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segunda-feira, 3 de julho de 2017

Teologia Solitária

Então, se reuniram os apóstolos e os presbíteros para examinar a questão.” (At.15.6)

Já há algumas décadas, a reflexão teológica do cristianismo passou de conciliar para pessoal, de coletiva para individual. Bonitas pinturas que retratavam os concílios ecumênicos da igreja e as assembleias da reforma foram substituídas por fotos solitárias de proeminentes doutores sorrindo. Por mais de 1500 anos, a igreja refletiu sobre os mais diversos assuntos bíblicos por meio de concílios, resultando em belíssimos e precisos documentos como a Confissão de Fé de Westminster. No entanto, o teólogo solitário de nossos dias, se reúne com livros de seu gosto para produzir uma obra que levará apenas seu nome e imagem, resultado de suas conclusões pessoais sobre qualquer que seja o assunto.

A individualização da teologia não é um fenômeno solitário. A relativização e a pluralização formam a moldura humanista que alimenta o individualismo, tornando a verdade relativa (dependente do ponto de vista) e plural (com muitas formas) de maneira que cada pessoa considera-se no direito de crer de um jeito diferente. A fé ganhou caráter subjetivo, vivida no âmago da vida pessoal, sem necessidade de ter qualquer relação com a vida social. A ênfase demasiada na salvação individual terminou por sobrepujar o valor e necessidade da vida dentro do corpo de Cristo. Desde então, o número de denominações só aumenta como resultado natural desse fenômeno no meio da igreja, pois ao enfraquecer a necessidade do corpo, o indivíduo sentiu-se no direito de caminhar sozinho. Deixamos de ser um povo que reflete sobre a Escritura por meio do colegiado de líderes e nos tornamos teólogos solitários na defesa de nossas convicções teológicas pessoais. E por mais que isto seja tentador, não é saudável nem para a igreja nem para seus líderes.

A individualização da teologia trouxe à tona pecados antigos (1Co.1.12-13) e acentuou outros que afetam tanto o indivíduo cristão quanto a igreja e seu papel missionário perante a sociedade. Dentre tantos problemas, podemos enumerar pelo menos quatro mais notórios: A idolatria de “pop stars gospels”; a tentação da usurpação da glória de Deus; a corrida em busca da glória; e, a divisão do povo do Senhor.

O primeiro grande problema é fácil de ser detectado, pois holofotes apontam para ele. O fenômeno “pop star gospel” cresce rapidamente no evangelicalismo. Os mesmos que criticavam a idolatria de “santos católicos” criaram seus próprios ídolos contemporâneos. A ênfase no indivíduo atraiu todas as atenções para grandes vultos do evangelicalismo. Eles enchem estádios, atraem telespectadores e são disputados quando dão a “honra” de se apresentar em alguma cidade. Assim, multidões seguem apaixonadamente seus ídolos escolhidos e os defendem com “unhas e dentes”. Elas costumam estar onde eles estão, criando, assim, igrejas de tamanho descomunal.

Esse fenômeno tornou-se tão comum que as igrejas chamam seus ídolos para atrair pessoas. Mesmo que outros pastores preguem a mesma mensagem com fidelidade tornaram-se insuficientes para que pecadores sejam atraídos a Cristo. Sem perceberem, trocaram o poder da Escritura pelo poder da fama e oratória. A confiança no poder do Espírito que opera pela Escritura foi substituída pela certeza de que grandes vultos atraem multidões para dentro da igreja. Por essa mesma razão, editoras publicam livros de “famosos”, pois são estes que vendem muito bem nas livrarias. Desta forma, para atrair o interesse do povo na participação em congressos, conferências ou simpósios, brilhantes fotos coloridas precisam ser destacadas, garantindo que a programação será bem frequentada.

Mesmo que as multidões estejam propensas à idolatria, o problema não afeta apenas o “povão”. Aqueles que se tornam famosos correm o risco de usurparem a glória de Deus, pois o coração pecador tem prazer em ser admirado por todos. É necessário, então, lembrar que Deus não deixou que isso acontecesse com Paulo, conforme testemunho do próprio apóstolo: “para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte.” (2Co.12.7). Diversos líderes parecem não estar atentos ao grave pecado que estão sujeitos a cometer contra Deus (se não tiverem já cometido). Ao deixarem que multidões os exaltem e os transformem em “pop stars” do mundo evangélico, desviam o olhar das pessoas que deveriam contemplar Cristo, usurpando, portanto, a glória de Jesus e, em vez de benção, tornam-se pedras de tropeço para as multidões tão propensas à idolatria.

Motivados pelos “benefícios” da fama gospel, diversos líderes começaram uma espécie de “corrida do ouro” em busca da glória. Por isso, a individualização dos ministérios se acentua, pluralizando ainda mais a verdade. Os títulos tornaram-se importantes ferramentas que facilitam o alcance da glória e a internet foi adotada como veículo para a propagação da imagem. A gratuidade dos canais feitos em sites como YouTube possibilita que qualquer pessoa tente alcançar a fama. E, cheios do “espírito da autoglorificação” os cristãos seguem divididos pelo orgulho em defesa de seus “templos formosos” e “ídolos proeminentes”. A corrida do ouro fez a humildade ser sinônimo de fraqueza e o amor se restringir, tão somente, “aos que vos amam” (Mt.5.46).

Desta forma, o último problema, acentuado pela individualização da teologia, é a divisão do povo de Deus. Concílios uniam a igreja em torno de problemas teológicos, a fim de alcançar a solução debaixo da benção do Senhor, iluminados pelo Espírito Santo, por meio de uma análise temerosa e humilde, zelosa e dedicada da Escritura Sagrada. Hoje, qualquer discordância (muitas vezes por mera ignorância sobre o assunto) conduz o indivíduo ao afastamento da igreja local e, até mesmo, ao possível início de outra denominação em conformidade com seus pensamentos. Denominações parecem disputar as pessoas com o fim de encher “templos de homens”. As maiores denominações incham o peito, orgulhosamente, para informar o elevado número de membros e fazem grandes eventos que atraem prosélitos de todos os quatro cantos da terra. A cruz, portanto, deu lugar aos templos suntuosos e o Reino de Deus é confundido com a riqueza e grandeza das denominações.

A presente geração se esqueceu das Palavras de Jesus, dirigidas para aqueles que receberam o maior ministério dado dentre os homens, os apóstolos: “Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve” (Lc.22.25-26). Estes homens seriam humilhados, maltratados, desprezados, abandonados, angustiados tanto por causa do mundo perseguidor quanto por causa da igreja ainda tão cheia de defeitos. As posteriores pinturas sobre eles não retratam fama e glória, mas piedade, fidelidade, santidade e angústias sofridas por causa da Palavra de Deus. Se alguma luz brilhou sobre eles, resplandecendo o rosto, foi a luz do Senhor que satisfeito exaltou aqueles que foram humilhados pelos homens durante o fiel exercício do ministério a eles confiado.


Portanto, a cristandade atual precisa rever seus valores, seu alvo. Nas imagens dos concílios havia muitos teólogos contribuindo para a elaboração de um credo. Há tanta gente na pintura que é impossível direcionar o holofote para um indivíduo em especial. Assim, acertos e erros, glórias e desventuras são partilhadas por todos e a humilde unidade aponta o holofote para Cristo que por meio de seu Espírito dirigia seus servos para o bem estar da igreja. Então, para que a igreja pinte belas imagens conciliares outra vez precisará olhar somente para Cristo, ciente de que nada somos, pois nenhum dom, sabedoria ou conhecimento provém de particular esforço, mas tão somente daquele que nos chamou para anunciarmos sua redenção e glória. Voltemos à teologia laborada no corpo de Cristo!

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