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segunda-feira, 18 de julho de 2016

666 não é uma pessoa

Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis” (Ap.13.18)

Tornou-se popular a interpretação de que a expressão “seiscentos e sessenta e seis” (666) encontrada em Apocalipse 13.18 se refere a algum personagem perverso da história. Para o preterismo o número se refere ao Imperador Nero César enquanto para algumas correntes futuristas o número aponta para um personagem, inimigo da igreja, que aparecerá no futuro. No entanto, gostaria de mostrar outra forma de se ler o texto sem que a expressão aponte para personagem algum. No final, demonstrarei de onde João tirou a expressão que assusta, ainda hoje, muita gente (666).
O capítulo 13 de Apocalipse apresenta duas figuras simbólicas, inimigas da igreja. A imagem é semelhante, pois ambas são chamadas de besta, ou fera (theríon), mas as características diferem-nas, significativamente. A primeira besta tem dez chifres e sete cabeças e recebe poder do dragão para que as pessoas se lhe submetam, podendo matar as que se lhe opõe (Ap.13.1-10). O mistério dessa besta é esclarecido no capítulo 17, quando o apóstolo João diz que as sete cabeças da besta representavam reis. Ou seja, a besta não era uma pessoa, mas suas cabeças representavam reis do passado, presente e futuro, “dos quais caíram cinco, um existe e o outro ainda não chegou” (Ap.17.10). Desta forma, o segredo da primeira besta foi praticamente revelado, carecendo apenas que identifiquemos, pela data do livro, quais seriam esses imperadores mortos, qual era o que estava governando nos dias do apóstolo João e, consequentemente, saberemos quem foi seu sucessor; o que não faremos no momento, pois este não é nosso propósito aqui. Além disso, devemos, desde já, prestar atenção ao fato de que Apocalipse nos convida a interpretar as bestas dentro do contexto histórico romano, não fora dele.
O que nos importa para o momento é deixar claro que a primeira besta não é uma referência a alguma pessoa, mas uma referência a um conjunto de pessoas: os imperadores romanos, instrumentos nas mãos do dragão para perseguir e matar os cristãos do primeiro século. Podemos dizer, portanto, que a primeira besta é um símbolo do poder político imperial de Roma, incluindo os reis que governavam as diversas regiões sob o domínio do império romano (Ap.17.10-12). Quando a besta é lançada no “lago de fogo” (Ap.20.10) devemos entender que ela está representando todos os imperadores romanos. Em Apocalipse a besta representa apenas oito imperadores (Ap.17.11), mas, tendo em vista que sua atuação perpassa o tempo de oito imperadores e a destruição do império só ocorreu no século V, é possível entender que a besta representa todos os imperadores romanos até a queda do império. O poder político romano havia se tornado inimigo da igreja e seus imperadores eram os algozes que executavam os planos malignos de Satanás.
Mas, o que representaria a segunda besta? Ela aparece apenas em Apocalipse 13.11-18 e possui características diferentes da primeira besta. A segunda besta não recebe poder do dragão nem mesmo é lançada no "lago de fogo" junto com a primeira besta, pois não é uma pessoa (Ap.20.10). Ela não tem cabeças (portanto, deve-se entender que tem apenas uma cabeça) e possui apenas dois chifres, “parecendo cordeiro, mas falava como dragão” (Ap.13.11), ou seja, era agradável à vista, mas temível em seus feitos. Por ter apenas dois chifres, devemos entender que ela possui menor poder do que a primeira besta (dez chifres), pois os chifres são símbolo de poder tanto para os animais que os utilizam para lutar quanto em literaturas antigas que os utilizam para representar o poder de governos e nações. E apesar de exercer autoridade semelhante à primeira besta, contudo o fazia na presença desta, ou seja, em dependência da primeira besta.
Essa informação é importante para que comecemos a descartar a possibilidade de que a segunda besta seja uma referência a qualquer imperador romano (ou outra pessoa qualquer). A segunda besta não age com autonomia, pois é uma serva da primeira besta fazendo tudo para satisfazer a vontade desta. Portanto, a segunda besta não pode ser uma referência a qualquer imperador romano, tendo em vista que todos eles governaram com autonomia. O trono imperial foi preenchido por diversos imperadores, mas o imperador seguinte só podia subir ao trono após a queda do anterior. Desta forma, o império romano sempre teve apenas um imperador no poder, nunca compartilhado com outro, durante os dois primeiros séculos. Não encontramos imperadores compartilhando o trono de Roma, de forma que a segunda besta não pode ser um imperador romano.
Apocalipse diz, também, que a segunda besta seduzia os habitantes para que adorassem a primeira besta erguendo uma imagem dela (Ap.13.12,14). Essa informação torna mais difícil sustentar a possibilidade de que a segunda besta seja uma referência a qualquer imperador romano, pois nenhum dos imperadores governou para outro, conduzindo o povo a prestar-lhe honras cúlticas em sua presença. Diversos imperadores, principalmente a partir de Domiciano (81 – 96 d.C), exigiram adoração de seus súditos, incluindo a formação de imagem própria. Todavia, nenhum deles exigiu que o povo adorasse outro imperador em seu lugar. Outro dado interessante é a diferença na ação das bestas. A primeira besta exercia sua autoridade dominando sobre os homens, pelejando contra os adversários, difamando e blasfemando contra Deus (Ap.13.5-10). Diferente dessa, a segunda besta conquistava as pessoas por meio da sedução. Ou seja, suas ofertas eram atraentes e as pessoas eram convencidas a receber “a marca da besta” (Ap.19.20) para que desfrutassem dos privilégios oferecidos por ela (Ap.18.12-14). Aqueles que aceitavam deveriam também prestar culto à imagem da primeira besta (Ap.13.14).
Mas, como a segunda besta seduzia as pessoas? Apocalipse 13.15-17 responde: impedindo a compra ou venda de qualquer coisa. Enquanto a primeira besta perseguia a matava os cristãos a segunda besta ameaçava a igreja por meio da sedução, tentando o povo de Deus por meio de suas atraentes maravilhas (Ap.13.13). Infelizmente, algumas igrejas já estavam caindo na sedução da segunda besta. A igreja em Laodicéia é repreendida por Jesus, pois seus privilégios perante o império romano haviam sido alcançados ao aceitar a sedução da segunda besta, e, por isso, dizia: “Estou rico e abastar e não preciso de coisa alguma” (Ap.3.17). Ao oferecer vantagens comerciais e prestígios, a segunda besta seduzia os povos a participar da adoração ao imperador e se submeter completamente ao governo deste.
Mais à frente aparece outro personagem: o falso profeta (Ap.16.13). Ele aparece de repente, sem qualquer explicação, junto ao dragão e à primeira besta. Mas, em Apocalipse 19.20, o falso profeta parece assumir a identidade da segunda besta, pois ele “seduziu aqueles que receberam a marca da besta e eram os adoradores da sua imagem”. O falso profeta parece substituir a figura da segunda besta assumindo seu papel. É possível que devamos entender que esta mudança aponta para o fato de que o poder econômico romano tinha responsáveis: os poderosos da época que enganavam as pessoas com suas ofertas e mercadorias (Ap.18.11-14), e eles pagariam por todo engano pelo qual seduziam as pessoas a se submeter à adoração imperial. A segunda besta não vai para o “lago de fogo”, mas o falso profeta sim, pois mesmo que o sistema não possa ser punido, aqueles que fazem uso do sistema serão julgados por tudo o que fizeram.
Desta forma, você já deve ter percebido que todas as características da segunda besta apontam para o poder econômico do império romano, que, apesar de ser inferior ao poder político, também exercia certa autoridade e estava ameaçando a igreja cristã com suas seduções. A pista final para indicar a quem se refere a segunda besta se encontra em Apocalipse 13.18, no famoso “seiscentos e sessenta e seis” (666). Considerando que o principal recurso utilizado por Apocalipse é a citação de textos do Antigo Testamento, entendemos ser adequado que procuremos nas Escrituras alguma possível referência. A busca da expressão acima nos leva para três referências: 1 Reis 10.14; 2 Crônicas 9.13; e Esdras 2.13. Em Esdras 2.13, o número extenso se refere aos filhos de Adonicão, que retornaram do cativeiro da Babilônia. Neemias 7.18, oferece outra contagem, alterando o número dos filhos de Adonicão para “seiscentos e sessenta e sete”. Além dessas referências a Adonicão, não há informação significativa sobre o personagem e o número de seus descendentes. As diferentes contagens e, também, contexto nos ajudam a descartar esse texto como possível referente de Apocalpse 13.18.
No entanto, encontramos em 1 Reis 10.14 e 2 Crônicas 9.13 uma informação que se encaixa perfeitamente com o contexto de Apocalipse, conforme estamos expondo aqui. Esses dois textos são sinóticos e dizem que “O peso do ouro que se trazia a Salomão cada ano era de seiscentos e sessenta e seis talentos”. Os textos se referem ao lucro trazido de algumas nações para Salomão, ou seja, os textos são referências à economia. Portanto, o leitor de Apocalipse, conhecedor da Escritura do Antigo Testamento, deveria entender que o número 666 apontava para a economia de romana, sendo esta um grande problema para a igreja “porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.” (1Tm.6.10).
Os capítulos seguintes de Apocalipse falam apenas da primeira besta (e sua imagem), mas atribuem a esta tanto à marca quanto o número do nome da segunda besta, colocando-os a serviço da primeira besta (Ap.14.9,11; 15.2; 16.2,10). Isso é possível porque a segunda besta não é uma pessoa, mas um recurso poderoso nas mãos da primeira: a economia romana (Ap.18.3,7,11-16). Por não ser uma pessoa, a segunda besta não vai para o inferno nem para o “lago de fogo”, e nem mesmo aparece como adversária nos demais capítulos de Apocalipse. Contudo, sua influencia é percebida, pois consegue seduzir a muitos os fazendo carregar sua marca e número. A primeira besta possui a marca e o número do nome da segunda besta e os utiliza a seu favor, para que as pessoas façam sua vontade. E aqueles que não são seduzidos, aderindo à marca e número da segunda besta (economia/comércio), são perseguidos e mortos pela autoridade da primeira besta (imperadores).
Contudo, devemos lembrar que alguém assume os danos causados pela segunda besta: o “falso profeta”. O falso profeta é condenado pelos enganos juntos à primeira besta, sendo lançado no “lago de fogo” (Ap.19.20). Devemos lembrar que a primeira besta representa um conjunto de pessoas: os imperadores romanos (Ap.17.10-11). De forma semelhante, devemos entender que o falso profeta também representa um conjunto de pessoas que assumem os sinais da segunda besta, fazendo suas maravilhas sempre diante da primeira besta, ou seja, diante de diversos imperadores, perpassando séculos de governo romano.
Os capítulos 17 e 18 de Apocalipse fornecem, com detalhes, informações políticas, geográficas, históricas, e econômicas do contexto do livro. Neles, aparecem os imperadores romanos, os reis a serviço deles, os mercadores e os habitantes da grande cidade, adoradores do império. No capítulo 18, reis e mercadores vivem da luxúria da Babilônia e lamentam, junto com os habitantes da cidade, a queda da “grande meretriz” (Ap.18.19). Os habitantes da grande cidade possuem as características daqueles que recebiam a “marca da besta”, pois, seduzidos, viviam da luxúria local. Quando a “grande meretriz” é julgada e destruída, os reis e mercadores lançam “pó sobre a cabeça e, chorando e pranteando, gritavam: Ai! Ai da grande cidade, na qual se enriqueceram todos os que possuíam navios no mar, à custa da sua opulência, porque, em uma só hora foi devastada” (Ap.18.19). Eles lamentavam a queda de Roma, pois nela haviam enriquecidos enganando os habitantes com suas luxuosas ofertas. Enquanto Roma seria devastada, os responsáveis por toda luxúria seriam lançados no “lago de fogo”.
Portanto, as duas bestas representam sistemas romanos e suas ameaças ao cristianismo. A primeira besta representa o sistema político romano, principalmente seus imperadores que durante os primeiros séculos perseguiram ferozmente o cristianismo. A segunda besta representa o sistema econômico do império e suas tentações, pois o comércio de Roma era muito forte e os benefícios oferecidos eram tentadores, conseguindo arrastar muitas pessoas, fazendo-as negar a fé por causa do amor ao dinheiro. Esse sistema também tinha pessoas responsáveis: os mercadores e reis que viviam do sistema à custa da opulência enganando as pessoas. Desta forma, o significado das bestas está relacionado aos dias do apóstolo João, e pode se dizer que elas cumpriram seu papel até a queda do império romano, o maior inimigo da igreja de Jesus, nos dias do apóstolo João.
Mas, como podemos aplica o texto para nossos dias? Apesar de a correta interpretação apontar para dias passados, seu ensinamento deve ser aplicado para todas as gerações, pois inimigos políticos da igreja tem se levantado durante toda a era cristã e o dinheiro sempre foi uma tentação para homens de qualquer geração. Devemos ser fiéis mesmo que Satanás levante inimigos políticos contra nós. Apocalipse nos conforta mostrando que Deus está com seu povo, e, no final, irá derrotar o inimigo da igreja lançando-o no “lago de fogo” (Ap.20.10). Além disso, a igreja deve ser cuidadosa com as tentações do mundo, dentre as quais está o luxo. O cristão deve buscar uma vida simples e, também, confiar no Senhor, pois Deus é nosso provedor. É necessário ter cuidado para que o dinheiro não seja um laço para o cristão, atrapalhando sua vida com Deus, desviando seus olhos de Cristo. A sedução do dinheiro costuma desviar o coração dos homens, fazendo-os escravos de seus desejos. Lembre-se da exortação de Jesus à igreja em Laodicéia e busque em Cristo o sustento e prazer da vida.

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