apocalipse (primeiro comentário completo do livro) afirma que João escreveu Apocalipse no período de Domiciano (Apocalipse 10.11)

Além das evidências externas acima, algumas perguntas devem ser consideradas pelo leitor de Apocalipse:

1) Para quem foi escrito o livro? Para igrejas de maioria gentílica ou judaica? (As sete igrejas de Apocalipse eram de maioria gentílica fortemente relacionadas política e economicamente com o Império Romano)
2) Qual o contexto dessas 7 igrejas? A relação da igreja gentílica era maior com Jerusalém ou com Roma (império)? As relações comerciais indicadas em Apocalipse eram realizadas com o mundo gentílico ou judaico? Jerusalém tinha uma boa relação com Roma, para que o livro de Apocalipse dissesse que a mulher está relacionada com a besta?
3) Qual o propósito do livro? Confortar os cristãos ou anunciar o fim dos Judeus? Se o propósito é confortar os cristãos, em que a queda de Jerusalém os confortaria?
4) Em que a queda do império Romano seria relevante para a igreja cristã gentílica? (Muito, pois o império Romano, por meio de vários imperadores (Ap.13 e 17), decretou perseguição ao cristianismo. Essas perseguições são mais fortes após a queda de Jerusalém.)
5) Em que a queda de Jerusalém significaria alento e o início de uma nova era de paz para a igreja gentílica? (A queda de Jerusalém não resultou em nenhum benefício para os cristãos, não sendo, portanto, confortadora para a igreja. Ao contrário, a queda de Jerusalém marcou uma maior perseguição de Roma aos cristãos tanto judeus como gentios.)
6) Em que a queda de Roma significaria alento e o início de uma nova era de paz para a igreja Judaica? (isso aconteceu na história, pois a queda paulatina do Império Romano está intimamente relacionada com o fim da perseguição contra a igreja)
7) As figuras malignas do livro apontam para Jerusalém ou para Roma? Jerusalém tinha tanta influencia sobre as nações vizinhas que pudesse ser acusada de embriagá-las ou era o império Romano que na época de Domiciano exigia lealdade aos seus deuses e ao imperador? As pessoas eram influenciadas pelo modo de vida dos judeus ou pelo estilo de vida romano? As pessoas seguiam aos líderes dos judeus ou procuravam agradar o principal patrono do império, o imperador, para conseguir benefícios daquele que ficou conhecido como “supremo benfeitor”? O comércio marítimo era forte em Roma ou em Jerusalém? As regalias usufruídas pela aristocracia vinham de Jerusalém ou de Roma?
8) A realidade das 7 igrejas descritas por Apocalipse 2 e 3, remontam a uma data posterior a 70 d.C. Tanto o esfriamento de Éfeso requer certo tempo após a morte de Paulo quanto a fundação e desenvolvimento das demais igrejas, principalmente seus pecados relacionados com o comércio, se acomodam melhor ao período em que os cristãos são distinguidos dos judeus e que poderiam viver em paz desde que fossem subservientes ao império participando da vida política e religiosa pagã. A geração da igreja em Éfeso parece não ter conhecido Paulo. As características da igreja diferem muito das mencionadas pela carta de Paulo. Os problemas que a igreja enfrenta, e que já há algum tempo estavam presentes em seu meio, não fazem parte do contexto da igreja de Éfeso conforme encontramos em Atos e na carta paulina.
9) O termo grego “táchos” não faz alusão ao cumprimento de toda a revelação de Apocalipse, mas ao começo de seu cumprimento. Ou seja, em breve Deus daria início ao processo de cumprimento das profecias reveladas em Apocalipse. Sua repetição (Ap.1.1; 22.6) deve ser compreendida como hebraísmo indicando tanto seu breve início quanto a certeza de seu cumprimento. Observe-se que os eventos mais próximos aos dias do autor (Ap.6-19) são bem mais detalhados do que os eventos finais pós-milênio (Ap.20-22). Até mesmo os preteristas parciais, por exemplo, reconhecem que parte de Apocalipse ainda não se cumpriu, tendo em vista que não é possível encaixar no ano de 70 d.C. um milênio inteiro, a soltura de Satanás, o juízo final e a chegada da nova Jerusalém. Portanto, a expressão “em breve” não deve ser compreendida obrigatoriamente como uma alusão ao cumprimento cabal de Apocalipse num tempo próximo aos dias de seu autor.

CONTEXTO HISTÓRICO
Diante do exposto acima, considero que o contexto político-econômico-geográfico do livro está relacionado a Roma, não a Jerusalém. Há diversos indicadores que apontam para Roma como sede da besta que perseguia a igreja com sua brutalidade enquanto a seduzia com sua luxúria (ver sete cartas às igrejas). Os destinatários, as sete igrejas, estavam localizados em províncias com forte relação política, econômica e religiosa com a cidade de Roma; há várias referências à diversidade racial presente em todo o império romano (Ap.2.26; 5.9; 7.9; 10.11; 11.9; 13.7; 14.6; 17.15 etc); a prisão de João não foi causada por perseguição judaica, mas por causa das ameaças provenientes do império romano (Ap.1.9); os judeus são considerados apenas mais um grupo que trazia problemas para a igreja (Ap.2.9; 3.9), enquanto que a primeira besta é considerada a principal ameaça sofrida pelos cristãos; há duas referências à região de ilhas que são abaladas por ocasião do juízo divino, e a Itália possui 45 ilhas ao seu redor (Ap.6.14; 16.20); o luxo do comércio, a diversidade de produtos e a venda de escravos eram negociados principalmente por navios (Ap.8.9; 18.17-19); há larga referência ao mar, e a Itália está praticamente cercada por ele: a leste, oeste e sul (Ap.4.6; 8.8-9; 10.2-8; 13.1; 15.2; 16.3; 18.17-21 etc); a mulher do capítulo 12 (a nação de Israel), que dá à luz ao Messias, está vestida do sol, tem filhos santos que guardam os mandamentos de Deus, e Deus mesmo a guarda, protegendo-a das investidas de Satanás (Ap.12.6,13-16); porém, a mulher do capítulo 17 é chamada de grande meretriz, está vestida de objetos de seu comércio (púrpura, escarlata, ouro etc), aparece montada sobre a besta e persegue os santos, ou seja, os filhos da primeira mulher (Ap.17.1,3-6); a primeira besta, sobre a qual a mulher meretriz está montada, não somente representa o lugar como também seus imperadores (Ap.17.9-11); há duas cidades em Apocalipse: uma é denominada Babilônia, “a grande, a mãe das meretrizes e das abominações da terra”, “a grande cidade que domina sobre os reis da terra” (Ap..17.5,18), enquanto que Jerusalém é chamada de “cidade santa” (Ap.11.2) e “cidade querida” (Ap.20.9). Além disso, já demonstramos em outro artigo (666 não é uma pessoa) que a segunda besta não pode ser uma pessoa (por isso, não é lançada no lago de fogo junto a primeira besta), sendo uma referência à economia romana (Cf. 2Cr.9.13).
A igreja nos dias do apóstolo João precisava ser consolada e exortada diante das ameaças e tentações provindas do império que “devorava, e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava [...] que falava com insolência” (Dn.7.7,20).  O Império Romano declarou-se inimigo do cristianismo e Apocalipse faz larga referência a suas perseguições contra os cristãos. Ainda que Apocalipse faça algumas referências a importunações de judeus, os principais inimigos da igreja, desde o primeiro capítulo do livro até o capítulo 19, são referências ao Império Romano: razão de João em Patmos (1.9); motivo do sofrimento das igrejas (2.3,13; 3.18); propósito da primeira besta (13.1-10//17.9-11//11.7; 14.9,11; 15.2; 16.2,10,13; 19.19,20; 20.4,10); tentação da segunda besta (13.11-18); razão para a queda da cidade das nações (16.19//11.8), a grande meretriz (17.1-7), chamada, também, de Babilônia (18.1-24).
A queda de Roma era a mais importante conquista esperada pela igreja durante os cinco primeiros séculos da era cristã, pois representava o fim da perseguição, semelhante a outras conquistas antigas: a queda do império Egípcio, a queda do império Assírio, a queda do império Babilônico, a queda dos impérios do período interbíblico. A destruição de Roma representa uma etapa importante da história, dividindo a história antiga da medieval, pois o domínio mundial cristão medieval está intimamente ligado ao fim do império romano. Sendo assim, interpretamos que a queda de Roma foi seguida pelo Reinado Milenar Cristão, quando o mundo passou a ser dominado pelo Reino de Deus, representado pela igreja que o carrega em seu coração, afinal, disse Jesus: “o Reino de Deus está dentro de vós” (Lc.17.21). É importante observar que a paz da igreja estava relacionada à derrota de seu inimigo vigente, exatamente como ocorreu na história. E, por essa razão, Apocalipse faz muito mais referências detalhadas a Roma e sua queda do que à queda de Satanás, descrita com poucas palavras no capítulo 20.
Os capítulos 17 e 18 possuem uma detalhada referência a elementos característicos de Roma e às fortes implicações para as nações ao redor do mundo que faziam uso da política e luxúria daquela cidade poderosa. No capítulo 17, João desvenda o segredo da primeira besta (pois, a segunda besta foi revelada por meio da referência aos textos sinóticos de 1 Reis 10.14 e 2 Crônicas 9.13, “seiscentos e sessenta e seis”, tendo em vista que citações diretas e indiretas de textos do Antigo Testamento é o principal recurso utilizado pelo autor de Apocalipse), dizendo que ela representa, pelo menos, oito reis, “dos quais caíram cinco, um existe, e o outro ainda não chegou; e, quando chegar, tem de durar pouco. E a besta, que era e não é, também é ele, o oitavo rei” (Ap.17.10-11). Os oito grandes reis possuem relações políticas com outros dez reis espalhados pela terra (Ap.17.12). A meretriz que está entre as sete colinas, também está entre águas (Ap.17.15), por meio das quais mantém relações políticas com as nações que oferecem à besta e à mulher “poder e autoridade que possuem” (Ap.17.13). Por fim, a mulher é identificada como “a grande cidade que domina sobre os reis da terra” (Ap.17.18).
O capítulo 18 continua fornecendo dados que nos ajudam a identificar a cidade a quem João se refere. A grande cidade, chamada de Babilônia (que em todos os livros do Antigo Testamento se refere a uma nação pagã, não a Jerusalém) violentamente devastou nações obrigando-as a embriagar-se com sua religião e cultura. Além disso, sua sedução econômica atraiu os povos a manter relações comerciais, pois gabava-se ser poderosa e luxuosa, dizendo: “Estou sentada como rainha. Viúva não sou. Pranto, nunca hei de ver!” (Ap.18.7). Sua queda abala não somente os habitantes locais, mas também o mundo todo, pois muitos reis mantinham relações políticas e muitos comerciantes marítimos buscavam nela suas mercadorias (Ap.18.11-15).
A luxúria de Roma é conhecida de todos os historiadores. Seu comércio era muito forte, e os portos da Itália facilitavam a ampla relação comercial com as demais nações. Os cidadãos dela gabavam-na, chamando-a de “Cidade eterna”, apelido dado por seus poetas. Jerusalém já tinha experimentado a queda em 598 a.C. (2Rs.24.10-25.7), tornando-se, desde então, dependente de outras nações (Pérsia, Média, Grécia, Ptolomeus, Selêucidas) durante quase todo o período interbíblico. Sua queda não admirara as nações ao redor, pois seu histórico de dependência e revoltas a acompanhavam por séculos. Contudo, Roma se via invencível, indestrutível e eterna e, por isso, sua queda foi inesperada, chocando todos os povos do mundo. Jerusalém caiu em 70 d.C. e foi reconstruída novamente, servindo como capital da Judéia tanto durante o poder de Roma quanto durante o domínio de Bizâncio (alvo, também, de brigas entre cristãos e muçulmanos durante a idade média). No entanto, a Roma antiga nunca mais foi reconstruída, preservando até nossos dias as ruínas da luxuosa cidade destruída por Deus como castigo por todos seus pecados (Ap.18.14,21,22).

DIVISÕES DO LIVRO
E como devemos dividir o livro? Apocalipse possui algumas divisões naturais, relativamente fáceis de serem identificadas. A primeira grande divisão é indicada por Apocalipse 1.19: “Escreve, pois, as coisas que viste, e as que são, e as que hão de acontecer depois destas”. O versículo nos diz que o livro está dividido em três partes maiores: 1) A primeira parte é composta da introdução do livro, o local e momento em que o apóstolo João recebe a visão de Cristo glorificado e as orientações iniciais sobre o livro (Ap.1.1-20). 2) A segunda parte é composta por sete cartas às sete igrejas localizadas na Ásia Menor dos dias do apóstolo João. Essas cartas nos ajudam a compreender o contexto em que o apóstolo recebeu a revelação, pois apontam os problemas políticos, econômicos e religiosos da época (Ap.2-3). 3) A terceira e ultima grande divisão revela as coisas que “hão de acontecer depois destas” (Ap.4-22), ou seja, o cumprimento das profecias que tem início com a abertura dos selos (Ap.6). Portanto, o ponto de partida histórico do livro é o tempo presente do apóstolo, mas a ênfase recai sobre dias posteriores que brevemente teriam início apontando para a queda do arqui-inimigo da igreja: o Império Romano, representado por sua principal cidade: Roma. O livro é encerrado com a derrota de todos os inimigos da igreja, inclusive Satanás, e a chegada da Nova Jerusalém, lugar da eterna habitação daqueles que venceram junto ao Cordeiro.
Além da divisão maior (Ap.1; 2-3; 4-22) apresentada no início do livro (Ap.1.19), Apocalipse possui ainda subdivisões, a maioria fácil de ser identificada. Os capítulos 2 e 3 são subdivididos em sete cartas às sete igrejas, exortadas e confortadas por Jesus (Ap.2.1-7; 2.8-11; 2.12-17; 2.18-29; 3.1-6; 3.7-13; 3.14-22). Depois disso, os capítulos 4 a 22 são subdivididos em sete ciclos que narram a história desde os dias da igreja primitiva até a volta de Jesus, tendo como foco principal a queda do arqui-inimigo da igreja: o império romano (Ap.17 e 18). O coração dessa subdivisão é a manifestação dos juízos de Deus sobre os inimigos de seu povo, finalizando com o advento do juízo final vindouro. Os quatro primeiros ciclos (7 selos, 7 trombetas, 7 vozes, 7 flagelos) focam os sofrimentos que viriam sobre os homens dentro do contexto romano, seguidos da derrota dos inimigos da igreja (Ap.6.12-17; 11.18-19; 14.17-20; 16.17-21) e vitória do povo de Deus (Ap.7.9-17; 11.15-17; 14.12-13; 15.3-4). Cada ciclo garante à igreja que as tribulações sobre o mundo viriam da parte de Deus e que a perseguição de Satanás, por meio do império romano, teria um fim, pois, mesmo que parecesse demorado, Deus julgaria a causa da igreja e a recompensaria por sua fidelidade.
Para identificar cada parte de Apocalipse é preciso seguir os marcadores. Observe que a primeira parte do livro se encerra após ultima carta às igrejas, para as quais o livro é destinado (Ap.3.22). Após a carta à igreja de Laodicéia, o cenário muda completamente e o apóstolo João é conduzido para um lugar celestial por meio de uma porta que se abre no céu (Ap.4.1-2). João se depara com um novo cenário repleto de novas imagens. A história dramatizada segue até a abertura dos selos que irão descortinar a história a ser revelada pelo livro. Observa-se, então, que há uma sequencia de sete elementos: 1º ciclo - Sete selos (Ap.4-7); 2º ciclo - Sete trombetas (Ap.8-11); 3º ciclo - Sete vozes (Ap.12-14); 4º ciclo - Sete flagelos (Ap.15-16). Cada sequencia de “Sete” equivale a um ciclo, que repete enfaticamente o período de sofrimento que viria sobre a igreja e sobre o mundo, pois enquanto os cristãos estariam sofrendo perseguições por parte do império, Deus estaria castigando o mundo com flagelos.
Contudo, nem todos os ciclos são identificados pela sequencia de “Sete”. As quatro sequências desaparecem após o capítulo 16, encerrando os ciclos referentes ao período de tribulação da igreja e castigos divinos derramados sobre o Império Romano. Sua repetição aponta para a insistente proximidade e importância do assunto, conforme ocorreu com o sonho de Faraó (Gn.41.32). O final de cada um dos quatro ciclos, (Ap.6.12-7.17; 11.13-19; 14.17-20; 16.17-21) antecipa, resumidamente, a revelação da queda do inimigo da igreja, o Império Romano, e o subsequente reinado cristão. Esta antecipação aponta para os capítulos posteriores (Ap.17-22) quando os eventos são detalhados e adequadamente distinguidos. A leitura do resumo antecipado (Ap.6.12-7.17; 11.13-19; 14.17-20; 16.17-21) dá a impressão que a queda do império e o juízo final se dariam num só momento, bem como o reinado cristão milenar e a vida eterna. Contudo, os capítulos seguintes clareiam o assunto revelando com mais detalhes os eventos posteriores ao período de tribulação da igreja: A queda do inimigo da igreja; o reinado da igreja e o final da história (Ap.17-22).
No 5º ciclo, o personagem principal é a grande meretriz, chamada, também, de Babilônia (Ap.17-18). Nesse ciclo, o autor, que nos quatro ciclos de “sete” havia focado sobre o processo histórico da queda do inimigo da igreja, agora foca, especificamente, sobre a queda de Roma, cidade principal do império inimigo da igreja. O capítulo 17 aborda a queda da cidade a partir da decadência do poder político enquanto o capítulo 18 aborda a destruição da cidade e suas implicações econômicas para o mundo imperial. No 6º ciclo surge um novo tema e personagem: O estado vitorioso da igreja governada pelo cavaleiro Fiel e Verdadeiro (Ap.19.11-21) que lidera um exército e vence os inimigos do povo de Deus, derrotando de uma vez a besta, o falso profeta e os reis da terra, assumido, então, o trono sobre a terra, ou seja, o domínio político do mundo. Observe que 5º e 6º ciclos contam a mesma história sobre focos diferentes: o 5º ciclo foca sobre a queda do inimigo da igreja, o 6º ciclo foca sobre a vitória concedida à igreja. Essa vitória resulta num período de mil anos de domínio da igreja sobre o mundo (Ap.20.1-6), durante os quais Satanás está preso para não mais enganar as nações (Ap.20.3).
O principal inimigo da igreja durante os cinco primeiros séculos foi o Império Romano, considerado um dos maiores inimigos do povo de Deus (Dn.7.7-8,19-25). A história contada em símbolos ao longo dos sete ciclos descreve, em sua maior parte, os cinco primeiros séculos da era cristã, quando a igreja sofre intensamente a “grande tribulação” (Ap.7.14), nas mãos do império romano, e assiste, ao final desse tempo, a vitória de Cristo sobre seu arqui-inimigo: Roma, invadida em 24 de Agosto de 410 d.C., saqueada e incendiada em três dias de muito sangue (Ap.18.8). Após uma série de eventos políticos e bélicos, o Império Romano caiu em 476 d.C., dando fim à Idade Antiga e início à Idade Média Cristã. Semelhante ao clamor de Israel, quando era escravo do Egito (Ex.2.23-25), Deus ouviu o clamor da igreja (Ap.6.9-11) rogando justiça por causa de todo sofrimento advindo do Império Romano que maltratava e matava os cristãos. Durante os primeiros séculos, Deus manifestou seu juízo sobre Roma por meio de guerras, fomes e doenças (Epidemia de 125 d.C.; Peste Antonina no séc. II; Catástrofes Infecciosas nos séc. III e IV), enfraquecendo o império até sua queda em 476 d.C.
Contudo, ainda que Roma tenha sido instrumento de Satanás para perseguir a igreja, sua queda não representava o fim do mal, pois o principal inimigo, Satanás, precisa ser derrotado, também. Assim, o sétimo e ultimo ciclo (7º ciclo) do livro foca a queda de Satanás e a chegada da plenitude do Reino de Deus, representado pela descida da Nova Jerusalém que vem dos céus para estar entre o povo de Deus (Ap.20.7-22.21). Pela desproporção nas ênfases, é possível se observar que o foco do livro não recai sobre a chegada do milênio, nem sobre a descida da Nova Jerusalém, mas sobre o fim do sofrimento da igreja daqueles dias, ou seja, a queda de Roma. Desta forma, o livro de Apocalipse cumpre seu propósito de consolar a igreja perseguida (Ap.13.1-10) dos dias do apóstolo João, exortando-a a manter-se fiel diante das seduções econômicas do império (Ap.13.14-17) que cativava as nações com sua luxúria comercial (Ap.17-18). Podemos representar graficamente o livro da seguinte forma (Clique no gráfico para visualizá-lo melhor):
  


ANÁLISE PANORÂMICA DO TEXTO

Capítulo 1 – Visão de Cristo glorificado
Na introdução do livro, o apóstolo João indica a autoridade suprema da revelação recebida (Jesus Cristo), os destinatários da obra (sete igrejas) e o tempo em que teria início o cumprimento das profecias do livro (breve). Também são indicados o mediador da revelação de Jesus Cristo (anjo) e o compilador (João), ou autor humano, que registrou tudo o que vira (Ap.1.1-2). Os destinatários primários eram as sete igrejas escolhidas para receber o livro, mas o alcance de suas profecias perpassava a vida de seus destinatários primários (Ap.1.3-8). Os dados introdutórios do livro de Apocalipse são mais precisos que qualquer outro livro do Antigo e Novo Testamento. Além dos dados fornecidos anteriormente, João ainda indica sua localização (Patmos) e dia (“dia do Senhor”) em que recebe a revelação de Jesus Cristo.
A visão apocalíptica tem início com a manifestação da glória do Filho de Deus. A visão de Cristo glorificado é deslumbrante tanto em beleza quanto em poder. Sua glória é visível e o poder está em suas mãos, tendo senhorio completo da igreja e controle absoluto sobre o mundo. Por essa razão, pode dizer: “Não temas” (Ap.1.17). A revelação é dada por meio de símbolos que serão desvendados pelo próprio Senhor (Ap.1.20). Portanto, o apóstolo João deveria estar atento à visão e, também, ao significado de cada símbolo apresentado, a fim de que a igreja fosse confortada e exortada com precisão, compreendendo a mensagem advinda da parte de Jesus Cristo.

Capítulos 2 e 3 – As sete igrejas
Após a visão inicial, Cristo glorificado dirige Palavras de conforto e exortação para as sete igrejas destinatárias. As igrejas são louvadas por sua fidelidade, consoladas diante das adversidades, advertidas por causa de seus desvios e animadas à perseverança por meio de promessas de valor eterno. Ao dirigir palavras sobre e para as sete igrejas, o Senhor Jesus revelou o contexto em que o livro foi revelado ao apóstolo João fornecendo indícios que nos ajudam a compreender sua importância e significado.
As sete igrejas não deve ser consideradas simbólicas, mas reais. O assunto tratado em Apocalipse é concreto, apesar de ter sido revelado em linguagem simbólica: A situação em que se encontrava o apóstolo João; a circunstancialidade das sete igrejas; a visão celestial do trono de Deus; e, as demais visões a cerca de eventos futuros a João. Apocalipse não é uma grande parábola onde os elementos são metafóricos. Apocalipse é uma visão sobre a história concedida através de símbolos que substituem os elementos dessa história.
As sete igrejas são reais, seus problemas internos e suas lutas contra as ameaças externas, também, eram reais. Contudo, assim como as demais cartas do Novo Testamento, as sete cartas às sete igrejas da Ásia Menor devem ser recebidas como palavras do Senhor para a igreja de toda e qualquer geração, pois suas palavras são fiéis e verdadeiras e tem valor permanente. Desta forma, em dias de tribulação a igreja é consolada com o mesmo consolo oferecido às igrejas de Apocalipse e em dias de decadência a igreja é exortada a retornar para a Escritura Sagrada da mesma forma que aquelas igrejas foram advertidas pelo Senhor Jesus.

Capítulos 4 e 5 – A visão celestial
Tendo encerrado as Palavras às sete igrejas, a visão muda diante de João e um novo cenário prepara o ambiente para as novas revelações que seriam dadas ao apóstolo. Até aquele momento, o apóstolo João se encontrava na terra vislumbrando a visão de Cristo glorificado a falar para sete igrejas locais na região da Ásia Menor. A partir do capítulo 4, a revelação é dada nas regiões celestiais e, diferente dos três primeiros capítulos, as visões anunciam dias futuros a João. Todavia, aquele que revela “as coisas que hão de acontecer” permanece sendo Cristo, o Cordeiro que morreu e ressuscitou (Ap.5.5-6), afinal somente Ele é digno de abrir o livro que contém a revelação da história (Ap.6.1).
Na visão celestial, Deus está sempre entronizado reinando sobre tudo e todos, e tem conhecimento de todas as coisas (Ap.4.3-6) tendo domínio completo sobre o mal representado pelo mar de vidro debaixo de seus pés (Ap.4.6). Seu trono é inabalável e eterno, transmitindo segurança para a igreja que sofre as tempestades de um mundo em constante mudança. Por isso, a igreja deve permanecer firme em sua fé sem jamais temer as adversidades, pois seu Senhor Reina absoluto sobre todos. A adoração nas regiões celestiais é destinada unicamente ao Criador e Senhor de tudo (Ap.4.8-11) e a igreja deveria permanecer com o olhar fixo sobre o Senhor, a fim de prostrar-se somente perante o Deus da glória.
Então, a história dos mundo surge nas mãos de Deus. Ela está completa, como um livro escrito em todos os lados sem deixar qualquer brecha para acréscimos, selada para que ninguém possa abri-lo a não ser aquele que é digno: o Cordeiro de Deus. Seres celestiais glorificam ao que está sentado no trono e ao Cordeiro dando-lhes todo louvor, honra e glória, aguardando que o Senhor revele à igreja o curso da história.

Capítulos 6 a 16 – A tribulação da igreja
Cristo abre o livro para revelar a história (Ap.6.1). Então, uma sequência de quatro ciclos revela um período de castigos que viriam sobre as regiões imperiais, semelhante às pragas que antecederam a destruição do Egito (Ap.6.-16). Esses castigos atendem ao clamor da igreja que pedia justiça celestial tendo em vista a perseguição do Império Romano (Ap.6.9-11). Mas, durante esse período a igreja continuaria sendo atribulada e deveria perseverar até o fim, não temendo o adversário (Ap.13.7-10) nem caindo na sedução de suas ofertas (Ap.13.11-18). Os quatro ciclos abrangem o período entre o primeiro século (recuando até o advento de Cristo) e o quinto século, perfazendo mais de 400 anos de tribulação da igreja.

1º Ciclo: 7 Selos
Os sete selos revelam as guerras sofridas pelo Império Romano, a fome advinda da queda da economia e as mortes provenientes das doenças que assolariam o império (Ap.6.1-8). O Império cairia aos poucos, castigado por causa de sua arrogante perseguição contra as testemunhas do Senhor Jesus. Ao final o inimigo seria destruído (Ap.6.12-17) e a igreja triunfaria (Ap.7).

2º Ciclo: 7 Trombetas
As sete trombetas revelam o derramar da ira do Senhor sobre o Império Romano que aos poucos é destruído (Ap.8.7-13). As nações que viviam debaixo das asas do estado sofreriam os danos, pois se aliaram aos inimigos de Deus. O Senhor castigaria os povos por causa da maldade feita contra a igreja que não havia sido esquecida pelo Senhor (Ap.8.1-6). As “orações dos santos” estavam sendo continuamente ouvidas pelo Senhor que ao seu tempo agiria em favor de seu povo. A igreja, portanto, deveria ser paciente e perseverante, certa de que o Senhor da glória estava atento ao sofrimento da igreja.
Surge uma visão celestial do “santuário de Deus” (Ap.11.1), semelhante às visões do Templo (Ez.40-44) que Ezequiel teve junto aos exilados na terra dos Caldeus (Ez.1.1-3), anos após a queda de Jerusalém por ocasião do sítio da Babilônia (2Rs.25.9-10). Mesmo após usa destruição, Jerusalém continua tendo significativo valor. De acordo com Paulo, o endurecimento de Israel cumpre papel importante dentro da história redentora, a fim de marcar o tempo dos gentios (Rm.11.25-32). Em Apocalipse, “a cidade santa” estaria sobre o domínio dos gentios até o tempo determinado (Ap.11.1-2), transmitindo ideia semelhante ao que fora escrito por Paulo.  Nesse período a igreja deveria continuar profetizando a Escritura Sagrada contra todo pecado, anunciando o juízo do Senhor contra os ímpios, até que o juízo contra Roma viesse definitivamente (Ap.11.15-19), pois mesmo que o Império Romano investisse toda sua fúria contra a igreja ela jamais seria extinta, e mesmo que pensassem tê-la vencido, veriam a igreja viva e triunfante.

3º Ciclo: 7 Vozes
O terceiro ciclo recua um pouco no tempo relembrando a vitória de Cristo sobre o pecado, a fim de conceder justificação ao povo de Deus (Ap.12.1-12). Vendo-se vencido, Satanás dirige-se contra o povo de Deus, tentando destruí-lo, pois sabe que pouco tempo lhe resta (Ap.12.13-18). A perseguição contra a igreja não era sem razão. Satanás desejava destruir aquilo que Deus amava, pois fora derrotado e estava destinado ao inferno eterno. E para destruir a igreja, Satanás decide usar as maiores armas de seus dias: o poder político imperial (Ap.13.1-10) e o poder econômico romano (Ap.13.11-18). Violência e sedução seriam atiradas à igreja, a fim de fazê-la negar sua fé. Mas, as estratégias de Satanás não seriam bem-sucedidas e o terceiro ciclo anuncia o juízo sobre os inimigos da igreja, outra vez (Ap.14.1-20).
O mistério da primeira besta é revelado no capítulo 17 (Ap.17.9-11) e as características da segunda besta aparecem no capítulo 18 (Ap.18.11-15). A primeira besta é violenta e obriga as pessoas a se submeterem à sua vontade (Ap.13.7-10). Enquanto isso, a segunda besta é sedutora e trabalha em prol da primeira besta (Ap.13.14). Seus danos alcançam pessoas de todas as castas sociais e ninguém compra ou vende sem sua autorização (Ap.13.16-17). Seu número, “seiscentos e sessenta e seis” (Ap.13.18) é encontrado nos textos sinóticos de 1 Reis 10.14 e 2 Crônicas 9.13, indicando que a segunda besta é uma referência ao poder econômico do Império Romano. Juntas, a primeira e a segunda besta, ameaçavam e maltratavam a igreja, e, por essa razão, Deus traria juízo sobre os adversários de seu povo.

4º Ciclo: 7 Flagelos

O quarto ciclo repete os castigos divinos sobre o Império Romano culminando com a destruição do arqui-inimigo da igreja (Ap.16.1-21). A repetição dos castigos confirma a pressa do Senhor em cumprir sua vontade e a certeza de que nada impediria que o Senhor castigasse os inimigos de seu povo. A igreja, apesar das tribulações, é considerada vitoriosa, pois o Senhor luta por ela, impedindo que o mal seja bem-sucedido em suas empreitadas para destruir o povo de Deus (Ap.15.1-8).

Capítulos 17 e 18 – A destruição de Roma
Após a revelação do período de tribulação da igreja e castigos sobre o Império Romano, o livro de Apocalipse segue com a queda político-econômica do Império (Queda de Roma em 410 d.C.; queda do Império Romano em 476 d.C.). Finalmente, a queda da cidade de Roma e o declínio de seu poder imperial, resumidamente antecipada nos quatro ciclos anteriores, agora são detalhados. A igreja aguardou pacientemente o fim de seu inimigo (Ap.6.9-11) e, após diversas manifestações do juízo divino, veria a consumação do juízo de Deus sobre seus algozes.
No capítulo 17, a besta e a mulher possuem íntima relação estando esta montada sobre aquela (Ap.17.3-7). O significado das cabeças da primeira besta é revelado, representando não somente sete reis imperiais (Ap.17.10), mas, também, outros que ainda surgiriam tempos depois aos dias de João (Ap.17.11). O Cordeiro de Deus surge para vencer todos os reis imperiais e, também, aqueles que se associaram a eles, dando à igreja a vitória (Ap.17.14).
No capítulo 18, a descrição da queda da grande cidade é vista sobre a ótica econômica e suas implicações para as nações circunvizinhas. A queda de Roma abala o mundo e mercadores de muitas nações choram sua destruição, pois não mais comercializariam com suas mercadorias. Seu império político e econômico sucumbem completamente e a cidade é condenada à destruição perpétua, para “nunca jamais” ser reconstruída (Ap.18.14,21,22). Finalmente, a igreja foi vingada por todo sofrimento que padeceu nas mãos de seus inimigos que maltrataram e mataram aqueles que tinham o testemunho de Jesus Cristo (Ap.6.9-11; 8.3-4; 12.17; 16.5-7).
A história testifica o declínio político-econômico do Império Romano durante os Séculos II a V. Aos poucos guerras civis, doenças e más administrações fizeram com que o império fosse enfraquecido economicamente, trazendo implicações políticas, pois nações romperam alianças importantes. Roma estava se tornando cada vez mais vulnerável. Em 24 de Agosto de 410 d.C. os bárbaros invadiram Roma, a fim de saqueá-la e destruí-la. A cidade foi queimada e os habitantes mortos diariamente, numa verdadeira carnificina. A igreja fora advertida da ameaça bárbara e aqueles que deram ouvidos ao alerta conseguiram salvar-se (Ap.18.4). Contudo, alguns cristãos não atenderam ao alerta e morreram junto aos pagãos de Roma. O mundo viu a “cidade eterna” ser destruída em três dias horrendos, pintada de vermelho com o sangue de seus habitantes. Desta forma, cumpriu-se a profecia de Apocalipse e a Babilônia, marcada com o sangue daqueles que morreram pelo nome de Jesus, caiu num só momento (Ap.18.21-24), preservando até hoje as ruinas de sua destruição, memorial que confirma a veracidade da Palavra do Senhor.

Capítulos 19 a 20.6 – O reinado milenar da igreja
Após a destruição do inimigo da igreja (Roma caiu em 24 de Agosto de 410 d.C. e o Império Romano em 476 d.C.) dá-se início ao período de domínio cristão sobre o mundo (século V ao XV). A igreja canta jubilosa e começa o processo de reeducação e reestruturação do mundo, a fim de substituir o mundo pagão greco-romano por um mundo cristão, propagando a cosmovisão cristã para todos os povos. A igreja, testemunha de Cristo no mundo, anuncia que somente Cristo é Senhor absoluto sobre tudo e todos, exigindo de todos completa submissão ao senhorio de Jesus. Então, as práticas pagãs são, pouco a pouco substituídas pelo cristianismo.
De acordo com o Amilenismo, a “prisão de Satanás” se deu por ocasião da morte e ressurreição de Cristo (Mt.12.29; 22.44). Contudo, de acordo com Apocalipse, a vitória de Cristo não trouxe a prisão de Satanás, mas sua expulsão das regiões celestiais, tirando de suas mãos o poder legal de acusar os homens por causa dos pecados (Ap.12.7-12). Satanás perdeu o direito legal de acusador, pois Cristo pagou a dívida na cruz, mas Satanás não foi aprisionado e, por isso, mesmo após a ascensão de Jesus, continuou perseguindo a igreja por meio dos judeus e romanos (Ap.12.13-18). Portanto, considerando que o milênio seria um período em que Satanás estaria preso, é um erro identificar o milênio da igreja com o período entre a primeira e segunda vinda de Cristo, tornando tal período vago e incoerente com a realidade caótica do mundo. Mesmo não podendo mais acusar o povo de Deus, por causa da justificação, Satanás continuou enganando as nações durante o domínio do paganismo por meio do poder político e econômico romano e através da cultura grega, resgatada após a soltura de Satanás: Renascença, Classicismo, Iluminismo, Evolucionismo, Feminismo etc. (Ap.20.7-9).
Portanto, assim como justificação e santificação são coisas distintas, também a impossibilidade de Satanás acusar a igreja é bem diferente de sua atuação destrutiva no mundo, enganando as nações com toda sorte de paganismo. Conforme Apocalipse, o milênio é qualificado como período de domínio do cristianismo sobre todas as demais nações e culturas. Hoje, por meio de uma leitura da história, é possível olharmos para trás e identificarmos um período em que o cristianismo predominou sobre o mundo, propagando a cultura do Reino de Deus em todas as esferas da sociedade. Esse período durou mil anos e precisa receber a atenção da igreja de nossos dias, a fim de ser bem compreendido e aproveitado.
É importante observar, ainda, que a Idade Média Cristã foi um período glorioso para o cristianismo, pois a igreja propagou os valores cristãos pelo mundo, cristianizando o ocidente e o oriente por meio de sua crescente hegemonia. O politeísmo foi quase extinto no ocidente; o homossexualismo deixou de ser algo aceitável para a sociedade; as ciências se curvaram a Deus por meio da exigência de que todo conhecimento passasse pelo crivo da Escritura Sagrada; a arte refletia as obras do Criador não mais a idolatria do homem; a arquitetura greco-romana deu lugar às construções teocêntricas; a cultura foi cristianizada e o mundo pagão foi substituído por um mundo cristão (moral) imposto sobre todos, tanto convertidos quanto não-convertidos, estabelecendo um domínio que durou cerca de mil anos sobre o mundo, regendo “com cetro de ferro” (Ap.12.5; 19.15), tornando Cristo conhecido de todas as principais civilizações do planeta.

Também gostaríamos de lembrar que o período de reinado da igreja não deve ser lido de forma utópica, ou seja, com características além das que se pode esperar num mundo pecador. Enquanto o cristão estiver dentro de um mundo pecador sua vida estará marcada por pecados, pois sua natureza não fora plenamente transformada ainda. De acordo com Paulo, tal transformação somente ocorrerá por ocasião da volta de Jesus quando os mortos ressuscitarão e a igreja será glorificada (1Co.15.50-58). Portanto, o reinado da igreja não significa seu estado de glorificação, mas, sim, seu domínio sobre o mundo, impondo os valores cristãos sobre o paganismo. Por essa razão, o Milênio cristão (a Idade Média Cristã) foi marcado por acertos e erros, momentos bons e, também, ruins. Todavia, o cristianismo foi bem sucedido em ter substituído o mundo pagão greco-romano por um novo mundo construído sobre o crivo da Escritura Sagrada, coibindo o pecado enquanto propagava a primazia de Cristo sobre tudo e todos. Os resultados da cristianização do mundo podem ser vistos ainda hoje em todas as esferas da sociedade.

Capítulos 20.7 a 22 – O final da história
O domínio cristão acaba aos poucos. A igreja entra em declínio, trazendo o fim de seu período milenar. Com o fim do Milênio, Satanás é “solto de sua prisão” a fim de “seduzir as nações que há nos quatro cantos da terra” (Ap.20.7-8). O mundo que estava debaixo do domínio cristão se rebela contra a igreja, substituindo o teocentrismo pelo antropocentrismo, novamente. A igreja passa a ser vista como inimiga, outra vez, e o mundo se volta contra o povo de Deus, tanto física quanto culturalmente. A indicação de “pouco tempo” (Ap.20.3) da soltura de Satanás deve ser lida à luz dos milhares de anos em que ele esteve solto desde a queda de Adão e Eva (Gn.3) até sua prisão (Ap.20.2). Satanás enganou as nações por muito tempo, mas após o Milênio ele não teria mais os milhares de anos nos quais conduziu as nações ao paganismo. Seu tempo foi reduzido e, por isso, ele tem pressa em proliferar o mal no mundo.
Aos poucos, a partir do final da Idade Média, o mundo greco-romano é resgatado por meio da Renascença, Classicismo, Iluminismo, Evolucionismo, Feminismo etc. Paulatinamente, Satanás atrai as nações para o paganismo, fazendo com que o mundo se rebele contra todos os valores cristãos que foram propagados durante séculos. O humanismo fez do homem o centro e razão de tudo, resgatando o hedonismo do mundo antigo. O mundo retornou à cultura pagã, subjugando todas as esferas da sociedade aos enganos de Satanás. A arte se torna prostituta, a ciência ateia, a arquitetura reproduz a imagem do homem e a cultura enaltece os prazeres da carne. O mundo pagão se volta contra Deus novamente, dizendo: “rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas” (Sl.2.3). A prostituição alcança níveis absurdos e o homossexualismo volta às ruas. O mundo se torna uma grande Sodoma e Gomorra, uma imensa Babilônia.
Mas, qual o papel da Reforma Protestante do século XVI dentro da história? A Reforma Protestante foi uma providência divina (renovação da vida da igreja), com o fim de capacitá-la para as lutas que viriam nos séculos seguintes. A ameaça cultural-acadêmica proveniente do humanismo exigiu da igreja piedade, firmeza e maturidade, a fim de vencer os desafios de um mundo entregando-se pouco a pouco ao paganismo. Da mesma forma, outros movimentos posteriores ajudaram a igreja, renovando seu vigor, para que os cristãos não deixassem seu posto de batalha como testemunhas de Cristo no mundo. E, assim, em cada geração Deus provê uma renovação da Igreja reconduzindo-a ao conhecimento da Escritura, a fim de que Cristo seja sempre engrandecido diante de seus adversários.
Desta forma, nossos dias se encaixam perfeitamente em Apocalipse 20.7-8, sem data definida para acabar. O mundo caminha para o juízo dos inimigos de Deus, mas com respeito àquele dia ninguém sabe. A igreja deve continuar lutando com coragem e firmeza, certa de que Deus lhe concederá a vitória final (Ap.20.10), assim como fê-lo quando derrotou tantos inimigos do passado. Agora, aguardamos a consumação de tudo (Ap.20.10-22.21), mas enquanto esse dia não chega, devemos servir ao Senhor “firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1Co.15.58).

Após o período da soltura de Satanás ocorrerá a conclusão de tudo. O juízo final virá sobre Satanás e, também, sobre todos os ímpios que serão julgados conforme suas obras (Ap.20.11-15), enquanto que o povo de Deus será livrado da ira vindoura porque confiou na justiça de Cristo. Para estes, uma nova Jerusalém desce dos céus anunciando a restauração de todas as coisas. Uma nova e eterna vida aguarda os filhos de Deus que perseveraram na fé não cedendo às ameaças e seduções do mundo.

CONCLUSÃO
O coração de Apocalipse aborda os cinco primeiros séculos da era cristã, a idade antiga cristã, até a queda o arqui-inimigo da igreja. Ainda que os demais períodos, também, apareçam no livro (idade média e idade moderna), eles não são o foco do livro e não recebem muitos detalhes. Isso ocorre porque o livro de Apocalipse atende a uma necessidade imediata da igreja, semelhante ao que ocorre com os demais livros do Novo Testamento. Os cinco primeiros séculos da era cristã foram marcantes para a igreja, por causa da perseguição que assolou os cristãos. Foi nesse período que a igreja mais precisou de consolo e encorajamento para que não esmorecesse nem cedesse às tentações. Durante esse tempo, Apocalipse trouxe esperança para o povo de Deus, a fim de que continuasse perseverando na certeza de que Deus cumpriria sua promessa derrotando o inimigo da igreja.
Contudo, ainda que boa parte do livro de Apocalipse deva ser considerada como profecia cumprida na história, é evidente que a queda de Roma não trouxe o fim da história humana, mas o fim de uma etapa importante. Outros muitos inimigos cruéis apareceram na história, lutando contra Deus e sua igreja. A revelação das perseguições de Roma contra a igreja e a derrota dela no quinto século devem ser consideradas como exemplos para os cristãos de todas as gerações. Portanto, ainda que Apocalipse dê forte ênfase aos cinco primeiros séculos, eles servem de paradigma para os séculos seguintes, pois nos dias da soltura de Satanás as nações seriam enganadas outra vez com o propósito de atacar a igreja ferozmente.
O proposito deste artigo não é trazer todas as respostas, mas apontar o caminho para a interpretação de Apocalipse. Vimos que o contexto de Apocalipse é a perseguição e sedução do império romano; que a queda de Roma é principal evento, necessário para dar fim ao sofrimento da igreja; que apesar de simbólico, o livro aponta para uma história real e progressiva; e, que a queda de Roma daria início a um novo período da história: o Milênio Cristão. Esses eventos já se cumpriram e estão registrados na história, mas as aplicações de Apocalipse não se encerram com seu cumprimento, pois o livro revela à igreja que Deus está atento a seus sofrimentos e, também, tentações. Sempre que a igreja ler Apocalipse, ela será consolada com a promessa da vitória final sobre seus inimigos e, por fim, com o advento do Senhor Jesus que virá para buscar seu povo.
Após o período da soltura de Satanás ocorrerá a conclusão de tudo. O juízo final virá sobre Satanás e, também, sobre todos os ímpios que serão julgados conforme suas obras (Ap.20.11-15), enquanto que o povo de Deus será livrado da ira vindoura porque confiou na justiça de Cristo. Para estes, uma nova Jerusalém desce dos céus anunciando a restauração de todas as coisas. Uma nova e eterna vida aguarda os filhos de Deus que perseveraram na fé não cedendo às ameaças e seduções do mundo.

(Abaixo, um gráfico com minha visão Pós-Milenista historicista de Apocalipse. Para visualizar melhor a imagem, clique sobre o gráfico)


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